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  <title>Teorias da Costa</title>
  <subtitle>Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.&#13;
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  <updated>2012-05-13T22:27:29Z</updated>
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    <issued>2012-05-13T22:56:40</issued>
    <title>Os amigos de Alex</title>
    <published>2012-05-13T22:27:29Z</published>
    <updated>2012-05-13T22:27:29Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://4.bp.blogspot.com/_G1jUytpdvAY/Swa58gpRByI/AAAAAAAAEA4/eTgBYHjT5z0/s1600/tres_amigos.jpg" alt="" width="439" height="336" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entrei a semana passada no último ano antes dos quarenta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A idade não me assusta. Choca-me é saber que para todos os efeitos faço parte do heterogéneo universo dos cotas, classificação que me parece tão escandalosa quanto é ofensivo dizer que a minha Mãe é uma velhota só porque já passou a barreira dos setenta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para além do eterno cliché “a idade está na nossa cabeça”, o que me parece é que cada um tem a idade que aparenta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sei que tenho quantificação etária incerta pois tanto posso dar ares de miúda nova, quando me meto a correr pela beira-rio de boné ou passeio pela baixa de jeans, como fico com ar de executiva poderosa com os meus vestidos pretos, colares de pérolas, baton e rimmel.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não me sinto acabada, derrubada pela vida, puxada para baixo pela dita força de gravidade que, tenho de confessar, já me anda a fazer estragos no rabo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ainda gosto de celebrar cada aniversário. Adoro dizer que tenho trinta e nove (agora com legitimidade) ou que me falta um ano para os quarenta, e perceber o ar de perplexidade de quem me observa com lupa, luvas e fita métrica.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É inevitável que a passagem de mais um ano seja momento para acerto de contas. Pelo menos para mim é, que encontro mais sentido neste balanço a cada aniversário do que naquela comemoração oficial com passas, badaladas e champanhe.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A minha história tem sido plena em mudanças. Costumava comentar com uma amiga que as náuseas e vertigens que a vida por vezes me trazia se deviam ao facto de eu a encarar como uma espécie de montanha-russa, tão viciada na adrenalina do medo e da coragem, da superação própria e da emoção pura, que me parecia estranho caminhar por estradas planas, com horizontes largos, pistas rápidas para viagens longas e destino certo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como andei por muitos sítios conheci muitas pessoas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Algumas ficaram arquivadas no memorial dos “amigos”, mesmo quando passam anos sem um contacto. Os telefonemas e mensagens que recebo no aniversário fazem-me acreditar que, por mais alheados que estejamos da vida uns dos outros, mantém-se a cumplicidade que numa parte dos nossos caminhos nos fez seguir passos idênticos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assim acontece num filme que marcou a vida de muita gente: “os amigos de Alex”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No filme, o pretexto para o encontro é o suicídio do amigo Alex.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na história que é a minha gosto de imaginar este encontro como os jantares e cafézinhos que acontecem às vezes entre um grupo e outro. Para o ano, ao comemorar os quarenta, quero acreditar que conseguirei reunir os amigos de todas as etapas, num fim-de-semana com festa cigana que nos permita rir, chorar, recordar figuras tristes, esclarecer mal-entendidos, dizer os elogios que ficaram calados, enterrar de vez as mágoas que permaneceram latentes. À despedida tenho a certeza que vamos todos confirmar num abraço que afinal é mesmo verdade aquela história da amizade como um amor que nunca morre.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A banda sonora d'”os amigos de Alex” incluí como tema principal “&lt;em&gt;You can’t always get what you want&lt;/em&gt;”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aos quarenta já aprendemos que “não conseguimos ter sempre aquilo que queremos”, mas se a passagem dos anos nos brindar com alguma maturidade teremos uma certeza apaziguadora: “mesmo quando não conseguimos o que queremos, alcançamos pelo menos o que precisamos”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O truque está em reconhecer que com essas coisas (que não são necessariamente coisas, muito menos as que estavam na &lt;em&gt;wish list&lt;/em&gt;) somos capazes de ser felizes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Brindemos!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;  &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;iframe src="http://www.youtube.com/embed/6ZZSpkbKii4" width="425" height="344" frameborder="0"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;/div&gt;</content>
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    <issued>2012-05-02T20:14:50</issued>
    <title>1 de Maio: dia do consumo</title>
    <published>2012-05-02T20:26:53Z</published>
    <updated>2012-05-02T20:26:53Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://2.bp.blogspot.com/_hdrU8BUXz8Q/TPhEPAN_z2I/AAAAAAAAB7A/bwR0_JdF2cQ/s400/supermercado.jpg" alt="" width="378" height="275" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando ontem me falaram da promoção do Pingo Doce - 50% de desconto directo nas compras superiores a 100€! - pensei que se tratava de uma espécie de "mentira de 1 de Abril - versão de 1 de Maio".&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Só acreditei porque algumas pessoas que conheço tiveram a paciência de santo, a manha de cigano e a perícia de atleta de corta-mato para investirem  as horas de ócio do seu feriado na compra das mercearias que conseguiram arrumar no carro (depois de sacarem um qualquer veículo com rodinhas e permissão para circular em espaços fechados).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ontem por acaso era o Dia do Trabalhador, para muitos apenas um feriado que ainda não foi sonegado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As centrais sindicais que ainda por cá se arrastam fizeram questão de celebrar a data em separado, acto de egoísmo político inexplicável numa conjuntura que exige um espírito de mosqueteiro - o apelo ao "um por todos, todos por um" - não uma passeata com as bandeiras e cartazes do costume, uma algarviada de discursos&lt;em&gt; standard&lt;/em&gt; e um resultado prático igual a menos que nada quando a notícia do dia acabou por ser uma muito bem esgalhada estratégia de &lt;em&gt;marketing&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta noite, nas notícias da SIC, foi evidente a demagogia ridícula dos políticos que supostamente nos governam:&lt;/p&gt;
&lt;p style="padding-left: 30px;"&gt;1.º Se os deputados são eleitos pelo povo, então os senhores e senhoras que se sentam no parlamento deveriam ter a noção de que ao povo interessa pagar menos pela conta do supermercado. Podemos (devemos) poupar nos supérfulos mas comer ainda é uma necessidade básica.&lt;/p&gt;
&lt;p style="padding-left: 30px;"&gt;2.º Nenhum dos deputados entrevistados foi ao Pingo Doce para aproveitar a mega-promoção. Se uma vantagem tão evidente não tocou o coração nem o cérebro dos senhores e das senhoras do parlamento, então é provável que o seu salário ainda esteja sobrevalorizado.&lt;/p&gt;
&lt;p style="padding-left: 30px;"&gt;3.º A ignorância ou inocência dos deputados é tanta que presumem que o grupo Jerónimo Martins cometeu &lt;em&gt;dumping&lt;/em&gt; ao praticar um desconto de 50%. Eu, que trabalho na distribuição, tenho noção das diferenças entre preços de compra e preços de venda. Mas mesmo quem não sabe quanto custa um litro de leite ou uma palete de detergentes, nem atinge que a gestão dos supermercados não é feita com aplicação de uma margem fixa indiscriminadamente, mas sim da combinação de margens diferentes com permissão para ganhar apenas cêntimos no que se vende muito e alguns euros no que vende menos, há-de perceber que numa empresa privada que visa o lucro, onde há accionistas que esperam receber dividendos, nenhuma decisão é assumida de forma tão leviana como ocorre no Governo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A respeito do 1 de Maio e da vitória laboral que este simboliza - a redução da jornada de trabalho de 16 para 8 horas, para quem não sabe - o que apraz dizer é que é muito bom ter direito ao feriado. Devemos pois estar gratos pela tenacidade dos manifestantes que em 1886 iniciaram o protesto que veio beneficiar toda a população empregada do mundo (mundo em sentido restrito, entenda-se, porque esta coisa do dia de trabalho compreender 8 horas tem muito que se lhe diga...).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos dias que correm devemos acima de tudo estar gratos por ter trabalho, do bom, do remunerado e com os descontos em dia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tudo o resto - contrato, efectividade, prémios e regalias - são luxos distantes da realidade possível. Não sou conformada nem subserviente, apenas sei que na vida, como nas empresas, os que resistem à mudança lideram a lista dos dispensáveis.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Haja bom senso...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2012-04-28T12:57:51</issued>
    <title>Hardware versus Software</title>
    <published>2012-04-28T12:46:11Z</published>
    <updated>2012-04-28T12:46:11Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://1.bp.blogspot.com/_zxmb2Qj4in4/S4A85x03ipI/AAAAAAAAAdw/QZuxWtIzc-Q/s400/compras+felicidade+de+qualquer+mulher.jpg" alt="" width="400" height="324" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A empresa onde trabalho está a patrocinar-me aulas de francês privadas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ontem, para exercitar os comparativos e superlativos, incitava-me a professora a comentar se as mulheres gastam ou não mais dinheiro do que os homens.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Expliquei-lhe então, no meu francês ainda desajeitado, que as mulheres gastam mais dinheiro do que os homens porque o seu horizonte é mais amplo. Sem querer, desenvolvi então uma longa teoria que a deixou maravilhada:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;1. Os homens têm uma perspectiva egoísta das compras. As mulheres têm uma visão altruísta das compras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando uma mulher vai ao centro comercial pensa em comprar coisas para ela, mas também estará aberta às oportunidades de compra para ele, para os filhos, para a mãe, para o pai, para os sogros, para alguém próximo ou conhecido, para a casa, para aqui, para ali, para nada. Os homens vão ao centro comercial com espírito de missão, com objectivo concreto, alvo de caça. Entram à procura de uma coisa, que raramente encontram sem assistência, olham, tocam, decidem sem experimentar e abandonam o local do crime tão rápido quanto podem, antes que o tecto desabe sobre as suas cabeças ou que a mulher que os acompanha detecte numa montra algo que as apaixone.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;2. Os homens compram por necessidade. As mulheres compram por desejo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para um homem uma ida às compras é uma tarefa: uma actividade dispensável, delegável e incómoda. Para uma mulher uma ida às compras é &lt;em&gt;hobby&lt;/em&gt;. Pode ser prazer, entretenimento, terapia, tratamento de choque. Seja o que for, a mulher vai às compras porque gosta. O homem detesta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;3. As mulheres compram software. Os homens dedicam-se ao hardware.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O exemplo que dei foi este: se a máquina de lavar roupa se avariar, o homem, depois de desistir de a tentar consertar, há-de assumir como dever matrimonial (ou equiparado) a escolha do novo electrodoméstico. Não porque saiba como funciona a máquina de lavar roupa, porque perceba alguma coisa sobre a amplitude dos programas de lavagem ou sequer porque pretenda nalgum momento da sua existência tomar a iniciativa de tratar da roupa suja, mas porque a máquina é um equipamento, e de mecânica percebem os homens! Por outro lado, dificilmente um homem se interessará por comprar velas, bibelots ou cortinados. Todos esses adereços são folclore, quase sempre inúteis e dispensáveis, sendo até recomendável que a mulher escolha e decida o que comprar sem consultar a parelha, pois o mais certo é que ele pergunte para que servem todas as futilidades que existem pelo IKEA, pela AREA ou pela ARBORETTO, já que para ele o fundamental é que exista uma televisão, um sofá e uma cama com colchão confortável.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Senhora Professora achou tanta piada às minhas dissertações - talvez pelo meu francês macarrónico - que me apeteceu partilhar estes postulados doutrinários sobre homens, mulheres e compras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Bom fim-de-semana!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2012-04-25T20:12:04</issued>
    <title>Igualdade, fraternidade e liberdade</title>
    <published>2012-04-25T19:31:27Z</published>
