Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.

Segunda-feira, 20 de Junho de 2011
Mulheres balzaquianas

 

Na semana passada, quando despi o casaco para me sentar à mesa, o meu namorado que eu amo, e que me conheceu há dois anos com uns joviais cinquenta e seis quilos, fez o seguinte comentário:

“As mulheres depois dos trinta têm uma tendência evidente para se tornarem balzaquianas.”

A vantagem de se ter um namorado muito para lá do básico, é que se ouvem críticas em forma de dissertação filosófica - nem sempre
decifráveis sem ter de googlar o assunto - e não bocas foleiras do género “esse decote fica-te ridículo”.

A desvantagem de namorar uma mulher do norte é que as respostas saem escorreitas, sem grandes cerimónias nem palavras difíceis: “a
culpa não é do decote” retorqui “é das mamas que estão maiores porque eu
engordei uns quilos!”

A expressão mulher balzaquiana surgiu de uma obra que escreveu Honoré de Balzac no sec.XIX intitulada “A mulher de 30 anos”.

À época, uma mulher com esta idade, carregava imensas obrigações sociais inerentes ao seu estatuto de casada e de mãe
de família, raras vezes feliz ou realizada na sua recatada clausura.

Balzac descreve a mulher de trinta anos com uma acidez pejorativa. Com o passar do tempo, apesar de todas as mudanças sociais
decorrentes da emancipação, a expressão mulher balzaquiana mantém uma conotação negativa.

Na sociedade actual, uma mulher de trinta anos provavelmente não é ainda casada, ou então já se divorciou e celebrou o evento
numa festa só com amigas, clama vitoriosa a sua independência, colecciona casos e flirts sem sentimentos de culpa e padece de uma tendência que quase parece natural para se continuar a vestir e a comportar como se estivesse no auge dos vinte e cinco.

Olhando em redor, para o meu grupo de amigas, muitas delas com filhos adolescentes, tão próximas dos cinquenta como estou eu
dos quarenta, noto que realmente, à medida que o tempo passa, passamos a vestir mais jeans do que calças masculinas, mais tops do que camisas, mais biquinis do que fatos-de-banho, mais acessórios da Parfois do que da Casa Batalha.

Reconheço que o fazemos porque não queremos parecer umas senhoras. Lembro-me perfeitamente de ser adolescente e de achar as
pessoas com quarenta já muito crescidas. Fico em estado de choque quando reencontro uma colega da faculdade e a vejo com colar de pérolas, saia pelo joelho e sabrinas.

A verdade é que ultrapassar os trinta marca mais o corpo do que o espírito.

Até há bem pouco tempo só engordava nas ancas e no rabo e com uma semana a sopa, maçãs e água a coisa resolvia-se. Agora a gordura já se eleva para o umbigo, numa almofadinha que para já é só um pneu de bicicleta mas que, se eu não voltar a correr dez quilómetros três vezes por semana, se pode converter numa roda de jipe. Em relação ao volume no peito não me importo nada. Tenho na minha “wishlist” um implante de silicone como presente pelo quadragésimo aniversário, mas dado o efeito “wonderbra” que agora consigo ostentar só porque me ficam apertados os vestidos, talvez deva pegar no valor das “bolas de plástico” e utilizá-lo numa lipo.

Por outro lado, se com muito esforço e fundamentalismo alimentar, consigo perder os quilos que surgem sem que eu perceba como, fico magra na cara mais do que em qualquer outro sítio, o que revela um inestético vinco do nariz até à linha do queixo, sempre que esboço um sorriso.

Com o avançar do tempo imagino que me vão surgir gorduras indesejáveis e inexplicávies, como aquela almofada sobre o omoplata
que salta do soutien na maior parte das senhoras com as quais balzaquiana alguma quer ser parecida.

Pensando bem, a expressão “mulher balzaquiana” não constituí uma crítica mas sim um tremendo desafio...

