
Numa das milhentas publicações que me aparecem nos feeds do FaceBook, encontrei uma que achei genial.
O filme que partilho enquadra-se numa série intitulada “Tales of mere existence” - não traduzível para português numa expressão que soe tão poética- que contém sketches com um toque de humor, ironia e oportunidade que valem por muitas das minhas singelas teorias.
O filme que partilho chama-se “Como perder uma rapariga em 64 etapas”, fenómeno que me parece digno de recorde no Guiness já que a maior dos homens que conheço acabam com a namorada que uma mulher julga que é num acto único: eclipsam-se.
Mas o filme não é exactamente um manual para uma saída airosa. É mais o relato do que são as relações ditas adultas nos nossos dias.
Para não plagiar o original, aqui vai a minha reinterpretação do filme:
Fase 1: a construção.
Corresponde àquela coisa gira de fazer crescer uma relação, identificando com orgulho os pequenos detalhes que fazem com que duas pessoas se tornem íntimas: irem juntos ao supermercado, acabarem as frases um do outro, rirem das mesmas piadas, perderem a vergonha de fazer cócó quando o outro está na divisão contígua.
Nesta fase as mulheres começam a acreditar que a relação é para toda a vida. Os homens começam a entrar em pânico perante essa perspectiva.
À medida que as relações amadurecem há coisas que mudam. Não há tanta inspiração para sms românticas ou atrevidas, as conversas são mais curtas, o sexo passa de diário a de três em três dias, depois a actividade de fim-de-semana até se tornar uma coisa de férias e de dias festivos.
Elas começam a sair com as amigas para desabafar, eles aproveitam os jantares de gajos para se divertirem à brava com os amigos.
Os desentendimentos aumentam e a relação acaba.
Fase dois: a segunda infância
Depois de uma relação sufocante é normal sentirmo-nos aliviados. Somos invadidos por uma eléctrica sensação de liberdade, e que atire a primeira pedra quem nunca passou ou conhece alguém que tenha passado por esta sensação de euforia, em que depois do fim de um namoro se volta a sair à noite como rotina, se muda o visual, se conhecem pessoas novas e se dão umas quecas sem compromisso.
Até que um dia se volta a tropeçar na/o ex.
Depois de um olhar e de um sorriso concluí-se que afinal aquela pessoa é a tal e que foi uma loucura deixá-lo/a fugir.
Fase três: a reconciliação
Os reencontros de namorados descambam quase sempre num abraço ansioso, com ela a tirar-lhe as calças pelo pescoço e ele a encostá-la contra à parede numa performance digna de filme.
É nesta fase que as duas pessoas que correram o mundo concluem que afinal durante todo esse tempo andaram com o coração vazio.
As reconciliações são sempre momentos de felicidade extrema. As pessoas convencem-se que a separação as fez amadurecer, que finalmente percebem aquilo que efectivamente querem para a sua vida. Admitem que sentiram imensas saudades e que são incapazes de viver uma sem a outra nem que seja só por um dia.
Apesar de eu ser das cépticas que acredita mais na teoria do “it´s never as good as the first time” – nunca é tão bom como da primeira vez – conta o filme que a sensação que duas pessoas têm quando se voltam a juntar é que a relação fica muito melhor do que era. Sou capaz de conceder que em muitos casos que conheço é mesmo esse o espírito.
A relação é reconstruída, remodelada, mudam-se as loiças da casa-de-banho, compra-se uma cozinha IKEA em tom beringela e acrescenta-se uma marquise. Feita a bricolage, volta tudo ao mesmo: o sexo passa de regular a transitivo, recomeçam as discussões, primeiro futéis, aos poucos com direito a amuo de um dia, depois estridentes e finalmente com recurso a artilharia (que em linguagem de casal significa a utilização de golpes baixos como o arremesso de episódios do passado que são cobradas com juros sem perdão de dívida).
A relação chega a um ponto em que os dois já nem sabem porque discutem. É altura de acabar novamente.
