Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.
Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012
Mestres da culinária

 

Antiga como sou, ainda faço parte da geração que via os homens que se dedicavam a profissões como educadores de infância, cabeleireiros ou cozinheiros como seres um pouco estranhos, efeminados direi não arriscando a palavra gay já que no meu tempo ainda estava na moda ser hetero.

Recordo sem saudade os tempos em que o Manuel Luís Goucha surgiu no ecran, na altura talvez apenas uma figura curiosa, com bigode à Zéze Camarinha mas com voz, tiques e trejeitos similares aos de Filipa Vacondeus.

Há relativamente pouco tempo, talvez quando o Jamie Oliver começou a aparecer na SIC Mulher com a sua cozinha rural-chique, começamos a designar os cozinheiros por chefs e a venerar esses homens com receitas simples mas bonitinhas como verdadeiros sex symbol, comparáveis a deuses gregos.

O Jamie Oliver é simpático e bem-intencionado. Como qualquer pessoa que quer subir na vida nos dias que correm tornou-se célebre a partir de um talk show, tal como o Ramsay, que em vez de loirinho simpático se faz valer da pinta de mau. Não percebo a razão do sucesso do rapaz que fala à “sopinha de massa”. Muito menos percebo o interesse de um programa em que os candidatos cozinham todos os dias o mesmo prato até ao momento televisivo das audiências que corresponde à eliminação. Já entendo melhor o interesse de desafios como o MasterChef apesar de duvidar que alguém experimete em casa fazer tartines, coulants, coulis, confits e outras complicações de alquimia que passam ao lado das artes mágicas das Bimby´s.

Seja como for, a conclusão a que tenho chegado é que actualmente ser um mestre da culinária é garante de sex appeal. Só isso explica que aqueles rapazinhos escanzelados (aposto que todos mais novos do que eu), mesmo com a sua falta de largura de ombros, mãos rosadas e cabelos a cheirar a comida consigam ser tantas vezes capa de revista e imagem publicitária.

Muitas mulheres fantasiam com um imberbe de sorriso tímido que lhes prepare um jantar romântico, com qualquer coisa braseada, em molho de redução, com ingredientes inesperados como erva-doce, alga nori ou trigo sarraceno. Eu gosto de um homem que me visite quando estou na cozinha, que me beije o pescoço como pretexto para espreitar o que preparo, me puxe pela cintura e me faça rodopiar entre o fogão e o frigorífico.

Provavelmente sou mesmo antiga, mas eu gosto mesmo de ser uma espécie de Barbie a brincar às casinhas. E não, não tenho Bimby porque sou tão tradicional que ainda acredito que os pratos têm mais personalidade quando não calibramos pesos, proporções e tempos de preparação.

(creio que o jantar  de hoje estava insonso...)

 

 



publicado por teoriasdacosta às 23:07
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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012
"Os descendentes" ou como é comovente ver o George Clooney a fazer papel de feio...

 

Um destes dias fui ver um daqueles filmes feitos à medida dos Óscares.

Em “Os descendentes”, George Clooney faz “o papel da sua vida” como apregoam os traillers e críticas. Para mim, a maior surpresa é verificar que o grisalho do café e das urgências por quem tantas mulheres suspiram é tão bom actor que até consegue passar por homem feio (dentro do género, é claro) sem pinga de charme, totalmente desinteressante, aquele com quem jamais gostaríamos de ser vistas em público com suas calças foleiras e camisas em padrões histéricos.

Agora sem ironias nem preconceitos: o filme é irresistível.

Há muito tempo que não me acontecia chegar ao “the end” e ficar colada à cadeira, enxugando lágrimas mal disfarçadas, com toda uma plateia em silêncio.

O bom que tem “Os Descendentes” não cabe numa teoria...

Começa pela narrativa. Adoro filmes em que há uma voz off que vai acrescentando aqueles detalhes da história que ficam piegas ou exagerados quando debitados numa deixa. Por isso amo Woody Allen. Por isso me comoveu ouvir George Clooney, no papel do pai perdido que neste filme lhe coube, relatar a tragédia que se abateu sobre a sua vida quando a mulher entra em coma na sequência de um acidente grave.

O início é fabuloso quando Clooney alerta que viver no Havai não é antídoto para a dor e que as praias de areia branca lotadas de surfistas não são garante de uma existência sem problemas.

