Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.

Segunda-feira, 16 de Abril de 2012
Fumar mata (mas dentro do carro é mais provável morrer de acidente rodoviário)

 

Por estes dias, entre a “mixórdia de temáticas”, os telejornais e as rapidinhas radiofónicas, foi assunto a proibição de fumar em veículos que transportem crianças.

É claro que me parece lógico que quem fuma o não faça no carro se as crianças vão lá dentro. Já agora até convém que não fumem em circunstância alguma já que o odor pestilento dos cigarros se entranha nos estofos, cabedais e plásticos. Em relação a cheiros, aromas e fragâncias advirto também que a utilização de ambientadores automóveis com perfume tão enjoativo como o mais puro dos Habanos poderá ser factor penalizador nas operações stop da brigada do "controle pelo olfacto".

Apesar de não conseguir demonstrá-lo científicamente quase arrisco que muitos pais fumadores evitam fazê-lo dentro de casa, logo não fumarão também nesse prolongamento do lar que é o carro de família. Posso até ir mais longe e aventar que os progenitores que partilham irresponsavelmente a sua adição em nicotina e alcatrão com as crianças são do tipo que diz palavrões, escarra, bate na mulher, mete-se nos copos, tem grande propensão para a condição de desempregado, de falhado ou de defunto precoce com cancro do pulmão, hepatite ou cirrose.

Esta hipótese de lei sobre a qual se anda a especular é uma grande treta! 

Não basta o arrepio provocado pelo congelamento de subsídios e o atentado de protelar a idade da reforma até à fase da algália, ainda temos de aturar os delírios de governação daquele bando de figurantes da troika que, não podendo construir pontes, escolas, hospitais ou auto-estradas, nas horas de ócio se dedica a legislar sobre regras de educação e de bom senso.

Não me espanta que a seguir a isto se tentem aprovar leis sobre boa vizinhança, o uso de faca e garfo, a saudação com beijo  -single ou duplo - e outras circunstâncias quotidianas sem relevância prática.

Se quisermos levar o fundamentalismo anti-tabágico a sério então o que fazer com as grávidas que fumam?

Não fumo e por acaso conheço cada vez menos pessoas que o fazem. 

Seja como for há coisas piores e mais perigosas que se podem fazer no carro, como discutir com o conjuge ou falar ao telemóvel.

Desde que entraram em vigor estas normas de segregação dos viciados em nicotina – que os remetem para a varanda, para a porta de entrada ou para um cubo de vidro no aeroporto – admito que me tornei mais intolerante ao fumo dos outros. Quase me parece impossível que noutros tempos fumadores activos e passivos convivessem harmoniosamente num restaurante, bar ou café, do mesmo modo que estranho que no tempo em que tirei a carta (há vinte anos, precisamente!) a taxa de mortalidade ao volante não estivesse próxima dos 100% apesar de não ser obrigatória a utilização de cinto de segurança, ou que fosse normal comer arroz e batatas sem que esta mistura explosiva de hidratos de carbono nos convertesse numa cambada de obesos.

A perseguição aos viciados em alcatrão faz-me pena.

Fumar faz mal, envelhece, provoca um péssimo hálito e já nem sequer fica bem. Não acredito que nos tempos que correm alguém comece a fumar porque é in ou que persista no vício porque acha correcto. Os fumadores são tão viciados como os adictos noutras drogas e estas medidas proibitivas correm o risco de aumentar a propensão da malta nova para começar a fumar dada a lógica da atracção pelo proibido.

Seja como for, a acreditar na Constituição e na liberdade de ser e de estar até ao limite do metro quadrado de civilidade que nos deve separar do outro, então que se permita aos pais exercerem em relação ao fumo o que dita a sua consciência.

 



publicado por teoriasdacosta às 21:49
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Domingo, 4 de Dezembro de 2011
Zaping emocional

 

Não há nada melhor do que estar com as amigas do coração, aquelas que conheço há tantos anos – antes da menstruação e dos tampões, antes do acne e dos rapazes, quando vestíamos calças com cinta sobre o umbigo e não éramos tão loiras – que são como uma espécie de prolongamento histórico da minha vida, uma causa, um efeito e uma consequência da pessoa que sou hoje.