Fase quatro: a terceira infância
Esta fase é idêntica à segunda mas com menos pedalada. Também aqui acho que qualquer um já viveu a experiência de sair à noite e não encontrar ninguém com quem se identifique, não se sentir bem em canto algum, mesmo correndo todos os bares e ruas que compoem o animado quarteirão das galerias (no Porto) ou do Bairro Alto (em Lisboa), de não saber o que fazer nem para onde levar o corpo cansado e a precisar de mimo.
Nesta altura nem sempre a pessoa que se deixou está particularmente receptiva. Nem sempre acreditamos que vale a pena nova tentativa.
Nesta fase em que tudo nos aborrece é difícil encontrar alguém que nos cative.
Entra-se assim num estado moderadamente depressivo.
Fase cinco: a recuperação
Até que um dia, porque está Sol, porque as hormonas se agitam, porque nos cansamos de termos pena de nós próprios, entramos na fase da recuperação.
Inicialmente, a solidão, o não ter companhia é coisa para provocar urticárias, pesadelos e gastroenterites. Semanas ou meses depois habituamo-nos a estar sózinhos, a dormir no meio da cama, a deixar amontoar loiça suja na cozinha.
Quando já nos adaptamos a nós próprios, quando convivemos bem com a pessoa que somos, nos reconciliamos com os nossos defeitos e aceitamos que há coisas em que somos fraquinhos, estamos precisamente no ponto de mergulhar de cabeça numa relação e voltar a repetir o ciclo do início.

Aposto que, romântica e lamechas como ando, todos me imaginavam a escrever mais um texto sentimentalóide sobre o amor e a felicidade.
Sucede porém que abomino o amor com data certa e hora marcada.
Acontece também que para a maior parte dos homens o Dia 14 de Fevereiro só é o Dia dos Namorados porque têm uma companheira que os chateia nos dias anteriores com a exigência de um jantar romântico – pelo menos com uma mesa que tenha velas – e porque, entre publicidade, decorações de shopping e spots de rádio, é impossível esquecer o S. Valentim.
Com o conhecimento que vou tendo sobre a espécie, não me parece que os homens ajam com dolo ou má fé quando se esquecem de datas com significado. A maior parte não consegue sequer verbalizar o que comeu ao almoço, quanto mais guardar na memória em que dia ocorreu o primeiro beijo, que roupa trazia ela vestida, onde se encontravam e como tudo aconteceu.
Assim sendo, creio que será mais fácil que um homem se recorde que no dia 14 de Fevereiro se celebra uma data relacionada com um prolongamento da sua identidade: o dia da disfunção eréctil.
Esta expressão, que deve arrepiar muita gente, significa “incapacidade de manter uma erecção do pênis para uma satisfatória relação sexual “(in Wikipedia)”. Creio que muitos homens pensam que isto só lhes vai acontecer quando forem tão velhinhos que já só precisam do pênis para escoar urina, eventualmente usando fraldas. Outros temem que isto lhes possa acontecer num dia extraordinário, assim quando apanharem um miúda de vinte anos pela frente carregada de energia e de electricidade estática, ou num momento de maior nervosismo, stress e cansaço, eventualmente numa noite de copos com muitas misturas, entre cerveja, vinho e bebidas brancas.
De acordo com o que vou lendo por aí, este pesadelo que a ciência chamava anteriormente de “impotência” mas que entretanto amenizou com o termo mais ligeiro “disfunção”, não é apenas um acontecimento excepcional ou coisa de velhos a cair para o lado.
Os homens enquanto são jovens, aí a partir dos treze – quinze anos, conseguem facilmente manter-se num “estado pinóquio” e, segundo a famosa Sue Johanson, são capazes de fazer sexo dez vezes por dia sem qualquer problema (o problema maior será arranjar com quem, digo eu).
Razões psicológicas, numa primeira fase, e fisiológicas, à medida que a idade avança, podem trazer algumas dificuldades aos nossos Tarzans. Mas o problema maior não é a falta de erecção, uma vez sem exemplo ou consecutivamente, por fases, por ciclos ou por parceiras sexuais.