 



publicado por teoriasdacosta às 20:44
link do post | comentar | ver comentários (6) | adicionar aos favoritos
 O que é? |

Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010
Os homens não sabem o que é o amor... mas percebem alguma coisa sobre sexo

 

Os homens podem não saber o que é o amor mas percebem cada vez mais de sexo. Já é possível falar em ponto G sem que ele pense que estamos a referir-nos a uma constelação ou a qualquer problema com a embraiagem. Até já há homens que conseguem perceber onde é que ele está e tiram partido de tamanha sabedoria!

Um famoso médico americano, o equivalente à avó Sue (Johanson) mas apenas com direito a programa de rádio (há dezoito anos) – o Dr. Drew Pinsky – fez há tempos revelações fabulosas no programa da Oprah.

Intimidade ou “sexo é como uma pizza”

A primeira foi que os homens a partir dos quarenta, porque começam a produzir menos testosterona, dão mais valor à intimidade. Querem uma relação mais profunda. Para além de sexo, querem afecto, com sorte até procuram o amor! A ironia é que intimidade para os homens é um conceito indizível. Segundo o Dr. Drew, para um homem sexo é como uma pizza. Pode ter só queijo, fiambre e oregãos e eles acham boa, pode ter chourição, anchovas, azeitonas, ananás e outros pedacinhos, e o que muda é que fica melhor ainda. Portanto, querer intimidade é querer sexo na mesma, bom como deve ser, mas com queijo extra ou com ingredientes adicionais por cima...

Na prática, segundo este expert, quando um homem começa a deixar de querer “facturar” todas as mulheres que acha atraentes – sim, porque para eles a questão sexual baseia-se exclusivamente na atracção física -, o que ele quer é encontrar alguém que o atraía, claro, mas que se interesse pelas mesmas coisas que dão sentido à sua vida. Não é preciso gostar de futebol, de ir à pesca, jogar poker ou engolir de golada um copo de cerveja. Mas é importante que alinhe em programas tipo um jantar improvável numa tasca castiça, ature os amigos dele mesmo quando estão com os copos, têm conversas chatas ou andam deprimidos, não embirre com a sweat velha que ele usa em casa, não o chateie com a tampa da sanita levantada nem com os pêlos na banheira. Segundo o conceito de intimidade deles, quando a relação passa para “outro nível” o homem começa a dar mais importância ao que a parceira sente, não tanto em termos de sentimentos profundos e complicados como o amor, mas pelo menos em ter a certeza de que a excita. Ainda e sempre.

Sexo oral estimula o ego

Outra das revelações extraordinárias é que os homens gostam de sexo oral não porque é bom (mau sexo oral não existe, diz o médico, a não ser que seja com um vampira, digo eu), mas sim porque o pênis é uma espécie de prolongamento do seu ego, logo uma relação íntima com essa parte do corpo faz parte do “ser íntimo”. Um sinal de que a relação se está a tornar séria é quando a este nível “a coisa” se torna recíproca.

A monogamia é mais prática

Mais uma revelação que achei surpreendente foi que, apesar de eles acharem que a monogamia pode ser uma seca, ter um caso extra-conjugal ou andar com duas mulheres ao mesmo tempo dá tanto trabalho que os homens só cedem à tentação se o que têm em casa é uma pedra de gelo, se a relação anda pelas ruas da amargura ou se estão numa daquelas crises de idade em que precisam de dar uma queca com outra mulher para confirmarem que ainda são viris.

Na cama os homens são pilotos de aviões

Outra das perguntas que nos fazemos é “o que pensam eles quando estão com uma mulher na cama?” Responde o Dr. Drew que para um homem o acto sexual é como aterrar um Boeing topo de gama carregado de alminhas. Não pensam em nada. Apenas em sentir a vibração das rodas a tocarem na pista, travar em segurança e ouvir os aplausos da classe média que se senta nas últimas filas.