Somos afortunadas por conseguirmos manter uma amizade durante tantos anos, gerindo tempos e espaços de distância com tanta naturalidade que, quando nos reencontramos, parece que a última vez que falmos foi apenas ontem.

Sempre que estamos juntas fazemos autênticas “biópsias à alma”, porque só com quem é tão próximo nos podemos “virar do avesso”, revelando coração, tripas e lágrimas sem reservas nem vergonhas ou medos.

Um grande bem-haja à “Casa de Pasto da Palmeira” que nos acolheu com uma série de petiscos art nouveau sem peneiras.

Creio que todos os jantares entre mulheres gravitam em redor do tema homem, muitas vezes em abstracto, porque nos intrigam mais as relações do que as pessoas.

Chegadas a esta fase da vida divorciadas é inevitável ficarmos presas, pelo menos durante uns tempos, nesse limbo alucinado que são as relações adultas, entre veteranos recalcados, com suas tácticas beligerantes e cicatrizes de guerra.

Ainda não sei o que procuram os homens, mas em relação às mulheres tenho como certo que procuram todas receber o Prémio Nobel pela descoberta da alma gémea. Mesmo as que ficam sós durante tanto tempo que a certa altura bradam com cartazes quão realizadas são com a sua independência, acabam por ficar tão vulneráveis quanto uma adolescente se um dia tropeçam num espécimen que por mais errado que seja ou pareça, tem potencial quanto baste para ocupar o lugar certo.

É claro que temos medo. Com o tempo ganhamos uma estranha imunidade que nos faz antever que qualquer relação está condenada ao insucesso, preparadas para que todo o candidato a residente se revele um parvo carregado de defeitos, incapazes de reagir em conformidade se afinal a pessoa a quem vamos abrindo a nossa porta até é um homem decente e bem-intencionado, apesar de ser esse o nosso inconfessável desejo.

O normal no mundo dos adultos é vogar entre relações plásticas, neste imenso bazar de amor contrafeito, à procura de sexo, de uma companhia para jantar ou para o cinema, de uns momentos de humanidade que nos suguem da nossa rotina de problemas no trabalho, contas para pagar e trânsito louco. Fazemos o que ontem ouvi designar como “zaping emocional”.

Na nossa essência, quando dissemos “sim” em frente a um altar carregado de flores, acreditavamos na lenda do “casamento para sempre”. Não concebo que alguém se case pensando no divórcio como solução para qualquer problema. Admito sim que recorremos mais a essa opção como se fosse uma “saída de emergência”, apenas e só porque desde miúdas aprendemos não sei onde que fomos programadas para ser felizes. Como não existem parâmetros que certifiquem o nosso grau de felicidade, como aqueles que são utilizados nas análises clínicas, quando começamos a agonizar ante o pressentimento de que não somos tão felizes quando poderíamos optamos por esta “fuga para a frente” que aumenta todos os problemas e discussões de um casamento naufrago quando se começa a equacionar a hipoteca da casa e as partilhas.

Gostavamos de pertencer aquela casta dos “cisnes”, os casais que permanecem juntos até à morte num amor cúmplice que é amizade tatuada na carne, caminhando de mãos dadas, com o ombro do outro ao nosso lado, porque assim se caminha num passo sincronizado e porque aí se procura aconchego quando a estrada que seguimos nos falha. 

Em vez disso, a realidade revela-se um filme diferente do que tínhamos realizado como sequência lógica casamento–filhos, e acabamos por desempenhar papéis inspiradas no “Sexo & a Cidade”, que por sua vez se inspira em mulheres como nós, saltando de festa em festa, de desilusão em desilusão, de borboletas na barriga para socos no estômago.

O ideal é que esta fase de zaping seja apenas um treino de resistência, força e endurance, necessário para sermos melhores mulheres para um homem, também ele aperfeiçoado na arte mágica de gerir afectos, impulsos, maus feitios e conflitos de personalidade.

Assim seja!

 

 



publicado por teoriasdacosta às 18:54
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Quinta-feira, 24 de Novembro de 2011
Greve Geral, what else?