Um homem que tem um momento mau começa a questionar a virilidade do seu pênis (não a sua, entenda-se). Quanto mais desconfia que aquele companheiro de uma vida o pode trair, mais ansioso fica e, consequentemente, maiores as probabilidades de voltar a falhar. O fenómeno torna-se numa espécie de profecia “if you don´t use it, you lose it” como tantas vezes ouvi Sue Johanson repetir.
Diz-se que o Viagra e outros medicamentos sucedâneos são um sucesso de vendas. Muitos utilizados como profilaxia, outros como antídoto (para precaver um azar) outros como marketing (para impressionar a mulher que se convidou para jantar).
Diz a avó Sue, e eu como romântica que sou tenho de subscrever, que a performance sexual é proporcional ao nível de intimidade que um homem tem com uma mulher. Assim sendo, para o dia 14 de Fevereiro, e para os restantes dias em cada mês, não façam sexo façam amor!

Lembro-me de ver em miúda num livro da Mafalda uma tira em que a personagem com quem eu tanto me identificava lê “a vida começa aos quarenta”. O seu comentário desesperado é “mas porque raio nos mandam vir com tanta antecedência?”
Recentemente, o The Economist publicou um estudo segundo o qual só começamos a ser verdadeiramente felizes após os sessenta, o que me leva a questionar “o que raio andamos cá a fazer durante tanto tempo?”
O texto começa com uma citação formidável de Maurice Chevalier que eu traduzo da seguinte forma “envelhecer não é assim tão mau quando se considera a alternativa”. Para quem não percebeu, é melhor ser velho do que estar morto!
Apesar das desvantagens que todos tememos com o avançar dos anos – não conseguir ler a ementa dos restaurantes sem ter de esticar a carta até interferirmos na conversa que corre na mesa ao lado, ter medo de rir muito e de não conseguir reter as gotas de urina que nos deixam humilhantemente desconfortáveis, não apanhar as moedas de euro que caiem ao chão porque dobrar os joelhos e vergar as costas se pode revelar uma manobra acrobática – este artigo vem revelar que afinal, envelhecer é chegar ao U-bend, ao nirvana da meia-idade que converte cinquentões maníaco-depressivos em reformados estarolas.
Segundo o estudo citado, depois de ultrapassada aquela fase da faculdade, das bebedeiras, da boémia e da inconsciência, chegados à vida adulta cheios de adrenalina e de garra, cedo percebemos que o dia-a-dia de quem faz carreira e quer ter família, ou descobre que tem de abdicar de uma destas, é uma crueldade sem graça. Entramos pelos vinte e tais a levar com sucessivos baldes de água fria, tantos, que mais valia mergulhar num lago em estado de congelação e ficar lá hibernado até à idade que os investigadores afirmam que a vida vale a pena.
Curiosamente este estudo partiu de economistas que quiseram aprofundar esse subjectivo conceito de felicidade para além do bem-estar que, por formação, associam ao indicador objectivo que todos conhecemos como “dinheiro no bolso”. As conclusões preliminares são que o sexo, não quantidade ou qualidade mas sim o género, podem condicionar esta coisa da felicidade.
Ao contrário do que pensava eu, que vivo rodeada de colegas viciadas em Xanax, cafeína e nicotina, as mulheres têm maior capacidade para serem felizes do que os homens. Esta apetência pelas tristezas clínicamente atestadas revela apenas que as mulheres experimentam com maior facilidade estados emocionais extremos, enquanto que os homens se mantém indefinidamente naquele estado neutro de um electrodoméstico em stand by.
As pessoas neuróticas, por serem pessimistas e dominadas por sentimentos negativos, revelam um menor índice de inteligência emocional, o que, no geral, nas relações humanas, mesmo nas de trabalho, lhes complica a vida, tornando a sua existência miserável. Por outro lado, as pessoas extrovertidas, com maior apetência para trabalho em equipa e actividades sociais, têm maior propensão para encontrar a felicidade.
As circunstâncias – como a educação, a saúde, o rendimento – também influem no nosso grau de felicidade. Pelos vistos, o estado civil, se implicar que não se está só nem mal acompanhado, também pode contribuir para tornar mais sincero e consistente o sorriso que carregamos nos lábios.