Algures na locução surge uma brilhante descrição de família: um arquipélago, um conjunto de ilhas independentes que resultaram de um único pedaço de terra.

N"os descendentes" há uma história paralela de ilhas tão dispersas e heterogéneas como os Açores, uma típica história de heranças e testamentos, com a variante americana do king size e do XL que faz com que os herdeiros se constituam como trust e dividam parcelas de ilhas como património em vez de discutirem hipotecas, serviços de loiça incompletos e time-sharings em hotéis obsoletos...

O filme é intensamente real.

As pessoas retratadas não são perfeitas, as vidas não são fantásticas, as casas não são de revista, surgindo até tão desalinhadas e desconjuntadas no mobiliário e adereços kitsch que nos remetem para as casas dos nossos pais e avós como eram quando nascemos, nos idos anos setenta, com seus bonecos de loiça, cortinados de chita e padrões psicadélicos.

O acidente da mulher leva Matt King - o personagem que Clooney desempenha - a reconsiderar a sua forma de estar como homem de família. Disposto que está a mudar, a ser um melhor marido e um pai mais presente, decidido a salvar um casamento moribundo e a gozar a sua fortuna, descobre que a esposa não tem recuperação possível. Ao mesmo tempo que se vê forçado a encarar esta morte inesperada, a comunicá-la às filhas, a informar sogros e amigos para que tenham  tempo de despedir-se antes que os últimos sinais vitais se desliguem daquele corpo inane, descobre também que a mulher por quem zela amargurado o traía.

Perante a morte e o conflito de emoções, Matt decide perdoar tudo.

A opção não é tão linear. Há um evidente conflito de interesses e de sentimentos, alguns momentos em que engole em seco, em que cala o grito antes de perder o controle.

O desconcertante do filme é precisamente esta ambivalência, a dicotomia entre o que é natural mas pode não estar certo, entre a moral e a imperfeição os papéis a que nos adaptamos, as nossas emoções e os nossos intintos.

Como seres humanos, somos muitas vezes rancorosos e mesquinhos...

É impossível não ser tocado pela honestidade deste marido incapaz de ser um cabrão, pela sensibilidade que tem este pai para aceitar a raiva e a irreverência das filhas.

Matt opta por relevar apenas e só porque deseja preservar as boas memórias que ficam da mulher enquanto mãe, esposa, amiga, filha.

Afinal, naqueles dias em que entramos na história, a senhora não é mais do que um corpo ligado a uma máquina que nas cenas finais é atirado ao mar como um mero punhado de cinzas. A insignificância daquilo em que nos tornamos quando cadáveres torna futéis as críticas, vãos os julgamentos morais, despropositadas as necessidades de vingança, de pena capital ou de folclore popular em jeito de vendeta.

Matt King é um homem bom, um tipo decente, honesto. Despede-se da mulher com um beijo de cortar a respiração, com uma solenidade moral que lhe saí do coração sem pieguices nem peneiras.

O filme termina com pai e filhas no sofá, numa daquelas cenas que nos são familiares por serem tanto aquilo que somos num domingo à tarde, sem glamour nem produções especiais, almas boas que a vida corrompe e que como sorte se purificam pela morte. As mortes dos que nos rodeiam para começar. A nossa morte como suposto clímax.

Não sei se tenho algum problema de percepção, mas para mim a mensagem deste filme é o perdão. O acto sublime e libertador de perdoar.

Palavra difícil nos dias que correm...

 

 



publicado por teoriasdacosta às 23:14
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Sábado, 18 de Fevereiro de 2012
Hino aos corações partidos

 

Ouvi por estes dias, mais concretamente a 14 de Fevereiro, o dito dia dos namorados, que cientistas não sei de onde tinham descoberto que o coração humano tem capacidade para se auto-regenerar.

A notícia alongava-se com relatos de experiências de laboratório com utilização de tecidos e de plaquetas para uma espécie de tratamento de SPA semelhante ao que publicitam as empresas que recolhem a placenta, o cordão umbilical ou lá o que é que congelam, com a promessa de que o feto que ali se desenvolveu encontre no ninho de origem a cura para todos os males.