Pois é, hoje foi dia de Greve Geral e não se falou noutra coisa...

Percebo que as pessoas estejam revoltadas e que sintam necessidade de o manifestar, considero válidas grande parte das razões de descontentamento dos eleitores (mesmo dos que não votam porque as eleições calham sempre num dia em que não lhes dá jeito), sou até sensível aos ideais da solidariedade, da equidade, da justiça social, que é como quem diz “sermos todos uns pelos outros”. O que não alcanço é em quê que uma Greve Geral nos pode ajudar, ainda para mais neste momento.

Exemplifico:

- Quem quis ir trabalhar e está acostumado a utilizar os transportes públicos teve hoje de ficar em casa (num dia que será considerado uma falta injustificada, logo será descontado no ordenado, aposto!) ou recorrer ao seu automóvel, com custos adicionais de combustível, desgaste da viatura e eventualmente portagens e parqueamento.

- Quem foi trabalhar e tem filhos pequenos teve de encontrar soluções para ocupar as crianças, uma vez que grande parte das escolas públicas estiveram fechadas, o que, no caso concreto de uma pessoa que trabalha comigo, representou um custo extraordinário equivalente a um dia de salário.

- Os alunos não tiveram aulas, coisa que imagino nesta altura até fará alguma falta já que se aproxima o final do primeiro período, logo as horas em que hoje andaram pela rua à mercê dos pedófilos, se aperfeiçoaram na arte de enrolar cigarros ou estiveram num café a dizer baboseiras, são um crédito mal-parado em tempo para testes e aulas de dúvidas.

- Quem tinha consultas em hospitais ou centros de saúde foi provavelmente recambiado para casa, mesmo que tenha tido de se levantar com quatro horas de antecedência, andar de bicicleta, a pé ou a nado num triatlo competitivo contra os obstáculos dos piquetes.

- Coitadas das pessoas que tiveram uma daquelas dores agudas ou acidentes graves que desaguam nas urgências, porque imagino que as salas de espera nos hospitais públicos deviam hoje estar um caos, tranformando as regulares horas de espera numa jornada de internamento, sem direito a cama nem tenda.

- Como os aeroportos não estiveram operacionais não se fizeram viagens de trabalho mas também não se receberam turistas, que numa visita ao nosso ensolarado país, entre umas exclamações “how lovely!” e “trés jolie!”, com grande probabilidade deixariam ficar pelos restaurantes, museus e lojas de “recuerdos” alguns preciosos euros.

- Não sei se não houve recolha de lixo ou se é esta noite que não vai haver. De toda a forma, se na minha zona a “greve dos almeidas” (com todo o respeito) passou despercebida então se calhar a Câmara deveria perguntar-se até que ponto vale a pena que estes senhores andem a trabalhar todas as noites... Sempre conseguiam uma redução no orçamento...

- Imagino que os funcionários daquelas repartições bafientas onde as pastas de arquivo se amontoam pelo chão tenham aproveitado o dia para fazer gazeta, questionando também se a presença de tantas pessoas a encostar-se aos balcões ou escondidos atrás do ecrã do computador para não terem de aturar os utentes é efectivamente necessária. Parece-me escandaloso, quase pornográfico, que por causa da greve tenham fechado Centros de Emprego, já que é um insulto para os que não têm trabalho que alguém cuja missão é ajudá-los tire o dia para ir gritar pelos seus direitos.

Se existisse justiça, daquela popular como tanto gosta o português médio - o que foi trabalhar contrariado ou ficou em casa em vez de ir para a rua de cartaz em punho como é suposto fazer-se neste tipo de movimentos - os funcionários da administração pública que fizeram greve não recebiam ordenado e o proporcional dos impostos que nos são cobrados para pagar os seus vencimentos seria reembolsado com a entrega do I.R.S..