A única preocupação de um homem é conseguir perceber se a mulher o está a achar suficientemente bom. Não propriamente se ela está a gostar ou se está a sentir prazer, mas se a performance dele faz com que ela vá contar as amigas no dia seguinte que esteve na cama com um garanhão. Sim, porque as mulheres partilham estas inconfidências com as amigas, a não ser que estejam muito apaixonadas, situação em que preferem manter os detalhes íntimos como um tesouro só para si. Eles não falam tanto. Podem comentar conquistas rápidas mas também são reservados em relação à mulher que lhes toca o ponto G do coração, se calhar com receio de atiçar a cobiça.

Mulheres com iniciativa é bom... até ao dia seguinte

Os homens não se sentem intimidados quando uma mulher toma a iniciativa. Até podem gostar no momento porque isso poupa-lhes tempo e conversa. A única questão é que no dia seguinte podem acordar a pensar “mas será que ela faz isto com todos os gajos?” e a partir daí perdem a vontade de andar de mão dada com uma mulher de quem desconfiam.

O maior medo do homem: demonstrar sentimentos porque isso faz dele um marica

Outra revelação apocalíptica: o maior receio de um homem é que uma mulher se aperceba do poder que exerce sobre ele. Para eles as mulheres são seres misteriosos, de sentimentos profundos, de manuseamento complicado e humores tão instáveis como o anti-ciclone dos Açores.

Os homens não gostam de falar sobre emoções nem sentimentos, se calhar porque não perdem muito tempo a pensar nisso, mas acima de tudo porque são educados segundo a regra de que a vulnerabilidade associada à expressão do que sentimos, dos medos, das aspirações, dos traumas, dos desejos mais ocultos, não é coisa de macho, pelo que os únicos homens que falam sobre estas coisas são mesmo os maricas. Os homens têm dificuldade em revelar-se da mesma forma despudorada com que uma mulher desaba em lágrimas em frente às suas amigas porque isso os faz sentirem-se fracos. Segundo o código genético que transportam, os homens têm de ser fortes, andar à caça, lutar pelo território, defender a mulher e a família, pelo que uma lágrima no canto do olho, uma hesitação, uma dúvida é uma falha na sua masculinidade que não se devem permitir.

Na prática, para entender um homem é preciso saber ouvir os silêncios, medir as distâncias, interpretar os sinais que nos dizem que ele quer ficar lá por casa ou está só à espera de uma deixa para sair.

 



publicado por teoriasdacosta às 21:31
link do post | comentar | ver comentários (8) | adicionar aos favoritos
 O que é? |

Quinta-feira, 19 de Agosto de 2010
DVD (teoria sobre homens e mulheres,embora não pareça...)

 

Uma amiga do FaceBook, a Raquel Tinoco, que comenta assiduamente a página das teorias, escreveu a propósito do último texto que há homens D.V.D.: Deita – Vira – Dorme.

Achei a expressão uma delícia! Confesso que não conhecia a categoria - provavelmente ando a sair pouco ou então estou a ficar ultrapassada -, mas conheço o género pois já partilhei a cama com um espécimen que adormecia em nano-segundos e ressonava em stereo!

Uma outra amiga que já por aqui tenho citado, a queridíssima Isabel, comentava este fim-de-semana que o homem ideal são quatro ou cinco homens diferentes. Como não encontro siglas para definir cada género, aqui vai uma síntese das características que uma mulher procura e que raramente se encontram num só ser:

- Ao nível do aspecto físico, uma coisa entre o George Clooney e o Brad Pitt. Chamemos-lhe um Clopit.

- Como pessoa, porque gostamos de homens inteligentes com carisma e com um sentido de humor que não seja brega, talvez uma mistura do Barak Obama com o Seinfeld, isto é, um Obeld.

- Como companheiro, uma espécie de “Querido Mudei a Casa”, que mude lâmpadas, saiba dar marteladas sem rachar paredes e resolva qualquer problema com hardware, de preferência que vá às compras e que seja um chef gourmet. Se juntarmos o Querido (do programa da SIC Mulher) com o Jamie Oliver obtemos um Quimie.