    <updated>2012-04-25T19:31:27Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor; margin-right: auto; margin-left: auto; display: block;" src="http://1.bp.blogspot.com/_RRi94RC_M8A/SZhQH7_nYeI/AAAAAAAAAC8/IJKrgsxYu8A/s400/Cravos+palestinianos.jpg" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Hoje é 25 de Abril.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entre as declarações e recordações emocionadas de combatentes, revolucionários, homens comuns, operárias de fábrica, retornados, presos políticos, anónimos e personalidades, as reportagens do costume que documentam a ignorância dos jovens sobre a revolução dos cravos, as cerimónias oficiais vazias de sentido, as palavras de ordem, as cantigas e os pá! entre meia dúzia de palavras, para a maior parte dos portugueses, o dia que hoje se comemora é apenas e só mais um feriado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entendo a importância histórica da data, percebo que a revolução de Abril foi um marco para a emancipação dos portugueses e para o progresso da sociedade, mas também alcanço os exageros do PREC e a ténue fronteira que se traçou então entre anarquia e liberdade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estando nós, no ano da graça de dois mil e doze, numa conjuntura que nos fez perder poder de compra, regredir, nivelar por baixo, aceitar o menos mau, contentar com pouco, viver do suficiente, do "poucachinho" e do assim-assim, as vitórias sociais que precederam o 25 de Abril são conquistas cada vez mais frágeis.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A classe média vive mal - não sei se pior do que em 1974 mas também o grau de exigência e as expectativas não são comparáveis -, nem toda a gente tem acesso ao ensino superior, o desemprego é assustador, o sistema de saúde público tornou-se selectivo, aumentou o fosso entre os ricos e os outros, passamos de novos ricos a novos pobres mais depressa do que os retornados reconstruíram as suas vidas quando voltaram para Portugal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mais assustador, quando olhamos para a Europa que nos anos sessenta nos acolheu e nos anos oitenta nos adoptou, é que o futuro desenha-se nos tons cinzentos de uma ideologia dita de extrema direita, talvez fascista, certamente racista e xenófoba, cujos discursos evocam tempos idos em que os direitos dos cidadãos eram discriminatórios e a sociedade excluía sem dó os mais fracos, as mulheres, os de cor e os pobres.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A votação que conseguiu &lt;em&gt;Marine Le Pen&lt;/em&gt; em França é um aviso à navegação que nos deve deixar preocupados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Enquanto por cá a crise social tem convertido os portugueses em seres humanos mais solidários, no país do senhor que faz parelha com a &lt;em&gt;Merkell&lt;/em&gt; que manda em tudo isto o desemprego e a insegurança fizeram aumentar os sentimentos de xenofobia e a aversão aos imigrantes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Numa altura em que para muitos portugueses a procura de emprego noutro país surge como alternativa à falta de perspectivas e de oportunidades neste país à beira-mar plantado, corremos o risco de escolher um destino que nos escorrace, agrida e diminua por muito democrática, livre e progressista que seja a ideologia dominante.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A igualdade, a fraternidade e a liberdade, os ideais da Revolução Francesa que impuseram uma nova ordem social correm o risco de tornar-se quimeras numa sociedade cada vez mais intolerante e egoísta, onde os privilégios e os direitos se perdem ou esbatem num jogo de economia social promotor de injustiças e de desiquilíbrios entre classes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2012-04-16T21:49:53</issued>
    <title>Fumar mata (mas dentro do carro é mais provável morrer de acidente rodoviário)</title>
    <published>2012-04-16T22:04:24Z</published>
    <updated>2012-04-16T22:13:22Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://1.bp.blogspot.com/_Njk5Cc8cdLo/R3qmT6tptBI/AAAAAAAAAW8/puFzrYHguPE/s400/Fumo.jpg" alt="" width="300" height="298" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por estes dias, entre a “mixórdia de temáticas”, os telejornais e as rapidinhas radiofónicas, foi assunto a proibição de fumar em veículos que transportem crianças.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É claro que me parece lógico que quem fuma o não faça no carro se as crianças vão lá dentro. Já agora até convém que não fumem em circunstância alguma já que o odor pestilento dos cigarros se entranha nos estofos, cabedais e plásticos. Em relação a cheiros, aromas e fragâncias advirto também que a utilização de ambientadores automóveis com perfume tão enjoativo como o mais puro dos &lt;em&gt;Habanos&lt;/em&gt; poderá ser factor penalizador nas operações &lt;em&gt;stop &lt;/em&gt;da brigada do "controle pelo olfacto".&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Apesar de não conseguir demonstrá-lo científicamente quase arrisco que muitos pais fumadores evitam fazê-lo dentro de casa, logo não fumarão também nesse prolongamento do lar que é o carro de família. Posso até ir mais longe e aventar que os progenitores que partilham irresponsavelmente a sua adição em nicotina e alcatrão com as crianças são do tipo que diz palavrões, escarra, bate na mulher, mete-se nos copos, tem grande propensão para a condição de desempregado, de falhado ou de defunto precoce com cancro do pulmão, hepatite ou cirrose.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta hipótese de lei sobre a qual se anda a especular é uma grande treta! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não basta o arrepio provocado pelo congelamento de subsídios e o atentado de protelar a idade da reforma até à fase da algália, ainda temos de aturar os delírios de governação daquele bando de figurantes da &lt;em&gt;troika&lt;/em&gt; que, não podendo construir pontes, escolas, hospitais ou auto-estradas, nas horas de ócio se dedica a legislar sobre regras de educação e de bom senso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não me espanta que a seguir a isto se tentem aprovar leis sobre boa vizinhança, o uso de faca e garfo, a saudação com beijo  -&lt;em&gt;single&lt;/em&gt; ou duplo - e outras circunstâncias quotidianas sem relevância prática.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se quisermos levar o fundamentalismo anti-tabágico a sério então o que fazer com as grávidas que fumam?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não fumo e por acaso conheço cada vez menos pessoas que o fazem. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Seja como for há coisas piores e mais perigosas que se podem fazer no carro, como discutir com o conjuge ou falar ao telemóvel.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desde que entraram em vigor estas normas de segregação dos viciados em nicotina – que os remetem para a varanda, para a porta de entrada ou para um cubo de vidro no aeroporto – admito que me tornei mais intolerante ao fumo dos outros. Quase me parece impossível que noutros tempos fumadores activos e passivos convivessem harmoniosamente num restaurante, bar ou café, do mesmo modo que estranho que no tempo em que tirei a carta (há vinte anos, precisamente!) a taxa de mortalidade ao volante não estivesse próxima dos 100% apesar de não ser obrigatória a utilização de cinto de segurança, ou que fosse normal comer arroz e batatas sem que esta mistura explosiva de hidratos de carbono nos convertesse numa cambada de obesos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A perseguição aos viciados em alcatrão faz-me pena.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fumar faz mal, envelhece, provoca um péssimo hálito e já nem sequer fica bem. Não acredito que nos tempos que correm alguém comece a fumar porque é &lt;em&gt;in&lt;/em&gt; ou que persista no vício porque acha correcto. Os fumadores são tão viciados como os adictos noutras drogas e estas medidas proibitivas correm o risco de aumentar a propensão da malta nova para começar a fumar dada a lógica da atracção pelo proibido.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Seja como for, a acreditar na Constituição e na liberdade de ser e de estar até ao limite do metro quadrado de civilidade que nos deve separar do outro, então que se permita aos pais exercerem em relação ao fumo o que dita a sua consciência.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <title>Bullshit</title>
    <published>2012-03-25T22:41:34Z</published>
    <updated>2012-03-25T22:51:29Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://nobrandlikehome.com/wp-content/uploads/2011/08/bullshit_nobrandlikehome_4.jpg" alt="" width="455" height="526" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p class="ecxmsonormal"&gt;Caiu-me nas mãos um pequenino livro de bolso com o título “&lt;em&gt;On bullshit&lt;/em&gt;”.&lt;/p&gt;
&lt;p class="ecxmsonormal"&gt;Este livro é editado pela Universidade de &lt;em&gt;Princeton&lt;/em&gt; logo não é uma &lt;em&gt;bullshit &lt;/em&gt;qualquer.&lt;/p&gt;
&lt;p class="ecxmsonormal"&gt;O autor, &lt;em&gt;Harry G. Frankfurt&lt;/em&gt;, propõe-se a desenvolver uma teoria sobre esta expressão que classifica toda a interpretação enganosa da realidade induzida com dolo, isto é, com a intenção de provocar nos outros um certo sentimento. Por outras palavras, em toda a &lt;em&gt;bullshit&lt;/em&gt; o contéudo da mensagem é fabricado de forma a condicionar a sua percepção.&lt;/p&gt;
&lt;p class="ecxmsonormal"&gt;Ocorre-me de imediato o dramatismo, a linguagem corporal e a entoação com que certos pivots dos Telejornais, principalmente na RTP1 e na TVI, usam ao transmitir notícias. Quando o José Rodrigues dos Santos pisca os olhos e franze a sobrancelha ao informar que foi encontrada mais uma idosa solitária morta em casa está a valorizar a reprovação, a comoção que sente mais do que o choque que é a notícia em si mesma. Ocorre-me também a forma como certas pessoas se publicam no &lt;em&gt;FaceBook &lt;/em&gt;tentando passar uma imagem de si próprias que não corresponde necessariamente ao que são mas sim à forma como querem ser vistas por quem as espreita no mural.&lt;/p&gt;
&lt;p class="ecxmsonormal"&gt;Isto não quer dizer que uma pessoa esteja a veicular uma mentira. Signfica apenas que está a fornecer uma interpretação falaz da realidade.&lt;/p&gt;
&lt;p class="ecxmsonormal"&gt;O meu blog é uma produção de &lt;em&gt;bullshit&lt;/em&gt;. Às vezes. Quem me conhece não acredita que eu seja como me escrevo. Eu defendo que me escrevo como sou e que poucos me conhecem de verdade.&lt;/p&gt;
&lt;p class="ecxmsonormal"&gt;Seja como for, a sociedade actual está sobrecarregada de &lt;em&gt;bullshit &lt;/em&gt;e todos temos consciência desse fenómeno, mesmo quando acreditamos ser imunes ou inocentes em relação a essa produção de mensagens sem sentido, desproporcionadas, exageradas, parciais.&lt;/p&gt;
&lt;p class="ecxmsonormal"&gt;Esta "moda" dos debates e comentários, que começou com jornalistas ou peritos numa determinada área, mas que se alargou progressivamente a uma variedade heterogénea de egos enaltecidos, desde cineastas a artistas de circo, passando por mecânicos, eletricistas, médicos, espiritas e &lt;em&gt;socialites&lt;/em&gt;, despoletou na sociedade uma vontade - ou deverei dizer um à vontade - para falar sobre qualquer tema, criticando, interpretando, censurando, extrapolando, nem sempre com bom senso, com sentido ou até sanidade.&lt;/p&gt;
&lt;p class="ecxmsonormal"&gt;O curioso é saber que etimológicamente, a palavra &lt;em&gt;bullshit&lt;/em&gt; vai buscar as suas origens à expressão &lt;em&gt;bull session&lt;/em&gt;, por definição “conversa de homens”, por norma o tipo de tertúlia em que se fala de tudo, de política a futebol, de futebol a gajas, de gajas a árbitros, naquela perspectiva de "livre trânsito" em que cada um pode dizer o que pensa, não sendo necessariamente muito rigoroso nas observações que faz nem quanto à forma, fundamentação ou conteúdo da sua argumentação. Quem quiser concordar concorda e acrescenta um parágrafo, quem não concordar fala mais alto ou remata a discussão com um vernáculo "vai para o c...!"&lt;/p&gt;
&lt;p class="ecxmsonormal"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p class="ecxmsonormal"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p class="ecxmsonormal"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p class="ecxmsonormal" style="text-align: center;"&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2012-03-19T20:42:45</issued>
    <title>Ao meu pai...</title>
    <published>2012-03-19T21:05:10Z</published>
    <updated>2012-03-19T21:05:10Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://static.freepik.com/fotos-gratis/desenho-do-coracao_21170045.jpg" alt="" width="282" height="252" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;Na resposta a uma provocação de um leitor assíduo do meu blogue que declarou o dia 8 de Março como o “dia internacional da costela de Adão”, decretei que o dia 19 de Março seria o “dia do espermatozóide bem sucedido”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na realidade, para todos os homens sem excepção, a paternidade resulta de uma lotaria genética.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Idêntico raciocínio se poderia aplicar à probabilidade de uma mulher ter um dos seus óvulos fecundados, mas a odisseia a que os espermatozóides têm de sobreviver depois de descarregados num qualquer útero é uma autêntica prova de esforço e resiliência a que só o “cabeçudo bravo do pelotão” resiste (se existir um entre a cambada microscópica que anda por ali a divertir-se).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É claro que há homens que desejam tanto ou mais do que muitas mulheres ter filhos. Mas para a generalidade a fecundação é um momento de prazer e o milagre da paternidade só deixa de ser ficção quando o choro de um bebé lhes ecoa nos ouvidos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos dias que correm, ser Pai é muito diferente do que era quando eu nasci.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para começar já é normal que eles assistam ao parto, coisa que imagino até seria proibida antes do 25 de Abril. Depois, eles mudam fraldas, fazem sopas, levantam-se de noite, acompanham os miúdos ao médico e no primeiro dia de aulas, se preciso for ficam em casa quando eles adoecem e até beneficiam de dias de licença de paternidade quando a criança nasce.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No meu tempo, a figura do pai era mais distante. Era suposto que o pai falasse mais alto, mais grosso, tivesse coragem para dizer “não” mais vezes, tomasse a última palavra em qualquer dicussão, decretasse regras, obrigações e castigos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Habituei-me pois a um Pai assim - mais ausente, mais rigoroso, menos tolerante – nem bom nem mau, certamente melhor do que o de muitas das minhas amigas. Nunca vi nenhum outro Pai brincar com os filhos (presumo que na altura não seria usual) mas o meu pegava na miudagem do prédio e levava-nos ao cinema ou à praia, dava uns toques na bola se nos encontrava no pátio a jogar futebol, pegava em mim ao colo, carregava-me às cavalitas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Durante anos vi o meu Pai apenas como o chefe de família.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos últimos anos fui conhecendo o meu Pai como homem, com uma sensibilidade que comove apesar de fazer questão de mantê-la escondida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ontem era a corrida do Dia do Pai no Porto e eu não pude ir. Falei com ele depois da prova (que o atleta que o meu Pai é completou em 54 minutos!) e celebramos antecipadamente ao telemóvel o 19 de Março fingindo-nos menos tristes com esta distância de quilometros que não se ultrapassa com novas tecnologias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Hoje liguei-lhe à primeira hora da manhã para lhe desejar um dia feliz.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Até há pouco tempo apenas a minha Mãe se mantinha ligada a mim por um invisível cordão umbilical que lhe permitia saber ao primeiro som da minha voz se eu estava bem, se tinha fome ou se estava com dores de barriga. Agora tenho a certeza que também entre mim e o meu Pai há uma ligação de coração, de coronária, de aorta que sincroniza os nossos humores, emoções e batidas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A primeira reacção do meu Pai quando eu lhe telefonei hoje foi de temor pela minha vida, como se a razão daquele contacto pudesse estar num acidente ou em qualquer outra tragédia. Esta preocupação de guardião é prova de amor tão grande como um abraço longo e sentido, por isso, porque nunca o disse nem escrevi, aqui fica registada a minha mensagem de filha:&lt;/p&gt;