Não sou tão alheada destes assuntos ou ignorante em relação às maravilhas da ciência para não reconhecer que há verdade nestes milagres que resultam da reciclagem de células humanas. O caricato desta notícia, divulgada na data simbólica num certo tom irónico, é sugerir que o coração, esse orgão que figurativamente se associa ao amor, pode curar-se através de um processo natural e espontâneo, quando se sabe, e nestas alturas em que prolifera a propaganda amorosa mais se recorda, que corações partidos, estropeados, matratados e mutilados, raras vezes se curam sem ajuda externa, isto é, sem o recurso a outras pessoas.

Não sou apologista de que um amor se esquece com outro e assim sucessivamente. Mas da mesma forma que ninguém se opera a si próprio ou fabrica em casa os seus medicamentos, também nestes casos é preciosa a ajuda de médicos, terapeutas, alquimistas, enfermeiros e farmacêuticos – já agora de massagistas, instrutores de fitness, magos, endireitas, bombeiros, psiquiatras, advogados, chefs de cozinha com ar giro e artistas sensíveis mas não gays – para recauchutar um coração acidentado, à deriva, naufrago, com feridas e golpes vários.

No dia dos namorados, por mais feiz que esteja, tendo sempre a pensar nos que o não estão. Noutros anos, noutro passado, fazia questão de passar esta data acompanhada, como se ter ao meu lado uma figura masculina a que minimamente pudesse chamar namorado, fizesse de mim uma pessoa melhor.

O mal de datas como esta é que reforçam o sentimento de solidão.

Já fui uma mulher orgulhosamente só e repito vezes sem conta o quanto gosto de estar sózinha, como tão facilmente me adapto ao silêncio e ao vazio, como me faz falta a reclusão em espaço exclusivo para me conciliar comigo própria. Mas há momentos em que o estar só dói tanto como morte trágica porque cada minuto se revela uma tortura de recordações de alguém concreto ou de memórias mescladas de figuras e de emoções.

Podemos estar sós temendo que o nosso futuro será esse, por decreto do destino e não por vontade própria.

O coração que se foi magoando com o tempo e que segue mutilado ao longo da vida, provavelmente cada vez mais débil e amachucado por abalroamento ou autoflagelação, raras vezes tem recuperação. O mais frequente é tornar-se mais duro e amargo, não mais vigoroso ou são.

Ficamos então com a esperança de que assim como há quem dedique anos de pesquisa a injectar ratinhos para concluir que é possível atenuar as lesões que resultam de um enfarte do miocárdio, se descubra um destes dias uma solução para manter as pessoas crentes e audazes depois de sucessivas explosões e implosões cardíacas resultantes da paixão.

 

 

 



publicado por teoriasdacosta às 10:48
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Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012
De tia de Cascais a prima de Chelas... (salvo seja!)
 

Li por estes dias algures no FaceBook que mais uma das consequências do anestésico pré-retoscopia designado por “troika” é que as “tias de Cascais” se estão a converter em “primas de Chelas”.

Ora eu, que por acaso já fui apelidada de “espécie de tia nortenha” - talvez por usar óculos de Sol com logotipo de griffe e lentes tipo plasma, por pintar o cabelo com tinta amarela, por me enfeitar com pulseiras até aos cotovelos e por misturar básicos Zara com malas de marca - revejo-me na íntegra neste downgrade ou downsize ou despromoção social ou, como fica bem proclamar, nesta coisa chique que é agora o “ser poupada”.

De há uns tempos para cá, lá ando eu numa romaria constante ao supermercado em vez de fazer compras de mercearia para um mês e algumas semanas, evitando passar por montras apelativas mesmo que no vidro se leia a bold, vermelho e letra XL a palavra “Descontos” (promoções, saldos, reduções ou equivalente), contando com tracinho na parede os dias entre depilações, massagens, pedicures e unhas de gel, substituindo cada vez mais os hábitos de consumo que passavam por almoços de sushi, jantares em sítios in e consumo de copos em regime bar aberto por regras espartanas de vida que se enquadram num modelo saudável e eticamente correcto, um disfarce perfeito à necessidade de aprender a “viver à pobre”.

É claro que exagero.

Associar os meus novos hábitos e poupanças a qualquer tipo de pobreza é insulto maior do que sugerir aos sem abrigo que para evitar o frio se devem manter por casa.

Seja como for, o meu grito de hoje serve apenas para dizer “NÃO GOSTO DISTO!”

