
Ouvi por estes dias, mais concretamente a 14 de Fevereiro, o dito dia dos namorados, que cientistas não sei de onde tinham descoberto que o coração humano tem capacidade para se auto-regenerar.
A notícia alongava-se com relatos de experiências de laboratório com utilização de tecidos e de plaquetas para uma espécie de tratamento de SPA semelhante ao que publicitam as empresas que recolhem a placenta, o cordão umbilical ou lá o que é que congelam, com a promessa de que o feto que ali se desenvolveu encontre no ninho de origem a cura para todos os males.
Não sou tão alheada destes assuntos ou ignorante em relação às maravilhas da ciência para não reconhecer que há verdade nestes milagres que resultam da reciclagem de células humanas. O caricato desta notícia, divulgada na data simbólica num certo tom irónico, é sugerir que o coração, esse orgão que figurativamente se associa ao amor, pode curar-se através de um processo natural e espontâneo, quando se sabe, e nestas alturas em que prolifera a propaganda amorosa mais se recorda, que corações partidos, estropeados, matratados e mutilados, raras vezes se curam sem ajuda externa, isto é, sem o recurso a outras pessoas.
Não sou apologista de que um amor se esquece com outro e assim sucessivamente. Mas da mesma forma que ninguém se opera a si próprio ou fabrica em casa os seus medicamentos, também nestes casos é preciosa a ajuda de médicos, terapeutas, alquimistas, enfermeiros e farmacêuticos – já agora de massagistas, instrutores de fitness, magos, endireitas, bombeiros, psiquiatras, advogados, chefs de cozinha com ar giro e artistas sensíveis mas não gays – para recauchutar um coração acidentado, à deriva, naufrago, com feridas e golpes vários.
No dia dos namorados, por mais feiz que esteja, tendo sempre a pensar nos que o não estão. Noutros anos, noutro passado, fazia questão de passar esta data acompanhada, como se ter ao meu lado uma figura masculina a que minimamente pudesse chamar namorado, fizesse de mim uma pessoa melhor.
O mal de datas como esta é que reforçam o sentimento de solidão.
Já fui uma mulher orgulhosamente só e repito vezes sem conta o quanto gosto de estar sózinha, como tão facilmente me adapto ao silêncio e ao vazio, como me faz falta a reclusão em espaço exclusivo para me conciliar comigo própria. Mas há momentos em que o estar só dói tanto como morte trágica porque cada minuto se revela uma tortura de recordações de alguém concreto ou de memórias mescladas de figuras e de emoções.
Podemos estar sós temendo que o nosso futuro será esse, por decreto do destino e não por vontade própria.
O coração que se foi magoando com o tempo e que segue mutilado ao longo da vida, provavelmente cada vez mais débil e amachucado por abalroamento ou autoflagelação, raras vezes tem recuperação. O mais frequente é tornar-se mais duro e amargo, não mais vigoroso ou são.
Ficamos então com a esperança de que assim como há quem dedique anos de pesquisa a injectar ratinhos para concluir que é possível atenuar as lesões que resultam de um enfarte do miocárdio, se descubra um destes dias uma solução para manter as pessoas crentes e audazes depois de sucessivas explosões e implosões cardíacas resultantes da paixão.
Teorias dos outros
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