&lt;p align="center"&gt;&lt;span style="color: #0000ff; font-size: xx-large;"&gt;AMO-TE PAI&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align="center"&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2012-03-12T20:58:48</issued>
    <title>Chegou a Primavera!</title>
    <published>2012-03-12T21:59:24Z</published>
    <updated>2012-03-12T22:35:43Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://sites.google.com/site/paulatfarol/menina20.gif" alt="" width="290" height="221" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt; &lt;/div&gt;
&lt;p&gt;Depois de um fim-de-semana como o que passou apetece-me escrever uma daquelas composições à escola primária em que celebrávamos a chegada da Primavera exultando o chilrear dos passarinhos, o colorido dos jardins, o alongar dos dias e a promessa de calor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em vez disso opto por comentar a esquizofrenia que nos tem assaltado por estes dias em que lamentamos a falta de chuva, temendo que este vislumbre de Verão antecipado seja o augúrio de semanas a fio de dilúvio. Já andam por aí boatos de más-línguas que vaticinam que vai chover todo o Agosto...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Portugal converteu-se subitamente num país de agricultores - como prescrevia o Dr. Salazar nos tempos da outra senhora - e a toda a hora ouvimos notícias sobre as couves, os tomates, os girassóis e as vitelinhas que correm o risco de engordar as estatísticas da baixa produtividade, já que não ganham peso, forma ou cor com esta míngua de água que quase parece mais uma das restrições da &lt;em&gt;troika&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Falta apenas reeditarem os programas do saudoso Eng.º Sousa Veloso, que nos faziam companhia depois da Eucaristia Dominical, para voltarmos a um tempo que não é este em que a televisão era a preto e branco e o Borda d´água era &lt;em&gt;best seller&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Segundo consta, a Ministra Assunção Cristas andou a resistir estoicamente a um pedido de ajuda à União Europeia, informando agricultores, metereologistas e outros cidadãos interessados que a vinda da chuva era uma questão de fé.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Concluo eu que Portugal é um país de ateus. Não há oração, nem reza, nem missa que nos salve.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;(Foi-se o espaço para a analogia "Futebol, Fátima e Fado" tão a propósito deste regresso ao passado em versão "Conta-me como foi".)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Num presente em que estamos fartos de falar de crise e de desemprego, é curioso que entre as conversas de circunstância que as pessoas fazem ao redor da máquina do café se lamente a má sorte dos agricultores. Noutros tempos era mais natural ouvir falar em planos de férias para as Caraíbas ou, na pior das hipóteses, em fins-de-semana relâmpago no Algarve.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A falta de tudo tem suscitado um estranho fenómeno de solidariedade. Arrisco comentar que a desgraça do vizinho nos faz sentir menos mal com o dinheiro que nos some. Talvez seja por isso que todos se preocupam tanto com este Sol de praia que ameaça estragar a lavoura.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entre voltas saudosistas ao passado até a Ministra que tutela as hortas, pomares e galinheiros resiste a requerer auxílio recuperando um costume dos nossos antepassados que acreditavam que pedir era uma vergonha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Num mês qualquer do ano passado, fizeram-se múltipas reportagens sobre a chuva e seu impacto sobre patologias melancólicas. Estamos em altura de reciclar o tema, averiguando se a ausência do tal tempo cinzento que potencia estados depressivos não tem o efeito oposto, isto é, se este bâlsamo de Primavera que é grátis não deve ser absorvido como terapia, com efeitos milagrosos sobre o estado de espírito, a auto-estima e o humor. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não quero acreditar que a procura da felicidade nestas pequenas coisas viole alguma das reclamações da &lt;em&gt;troika&lt;/em&gt;, apesar de sabermos agora que esses nórdicos senhores de fato assumem que Portugal é um país de pagodeiros inconscientes incapazes de gerir com parcimónia feriados e pontes...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu, que às vezes prefiro ser levezinha, tão ingénua como uma menina que ainda anda de baloiço, abstraío-me de todos os sinais que me recordam o cenário de catástrofe e saúdo efusivamente o bom tempo!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2012-03-07T21:33:52</issued>
    <title>Dia 8 de Março: dia do cliché</title>
    <published>2012-03-07T22:44:17Z</published>
    <updated>2012-03-07T22:44:17Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://cache2.allpostersimages.com/p/LRG/7/797/76XI000Z/posters/klimt-gustav-adao-e-eva.jpg" alt="" width="314" height="450" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;Esta tarde, para vencer o tédio de uma sala de espera para uma consulta de ginecologia, resolvi navegar pela net no &lt;em&gt;Blackberry&lt;/em&gt;, já que na CUF não há revistas de entretenimento, nem sequer em edições fora de prazo.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt;Entre os &lt;em&gt;banners&lt;/em&gt; do costume surgiu um a relembrar que amanhã é o Dia Internacional da Mulher. Ocorreu-me então, naquele ecosistema particular de mulheres em idade fértil (por casualidade não havia menopáusicas na sala) que amanhã se celebra uma data consagrada às Evas parideiras, segundo consta criadas a partir de uma costela de um homem com barbas para assegurar a reprodução da espécie, não o dia das Amazonas, das &lt;em&gt;Barbies&lt;/em&gt; ou das Maria Madalenas.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;(Só por curiosidade, na mesma janela uma notícia sobre um muçulmano, alegadamente um religioso, &lt;/em&gt;&lt;em&gt;que foi preso em Madrid pela autoria de um vídeo em que explicava aos maridos como bater nas esposas...)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Creio que já ninguém se dá ao trabalho de comemorar esta data - a crise impõe contenção na oferta de rosas ou outras flores - e também me parece que cada vez menos feministas convictas se concedem algum tempo para se incomodar com o facto de existir no ano um dia em que se celebra a Mulher.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os lugares-comuns e &lt;em&gt;soundbytes&lt;/em&gt; da data evocam as discriminações sexuais, a violência doméstica, a exploração sexual e outros temas, que sendo relevantes e pertinentes, são fenómeno quotidiano, universal e histórico, não requerendo por isso de um dia de agendamento. A sociedade evolui e com esta diminuem os exemplos escandalosos, mas é tão certo que a discriminação sexual continuará a existir - por mais injusta ou infundada - como persiste a segregação baseada na cor, na raça, ou até na cor do cabelo (não posso deixar de lamentar o preconceito que grassa contra as loiras, mesmo as de raíz morena...).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Chocam-me as histéricas que ficam vermelhas uma vez por ano porque a existência de um Dia Internacional para a Mulher as humilha tanto como um apedrejamento, como me chocam também as desgraçadas que permanecem amarelas um ano inteiro a suportar agressões verbais, físicas ou qualquer outro tipo de violência. &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;(Não sei se perceberam mas fiz aqui um trocadilho com a expressão &lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;"antes uma vez na vida vermelha do que a vida toda amarela")&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Choca-me tanto que para algumas mulheres a igualdade advenha de um comportamento promíscuo - o dito "comportamento à homem" que basicamente equivale a ir para a cama com todo o macho que mexa - como que para outras a independência ou emancipação das amigas seja sinónimo de comportamento desviante.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Choca-me muito que seja preciso um dia para relembrar as indiossincrasias e vicissitudes associadas à aleatoriedade de nascer com sexo feminino, mas choca-me mais o silêncio consentido de quem exerce, assiste ou compactua com qualquer tipo de atentado à dignidade humana, qualquer que seja o género, a idade ou o credo do agredido.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta teoria tropeça nos clichés do costume, mas o que me ocorreu enquanto esperava impaciente pelo exame médico de rotina, que presumo seja menos incómodo que um exame à próstata, não foi o simbolismo do dia Internacional da Mulher mas o que é suposto ser todos os dias para manter o estatuto - DE MULHER, SIMPLESMENTE UMA MULHER- sem associar um acaso genético à condição de mártir, meretriz, mãe, cabra, escrava, bem de luxo, lixo, troféu ou saco de porrada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2012-03-04T19:12:22</issued>
    <title>Um dia é da caça... </title>
    <published>2012-03-04T20:24:25Z</published>
    <updated>2012-03-04T20:24:25Z</updated>
    <category term="comunicação social"/>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://www.ncoisas.com/wp-content/uploads/2011/04/benfica_porto_directo.jpg" alt="" width="349" height="314" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt; &lt;/div&gt;
&lt;p&gt;Não percebo nada de futebol. Tão pouco me interesso muito pelo tema.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas este fim-de-semana foi impossível ficar indiferente à derrota do Benfica, que qualquer lampião dirá que foi roubada, avançando com mais teorias do que as que eu consigo inventar sobre o Pinto da Costa e a forma mafiosa como suborna árbitros, jogadores, massagistas e até adeptos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Essas tricas não me interessam. Às vezes parece-me que o mundo do esférico diverge para os temas cor-de-rosa ou para as capas do tabloidismo fantástico com jornais, revistas de cabeleireiro e comentadores televisivos a fantasiarem sobre as subjectividades do mais concreto dos resultados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É claro que o mundo de futebol é dúbio, mas o produto final de um jogo é sempre exacto, mesmo que injusto, tal como as nossas vidas reais tendem a ser.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não são raras as vezes em que me arrepio ante as consequências de um duelo como o de sexta-feira.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não que me preocupe o futuro do Jorge Jesus - que parece uma caricatura de si próprio na forma como fala, se apresenta e se comporta - nem com a continuidade de Vitor Pereira na equipa do F.C. Porto, mas porque jornada após jornada assisti à glorificação do loiro com trejeitos de xunga e à crucificação do moreno com pinta de cigano.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sinto por isso um certo regozijo com estes revez do destino, com as consequências das derrotas e a capitalização das vitórias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No futebol, como na vida, passamos num ápice de bestiais a bestas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ainda há uns tempos sonhei que era assistente do Jorge Jesus e me deparava com a angustia de ter de o confessar às pessoas que me rodeiam. Não por ele ser do Benfica, mas porque passo a vida a lamentar como é para mim difícil trabalhar com aqueles que não admiro intelectualmente, falha que me tem trazido alguns infortúnios porque nem sempre tenho tido superiores hierárquicos cuja inteligência mereça o meu respeito.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Jorge Jesus lá há-de ter tido o mérito de conseguir motivar a sua equipa, missão que se foi tornando mais fácil jogo após jogo, uma vez que as vitórias têm em si um factor de adrenalina mais mobilizador que qualquer discurso, esforço ou treino.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nas empresas também é assim: quando os resultados são bons as pessoas trabalham com mais entusiasmo e são eventualmente mais eficazes e produtivas, mesmo que a contribuição de quem as chefia seja apenas uma ou outra palmadinha nas costas e uma intervenção egocêntrica nas reuniões de apresentação de resultados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando os resultados não aparecem, por muito que a equipa se esforce - como dizia o Sá Pinto, por muito que a cabeça queira mas o corpo o não permita (ou algo semelhante) - o líder passa a ser um tirano, ou porque não apoia nem defende quem a ele reporta ou porque num ápice perde o seu brilho e carisma, num caso e noutro induzindo uma letargia e falta de ânimo que converte cada dia de trabalho num tormento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Volto a frisar que não percebo nada de futebol. Mas percebo muito desta sensação de ser caça ou de ser caçador, de ter de disparar primeiro para não ficar ferido de morte, de ser aplaudida num dia e apupada no outro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No futebol, como na vida, a sobrevivência é um jogo... Muito difícil...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De campeonato em campeonato...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2012-02-27T23:07:13</issued>
    <title>Mestres da culinária</title>
    <published>2012-02-27T23:17:03Z</published>