Tenho saudades do tempo em que o meu levantamento mínimo em ATM era de cem euros, podia ir todos as semanas ao cabeleireiro, pagava tratamentos em pacote no SPA sem o menor peso de consciência, comprava fruta importada do Brasil, toda a roupa de que gostava, cremes de rosto, corpo e outras mariquices na perfumaria, sucumbia a todos os impulsos porque podia e tais cedências à luxúria, à gula ou à soberba não pesavam sobre a minha cabeça como sombra de pecado ou sentença de morte.

Recordo entre suspiros o tempo das viagens a paragens exóticas, os fins-de-semana em recantos mágicos, a curta distância entre o desejo e o partir, a escolha sistemática do bom e do melhor.

Acima de tudo tenho saudades do tempo em que Portugal deixou de ser conhecido como "praia de Espanha" e ganhou estatuto como país digno, não tendo de andar a suplicar ajudas ao exterior nem de se sujeitar às regras de países mais ricos que nos tratam como cambada de ignorantes e "zés do pagode"

É claro que a humildade tem sido uma lição de vida.

A poupança e o "descer à terra" era até necessário.

Hoje em dia, apesar de mais pobres somos mais nobres.

Aprendemos a dar mais valor a cada conquista. Percebemos que há valores que realmente são superiores a qualquer quantia e que há sensações e sentimentos que o dinheiro não compra.

No final ou temos sorte ao jogo ou ao amor.

Prefiro pois ser uma voyeur sem manha neste “cabaret da coxa” celebrando com água da torneira o bom que é existir quando se ama alguém que nos ama de volta.

 

 



publicado por teoriasdacosta às 19:51
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Domingo, 5 de Fevereiro de 2012
O que eu tenho de torta, eu tenho de feliz

 

Há pessoas que nasceram para não serem felizes.

Não sei se é karma, se é destino, se o caminho se faz caminhando e esta propensão para a infelicidade não é mais do que um síndrome de Calimero.

Diz-se que cada um tem o que merece, o que é uma forma simplista de explicar a Lei da Atracção.

Há realmente quem receba pedras em vez de diamantes. Reconheço até que há casos que são autênticas novelas de lágrimas, de baba e ranho com muito rimmel derramado, em personagens que mereciam vidas normais com finais felizes e alguns momentos mágicos.

Seja como for a felicidade conquista-se.

Não, não é um lugar comum, é apenas um facto que aprendi com muitas lágrimas.

A felicidade custa tanto como difícil é ser bom aluno, arranjar emprego, sobreviver à vida adulta, mergulhar com classe numa piscina ou andar de bicicleta depois de muitos anos sem experimentar.

É mais fácil ser triste, coitadinho, escolher um canto para carpir e bater com a cabeça na parede.

Ninguém gosta de chorar mas quando vestimos a pele da melancolia a alma acomoda-se tão bem a este estado como se aconchega o corpo debaixo de uma manta numa tarde pachorrenta de domingo, passada a fazer zaping nesta nuvem fofa que é o sofá. Eu sei porque já andei por lá.

Dar a volta é tão complicado como um movimento acrobático com duplo mortal e pirueta. Mas faz-se. Por vezes com danos e mazelas, com as muitas dores de crescimento que não nos largam até à morte, as lesões que decorrem do movimento de chutar para frente num vazio que às vezes é tão denso como um bloco de gesso e argamassa.

Ser feliz, permecer de sorriso e coração tranquilo, é um desafio permanente que exige treino diário, tão dedicado como aquele que fazemos no ginásio.

Ouvi por estes dias uma música que canta esta forma de estar: uma oposição absoluta ao fado que nos pesa sobre a cabeça como pranto quando devia encher-nos de orgulho o peito e elevar-nos a moral.

Reescrevendo a letra fantástica desta música em forma de prosa teórica o resultado é este

Falem de mim, critiquem o que digo, escrevo ou faço. Não ligo.

Estou a ficar velha (cada dia melhor como o vinho do Porto) e louca, 

padecendo de uma forma de insanidade que finalmente é sã,

com os pés na estrada, na certeza de seguir o meu caminho,

numa estrada que só pode ser encantada.

 

A cereja no topo do bolo é a menção que passo a citar

“Pode falar, não importa,

O que eu tenho de torta,

Eu tenho de feliz”

 

 

 



publicado por teoriasdacosta às 17:53
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