Hoje os sortudos dos funcionários públicos já receberam o ordenado (quem está no privado há-de receber para a semana ou, com o feriado na quinta-feira, só a 5 de Dezembro) percebendo em números a magnitude desta crise maldita sobre as suas prestações e sobre a sua despensa. Mesmo assim, porque ao final do dia tive de ir a um hipermercado que fica num shopping, fiquei estupefacta com a quantidade de carros no parque de estacionamento, mais surpresa ainda com as filas nas caixas e com todo o espírito natalício no interior das lojas onde se ouvia a banda sonora dos terminais multibanco.

A ceia de Natal é precisamente de hoje a um mês e quase que me pareceu que em dia de greve muitas famílias resolveram antecipar a festa.

 

 



publicado por teoriasdacosta às 21:32
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Domingo, 2 de Outubro de 2011
Eu nasci para voar...

 

A empresa em que trabalho fechou o ano na sexta-feira.

Isto não quer dizer que andamos as últimas três semanas naquela "onda da festa e da amizade” que muda a atitude e o humor das pessoas assim que se instala o espírito de Natal, mas sim que passamos estes dias sem ver o Sol, com a sensação de irmos a casa apenas o tempo bastante para tomar banho e mudar de roupa tão curta a distância entre o apagar das luzes e o regresso ao escritório.

Este fim-de-semana, perante a minha dificuldade em arranjar seis horas para ir ao Porto (contando o tempo da ida, da vinda e das paragens para café, xixi e gasóleo) os meus pais vieram visitar-me.

Como sempre sucede à mesa, nas refeições em que se senta uma família – neste caso a minha e a que me abraçou como adoptada - com três gerações em animado diálogo, falou-se de quão complicada se vem tornando a vida, com os filhos que somos nós a fugir para a frente numa procura incerta de estabilidade, e com os filhos da geração que se segue preparando-se para que o seu local de trabalho seja o mundo, na certeza de que o sítio onde conseguirão ter um emprego que lhes pague um ordenado digno, capaz de financiar alguns caprichos e sustentar uma casa, só com muito sorte ficará a apenas trezentos quilómetros de casa.

Confessava a minha Mãe que quando eu vim para Lisboa pela primeira vez, em 2004, padeceu imenso com as dores da distância.
Quando regressei no ano passado, o sofrimento não foi tão atroz porque me viu pelo Porto numa situação de precaridade que jamais foi hipótese nos seus planos.

Os pais que educam os filhos como príncipes pressupoem que o seu futuro terá a magia e os tons com que se pincela um conto de fadas. E nós, esses filhos aburguesados, quando ainda somos demasiado ingénuos para duvidar, ao sair da faculdade com atitude guerreira, ao descer do altar num transe de felicidade ou naquele domingo preguiçoso em que acordamos ao lado da pessoa que queremos amar até à morte, imaginamos que a nossa vida seguirá milimetricamente o rumo que entre o primeiro emprego, o primeiro casamento e o primeiro filho, tão convictamente traçamos.

Poucas são as pessoas que concebem que alguns anos (ou meses) depois do dia do “sim” vão estar separadas, a viver numa casa mais pequena, despojadas das prendas comuns e das memórias fotográficas, a acordar com as vozes dos filhos de outra pessoa ou a adormecer na solidão confusa de quem se restabelece de um jet lag.

Suspirava a minha Mãe “como é difícil deixar os filhos voar”.

A alternativa ideal, suponho eu, seria mantê-los em gaiola dourada protegidos de qualquer mal.

Duvido que qualquer adulto em gestação aceitasse permanecer em incubadora depois da maioridade.

Explicava-lhe pois que hoje em dia temos de ir voando por uma questão de sobrevivência, saltidando entre ninhos temporários em troncos de árvore ou beirais alugados, sempre predispostos a mudar de continente como se a nossa vida fosse uma sequência de ciclos migratórios.

Esquece-se a minha Mãe que também ela um dia bateu as asas. A grande diferença está no facto de ela ter transformado o seu ninho num lar, com carácter perene e consistência sólida, mesmo assim distante da terra onde nasceram os seus pais.

Eu, os outros, os pais da minha idade e os seus filhos adolescentes ou universitários, vamos vivendo por temporadas, como nas séries dos canais por cabo, com personagens que entram e saiem, algumas alterações nos cenários, reviravoltas surpreendentes no enredo e no desenrolar da história. 