    <updated>2012-02-27T23:17:03Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://4.bp.blogspot.com/_3UQtmb-wNj4/TKY43V_tGDI/AAAAAAAABFw/yT8n5DBMYdI/s1600/jamesoliver.JPG.jpeg" alt="" width="490" height="371" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Antiga como sou, ainda faço parte da geração que via os homens que se dedicavam a profissões como educadores de infância, cabeleireiros ou cozinheiros como seres um pouco estranhos, efeminados direi não arriscando a palavra &lt;em&gt;gay&lt;/em&gt; já que no meu tempo ainda estava na moda ser hetero.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Recordo sem saudade os tempos em que o Manuel Luís Goucha surgiu no ecran, na altura talvez apenas uma figura curiosa, com bigode à Zéze Camarinha mas com voz, tiques e trejeitos similares aos de Filipa Vacondeus.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há relativamente pouco tempo, talvez quando o &lt;em&gt;Jamie Oliver&lt;/em&gt; começou a aparecer na SIC Mulher com a sua cozinha rural-chique, começamos a designar os cozinheiros por &lt;em&gt;chefs&lt;/em&gt; e a venerar esses homens com receitas simples mas bonitinhas como verdadeiros &lt;em&gt;sex symbol&lt;/em&gt;, comparáveis a deuses gregos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O &lt;em&gt;Jamie Oliver&lt;/em&gt; é simpático e bem-intencionado. Como qualquer pessoa que quer subir na vida nos dias que correm tornou-se célebre a partir de um &lt;em&gt;talk show&lt;/em&gt;, tal como o &lt;em&gt;Ramsay, &lt;/em&gt;que em vez de loirinho simpático se faz valer da pinta de mau. Não percebo a razão do sucesso do rapaz que fala à “sopinha de massa”. Muito menos percebo o interesse de um programa em que os candidatos cozinham todos os dias o mesmo prato até ao momento televisivo das audiências que corresponde à eliminação. Já entendo melhor o interesse de desafios como o &lt;em&gt;MasterChef &lt;/em&gt;apesar de duvidar que alguém experimete em casa fazer&lt;em&gt; tartines&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;coulants&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;coulis&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;confits&lt;/em&gt; e outras complicações de alquimia que passam ao lado das artes mágicas das &lt;em&gt;Bimby´s&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Seja como for, a conclusão a que tenho chegado é que actualmente ser um mestre da culinária é garante de &lt;em&gt;sex appeal&lt;/em&gt;. Só isso explica que aqueles rapazinhos escanzelados (aposto que todos mais novos do que eu), mesmo com a sua falta de largura de ombros, mãos rosadas e cabelos a cheirar a comida consigam ser tantas vezes capa de revista e imagem publicitária.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Muitas mulheres fantasiam com um imberbe de sorriso tímido que lhes prepare um jantar romântico, com qualquer coisa braseada, em molho de redução, com ingredientes inesperados como erva-doce, alga nori ou trigo sarraceno. Eu gosto de um homem que me visite quando estou na cozinha, que me beije o pescoço como pretexto para espreitar o que preparo, me puxe pela cintura e me faça rodopiar entre o fogão e o frigorífico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Provavelmente sou mesmo antiga, mas eu gosto mesmo de ser uma espécie de &lt;em&gt;Barbie&lt;/em&gt; a brincar às casinhas. E não, não tenho &lt;em&gt;Bimby &lt;/em&gt;porque sou tão tradicional que ainda acredito que os pratos têm mais personalidade quando não calibramos pesos, proporções e tempos de preparação.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(creio que o jantar  de hoje estava insonso...)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2012-02-23T23:14:22</issued>
    <title>"Os descendentes" ou como é comovente ver o George Clooney a fazer papel de feio...</title>
    <published>2012-02-23T23:56:15Z</published>
    <updated>2012-02-27T23:00:18Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor; margin-right: auto; margin-left: auto; display: block;" src="http://blogs.commercialappeal.com/the_bloodshot_eye/descendants/desc6.jpg" alt="" width="420" height="179" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt; &lt;/div&gt;
&lt;p&gt;Um destes dias fui ver um daqueles filmes feitos à medida dos Óscares.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em “Os descendentes”, &lt;em&gt;George Clooney &lt;/em&gt;faz “o papel da sua vida” como apregoam os &lt;em&gt;traillers &lt;/em&gt;e críticas. Para mim, a maior surpresa é verificar que o grisalho do café e das urgências por quem tantas mulheres suspiram é tão bom actor que até consegue passar por homem feio (dentro do género, é claro) sem pinga de charme, totalmente desinteressante, aquele com quem jamais gostaríamos de ser vistas em público com suas calças foleiras e camisas em padrões histéricos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Agora sem ironias nem preconceitos: o filme é irresistível.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há muito tempo que não me acontecia chegar ao “&lt;em&gt;the end&lt;/em&gt;” e ficar colada à cadeira, enxugando lágrimas mal disfarçadas, com toda uma plateia em silêncio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O bom que tem “Os Descendentes” não cabe numa teoria...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Começa pela narrativa. Adoro filmes em que há uma voz &lt;em&gt;off &lt;/em&gt;que vai acrescentando aqueles detalhes da história que ficam piegas ou exagerados quando debitados numa deixa. Por isso amo &lt;em&gt;Woody Allen&lt;/em&gt;. Por isso me comoveu ouvir &lt;em&gt;George Clooney&lt;/em&gt;, no papel do pai perdido que neste filme lhe coube, relatar a tragédia que se abateu sobre a sua vida quando a mulher entra em coma na sequência de um acidente grave.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O início é fabuloso quando &lt;em&gt;Clooney&lt;/em&gt; alerta que viver no Havai não é antídoto para a dor e que as praias de areia branca lotadas de surfistas não são garante de uma existência sem problemas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Algures na locução surge uma brilhante descrição de família: um arquipélago, um conjunto de ilhas independentes que resultaram de um único pedaço de terra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N"os descendentes" há uma história paralela de ilhas tão dispersas e heterogéneas como os Açores, uma típica história de heranças e testamentos, com a variante americana do &lt;em&gt;king size&lt;/em&gt; e do XL que faz com que os herdeiros se constituam como &lt;em&gt;trust&lt;/em&gt; e dividam parcelas de ilhas como património em vez de discutirem hipotecas, serviços de loiça incompletos e &lt;em&gt;time-sharings&lt;/em&gt; em hotéis obsoletos...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O filme é intensamente real.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As pessoas retratadas não são perfeitas, as vidas não são fantásticas, as casas não são de revista, surgindo até tão desalinhadas e desconjuntadas no mobiliário e adereços &lt;em&gt;kitsch &lt;/em&gt;que nos remetem para as casas dos nossos pais e avós como eram quando nascemos, nos idos anos setenta, com seus bonecos de loiça, cortinados de chita e padrões psicadélicos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O acidente da mulher leva &lt;em&gt;Matt King&lt;/em&gt; - o personagem que &lt;em&gt;Clooney&lt;/em&gt; desempenha - a reconsiderar a sua forma de estar como homem de família. Disposto que está a mudar, a ser um melhor marido e um pai mais presente, decidido a salvar um casamento moribundo e a gozar a sua fortuna, descobre que a esposa não tem recuperação possível. Ao mesmo tempo que se vê forçado a encarar esta morte inesperada, a comunicá-la às filhas, a informar sogros e amigos para que tenham  tempo de despedir-se antes que os últimos sinais vitais se desliguem daquele corpo inane, descobre também que a mulher por quem zela amargurado o traía.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Perante a morte e o conflito de emoções, &lt;em&gt;Matt&lt;/em&gt; decide perdoar tudo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A opção não é tão linear. Há um evidente conflito de interesses e de sentimentos, alguns momentos em que engole em seco, em que cala o grito antes de perder o controle.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O desconcertante do filme é precisamente esta ambivalência, a dicotomia entre o que é natural mas pode não estar certo, entre a moral e a imperfeição os papéis a que nos adaptamos, as nossas emoções e os nossos intintos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como seres humanos, somos muitas vezes rancorosos e mesquinhos...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É impossível não ser tocado pela honestidade deste marido incapaz de ser um cabrão, pela sensibilidade que tem este pai para aceitar a raiva e a irreverência das filhas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Matt &lt;/em&gt;opta por relevar apenas e só porque deseja preservar as boas memórias que ficam da mulher enquanto mãe, esposa, amiga, filha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Afinal, naqueles dias em que entramos na história, a senhora não é mais do que um corpo ligado a uma máquina que nas cenas finais é atirado ao mar como um mero punhado de cinzas. A insignificância daquilo em que nos tornamos quando cadáveres torna futéis as críticas, vãos os julgamentos morais, despropositadas as necessidades de vingança, de pena capital ou de folclore popular em jeito de &lt;em&gt;vendeta&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Matt King&lt;/em&gt; é um homem bom, um tipo decente, honesto. Despede-se da mulher com um beijo de cortar a respiração, com uma solenidade moral que lhe saí do coração sem pieguices nem peneiras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O filme termina com pai e filhas no sofá, numa daquelas cenas que nos são familiares por serem tanto aquilo que somos num domingo à tarde, sem &lt;em&gt;glamour&lt;/em&gt; nem produções especiais, almas boas que a vida corrompe e que como sorte se purificam pela morte. As mortes dos que nos rodeiam para começar. A nossa morte como suposto clímax.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não sei se tenho algum problema de percepção, mas para mim a mensagem deste filme é o perdão. O acto sublime e libertador de perdoar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Palavra difícil nos dias que correm...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2012-02-18T10:48:05</issued>
    <title>Hino aos corações partidos</title>
    <published>2012-02-18T10:57:56Z</published>
    <updated>2012-02-18T10:57:56Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://1.bp.blogspot.com/-GE_nOFRzVH4/Th-OmO2cHnI/AAAAAAAAAF8/9oma8BUv-js/s1600/3fc3fbb7427274955be28d3f44ac3f8e.jpg" alt="" width="543" height="500" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ouvi por estes dias, mais concretamente a 14 de Fevereiro, o dito dia dos namorados, que cientistas não sei de onde tinham descoberto que o coração humano tem capacidade para se auto-regenerar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A notícia alongava-se com relatos de experiências de laboratório com utilização de tecidos e de plaquetas para uma espécie de tratamento de SPA semelhante ao que publicitam as empresas que recolhem a placenta, o cordão umbilical ou lá o que é que congelam, com a promessa de que o feto que ali se desenvolveu encontre no ninho de origem a cura para todos os males.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não sou tão alheada destes assuntos ou ignorante em relação às maravilhas da ciência para não reconhecer que há verdade nestes milagres que resultam da reciclagem de células humanas. O caricato desta notícia, divulgada na data simbólica num certo tom irónico, é sugerir que o coração, esse orgão que figurativamente se associa ao amor, pode curar-se através de um processo natural e espontâneo, quando se sabe, e nestas alturas em que prolifera a propaganda amorosa mais se recorda, que corações partidos, estropeados, matratados e mutilados, raras vezes se curam sem ajuda externa, isto é, sem o recurso a outras pessoas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não sou apologista de que um amor se esquece com outro e assim sucessivamente. Mas da mesma forma que ninguém se opera a si próprio ou fabrica em casa os seus medicamentos, também nestes casos é preciosa a ajuda de médicos, terapeutas, alquimistas, enfermeiros e farmacêuticos – já agora de massagistas, instrutores de &lt;em&gt;fitness&lt;/em&gt;, magos, endireitas, bombeiros, psiquiatras, advogados, &lt;em&gt;chefs &lt;/em&gt;de cozinha com ar giro e artistas sensíveis mas não &lt;em&gt;gays&lt;/em&gt; – para recauchutar um coração acidentado, à deriva, naufrago, com feridas e golpes vários.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No dia dos namorados, por mais feiz que esteja, tendo sempre a pensar nos que o não estão. Noutros anos, noutro passado, fazia questão de passar esta data acompanhada, como se ter ao meu lado uma figura masculina a que minimamente pudesse chamar namorado, fizesse de mim uma pessoa melhor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mal de datas como esta é que reforçam o sentimento de solidão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já fui uma mulher orgulhosamente só e repito vezes sem conta o quanto gosto de estar sózinha, como tão facilmente me adapto ao silêncio e ao vazio, como me faz falta a reclusão em espaço exclusivo para me conciliar comigo própria. Mas há momentos em que o estar só dói tanto como morte trágica porque cada minuto se revela uma tortura de recordações de alguém concreto ou de memórias mescladas de figuras e de emoções.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Podemos estar sós temendo que o nosso futuro será esse, por decreto do destino e não por vontade própria.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O coração que se foi magoando com o tempo e que segue mutilado ao longo da vida, provavelmente cada vez mais débil e amachucado por abalroamento ou autoflagelação, raras vezes tem recuperação. O mais frequente é tornar-se mais duro e amargo, não mais vigoroso ou são.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ficamos então com a esperança de que assim como há quem dedique anos de pesquisa a injectar ratinhos para concluir que é possível atenuar as lesões que resultam de um enfarte do miocárdio, se descubra um destes dias uma solução para manter as pessoas crentes e audazes depois de sucessivas explosões e implosões cardíacas resultantes da paixão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2012-02-10T19:51:28</issued>
    <title>De tia de Cascais a prima de Chelas... (salvo seja!)</title>
    <published>2012-02-10T20:07:00Z</published>