- Como amante, um homem romântico, que faça surpresas, que seja meigo, que goste tanto de beijos e carícias como de sexo hard core. Neste caso, acho que não há referência masculina que possa utilizar porque alguém com estas características só mesmo outra mulher…

No caso dos homens, também me parece que o ideal que eles procuram resulta da combinação de alguns estereótipos:

- A boneca, irrepreensivelmente arranjada mas sem exageros, que saía da cama com boa cara, que não tenha banhas nem celulite, e que não engorde em circunstância alguma, mesmo depois de ter filhos ou de uma semana a comer petiscos no Alentejo.

- A melhor amiga, sempre disponível para o ouvir, que não julga nem critica, lhe dá umas palmadinhas nas costas e o compreende.

- A boa menina, educada, silenciosa nos momentos em que deve estar calada, comunicativa quando o campanha a qualquer sítio como partenaire, culta mas sem Q.I. de cientista porque a intelectualidade reduz o interesse de uma mulher.

- A governanta, que assegura que há comida no frigorífico, que as camisas estão engomadas sem vincos e que recolhe as roupas e tralhas que ele deixa a atravancar o caminho.

- A bomba sexual, que nunca tem dores de cabeça, que alinha em todas as brincadeiras mas que é apenas explosiva q.b. porque eles gostam de acreditar que são a melhor coisa que já nos passou entre as pernas.

Em suma, tentar ser um pouco de tudo isto redunda em esquizofrenia na certa.

É por isso um milagre que de repente, depois de algumas cambalhotas e aventuras, nos surja no caminho o homem que é mais giro ao vivo do que nas fotografias; que nos desafia com a sua cultura mas que consegue ser suficientemente tonto para nos fazer rir; que se preocupa com os watts da lâmpada da cozinha e que adora passar as mãos à volta da nossa cintura enquanto preparamos o jantar; e que quando nos leva para a cama não quer dar uma queca, quer fazer amor.

De igual modo, acho que um homem fica satisfeito quando encontra uma mulheraça, mesmo que ache um escândalo o dinheiro que ela gasta a arranjar as unhas e a colorir o cabelo; porreiraça, daquelas que falam sobre qualquer tema sem dizer muitas asneiras, ouvem com paciência o que eles dizem e até dão bons conselhos; maternais o suficiente para os ajudar a cuidar deles próprios, sem se tornar uma chata nem desatar a suspirar por um filho; com o nível intelectual adequado para não provocar embaraços, seja porque não sabe onde fica o Haiti seja porque delira com física quântica ou é tão sobredotada que se torna uma abstracta. Quanto à cama, pelo que consta não há mulheres frígidas há é homens que não sabem o que devem fazer…

 



publicado por teoriasdacosta às 21:25
link do post | comentar | ver comentários (1) | adicionar aos favoritos
 O que é? |

Sexta-feira, 13 de Agosto de 2010
Contra-teoria do capital erótico

 

A propósito do capital erótico, da controvérsia que suscitou o nome, porque há sempre quem associe erotismo a uma forma soft de pornografia, e das observações que me fizeram enunciando várias personalidades que se destacaram sem terem grandes vantagens nesta área, ocorreu-me o exemplo de Angela Merkel, a chanceler alemã.

Admiro imenso esta mulher possante e determinada, que não sei se sabem é licenciada e doutorada em Física (coisa que parece muito difícil a quem nem sequer percebe a relação entre água a ferver com o mecanismo da aceleração de partículas) e que foi Ministra da Mulher e da Juventude no governo de Helmut Kohl.

Outra curiosidade acerca de Angela Merkel é que o seu apelido foi herdado do primeiro marido. O que a acompanha agora, na sombra, é o segundo marido. Angela, que eventualmente já era conhecida como Merkel, foi prática e pragmática num tema que para muitos machos latinos daria por certo motivo para uma cena de pancadaria.

Angela Merkel foi ascendendo no seu partido porque se manteve sempre à margem dos escândalos de corrupção que afectaram a CDU na Alemanha. Subiu arduamente por mérito próprio, imaginando eu que entre aquelas mesquinhas jogadas de bastidores e lutas avaras pelo poder tenho sofrido grandes traições e sido inúmeras vezes preterida.