Segundo o The Economist, o estudo levado a cabo em setenta e dois países concluíu que em geral, as pessoas, qualquer que seja o sexo e as circunstâncias, atingem o pico da infelicidade aos quarente e seis anos. Até lá vivemos sob stress, submersos em preocupações, vítimas de incontroláveis ataques de raiva e de ansiedade. Aos quarenta e tais, quando profissionalmente já não vamos mais longe, temos os filhos criados e pesadelos com hipotecas em vez de sonhos eróticos, lá deve haver um dia em que, por bom senso ou num acesso de loucura, resolvemos começar a “aliviar a mochila”
A literatura fala de uma “crise da meia-idade” para classifcar aquela fase em que questionamos todas as tralhas que fomos acumulando e que, já sem saber porquê, continuamos a carregar às costas. É então que nos separamos ou começamos a amar fervorosamente a pessoa que temos ao lado, e passamos a trabalhar com aquele espírito de prisioneiro que conta os dias para que as portas da cela se abram.
Há aqui uma ressalva a fazer: as pessoas infelizes vivem menos tempo. Assim sendo, as pessoas que ultrapassam a crise de meia idade experimentando um crescendo de harmonia e boa disposição são aquelas que já tinham em si esta capacidade para serem felizes.
Outra ressalva é a existência de filhos adolescentes quando se atravessa o deserto dos quarenta para os cinquenta. É que os miúdos tendem a ser agressivos, sádicos e sarcásticos, características que abalam a auto-estima de qualquer adulto que subitamente se vê com rugas, pele flácida e cabelos brancos.
Na prática, com a idade as pessoas tornam-se mais sábias. Gerem melhor os conflitos, controlam com mais eficácia as emoções, aceitam melhor as contrariedades da vida, são menos exigentes consigo próprias e consequentemente mais tolerantes com os outros.
Uma professora de Psicologia da Stanford University desenvolveu uma teoria fantástica segundo a qual, à medida que o ser humano envelhece torna-se consciente da sua mortalidade, o que lhe confere uma visão mais realista dos horizontes. Por outras palavras, o pressentimento de que o fim está próximo torna-nos mais eficazes na gestão do presente.
“A vida é agora!” dizem as frases feitas que usamos com paleativos. O problema é que vivemos o dia de hoje a achar que tudo é para ontem...

Fã como sou de Barak Obama li com interesse a entrevista publicada pelo Expresso neste fim-de-semana.
Obama caiu em desgraça. Como tantas vezes acontece na vida, cíclicamente, tão certo como continuarmos vivos, de forma constante enquanto estivermos activos. Passamos sucessivamente de bestiais a bestas, de bestas a bestiais, de felizes a nem por isso, da infelicidade negra à euforia psicadélica.
Admite Obama que se enganou. Nas palavras que o artigo cita, aprendeu algumas “lições tácticas”. Errar é humano, ou como estava gravado a canivete na mesa onde me sentava nas aulas de educação visual no 9.º ano “Herrar he umano”. A nossa humanidade, carregada de orgulho, preconceito e vaidade, nem sempre nos permite admitir os enganos.
Em vez de optar pela atitude arrogante, de uma cegueira insane como a do Primeiro-Ministro que dá a cara pelo país falido em que se transformou Portugal, Obama decidiu fazer um mea culpa.
É claro que este assumir de culpas vem embrulhado num papel dourado com um grande laçarote. Nas palavras do Presidente do mundo – sim, porque os E.U.A. continuam a ser “A Potência” , apesar da assustadora ascendência da China e do seu avanço hegemónico por territórios de Àfrica (onde o G7 não vê para além de poços de petróleo) – “há um certo orgulho perverso em fazer as coisas como devem ser feitas, ainda que a curto prazo sejam impopulares”.
Obama quer colocar-se como o homem bom, aquele que queria fazer tudo certo mas que, depois de castigado pela opinião pública, admite que quem quer permanecer na Casa Branca tem de seguir as regras de Washington. Durão Barroso e Che Guevara sabem bem que dos rebeldes reza-se na história, somente quando estes estão mortos. Os revolucionários podem ter seguidores, clubes de fãs, tropas, milícias e grupos organizados na sua órbita, mas raramente chegam ao poder se não cedem às regras pelas quais se guia a maioria da sociedade.