    <updated>2012-02-10T20:07:00Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://4.bp.blogspot.com/_Pj4UVzFoImc/S1I3R68YnVI/AAAAAAAABnc/5iLQ8LNDN98/s400/a96892_a551_2-louis-vitton.jpg" alt="" width="400" height="300" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt;Li por estes dias algures no &lt;em&gt;FaceBook &lt;/em&gt;que mais uma das consequências do anestésico pré-retoscopia designado por “&lt;em&gt;troika&lt;/em&gt;” é que as “tias de Cascais” se estão a converter em “primas de Chelas”.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt;Ora eu, que por acaso já fui apelidada de “espécie de tia nortenha” - talvez por usar óculos de Sol com logotipo de &lt;em&gt;griffe&lt;/em&gt; e lentes tipo plasma, por pintar o cabelo com tinta amarela, por me enfeitar com pulseiras até aos cotovelos e por misturar básicos &lt;em&gt;Zara &lt;/em&gt;com malas de marca - revejo-me na íntegra neste &lt;em&gt;downgrade&lt;/em&gt; ou &lt;em&gt;downsize&lt;/em&gt; ou despromoção social ou, como fica bem proclamar, nesta coisa chique que é agora o “ser poupada”.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt;De há uns tempos para cá, lá ando eu numa romaria constante ao supermercado em vez de fazer compras de mercearia para um mês e algumas semanas, evitando passar por montras apelativas mesmo que no vidro se leia a &lt;em&gt;bold&lt;/em&gt;, vermelho e letra XL a palavra “Descontos” (promoções, saldos, reduções ou equivalente), contando com tracinho na parede os dias entre depilações, massagens, pedicures e unhas de gel, substituindo cada vez mais os hábitos de consumo que passavam por almoços de &lt;em&gt;sushi&lt;/em&gt;, jantares em sítios &lt;em&gt;in&lt;/em&gt; e consumo de copos em regime bar aberto por regras espartanas de vida que se enquadram num modelo saudável e eticamente correcto, um disfarce perfeito à necessidade de aprender a “viver à pobre”.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt;É claro que exagero.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt;Associar os meus novos hábitos e poupanças a qualquer tipo de pobreza é insulto maior do que sugerir aos sem abrigo que para evitar o frio se devem manter por casa.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt;Seja como for, o meu grito de hoje serve apenas para dizer “NÃO GOSTO DISTO!”&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt;Tenho saudades do tempo em que o meu levantamento mínimo em ATM era de cem euros, podia ir todos as semanas ao cabeleireiro, pagava tratamentos em pacote no SPA sem o menor peso de consciência, comprava fruta importada do Brasil, toda a roupa de que gostava, cremes de rosto, corpo e outras mariquices na perfumaria, sucumbia a todos os impulsos porque podia e tais cedências à luxúria, à gula ou à soberba não pesavam sobre a minha cabeça como sombra de pecado ou sentença de morte.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt;Recordo entre suspiros o tempo das viagens a paragens exóticas, os fins-de-semana em recantos mágicos, a curta distância entre o desejo e o partir, a escolha sistemática do bom e do melhor.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt;Acima de tudo tenho saudades do tempo em que Portugal deixou de ser conhecido como "praia de Espanha" e ganhou estatuto como país digno, não tendo de andar a suplicar ajudas ao exterior nem de se sujeitar às regras de países mais ricos que nos tratam como cambada de ignorantes e "zés do pagode"&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt;É claro que a humildade tem sido uma lição de vida.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt;A poupança e o "descer à terra" era até necessário.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt;Hoje em dia, apesar de mais pobres somos mais nobres.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt;Aprendemos a dar mais valor a cada conquista. Percebemos que há valores que realmente são superiores a qualquer quantia e que há sensações e sentimentos que o dinheiro não compra.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt;No final ou temos sorte ao jogo ou ao amor.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt;Prefiro pois ser uma &lt;em&gt;voyeur &lt;/em&gt;sem manha neste “cabaret da coxa” celebrando com água da torneira o bom que é existir quando se ama alguém que nos ama de volta.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</content>
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    <issued>2012-02-05T17:53:01</issued>
    <title>O que eu tenho de torta, eu tenho de feliz</title>
    <published>2012-02-05T18:16:31Z</published>
    <updated>2012-02-05T18:16:31Z</updated>
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&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há pessoas que nasceram para não serem felizes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não sei se é karma, se é destino, se o caminho se faz caminhando e esta propensão para a infelicidade não é mais do que um síndrome de Calimero.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Diz-se que cada um tem o que merece, o que é uma forma simplista de explicar a Lei da Atracção.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há realmente quem receba pedras em vez de diamantes. Reconheço até que há casos que são autênticas novelas de lágrimas, de baba e ranho com muito &lt;em&gt;rimmel&lt;/em&gt; derramado, em personagens que mereciam vidas normais com finais felizes e alguns momentos mágicos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Seja como for a felicidade conquista-se.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não, não é um lugar comum, é apenas um facto que aprendi com muitas lágrimas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A felicidade custa tanto como difícil é ser bom aluno, arranjar emprego, sobreviver à vida adulta, mergulhar com classe numa piscina ou andar de bicicleta depois de muitos anos sem experimentar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É mais fácil ser triste, coitadinho, escolher um canto para carpir e bater com a cabeça na parede.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ninguém gosta de chorar mas quando vestimos a pele da melancolia a alma acomoda-se tão bem a este estado como se aconchega o corpo debaixo de uma manta numa tarde pachorrenta de domingo, passada a fazer &lt;em&gt;zaping&lt;/em&gt; nesta nuvem fofa que é o sofá. Eu sei porque já andei por lá.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dar a volta é tão complicado como um movimento acrobático com duplo mortal e pirueta. Mas faz-se. Por vezes com danos e mazelas, com as muitas dores de crescimento que não nos largam até à morte, as lesões que decorrem do movimento de chutar para frente num vazio que às vezes é tão denso como um bloco de gesso e argamassa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ser feliz, permecer de sorriso e coração tranquilo, é um desafio permanente que exige treino diário, tão dedicado como aquele que fazemos no ginásio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ouvi por estes dias uma música que canta esta forma de estar: uma oposição absoluta ao fado que nos pesa sobre a cabeça como pranto quando devia encher-nos de orgulho o peito e elevar-nos a moral.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Reescrevendo a letra fantástica desta música em forma de prosa teórica o resultado é este&lt;/p&gt;
&lt;p align="center"&gt;&lt;em&gt;Falem de mim, critiquem o que digo, escrevo ou faço. Não ligo.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align="center"&gt;&lt;em&gt;Estou a ficar velha (cada dia melhor como o vinho do Porto) &lt;/em&gt;&lt;em&gt;e louca, &lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align="center"&gt;&lt;em&gt;padecendo de uma forma de insanidade que finalmente é sã, &lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align="center"&gt;&lt;em&gt;com os pés na estrada, na certeza de seguir o meu caminho, &lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align="center"&gt;&lt;em&gt;numa estrada que só pode ser encantada.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align="center"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;" align="center"&gt;A cereja no topo do bolo é a menção que passo a citar&lt;/p&gt;
&lt;p align="center"&gt;&lt;em&gt;“Pode falar, não importa, &lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align="center"&gt;&lt;em&gt;O que eu tenho de torta, &lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align="center"&gt;&lt;em&gt;Eu tenho de feliz” &lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;" align="center"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left;" align="center"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;iframe src="http://www.youtube.com/embed/JW5DPJTJHxE" width="425" height="344" frameborder="0"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p style="text-align: left;" align="center"&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2012-01-30T03:31:41</issued>
    <title>O beijo</title>
    <published>2012-01-30T03:54:58Z</published>
    <updated>2012-01-30T04:08:38Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://perlbal.hi-pi.com/blog-images/503179/gd/1208612707/Por-do-Sol.jpg" alt="" width="514" height="768" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: left;"&gt;
&lt;p&gt;O primeiro beijo pode ser uma surpresa, um desejo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pode ser longo, louco, curto, demorado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pode ser um roubo, uma partilha, um ensejo, uma armadilha, um toque fugaz de lábios, um bater de dentes atrapalhado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O primeiro beijo que une pode ser também a decepção que separa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pode ser o sorriso que marca o início ou a dor de um fim antecipado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pode ser um sonho, um precipício, uma vertigem, uma nuvem, um brilho, uma chama.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pode ser paixão ou embaraço.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pode ser tímido, atrevido, audaz, irrevente, fugaz, mágico, místico ou trágico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Será sempre único, irrepetível, inimitável, sem réplica, mesmo que arquivado sem história nem mágoa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por estes dias celebro um beijo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style="font-family: arial black,avant garde;"&gt;O Beijo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Abençoado por um Senhor de marés e mares naquele final de tarde invernoso, num cenário pintado a sépia com o mar plano e o Sol sereno, depois de um passeio sem pressas sobre a areia húmida da praia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O nosso primeiro beijo foi um toque de alquimia feito dos sonhos que prometeste que guardavas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O primeiro beijo que foi o nosso não se revê em adjectivos nem se mede em palavras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com apenas um beijo as nossas almas descobriram-se irmãs, homogéneas, unas ainda que singulares nos defeitos, imperfeições e atritos que revelam os corpos que as abrigam tão teimosos e egoístas como determina a sua condição humana.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com aquele beijo fiz-me tua e fundi-me em ti porque assim determinou a conspiração divina que permitiu que os nossos lábios se tocassem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Jamais teria imaginado que com aquele beijo me aninharia sem receio nos braços generosos que são hoje a minha cama.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois daquele beijo nascemos nós. Descobrimos este tesouro, esta dávida, o mistério que os olhos dos outros vêem incompreensível e que nós alcançamos em toda a grandeza e magnitude porque naquela tarde nos beijamos.&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt; &lt;/div&gt;</content>
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    <issued>2012-01-15T22:08:14</issued>
    <title>Até breve...</title>
    <published>2012-01-15T22:39:14Z</published>
    <updated>2012-01-15T22:40:47Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://4.bp.blogspot.com/_EiKfvuXk61I/SWDljOedCVI/AAAAAAAAAlI/0l6kaja0glw/s400/At%25C3%25A9%2Bbreve.jpg" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mudei de casa há um mês.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não foi a primeira vez que mudei de vida, meti todos os meus tarecos e recuerdos em caixotes, embrulhei em plástico com bolinhas os copos e as travessas, arrumei malas, arquivei papelada, converti em sacos de lixo não reciclável uma série de coisas que se perderam na memória ou perderam nexo na minha história.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Só que nesta mudança foram três casas que entraram numa, foram várias vidas que se entrelaçaram, foi um Natal que me encheu a sala, a cozinha e o frigorífico, tudo acompanhado por uma vida profissional que permaneceu agitada mesmo quando o período das Festas prometia um abrandamento como efeito secundário da &lt;em&gt;troika. &lt;/em&gt;Estava o ano a chegar ao fim ainda fui surpreendida por uma gripe poderosa que só debelei com penicilina depois de engolida toda uma caixa de antibiótico que se embrulhou no estômago com as passas e com o &lt;em&gt;champanhe&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Neste início de ano sinto-me encurralada entre horas do relógio, compromissos e vontades.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acordo com a sensação de já estar atrasada. Conto os minutos e os quilómetros até ao escritório, sento-me, vejo os mails que caem em catadupa, levanto-me, perco-me entre reuniões como se a minha fosse uma agenda de médico, falo, escuto, calo, delego tarefas, controlo, irrito-me, canso-me mais do que o trabalho manda ou o bom senso aconselha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Regresso a casa à hora em que prometi que o jantar estaria na mesa com uma vontade imensa de me estirar sobre o sofá, de descansar o corpo, de desligar os olhos, fechar a boca e apagar os ouvidos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entre esta sucessão de meias horas relego todo o acontecimento o que não é passível de agendamento electrónico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sei que um dia, porque sempre assim acontece, vou arrepender-me de cada minuto que roubei a mim própria para me dedicar ao trabalho, a um projecto, a algo que é primordial num momento mas que a mudança de circunstâncias revela inútil, fútil ou desajustado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Até lá, vou fragmentando um curto fim-de-semana entre a procura apaixonada de detalhes para a casa, um programa que me leve ao coração desta cidade que me encanta e o aconchego entre almofadas e uma manta porque faz frio lá fora e também me apetece entregar à preguiça que o domingo consente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pergunto-me se serei egoísta. Sei que há muitos que assim me sentem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Presumo que o não serei porque me angustiam as saudades. Como quem comigo vive pressente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Poderei sim estar displicente na gestão dos afectos. Vou adiando chamadas, não paro uns segundos para escrever uma mensagem ou espreitar o mural dos amigos na janela da vida que é o &lt;em&gt;Facebook&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entre compassos de espera e passadas largas, corridas contra o tempo e viagens aceleradas fico-me com uma “até amanhã” que não acontece no dia seguinte, nem sequer na outra semana.