Angela foi a votos num contexto em que até os colegas do partido duvidavam da sua imagem de dona-de-casa roliça. Dizia-se que era enfadonha e provinciana. Temia-se que os pares a não respeitassem. Contudo, ao ser eleita Angela demonstrou que não é só com capital erótico que se tem sucesso na vida. Muitos dirão que lhe falta carisma, mas os seus eleitores viram nesta mulher de espírito prático e linguagem acessível a líder capaz de lhes resolver os problemas. Provavelmente não conseguiria granjear tanto respeito se tivesse um aspecto semelhante ao da Paris Hilton. O povo confia mais numa mulher sóbria do que numa sex symbol.

Angela tem uma série de factores que a penalizam, para além do género: é protestante da Alemanha do leste e a Alemanha sempre foi governada por homens católicos da Alemanha Ocidental; é divorciada, coisa que nem sempre fica bem como estado civil; e não tem filhos, apêndice que a sociedade tende a valorizar como sinal exterior que qualifica uma fêmea.

Uma vez no poder, num governo que é de coligação, Angela demonstrou como a sensibilidade e o bom senso, que só as mulheres sabem combinar nas doses certas, permitem assegurar estabilidade interna sem dramas nem tiranias, conduzindo eficazmente um gigante económico sem grandes sobressaltos nos mares agitados que dominam o mapa de recessão mundial. Foi firme quando teve de o ser, mas quase sempre sobressaiu pelas suas capacidades conciliadoras e pela habilidade negocial.

A Wikipedia define erotismo como um “conjunto de expressões culturais e artísticas humanas referentes ao sexo”. Duvido que existam muitos homens que pensem em Angela Merkel como uma “boa cama”. De qualquer forma, esta mulher não se serviu do seu aspecto físico para escalar no mundo da política. Provavelmente se o capital erótico de Angela fosse mais significativo ficava-se pelos corredores do parlamento porque ninguém reconhece a uma mulher muito bonita capacidade para mandar em alguém (a não ser em brincadeiras fetichistas…).

 



publicado por teoriasdacosta às 21:32
link do post | comentar | ver comentários (4) | adicionar aos favoritos
 O que é? |

Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010
Teoria do capital erótico

 

Esta teoria não é minha. É de uma socióloga da London School of Economics, Catherine Hakim, que defende que o capital erótico é o quarto mais importante activo que uma pessoa pode ter, em adição ao capital económico, social e cultural.

Por exemplo, não há dúvida alguma que Obama e a sua esposa têm capital erótico. Grande parte dos actores e modelos que nos entram pelos olhos em outdoors têm capital erótico. Pedro Passos Coelho também tem a sua cargazinha erótica, muito mais do que Sócrates, que agora anda um bocadinho em baixo, coitado, mas que há um par de anos até era um grisalho com pinta.

Catherine Hakim descreve o capital erótico como uma combinação de factores físicos e relacionais que condicionam o poder de atracção de uma pessoa. Este capital não será importante apenas para questões relacionadas com acasalamento – pois, apesar de nem sempre parecer, os machos não andam todos na selva à procura de fêmeas com o cio, nem as fêmeas se pavoneiam com o objectivo único de arranjarem parceiro -, mas também, e cada vez mais, para ter sucesso no mercado do trabalho, na política, no desporto, nas artes, nos media, na publicidade e em qualquer outra forma de interacção diária.

Ter capital erótico não equivale a ser bonito. É evidente que o lado estético conta. Sem hipocrisias nem fingimentos é absolutamente verdade que a nossa sociedade valoriza cada vez mais a aparência. Mas o capital erótico incluí uma série de características objectivas e outras tantas implícitas, como o sex appeal, o charme, a sociabilidade, a forma como uma pessoa se veste, se apresenta, se penteia, os adereços que utiliza, a capacidade para comunicar e para interagir com os outros.