Um voo entre destinos que são meros locais de passagem.

Parar é morrer... Até lá, vamos simplesmente voando...

 

 



publicado por teoriasdacosta às 18:56
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Segunda-feira, 30 de Maio de 2011
No tempo em que era criança...

No tempo em que eu era criança, as crianças eram tão inocentes e frágeis quanto é suposto serem.

Aos três, quando entrei no colégio de freiras, o único medo que me perseguia era o pavor inexplicável que me provocavam todas as pessoas vestidas de preto. Recordo as lágrimas que me assaltavam sempre que passava o portão daquele bunker em cimento, as vezes em que me agarrei às saias da minha Mãe ou da empregada rogando-lhes que não me deixassem entregue àquela gente de coração de pedra e rosto de gesso. Mas recordo também as aulas de ballet, as festas e os baloiços, as batas engomadas de um azul sem tradução e a maravilha de aprender as letras.

Dada a minha dificuldade de integração entre madres e freiras, experimentou a minha Mãe inscrever-me numa escola pública quando cheguei aos seis anos. Perante recreios imensos, corredores largos onde podia correr e gritar sem que um braço me travasse o passo e um dedo austero erguido no ar me calasse com uma severa ordem de silêncio, não quis mais voltar ao colégio. Mesmo quando a colega de carteira, um ano mais velha, no tempo em que tal diferença significa mais uns centímetros de altura e uma desproporcionada autoridade perante os mais pequenos, me começou a ameaçar de morte se não lhe entregasse o meu pão com manteiga.

Demorei tempo a confessar à minha Mãe que tinha sentada ao meu lado uma bruxa má, que desta vez não era uma freira. Na altura não se falava em bullying nem se pensava em tais coisas. Havia apenas meninas más que intimidavam os outros. Quando finalmente o admiti, a minha Mãe entrou pela sala de rompante com o seu temível ar de fera. Para surpresa minha, a colega do lado ficou mais aterrorizada do que eu. A coisa resolveu-se em vinte e quatro horas: ela mudou de sala para uma ala onde nem sequer partilhávamos o recreio e lá vivi quatro anos da mais pura felicidade entre ditados, tabuadas e desenhos.

A minha escola preparatória era uma casa apalaçada que é hoje hotel de charme. Os professores conheciam-nos pelo nome mesmo quando não éramos alunos deles, os pais eram convidados a visitar a escola e havia uma relação quase familiar entre todos.

No liceu, um edifício tipo fábrica, onde por várias vezes ouvi dos professores comentários do género “não me interessa se vocês aprendem, no final do mês eu recebo o mesmo”, passei da menina bonita com boas notas, para a feia de óculos com voz de pato Donald. O recurso para ser aceite foi desistir dos estudos, distrair-me nas aulas em brincadeiras e alinhar em todas as parvoíces mesmo quando era eu o alvo de chacota.

Quando cheguei à faculdade foi-se o patinho feio. Reencontrei a minha identidade.

Fui criança meiga, adolescente a tender para o rebelde, como é suposto e faz parte, mas nunca, em tempo algum, perdi a minha inocência. Aprendi, é claro, que há maldade mas não dei nem recebi porrada. O mais próximo que estive da agressão foi através das palavras. Mesmo assim com uma reserva que não sei se é educação ou uma forma de ser cobarde.

Fico por isso aterrorizada, incomodada de uma forma que até me causa pesadelos, quando assisto às cenas de violência gratuita entre jovens com que a televisão invade a nossa casa. Chocam-me os actos praticados, a prostação a quem, sem qualquer hipótese de defesa, se submete, mas acima de tudo a passividade perversa de quem perante tais actos se limita a registar com o telemóvel a cena hedionda que se passa à sua frente, com o objectivo único de fazer um post no Facebook ou ascender no Youtube ao estatuto de estrela.

No tempo em que era criança, ainda acreditávamos em histórias com final feliz, onde os bons eram recompensados e os vilões empurrados para uma sarjeta.

Mesmo assim chamaram rasca à minha geração que de mal comportada teve apenas um exemplo (o do rabo mostrado à televisão como insulto ao Ministro da tutela).