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Resta-me acreditar que as verdadeiras amizades resisistem a silêncios tal como qualquer amor sincero dispensa palavras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Neste final de tarde dedico uns minutos de ócio a teclar um texto para o blogue que foi durante muito tempo um prolongamento de mim própria.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Faço-o com culpa porque sei que me vão ler pessoas que com razão me cobram esta silenciosa distância.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estou entorpecida pelo cansaço.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entre o que vivemos para os outros e o que é a vida dos outros dentro da nossa há fases da vida que reclamam um &lt;em&gt;reset&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assim estou eu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desesperadamente desejando uma tarde tranquila na minha casa, um final de dia que acabe em horário civilizado, a possibilidade de me encaixar num tempo e espaço sem sentimentos de culpa, sem ofender ninguém e sem me esconder das responsabilidades.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Preciso de me adaptar a este novo fuso horário, para não persistir na sensação de ser estrangeira, naufraga à deriva, uma mera personagem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Até lá... até breve!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-12-31T17:19:04</issued>
    <title>Por cada dia de chuva... existirão muitos mais dias de Sol...</title>
    <published>2011-12-31T17:38:14Z</published>
    <updated>2011-12-31T17:38:14Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://www.brindoavida.com.br/blog/wp-content/uploads/2011/12/dia-de-sol.jpeg" alt="" width="500" height="334" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois de uma mudança de três casas em uma, de um Natal em família com mais gente à mesa do que nos últimos três natais juntos, de uma amigdalite com toques de otite, e de um fecho de ano com as habituais urgências de última hora, não podia deixar 2011 chegar ao fim sem vir aqui para um último &lt;em&gt;post&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na verdade, o muito que vibro com o Natal retira-me qualquer entusiasmo em relação à passagem de ano.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não passa de um pró-forma, de uma festa que só o é para as pessoas que ficam o resto do ano fechadas em casa, com jantares estúpidamente caros e convivas disparatadamente ébrios, de uma celebração do menos mau que foi o ano que acaba e de uma esperança feita de passas engolidas com champanhe foleiro em relação ao ano que em segundos começa, tantas vezes a uma velocidade superior à da nossa contagem decrescente, dos saltos da cadeira ou do fazer explodir a rolha da garrafa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para mim o ano novo é o que começa no meu aniversário.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aí sim, faço o balanço do ano que passou e rabisco sem papel os planos para o ano que naquela data se inicia, sempre com a vontade de que, sendo o envelhecimento inevitável, que cada um dos meus anos de vida seja marcado por um evento de que me orgulhe, uma prova superada, uma etapa percorrida, de preferência de cabela erguida e a passos largos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ultimamente, a cada aniversário que passa, basta-me sentir viva e com saúde – por muito que isto seja uma banalidade – mantendo perto de mim, à distância de um telefonema ou de uma auto-estrada, as pessoas que eu amo e que são os meus esteios de vida, também eles de coração tranquilo, sem necessidade de respiração assistida, caminhando pelo seu pé, auto-suficientes, com memória e com tino, mesmo que encolhidos sobre si, mais frágeis e com mais cabelos brancos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nesta altura do ano, depois do choque de açucar e de álcool que é sempre o Natal, com todos os jantares de amigos e de colegas que antecedem a ceia, é inevitável um momento de reflexão, quase sempre como introspecção dolorosa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Num ano como este, em que avançamos para 2012 com a ameaça de que este será um dos piores anos de sempre, tendemos todos para a depressão melancólica.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não me vou alongar neste tema porque a crise é assunto de que estamos fartos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em relação às contas correntes de cada um tenho como certo de que temos sempre mais do que pensamos e que ainda somos capazes de sobreviver com muito menos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por estes dias ouvi num anúncio da Coca-Cola - daqueles tão inspiradores como o que tinha a banda sonora que não esqueço “eu gostaria de viver num alegre lugar...” - que por cada dia de chuva, existem sempre dois dias de Sol. Neste maravilhoso país, a estatística até é mais favorável, já que são mais os dias claros e amenos, do que os cinzentos e molhados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se não pudermos desejar muito mais coisas para 2012, que este Sol que é gratuito não nos falhe, e que se a chuva vier, porque tem de ser e até faz falta aos senhores que plantam vinha, batatas e couves, que seja de noite quando estamos a dormir ou numa tarde pachorrenta de domingo, em que podemos ficar em casa enroscados nos braços de alguém ou simplesmente abraçados aos nossos joelhos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assim seja.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Bom ano!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-12-13T23:32:29</issued>
    <title>Voando sobre um ninho de "cuscos"</title>
    <published>2011-12-13T23:57:32Z</published>
    <updated>2011-12-13T23:57:32Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4XekVl8sQXo/TS7tKhZ_qoI/AAAAAAAAAJc/gyYqYoftLgg/s1600/passarosnacabeca.jpg" alt="" width="454" height="410" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estou ainda a recuperar de uma jornada de mudanças para uma casa nova com potencial para ser um lar assim que se desentulhem todos os centímetros quadrados de área útil actualmente ocupados por caixas, caixinhas, caixotes, malas, sacos do IKEA, molhos e montes de coisas avulso sem inventário nem ordem. Temos pelo chão todos os pedaços do que somos, embrulhados em jornal ou plástico perfurado, que pretendemos pendurar numa parede, alinhar numa estante, colocar em santuário ou pedestal para a partir daí retomarmos sem medos o rumo que nos fez cruzar na mesma estrada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Até esta manhã ainda me doíam as costas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois do amanhecer passei todo o dia angustiada com uma inexplicável dor de alma.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Seis da manhã e rumo ao aeroporto para mais uma viagem de trabalho. Ainda não eram sete, a cafeína não tinha sequer começado a correr pelo sangue, e eis que sou abalroada pela conversa de uma senhora, minutos antes da descolagem, que argumentava com o pai da sua filha as opções que friamente colocava como hipóteses de resolução de fim de ano. O seu tom de voz era tão agreste e desapaixonado que a decisão que a meu lado se cumpriu deixou-me absolutamente prostrada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ameaçava ela que emigraria. Respondia ele, presumo eu, que não se importava. Pelo meio tempo para uma azeda troca de palavras com a cria, que se resumiu a um conjunto de ordens, recomendações e ameaças de castigo, sem um beijinho doce na despedida, apenas um virtual toque de lábios na face, sem som, sem sabor e sem aquele calor cheiroso que só encontramos nos braços da mãe que nos ama.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fiquei tão envergonhada com o despudorado despejar de azedume, com reminiscências de combate em arena com arremessos de luta greco-romana, que não tive sequer coragem de olhar para a mulher de gelo que tão laconicamente se desprendia de um moribundo projecto que em algum momento sonhou como conto de fadas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não me incomodam as opções dos outros. Incomodam-me sim os diálogos beligerantes, esta cruel troca de palavras, disparadas por bocas que num passado que não estará tão distante se engoliram, suspiraram em uníssono, sussurraram meiguices, repetiram que se amavam e adormeceram sobre a mesma almofada num abraço embrulhado de pernas e braços, desfeito entre sorrisos e gargalhadas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Incomoda-me também esta proximidade de vidas que se sentam ao nosso lado, tocam no nosso ombro, empurram os nossos braços, usurpam o nosso espaço, nos subtraem o ar de oxigénio e de vácuo, vociferando sem pejo nem recato os seus problemas trágicos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fenómenos do tipo &lt;em&gt;Big Brother&lt;/em&gt;, que agora se chamam “Casa dos Segredos”, são um prolongamento deste &lt;em&gt;voyerismo&lt;/em&gt; que, no meu caso, é involuntário, mas que mescla as nossas vidas de "Querido mudei a casa" com as vidas destas personagens de novela mexicana, com tiques de tia de Cascais ou truques de "&lt;em&gt;playboy&lt;/em&gt; de vão de escada".&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acho incrível a descontracção com que uma estranha disserta em &lt;em&gt;Dolby Surround&lt;/em&gt; sobre a sua vida privada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É igualmente desconcertante assistir à versão moderna do caixeiro viajante em espécime “&lt;em&gt;frequent flyer&lt;/em&gt;” a falar num inglês macarrónico, num portunhol aldrabado ou num português de cigano com clientes, fornecedores ou quem sabe com um telemóvel desligado, discutindo negócios que deviam ser segredo com uma satisfação amplificada, debitando números que são milhões, descrevendo projectos que são milionários, como se ainda fosse crível que numa Europa que se encolhe dentro de uma tanga, proliferassem oportunidades gordas como as vacas da Alemanha (sem qualquer piada subliminar à senhora &lt;em&gt;Merkel&lt;/em&gt;).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não quero saber quanto ganha o senhor careca, quanto custou o telemóvel do homem de bigode, quantos casos tem a cinquentona de cabelo armado que confessa à amiga que com ela viaja que desde o divórcio tem levado tudo o que mexe para a cama.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quero que me deixem adormecer enquanto as hospedeiras fazem uma coreografia sem graça pelo corredor, alimentando o mito dos coletes que ninguém sabe insuflar ou das mascaras de oxigénio que como um milagre nos salvam.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acima de tudo quero que me permitam manter a minha vida protegida destes ataques suicidas de gente com egos maiores do que a auto-estima, que desconhecem a dimensão do universo do bom senso, não percebendo também que a reserva nos protege com uma áurea de mistério, e que só assim nos conseguimos isolar num nenúfar soalheiro neste lago de águas turvas cujo fundo é feito de lodo e de lama.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-12-04T18:54:47</issued>
    <title>Zaping emocional</title>
    <published>2011-12-04T19:57:57Z</published>
    <updated>2011-12-04T19:57:57Z</updated>
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&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não há nada melhor do que estar com as amigas do coração, aquelas que conheço há tantos anos – antes da menstruação e dos tampões, antes do acne e dos rapazes, quando vestíamos calças com cinta sobre o umbigo e não éramos tão loiras – que são como uma espécie de prolongamento histórico da minha vida, uma causa, um efeito e uma consequência da pessoa que sou hoje.