O erotismo é uma característica mais facilmente associada ao sexo feminino. As mulheres desde sempre investiram mais no desenvolvimento das características que a autora classifica como “soft skills”, que incluem a empatia, a persuasão, a inteligência emocional, todas estas cambiantes do tal erotismo. Não quer isto dizer que para ter capital erótico é necessário fazer malabarismos e figuras tristes ao estilo dança do varão, baton vermelho com purpurina e cinto de ligas à vista. Estas produções estarão provavelmente mais próximas da pornografia.

A cultura ocidental está cada vez mais sexualizada. A O.M.S. desenvolveu um estudo que revela que as pessoas encaram a actividade sexual como factor essencial para a qualidade de vida. Para os homens a actividade sexual é ainda mais relevante (mesmo quando só em teoria) daí que toda a indústria relacionada com a comercialização de sexo continue orientada para este grupo. Numa perspectiva economicista da coisa, fazendo uma simples análise entre lei da oferta e da procura, concluí-se facilmente que, sendo o mercado do trabalho ainda dominado pelos homens nos lugares de chefia, uma mulher com capital erótico tem muito mais probabilidades de subir na vida.

Atenção que ter capital erótico e utilizá-lo em benefício próprio não significa flirtar, ter casos ou sentar-se no colo de quem quer que seja. Basta ter o aspecto e o carisma que agradam ao sexo oposto e que fazem com que as outras mulheres queiram ser nossas amigas, mesmo que no seu íntimo nos queiram ver a engordar, a tropeçar nos saltos ou infelizes ao ponto de chorar lágrimas tingidas a rimmel.

Curiosamente, escreve Catherine Hakim que, se por um lado, as sociedades patriarcais se edificam em ideologias morais que inibem as mulheres de explorar o potencial desse capital erótico, por outro, as teorias feministas acabam por seguir os mesmos princípios que estas sociedades reforçando ainda mais as proibições morais às actividades de cariz sexual das mulheres. Por muito que as feministas tenham dificuldade em o aceitar, homens e mulheres não são iguais. A desiguladade em termos de líbido, por exemplo – a partir dos trinta o interesse sexual das mulheres tende a descer situando-se em níveis inferiores ao dos homens na mesma faixa etária – permite às mulheres tirar muito maior partido do seu capital erótico para chegar onde querem sem se enrolarem com os homens que se atravessam no seu caminho.

 



publicado por teoriasdacosta às 21:25
link do post | comentar | ver comentários (2) | adicionar aos favoritos
 O que é? |

Quarta-feira, 11 de Agosto de 2010
O António que era feio

 

O António que morreu era feio.

Feio de apelido e feio na acepção estética do termo.

Curioso como uma pessoa não bonita possa ter chegado tão longe, granjeado tanta simpatia, conquistado tantos corações. Normalmente as pessoas feias da turma são aquelas de quem não conseguimos recordar o nome porque nos habituamos a tratá-las por alcunhas tipo o “orelhas”, a “testas” (o meu cognome), o “bucha”, o “pencas”, o “minorca”...

As pessoas feias, e nisto falo com propriedade, tendem normalmente a ser extrovertidas e divertidas, para que sejam associadas ao adjectivo mais positivo “simpática” ou “engraçada”, ou então fecham-se num casulo numa hibernação de décadas, entrando na vida adulta com sérios problemas de auto-estima.

Eu, que fui feia até aos dezoito, passei depois por uma fase em que “tinha dias” - umas vezes andava próxima do giro noutras mais parecia uma palhaça - tendo a partir dos vinte desabrochada neste tipo de mulher que tanto agrada ao sexo oposto – a loiraça - optei, felizmente, pela postura da miúda porreira que fazia rir a turma, deixava copiar nos testes e agia como uma sonsa pouco inteligente sempre que aceitava a chacota com uma infinita capacidade para me rir de mim própria.

Ainda bem que assim foi. Se eu aos catorze fosse bonita, como muitas das minhas colegas de turma, provavelmente tinha crescido para me tornar uma parva. Assim a parvoíce só passou por mim naqueles dias em que estava farta de ser rejeitada e descarregava as minhas frustações com uma agressividade velada dirigida às pessoas mais próximas.