A vida é assim. Não sei se justa se injusta, se gloriosa ou ingloria. Na prática, quem quer ascender, manter-se à tona, sobreviver, tem de alinhar pelo status quo, navegar com as marés, aproveitar a força das ondas na esperança que uma dessas seja o tal super-tubo, que nos permite fazer uma surfada que acelera o corpo e eleva a alma, daquelas que contamos aos netos e que uma foto recorda para a história.
Quer isto dizer que devemos deixar de correr atrás daqueles ideais transcendentes, benfazejos para o espírito, nobres para a sociedade, dignos de lápides, estátuas, nomes de rua, ou simplesmente de um abraço carregado de gratidão sincera, de um “obrigada” em forma de sorriso? Claro que não. São os ideais, tantas vezes as utopias, que fazem com que o mundo avance como bola colorida nas mãos de uma criança, como se cantava na época em que o país inteiro vivia inebriado com as promessas do 25 de Abril.
A vida apenas nos ensina a ser menos apaixonados e provocadores.
Num momento de inspiração, em que as nossas ambições se concretizam, somos bestiais. Quando os dados do jogo se alteram, se vira o tabuleiro, nos saí consecutivamente o vermelho depois de uma aposta firme no preto, então mais vale estar preparado para enfiar as “orelhas de burro” e ultrapassar com a dignidade possível os tempos que se seguem, em que é garantido que seremos vistos como “bestas”.
A boa notícia é que “não há mal que sempre dure” e quando se bate com os pés no fundo é certinho que regressamos à superfície mais depressa.

Esta semana, uma das minhas amigas do Facebook publicou um texto que suscitou logo meia dúzia de comentários.
Com o título “os homens não sabem o que é o amor”, o referido texto, de Michel Houellebecq, in 'As Partículas Elementares', começa assim “De forma geral, os homens não sabem o que é amor, é um sentimento que lhes é totalmente estranho. Conhecem o desejo, o desejo sexual em estado bruto e a competição entre machos”.
Apesar de ter tido a sorte de ter encontrado homens que me amaram, daqueles que são românticos, fazem surpresas, dizem as palavras que queremos ouvir, nos abraçam de uma forma que transforma o seu colo no nosso ninho, confesso que concordo em parte com o que este autor diz. Sim, há homens que amam mulheres. Mas muitas são as mulheres que andam com homens que não as amam, não apenas porque a lei da oferta as não favorece, mas porque os homens só são capazes de amar verdadeiramente uma ou duas mulheres durante toda a sua vida. Em relação às outras, os seus sentimentos podem variar entre o “gosto” e o “tolero”. Quando entram na fase do “não suporto” já têm outra presa na mira.
Como já por aqui escrevi, para os homens sexo é mais fundamental do que para as mulheres. Nós passamos a infância a sonhar com príncipes, contos de fada, vestidos de noiva e histórias com final feliz. Eles passam da fase do jogar à bola (ou Playstation) para a fase da explosão de testosterona que os faz comprar revistas com mulheres nuas. Para os rapazes, a relação homem-mulher é uma mera questão física, um acerto hormonal, uma descarga de adrenalina. Para elas, a mesma relação tem de ser magia.
Claro que há os adoslescentes que se apaixonam e que reagem como “romeuzinhos”, mas a maior parte entra na faculdade sem nunca ter tido uma miúda que tiveram a coragem de assumir como namorada, com a preocupação única de não acabarem o ensino secundário virgens.
Há competição entre machos, claro, mas se calhar a competição é muito maior entre fêmeas. Até entre eles e elas, a começar na pré-primária e a atingir o auge quando se ingressa na vida activa.