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Somos afortunadas por conseguirmos manter uma amizade durante tantos anos, gerindo tempos e espaços de distância com tanta naturalidade que, quando nos reencontramos, parece que a última vez que falmos foi apenas ontem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sempre que estamos juntas fazemos autênticas “biópsias à alma”, porque só com quem é tão próximo nos podemos “virar do avesso”, revelando coração, tripas e lágrimas sem reservas nem vergonhas ou medos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um grande bem-haja à “Casa de Pasto da Palmeira” que nos acolheu com uma série de petiscos &lt;em&gt;art nouveau&lt;/em&gt; sem peneiras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Creio que todos os jantares entre mulheres gravitam em redor do tema homem, muitas vezes em abstracto, porque nos intrigam mais as relações do que as pessoas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Chegadas a esta fase da vida divorciadas é inevitável ficarmos presas, pelo menos durante uns tempos, nesse limbo alucinado que são as relações adultas, entre veteranos recalcados, com suas tácticas beligerantes e cicatrizes de guerra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ainda não sei o que procuram os homens, mas em relação às mulheres tenho como certo que procuram todas receber o Prémio Nobel pela descoberta da alma gémea. Mesmo as que ficam sós durante tanto tempo que a certa altura bradam com cartazes quão realizadas são com a sua independência, acabam por ficar tão vulneráveis quanto uma adolescente se um dia tropeçam num espécimen que por mais errado que seja ou pareça, tem potencial quanto baste para ocupar o lugar certo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É claro que temos medo. Com o tempo ganhamos uma estranha imunidade que nos faz antever que qualquer relação está condenada ao insucesso, preparadas para que todo o candidato a residente se revele um parvo carregado de defeitos, incapazes de reagir em conformidade se afinal a pessoa a quem vamos abrindo a nossa porta até é um homem decente e bem-intencionado, apesar de ser esse o nosso inconfessável desejo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O normal no mundo dos adultos é vogar entre relações plásticas, neste imenso bazar de amor contrafeito, à procura de sexo, de uma companhia para jantar ou para o cinema, de uns momentos de humanidade que nos suguem da nossa rotina de problemas no trabalho, contas para pagar e trânsito louco. Fazemos o que ontem ouvi designar como “&lt;em&gt;zaping&lt;/em&gt; emocional”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na nossa essência, quando dissemos “sim” em frente a um altar carregado de flores, acreditavamos na lenda do “casamento para sempre”. Não concebo que alguém se case pensando no divórcio como solução para qualquer problema. Admito sim que recorremos mais a essa opção como se fosse uma “saída de emergência”, apenas e só porque desde miúdas aprendemos não sei onde que fomos programadas para ser felizes. Como não existem parâmetros que certifiquem o nosso grau de felicidade, como aqueles que são utilizados nas análises clínicas, quando começamos a agonizar ante o pressentimento de que não somos tão felizes quando poderíamos optamos por esta “fuga para a frente” que aumenta todos os problemas e discussões de um casamento naufrago quando se começa a equacionar a hipoteca da casa e as partilhas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gostavamos de pertencer aquela casta dos “cisnes”, os casais que permanecem juntos até à morte num amor cúmplice que é amizade tatuada na carne, caminhando de mãos dadas, com o ombro do outro ao nosso lado, porque assim se caminha num passo sincronizado e porque aí se procura aconchego quando a estrada que seguimos nos falha. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em vez disso, a realidade revela-se um filme diferente do que tínhamos realizado como sequência lógica casamento–filhos, e acabamos por desempenhar papéis inspiradas no “Sexo &amp;amp; a Cidade”, que por sua vez se inspira em mulheres como nós, saltando de festa em festa, de desilusão em desilusão, de borboletas na barriga para socos no estômago.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O ideal é que esta fase de zaping seja apenas um treino de resistência, força e endurance, necessário para sermos melhores mulheres para um homem, também ele aperfeiçoado na arte mágica de gerir afectos, impulsos, maus feitios e conflitos de personalidade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assim seja!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-11-30T23:28:56</issued>
    <title>O fantasma do Natal que aí vem... (não, não é um post sobre a crise, que isso já não é assunto para publicar na blogosfera)</title>
    <published>2011-12-01T00:08:16Z</published>
    <updated>2011-12-01T00:08:16Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://eudecoro.com/files/imagecache/artigos_teaser_2roundcorners/galeria/ornamento_de_natal_-_estrela.jpg" alt="" width="461" height="312" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Adoro o conto de &lt;em&gt;Charles Dickens&lt;/em&gt; em que um velho avaro e resmunguento é visitado na véspera de Natal pelos fantasmas do Natal: o do “Passado”, que lhe recorda a sua infância longínqua, uma míngua de quase tudo em que o mais generoso dos mimos fazia transbordar o seu coração de alegria; o do “Presente”, que lhe revela como será o Natal do que os rodeiam, não tão afortunado como o do velho quando era menino, em parte porque a sua sovinice e tirania comprometem a ventura dos que lhe estão próximos; o do “Futuro” que anuncia um devir de noites de consoada numa solidão fúnebre, antecipando também a maior de todas as angústias dos que partem: extinguir-se sem deixar rasto de afecto nem de saudade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Adoro o Natal e todos os sons, odores e paladares que o acompanham!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não concebo uma casa sem luzes intermitentes, velas cintilantes sobre arranjos com azevinho e pinhas, coloridos vibrantes de bolas e fitas, um presépio em destaque com todas as personagens e figurantes, uma toalha de linho centenária sob um extasiante desfile de doces, uma mesa comprida com o serviço que só se utiliza nesta altura do ano, os melhores talheres lá de casa e copos em cristal harmoniosamente alinhados para uma deleitosa ceia que é apenas o mais simples dos pratos do receituário da nossa gastronomia: bacalhau cozido com batatas e couves.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Recordo o “Natal Passado” como o tempo em que saía para jantar em casa de uns primos que durante anos adoptei como irmãos, antecipando em cada estrela que se deslocava a uma velocidade idêntica à do carro as luzes de um trenó puxado a renas. Ainda me emociono quando revejo a surpresa de regressar, encontrando os presentes junto à árvore, o contentamento quase febril ao perceber que o “avô inventado de barba branca” não me excluíra da sua lista, sinal de que afinal eu era uma boa menina.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Evoco um Natal mais próximo como o “Natal Presente”: eu e os meus pais, os três orgulhosamente sós como família mononuclear, sem raízes nem nós que nos prendam a outros com apelido comum e laços de consanguinidade, nos atem a um local com memórias, a uma casa com sala, lareira, traves de madeira no tecto e chão rangendo num timbre acolhedor sobre a euforia dos nossos passos. Por maior que seja o amor que nos una, um Natal assim não passa de um jantar. Regozijamo-nos por estarmos juntos, como estaríamos sempre de forma incondicional, mas falta um calor de pessoas, de risos e de vozes sobrepostas, o verdadeiro sinal de festa de consoada, o mais autêntico dos presentes que se pode desejar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Imaginei muitas vezes um “Natal Futuro” em que me veria só, de pijama e roupão, no sofá com uma taça de cereais ao colo e o comando numa mão, esquecida no calendário do tempo do significado das datas e das comemorações. Numa versão mais optimista imaginava-me rodeada de amigos numa festa que seria mais um jantar tertúlia do que uma clonagem de qualquer tipo de ceia em família "postiça".&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas o Natal que sempre quis é o que vou ter este ano, com uma casa a ser estreada por uma vintena de pessoas, num espírito de entreajuda e partilha. As mulheres dividirão tarefas entre os milagres da&lt;em&gt; Bimby&lt;/em&gt; e a magia dos segredos culinários que apenas ficam registados nas imagens que gravamos no coração, como a da minha Mãe debruçada sobre o fogão embebendo fatias de pão numa espécie de poção mágica. Os homens, na sala, enchendo o ar com a estridência das suas gargalhadas, circulando pela casa sem ultrapassar o território sagrada da cozinha, como se vigiar a azafama dos preparativos fosse o equivalente a "dar uma ajudinha".&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Este é o meu “Natal Futuro”, com uma mão cheia de gente à mesa, família que nem me atrevo a dizer que foi a escolhida (quando o que sempre ouvi dizer foi que “família não se escolhe”) porque se algum dia tivesse de me imaginar na noite de consoada, jamais teria ousado pedir tanto, com almas tão autênticas, sentimentos tão genuínos e, é claro, os meus pais em perfeita harmonia com estes parentes herdados por amor e por osmose transformados em irmãos, primos e sobrinhos, num desdobrar de laços de afinidade que não tem grau nem limite.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-11-24T21:32:35</issued>
    <title>Greve Geral, what else?</title>
    <published>2011-11-24T22:08:35Z</published>
    <updated>2011-11-24T22:08:35Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://portalmaritimo.files.wordpress.com/2010/12/greve.jpg" alt="" width="500" height="304" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;Pois é, hoje foi dia de Greve Geral e não se falou noutra coisa...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Percebo que as pessoas estejam revoltadas e que sintam necessidade de o manifestar, considero válidas grande parte das razões de descontentamento dos eleitores (mesmo dos que não votam porque as eleições calham sempre num dia em que não lhes dá jeito), sou até sensível aos ideais da solidariedade, da equidade, da justiça social, que é como quem diz “sermos todos uns pelos outros”. O que não alcanço é em quê que uma Greve Geral nos pode ajudar, ainda para mais neste momento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Exemplifico:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Quem quis ir trabalhar e está acostumado a utilizar os transportes públicos teve hoje de ficar em casa (num dia que será considerado uma falta injustificada, logo será descontado no ordenado, aposto!) ou recorrer ao seu automóvel, com custos adicionais de combustível, desgaste da viatura e eventualmente portagens e parqueamento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Quem foi trabalhar e tem filhos pequenos teve de encontrar soluções para ocupar as crianças, uma vez que grande parte das escolas públicas estiveram fechadas, o que, no caso concreto de uma pessoa que trabalha comigo, representou um custo extraordinário equivalente a um dia de salário.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Os alunos não tiveram aulas, coisa que imagino nesta altura até fará alguma falta já que se aproxima o final do primeiro período, logo as horas em que hoje andaram pela rua à mercê dos pedófilos, se aperfeiçoaram na arte de enrolar cigarros ou estiveram num café a dizer baboseiras, são um crédito mal-parado em tempo para testes e aulas de dúvidas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Quem tinha consultas em hospitais ou centros de saúde foi provavelmente recambiado para casa, mesmo que tenha tido de se levantar com quatro horas de antecedência, andar de bicicleta, a pé ou a nado num triatlo competitivo contra os obstáculos dos piquetes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Coitadas das pessoas que tiveram uma daquelas dores agudas ou acidentes graves que desaguam nas urgências, porque imagino que as salas de espera nos hospitais públicos deviam hoje estar um caos, tranformando as regulares horas de espera numa jornada de internamento, sem direito a cama nem tenda.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Como os aeroportos não estiveram operacionais não se fizeram viagens de trabalho mas também não se receberam turistas, que numa visita ao nosso ensolarado país, entre umas exclamações “&lt;em&gt;how lovely&lt;/em&gt;!” e “&lt;em&gt;trés jolie&lt;/em&gt;!”, com grande probabilidade deixariam ficar pelos restaurantes, museus e lojas de&lt;em&gt; “recuerdos”&lt;/em&gt; alguns preciosos euros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Não sei se não houve recolha de lixo ou se é esta noite que não vai haver. De toda a forma, se na minha zona a “greve dos almeidas” (com todo o respeito) passou despercebida então se calhar a Câmara deveria perguntar-se até que ponto vale a pena que estes senhores andem a trabalhar todas as noites... Sempre conseguiam uma redução no orçamento...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;- Imagino que os funcionários daquelas repartições bafientas onde as pastas de arquivo se amontoam pelo chão tenham aproveitado o dia para fazer gazeta, questionando também se a presença de tantas pessoas a encostar-se aos balcões ou escondidos atrás do ecrã do computador para não terem de aturar os utentes é efectivamente necessária. Parece-me escandaloso, quase pornográfico, que por causa da greve tenham fechado Centros de Emprego, já que é um insulto para os que não têm trabalho que alguém cuja missão é ajudá-los tire o dia para ir gritar pelos seus direitos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se existisse justiça, daquela popular como tanto gosta o português médio - o que foi trabalhar contrariado ou ficou em casa em vez de ir para a rua de cartaz em punho como é suposto fazer-se neste tipo de movimentos - os funcionários da administração pública que fizeram greve não recebiam ordenado e o proporcional dos impostos que nos são cobrados para pagar os seus vencimentos seria reembolsado com a entrega do I.R.S..&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Hoje os sortudos dos funcionários públicos já receberam o ordenado (quem está no privado há-de receber para a semana ou, com o feriado na quinta-feira, só a 5 de Dezembro) percebendo em números a magnitude desta crise maldita sobre as suas prestações e sobre a sua despensa. Mesmo assim, porque ao final do dia tive de ir a um hipermercado que fica num &lt;em&gt;shopping&lt;/em&gt;, fiquei estupefacta com a quantidade de carros no parque de estacionamento, mais surpresa ainda com as filas nas caixas e com todo o espírito natalício no interior das lojas onde se ouvia a banda sonora dos terminais multibanco.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A ceia de Natal é precisamente de hoje a um mês e quase que me pareceu que em dia de greve muitas famílias resolveram antecipar a festa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-11-22T22:09:32</issued>
    <title>A depressão dos pobres de espírito...</title>
    <published>2011-11-22T22:25:53Z</published>
    <updated>2011-11-22T22:25:53Z</updated>