Não sei que geração é esta, mas assusta-me que adolescentes assim, com a facilidade com que pontapeteiam na cabeça uma colega, se julguem com o direito que disfarça a sua insolência, de agredir quem quer que seja que os não trate com deferência.

Um dia destes ando pelas ruas com tanto medo como o que me inferiam as freiras. Com a agravante de que em vez da voz ríspida e do castigo da cara voltada para a parede, me podem sem qualquer remorso desfigurar a face com uma arma branca, atirar para um contentor do lixo, fazer rodopiar até embater numa parede, largando-me depois como trapo velho, insultada, cuspida e humilhada por gente que é pior do que bicho dado o seu inexplicável ódio por outros seres, que ainda que mais pacíficos, serão por princípio tão humanos quanto eles.

 



publicado por teoriasdacosta às 21:54
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Domingo, 1 de Maio de 2011
O dia da Mãe

 

Hoje lá se celebrou mais um Dia da Mãe.

Não sou grande fã destas celebrações por decreto, nem de clichés como “o dia da Mãe é todos os dias” e “o Natal é quando um homem quer”.

É claro que fui ao Porto almoçar com a minha Mãe, a melhor do mundo, como não poderia deixar de ser.

Para ela, antiga como é e educada como foi rodeada de freiras, beatas e benfazejas, o dia da Mãe celebra-se 365 dias no ano, mas festeja-se a 8 de Dezembro, o dia da Imaculada Conceição, aquele que representa o primeiro instante da existência de Virgem Maria.

Para mim, tão importante como estar com a minha Mãe no primeiro domingo de Maio e em todos os dias em que consigo, é abraçá-la com força no dia 8 de Dezembro.

Isto porque há dois anos, estando eu a passar uma das piores fases da minha vida, fomos almoçar as duas, numa das muitas ausências do meu Pai em trabalho. Foi um almoço de lágrimas, como foram tantos outros que aconteceram naquele final de ano e no início do ano seguinte, mas marcou o momento em que finalmente percebi quão extenso, profundo e inquebrantável é esse sentimento místico que se designa por “amor de mãe.”

Palavras definitivas como “incondicional”, são adjectivos fortes que até podemos verbalizar com displicência mas que dificilmente conseguimos manter na vida como compromissos discricionários. A minha história pessoal está pejada de exemplos em que os “nuncas” se converteram em “talvez”, as “oportunidades únicas” passaram a “possibilidades transitórias”, os “sim” foram mentiras e os “não” meias verdades.

No dia 8 de Dezembro de 2009 percebi o verdadeiro poder do amor da minha mãe. Uma força capaz de destruir montanhas, voar sobre precipícios, lutar contra inimigos, espantar fantasmas, curar dores com um beijo e fazer desaparecer os medos com o mais seguro dos abraços.

O amor de mãe é mesmo incondicional, infinito, intenso, nobre, acima de qualquer razão, nem sempre lúcido mas de uma veemência extraordinária.

Aos trinta e oito anos considero que passou o prazo de me candidatar à maternidade. Sinceramente não o lamento porque me assusta a responsabilidade e o sofrimento que pressupõe tal relação umbilical, que não se corta no momento do parto, mas antes se desenvolve e solidifica no tempo e no espaço.

Ser Mãe pode ser uma benção, mas pode também ser um karma, no sentido esotérico do termo que corresponde a um “conjunto de deméritos acumulados”.

Não tive uma relação fácil com a minha Mãe na adolescência porque nos separavam barreiras que com o passar dos anos se foram agudizando. Demoramos largos anos a encontrar-nos e foi preciso eu passar por uma situação de gravidez para finalmente nos aproximarmos.

Na altura, com uma observação fugaz do meu corpo ao espelho percebi que já não estava grávida. E o meu coração, que ainda mal se habituara à ideia de que no meu ventre se gerava um feto, ficou imediatamente reduzido para metade.

Percebo pois o que é ser Mãe no coração. E é com o coração que mães e filhas estabelecem os seus próprios códigos de linguagem.

Para tudo o resto, não há palavras...

 



publicado por teoriasdacosta às 22:27
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