Admiro muito aqueles que não sendo bonitos conseguem voar alto. É que os patinhos feios são sempre arredados do bando.

Quando esse voo se faz no mundo do espectáculo a admiração é ainda maior. As caras bonitas são mais fotogénicas, mais apelativas, conquistam mais audiências. As caras feias têm de ser o rosto de uma personalidade com muito carisma para singrarem nesse meio.

Uma cara bonita é mais comercial. Uma cara feia nem sequer é bem atendida no comércio.

Ser mulher acresce dificuldades ao padrão de beleza.

É que para uma mulher singrar, apenas e só por ser mulher – e este discurso não é feminista porque eu sei o que tive de batalhar para consolidar uma carreira –, tem de se esforçar em dobro. A desvantagem de ser feia é que ninguém pára para nos ouvir. É preciso falar mais alto, mais forte e treinar aquela espécie de simpatia que quase desencadeia nos outros um sentimento de piedade. A desvantagem de ser bonita é que todos páram para nos deixar passar só porque nos querem apreciar o rabo. Até somos capazes de ter direito de antena mas quando nos levantamos para falar em frente do projector o mais certo é que grande parte da audiência nos esteja a olhar para as mamas.

Mulheres como Hillary Clinton ou Maria de Belém, sendo "interessantes" - outro adjectivo políticamente correcto para classificar as que se afastam do ícone da Barbie - conseguiram destacar-se em meios onde os homens dominam. Mas a sociedade não aprecia mulheres assim e raros são os homens que se contentam com o título "marido de..." sendo eles os primeiros a desencorajar as mulheres que lhes dão o braço de fazer carreira (pelo menos uma, que brilhe mais do que a deles).

António Feio fez carreira. Seja lá o que isso for.

Como qualquer artista nacional teve picos de glória e momentos de miséria. Passou de bestial a besta em ciclos sem cadência.

Sempre feio. Sempre António.

Sem rasgos de vaidade arrogante nas fases de maior fama, nem ataques de raiva insolente quando não tinha trabalho.

Pelo que consta viveu bem a vida. Como excessos, talvez.

Viveu de forma feliz, sem chocar nem magoar ninguém.

É desta forma pacífica que os feios andam por aí, sem criar grandes ondas, para não chamar atenções sobre si nem gerar ofensas ou provocar despeito.

António Feio foi um vencedor. Mesmo quando confrontado com uma doença que se previa mortal manteve um optimismo que até nos convencia, num discurso apaziguador. Não perdeu o sorriso de uma inocência traquina que transformava o seu rosto feio atenuando as desconformidades e suavizando o que era imperfeito.

Este actor de cara estranha está agora morto. Mas enquanto andou com os pés por esta terra foi feliz dentro da sua pele estragada e do seu corpo desengonçado. Viva o Feio!

 



publicado por teoriasdacosta às 08:58
link do post | comentar | ver comentários (4) | adicionar aos favoritos
 O que é? |

posts recentes

Mulheres balzaquianas

Os homens não sabem o que...

DVD (teoria sobre homens ...

Contra-teoria do capital ...

Teoria do capital erótico

O António que era feio

O Porto é azul

Cheguei à fase das reuniõ...

Loiras que não são dahhh ...

Encontrar a beleza em cad...

N.º de visitas até ao momento
Web Counters
Blockbuster Video
Posts mais comentados
últ. comentários
Merci Kurioso!Por acaso o francês está a correr-me...
Saudações proletárias João Rui!E já agora boa sema...
Ora viva "Teorias".Sim, haja bom senso e capacidad...
Como é habitual, eu vou lendo os seus posts e toma...
Obrigada Sandra!Nem imagina como me realiza saber ...
Olá Sandra!Bem-vinda à minha "salinha de estar".Ag...
tags

todas as tags

Teorias no FaceBook
http://teoriasdacosta.blogs.sapo.pt/ | Divulga também a tua página
arquivos

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Site meter
Site Meter
Visitantes on-line
Online Users
Maio 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


links
blogs SAPO
subscrever feeds