Continua o texto, a propósito de como os filhos varões herdavam dos pais o mesmo tipo de comportamento, considerando todas as mulheres como objecto de desejo à excepção da mãe dos seus filhos, “Hoje, nada disso existe. As pessoas são assalariadas, locatárias, não têm nada para deixar aos filhos. Não têm nada para lhes ensinar, nem sequer sabem o que eles poderão vir a fazer; as regras que conheceram não serão de todo aplicáveis a eles, porque eles viverão num mundo completamente diferente. Aceitar a ideologia da mudança permanente significa aceitar que a vida de um homem está reduzida estritamente à sua existência individual e que as gerações passadas e futuras não têm, aos seus olhos, nenhuma importância.”
Apesar da visão pessimista, conheço cada vez mais pessoas que questionam até que ponto vale a pena terem um filho se o presente é tão instável e o futuro tão incerto, com o orçamento familiar a ser curto para férias, infantário, actividades extra-curriculares, pacote completo da TV Cabo, uma visita mensal ao cabeleireiro e uma ida anual ao dentista.
Concluí Michel Houellebecq, escritor francês conhecido pelo seu cinismo polémico, “ter um filho, hoje, para um homem, já não faz qualquer sentido. O caso das mulheres é diferente, porque elas continuam a sentir a necessidade de terem um ser que amem – o que não é, nem nunca foi, o caso dos homens. É um disparate acreditar que os homens também têm necessidade de acarinhar e de brincar com os filhos, de lhes fazer festinhas.”
Aqui, admito que tenho alguma dificuldade em concordar. É demasiado cruel pensar os homens como seres tão tiranos, muito embora seja verosímel este tipo de atitude austera nos homens de outros tempos, os tais que tinham uma mulher em casa em quem mal tocavam, mas que recorriam amiúde a mulheres de fama duvidosa para poderem “fazer porcarias” e assim libertar-se do tal desejo animal que os transforma em seres quase primitivos.
Grande parte dos homens que conheço, mesmo quando divorciados, mantém uma forte ligação emocional aos filhos. Sofrem com a distância, muitas vezes até aguentam relações que já só são logística familiar porque não suportam a ideia de não lhes dar um beijo de “boa noite” todos os dias. Infelizmente conheço também muitos casos em que os casais se separam e o homem segue uma nova vida, volta a ser solteiro, livre e descomprometido, ignora os filhos ou passa a tratá-los como amiguinhos com quem faz programas de umas horas, mas que depois “despeja” na casa da mãe para pode ir ter com as amigas.
Os homens não sabem o que é o amor? Talvez. Se calhar não precisam. Se calhar por não saberem têm uma capacidade superior às mulheres para serem felizes. Ou pelo menos, conformados, que é aquela atitude inócua que permite a qualquer ser humano moderado nas ambições e nos desejos sobreviver sem sobressaltos ao correr dos dias. Não estão à espera de mais nada do que acordar, ir para o trabalho, contar umas anedotas aos colegas, olhar para o rabo da secretária do departamento, tomar uma cerveja antes de ir para casa, chegarem ao fim-de-semana para poderem passar dois dias sem desfazer a barba, contentes se o clube ganha, desalentados se continua a perder pontos e a afastar-se do líder.
As mulheres precisam dos olhares, dos mimos, das palavras, de um pouco de sonho, de cenário, de vida cor-de-rosa para se abstraírem do branco e negro em que tão facilmente se transforma a rotina que asfixia a vida. Por isso andam sempre à procura de amor, nos homens ou nos filhos, tantas vezes humilhando-se, sujeitando-se, fingindo-se de burras...
Homens e mulheres, seres tão diferentes que quase diria incompatíveis...

Vou mudar de vida outra vez.
Vou mudar de casa, de cidade, de emprego. Ficam-se os amigos e a família mas vão existir novidades: colegas de trabalho que me vão olhar com desconfiança, companheiros de corrida que espero me digam “bom dia” depois de alguns encontros pela marginal todos os dias à mesma hora, novas rotas, outros hábitos, novos caminhos, o mesmo destino.
Perguntou-me a pessoa que me entrevistou, depois de rever o meu currículo onde são patentes as mudanças na minha vida – de emprego, de cidade, de projecto, de paradigma – como consigo eu ser tão positiva (pensaria ele em “levezinha”?) em relação à mudança.
Respondi-lhe prontamente que o que custa é mesmo a primeira vez.