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&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta manhã esbocei mais um daqueles sorrisos à “dói-dói... trrim-trrim” quando, parada no trânsito, olhando distraídamente para o infinito, me deparo com uma seta indicando a direcção para um “Centro de ajuda espiritual”, com referência a site e linha verde de apoio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ora aí está mais um paleativo para as dores de alma, um sucedâneo da ajuda que podemos encontrar em “a depressão dói”, mas com sotaque brasileiro e discurso semelhante ao dos pregões de ciganos na feira da Senhora da Hora (de Carcavelos para os que são da capital), com promessa de um milagre instantâneo por tantos euros como um par de óculos Rei-Bã.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já confessei que nas solitárias viagens de carro escapo à monotonia do alcatrão com recurso ao vício do zaping radiofónico. Com este passatempo descubro rádios locais ou até nacionais, cujo tempo de antena da hora do jantar ou depois de terminada a novela líder de audiências, é tomado por um homem que se diz pastor, que invariavelmente debita um chorrilho de palavras entre o relato de futebol e o drama de novela mexicana, ou escuta com interpelações semelhantes às do gordo do “preço certo” uma ouvinte que se lamenta de ser doente, ter um companheiro que lhe bate ou a atraiçoa, estar a afogar-se em dívidas, cheques pré-datados e contas mal feitas, martirizada pelas relações conflituosas com a mãe, com a irmã, com a sogra, com a vizinha do rés-do-chão e com o homem do talho, tudo bem polvilhado com lágrimas, amassado grosseiramente com as mãos, com o detalhe de mestre culinário que é a evocação de um espírito do mal, corporizado numa bruxaria, arranjinho ou enguiço que é o ingrediente fundamental para tamanha desgraçeira. Ufa!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há ainda uma alternativa africana com um sotaque francês que não lembra ao Diabo – Salvo seja! – com tradução de uma senhora cuja voz soa à daqueles documentários que explicam num dialéctico pedagógico muito cristão como copulam os animais quando são surpreendidos pelo cio em plena selva.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em qualquer dos casos o espectáculo é deprimente, e bastam uns minutos de audição para perceber que anda por aí muita gente com Q.I. congelado num qualquer grau abaixo de zero, muito fácil de manipular ao vivo e com assistência, a quem serão extorquidos tantos euros quanto a magnitude da tragédia que relatam, assim que efectuado o contacto pessoal que é combinado no éter.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A pobreza de espírito é um sofrimento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não há nada como desabafar com uma amiga, entre uma lágrima e uma gargalhada, um afago de mãos e um sorriso. É grátis e se o grupo se alargar a quatro cria-se uma atmosfera à “Sexo &amp;amp; a cidade” que faz bem a qualquer ego. Eu sou a &lt;em&gt;Carrie&lt;/em&gt;, claro!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os psiquiatras com vocação de &lt;em&gt;Dr. House&lt;/em&gt; em versão “Querido mudei a casa” podem ajudar-nos a perceber porque está desconjuntada a cadeira em que nos sentamos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nenhum profissional do espírito credenciado concluirá que nos escorre pelo esófago uma força demoníaca que precisa de ser exorcizada ou paira sobre a nossa cabeça uma nuvem negra que nos tapa o Sol como uma peneira.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se de facto existir no Universo a tal Lei da Atracção então somos nós que chamamos as coisas boas, mas também as coisas más corporizadas na forma de pregadores de têmpora suada que nos saudam e sacodem com histéricos “aleluias” e “vixe marias”. Vá de retro!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-11-21T21:52:45</issued>
    <title>A depressão dói (dói)</title>
    <published>2011-11-21T22:12:58Z</published>
    <updated>2011-11-21T22:12:58Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://www.explodingdog.com/dumbpict51/pleaseforgivemeif.gif" alt="" width="566" height="340" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;Anda por aí um anúncio institucional com o slogan “a depressão dói”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sei que o assunto é sério, mas um destes dias provocou-me o mesmo sorriso travesso que não consegui esconder quando percebi que as minhas amigas que são mães ligavam para uma linha com a designação “Dói-dói... trim-trim”, sempre que queriam esclarecer dúvidas sobre cócós amarelos ou vomitados fluorescentes das suas crianças.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Todos sabemos que os portugueses andam deprimidos. Os europeus andam deprimidos. O mundo anda deprimido. Conhecendo-se os casos de vida que as televisões não se cansam de nos relatar, com famílias de licenciados no desemprego, a morar em andares com acabamentos de luxo mas hipotecados até à quinta geração, outrora conduzindo carros topos de gama e agora a pé nas filas das refeições  servidas pelas ajudas humanitárias, não me supreendem as depressões mas sim a ausência de um fenónemo explosivo de suicídios em massa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando eu era criança, a depressão era coisa de que as mães falavam numa surdina de adultos. Lembro-me de a mãe de uma amiga ter ficado de baixa médica por andar deprimida e de a história ser contada de uma forma tão enredada que quase parecia que a senhora andava descontrolada, histérica, violenta, apenas dominável com recurso a medicação forte, choques eléctricos e colete de forças. Na prática, a mãe dessa amiga estava apenas triste. Apática. Incapaz de reagir. Sintomas que hoje temos como normais e que identificamos sem hesitação como uma depressão, mas que na altura conduziam a uma classificação preconceituosa das pessoas como malucas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A depressão existe e dói.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando me encontrei perdidamente triste, tão triste que tive de chorar quatro horas em frente a um &lt;em&gt;Freud&lt;/em&gt; que fez o favor de me ouvir como amigo, assumi com vergonha que estava deprimida. Para mim tal patologia era sinónimo de fraqueza e eu sempre me vi como uma guerreira. Daquelas que são imbatíveis. Uma espécie de &lt;em&gt;Lara Croft au naturel &lt;/em&gt;com uma infindável reserva de vidas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Utilizava amiúde a expressão “o segundo é o primeiro dos últimos” e tinha muitas vezes uma atitude tão arrogante como tem o Mourinho no mais marcial dos seus dias. Admitir que não estava em condições de chegar à meta da corrida de obstáculos em que transformei a minha vida foi uma enxurrada de pedras de gelo, que se gostasse de malte tinha emborcado em acto continuado com muitas doses de&lt;em&gt; whisky&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Precisei de medicação.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A depressão começa por ser um desiquilíbrio químico do cérebro e foi fundamental convencer-me disso para aceitar que necessitava de ajuda de fármacos tanto como a cura de uma dor de cabeça requer ácido acetil-salicílico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A publicidade à depressão como doença que dói incorre numa banalização tão perigosa quanto a do uso da pílula do dia seguinte como método contraceptivo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na prática, as drogas são solução fácil para qualquer problema.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Difícil é resolver as tormentas que nos apoquentam ao ponto de transformarem os nossos dias em rios de lágrimas que não contemos mesmo quando aparentemente nos rimos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A saída da depressão não se faz fugindo à vida real com recurso a ansiolíticos e barbitúricos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As dores só cessam quando identificamos o que nos magoa e encontramos forças para combater os demónios que deixamos crescer debaixo de cama enquanto dormimos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A depressão dói mas em alguns casos é apenas tão grave como um daqueles arranhões que se curam com um beijinho...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2011-11-16T21:08:23</issued>
    <title>Homens versus mulheres: relações sem sexo (de preferência)</title>
    <published>2011-11-16T21:34:36Z</published>
    <updated>2011-11-17T23:09:58Z</updated>
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    <content type="html">&lt;div class="saportecontainer saportepreserve" style="text-align: center;"&gt;&lt;img style="border: 0px currentColor;" src="http://gestaofeminina.files.wordpress.com/2009/09/competitividade.jpg" alt="" width="499" height="342" /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Descobri que os quartos do hotel são locais tão inspiradores para escrever teorias como os aeroportos. Como ando entre pontes aéreas e noites de insónia em camas estranhas por questões de trabalho, ocorre-me um tema que é uma banalidade: as diferenças entre trabalhar com homens ou com mulheres.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Neste momento faço parte de um grupo de trabalho europeu constituído por homens.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gostava que pelo menos um fosse maricas, mesmo que eventualmente encarado pelos outros como uma espécie de macho de segunda.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como creio que já escrevi “um maricas é o melhor amigo de uma mulher”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Porquê esta afinidade entre mulheres e &lt;em&gt;gays&lt;/em&gt;? Gostamos ambos do mesmo, sendo que eles nos conseguem apreciar numa perspectiva de potencial concorrência - apesar de não jogarmos no mesmo campeonato e de ser certo (de forma mais ou menos rigorosa, apesar desta tendência para a bissexualidade e para o &lt;em&gt;swing &lt;/em&gt;baralhar as estatísticas) que quem é vegetariano não come vaca nem vitela – com a vantagem de serem capazes de nos admirar ou criticar enquanto ser humano que pode interessar a um macho, sem a inveja nem a malícia com que o faz uma mulher.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Neste grupo de trabalho, quando falo, mesmo que a minha análise faça tanto sentido como os comentários do Marcelo Rebelo de Sousa ou esteja em rigor ao nível de um relatório científico da NASA, recebo sempre um sorriso condescendente ou paternalista do género “pois, pois”, sendo as minhas opiniões apenas consideradas como merecendo algum tempo de antena quando digo algo que realmente lhes agita o ego naquela zona anti-erógena que equivale à sensação de desprazer “mas porquê que não fui eu que me lembrei disto?”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eles fingem que me consideram mas na prática vêem-me como uma loira mais do que como a responsável por uma área de negócio na empresa. Tenho como certo que só se eu não tivesse penteado mas apenas cabelo, aumentasse o meu peso em dobro e deixasse crescer pêlos no queixo, seria olhada de forma diferente. Talvez com pena, mas certamente como quem até pode falar sobre as coisas com algum conhecimento, já que o preconceito é de que só uma mulher com uma imagem de virgem de &lt;em&gt;Willendorf&lt;/em&gt; (aquela estátua pré-histórica que representa a mulher como uma cabeça, um par de mamas até ao umbigo e um descomunal par de ancas) poderá ser efectivamente competente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já quando entrei na faculdade – há vinte anos, vejam só! – se dizia que as mulheres ou eram bonitas ou iam para engenharia, insinuando que, sendo este um curso de reconhecida complexidade e elevado nível de testosterona, só uma mulher com problemas hormonais (por defeito, entenda-se) escolheria tal opção universitária.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na prática, ao contrário da maior parte das pessoas, apesar de reconhecer as vantagens de trabalhar com homens, adoro trabalhar com mulheres. Não em abstracto, mas em concreto com a minha equipa. Ou o que dela fica...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As vantagens em trabalhar com eles são evidentes: como não perdemos tempo a falar de futebol ou sobre aquelas &lt;em&gt;leggings&lt;/em&gt; novos que prometem um rabo “à preta”, somos muito mais focados, completamente orientados para um resultado que queremos alcançar tão rápido quanto um homem espera atingir um orgasmo. A maior desvantagem é perceber que mesmo estando em maioria nas faculdades, quando ascendemos a posições equivalentes às deles, continuamos a ser subestimadas pelo simples facto de sermos "gajas".&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando trabalhamos com elas, se as pessoas são maduras e têm bom senso, a relação funciona por osmose, como é suposto funcionar um casamento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para além daquele mito de que começamos todas a ter o período menstrual ao mesmo tempo, temos sensibilidade q.b. para saber quando o momento é sério, de trabalho em corta-mato, em &lt;em&gt;sprint&lt;/em&gt; de cem metros ou a ritmo de maratona. Nestas alturas somos capazes de nos concentrar, com um grau de abstracção equivalente ao de um monge budista, dificilmente fazendo um comentário que saía fora do contexto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Transpondo a análise para o nível das relações entre casal, os casamentos mais duradouros são aqueles em que a mulher respeita os dias em que o homem está mais sorumbático ou irritado, porque não se desliga de um problema que trouxe do trabalho ou não esquece o resultado da sua equipa no último jogo, deixando-o submergir na “caixa do nada” até que ele esteja com alguma paciência para fazer aquilo que é suposto num relacionamento: interagir com o outro. Nas relações maritais, sendo os seres tão diferentes quanto dois planetas, a gestão destes momentos pode redundar num silêncio permanente, uma espécie de hábito, passando o casamento a ser apenas um estado que se mantém por comodidade ou displicência.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nas relações de trabalho entre mulheres, dado que possuem todas a mesma peculiar forma de gerir os silêncios e idêntica paciência para conversas monótonas ou cinzentas, é inevitável que ao final de algum tempo, um dos elementos do grupo pergunte a outra “essas botas são novas?”, gerando-se imediatamente um &lt;em&gt;coffee break &lt;/em&gt;psicológico equivalente a uma ida virtual às compras que, como todos sabem, é uma terapia excelente para equilibrar humores, logo para recuperar o nível de convergência.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A desvantagem de um grupo de mulheres deriva das competições que começam pelo tamanho das calças e pela área volumétrica ocupada na cadeira; passando pela cadência de idas à casa-de-banho, ao exterior para fumar, à manicure ou ao cabeleireiro; pela profissão do cônjuge e mostruário de sinais de amor que este oferece; com remate no sucesso dos filhos na escola e desfecho em forma de “gota de água” no reconhecimento que cada uma consegue obter dentro da empresa, sendo certo que também elas desconfiam quando uma Amazonas sobe na escala, como se um triunfo profissional só fosse crível com um cruzar de pernas à &lt;em&gt;Sharon Stone&lt;/em&gt; ou na sequência de uma troca infiel de fluidos ou de favores com quem decide.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assim é, por muito que seja politicamente incorrecto escrevê-lo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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