Recordei a minha primeira experiência a fazer slide, em que me deixei ficar para último porque as minhas pernas não paravam de tremer, tendo alinhado apenas na travessia por cima de um lago pendurada numa corda, porque todo o grupo já estava na outra margem, a acenar-me, cheio de sorrisos, e eu não queria dar parte fraca e gritar do lado de cá que desistia como se fosse uma medricas histérica. A pior sensação quando se faz slide é perder o chão. Sentir que já só temos os calcanhares apoiados em terra firme e permitirmos ao nosso corpo aquele impulso que é apenas um movimento ligeiro para nos deixarmos voar, suspensos com corda e arnês, na máxima segurança objectiva e racional, mas mesmo assim possuídos por uma inexplicável adrenalina que começa por ser um medo instintivo e irracional mas que depois se transforma numa prova que é um prazer que nos eleva a auto-estima.
Quando fiz slide a primeira vez, fui de olhos fechados aos gritos durante mais de metade do trajecto. Quando percebi que afinal aquilo era giro já estava de novo em terra. Repeti a experiência mais algumas vezes. A sensação de medo manteve-se, mas aprende-se a dominar esse instinto tão primário, e mesmo que as pernas tremam de forma quase inconsciente, a nossa mente está preparada para o passo em frente no ar, para o salto no vazio e para o gozo da experiência.
Mudar é mesmo assim. Sentimos este pavor desarrazoado quando entramos na escola primária, quando avançamos para o segundo ciclo, quando deixamos o liceu e entramos na universidade, quando vamos à primeira entrevista de emprego, no primeiro dia de trabalho, quando estamos a caminho do altar no dia do nosso casamento. A experiência, a maturidade, a combinação química entre sensatez e audácia que nos fazem ser capazes de seguir em frente, ajudam-nos a encarar cada desafio com mais calma e naturalidade, mesmo que só aparentes.
A prática mais aterradora que já fiz foi rappel numa torre de 50 metros. Lembro-me de estar de costas voltadas para o solo, de ouvir o vento nos ouvidos, de ver ao longe os automóveis em ponto muito pequeno na auto-estrada. O instrutor estava a segurar-me o arnês e eu não conseguia largar as minhas mãos das suas. O pânico era tanto que comecei a chorar, como chora uma criança de cinco anos quando tem um daqueles ataques de choro compulsivo. Encolhi-me sobre mim própria e implorei de forma ridícula “Não me largue! Não me largue! Não me largue!”
Para quem não sabe, o rappel é uma actividade de descida de uma parede ou precipício em que, na versão que tentei, o praticante faz a descida com os pés apoiados na parede, numa posição do corpo a tender para o horizontal para se manter em equilíbrio. Para que a coisa seja bem feita, temos de estar de costas paralelas ao chão, o que significa que temos de deixar o nosso corpo esticar-se, manobra que se torna quase impossível quando o pânico nos paraliza.
O instrutor que me acompanhava, militar habituado a treinar fuzileiros, olhou-me nos olhos e gritou “Paula Costa, toca a erguer a cabeça!” No caso, erguer a cabeça implicava desenrolar o corpo e ficar na tal posição horizontal que me permitiria efectuar a descida com maior facilidade. Quando consegui colocar-me na postura correcta ele vociferou “Tudo o que você fizer na vida, tem de fazê-lo assim: de cabeça erguida!”
Desci os cinquenta metros sempre de lágrimas nos olhos, e de cada vez que a descida se atrasava porque o meu corpo, incapaz de vencer o terror da vertigem se encolhia contra a minha vontade, ouvia o instrutor gritar “cabeça erguida!”
Quando cheguei ao chão tremia tanto que nem me conseguia suster em pé. Mas consegui superar a prova. De cabeça erguida!
A partir desta experiência é assim que avanço perante cada desafio da vida.
A mudança é pois o meu desporto radical preferido!
Espero que esta vontade de abraçar novos desafios me acompanhe até ser velhinha... Só assim creio que é possível avançar e continuar a crescer (mesmo que o peso da idade nos vergue a coluna e encolha a estatura).
Teorias dos outros
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