
Estou ainda a recuperar de uma jornada de mudanças para uma casa nova com potencial para ser um lar assim que se desentulhem todos os centímetros quadrados de área útil actualmente ocupados por caixas, caixinhas, caixotes, malas, sacos do IKEA, molhos e montes de coisas avulso sem inventário nem ordem. Temos pelo chão todos os pedaços do que somos, embrulhados em jornal ou plástico perfurado, que pretendemos pendurar numa parede, alinhar numa estante, colocar em santuário ou pedestal para a partir daí retomarmos sem medos o rumo que nos fez cruzar na mesma estrada.
Até esta manhã ainda me doíam as costas.
Depois do amanhecer passei todo o dia angustiada com uma inexplicável dor de alma.
Seis da manhã e rumo ao aeroporto para mais uma viagem de trabalho. Ainda não eram sete, a cafeína não tinha sequer começado a correr pelo sangue, e eis que sou abalroada pela conversa de uma senhora, minutos antes da descolagem, que argumentava com o pai da sua filha as opções que friamente colocava como hipóteses de resolução de fim de ano. O seu tom de voz era tão agreste e desapaixonado que a decisão que a meu lado se cumpriu deixou-me absolutamente prostrada.
Ameaçava ela que emigraria. Respondia ele, presumo eu, que não se importava. Pelo meio tempo para uma azeda troca de palavras com a cria, que se resumiu a um conjunto de ordens, recomendações e ameaças de castigo, sem um beijinho doce na despedida, apenas um virtual toque de lábios na face, sem som, sem sabor e sem aquele calor cheiroso que só encontramos nos braços da mãe que nos ama.
Fiquei tão envergonhada com o despudorado despejar de azedume, com reminiscências de combate em arena com arremessos de luta greco-romana, que não tive sequer coragem de olhar para a mulher de gelo que tão laconicamente se desprendia de um moribundo projecto que em algum momento sonhou como conto de fadas.
Não me incomodam as opções dos outros. Incomodam-me sim os diálogos beligerantes, esta cruel troca de palavras, disparadas por bocas que num passado que não estará tão distante se engoliram, suspiraram em uníssono, sussurraram meiguices, repetiram que se amavam e adormeceram sobre a mesma almofada num abraço embrulhado de pernas e braços, desfeito entre sorrisos e gargalhadas.
Incomoda-me também esta proximidade de vidas que se sentam ao nosso lado, tocam no nosso ombro, empurram os nossos braços, usurpam o nosso espaço, nos subtraem o ar de oxigénio e de vácuo, vociferando sem pejo nem recato os seus problemas trágicos.
Fenómenos do tipo Big Brother, que agora se chamam “Casa dos Segredos”, são um prolongamento deste voyerismo que, no meu caso, é involuntário, mas que mescla as nossas vidas de "Querido mudei a casa" com as vidas destas personagens de novela mexicana, com tiques de tia de Cascais ou truques de "playboy de vão de escada".
Acho incrível a descontracção com que uma estranha disserta em Dolby Surround sobre a sua vida privada.
É igualmente desconcertante assistir à versão moderna do caixeiro viajante em espécime “frequent flyer” a falar num inglês macarrónico, num portunhol aldrabado ou num português de cigano com clientes, fornecedores ou quem sabe com um telemóvel desligado, discutindo negócios que deviam ser segredo com uma satisfação amplificada, debitando números que são milhões, descrevendo projectos que são milionários, como se ainda fosse crível que numa Europa que se encolhe dentro de uma tanga, proliferassem oportunidades gordas como as vacas da Alemanha (sem qualquer piada subliminar à senhora Merkel).
Não quero saber quanto ganha o senhor careca, quanto custou o telemóvel do homem de bigode, quantos casos tem a cinquentona de cabelo armado que confessa à amiga que com ela viaja que desde o divórcio tem levado tudo o que mexe para a cama.
Quero que me deixem adormecer enquanto as hospedeiras fazem uma coreografia sem graça pelo corredor, alimentando o mito dos coletes que ninguém sabe insuflar ou das mascaras de oxigénio que como um milagre nos salvam.
Acima de tudo quero que me permitam manter a minha vida protegida destes ataques suicidas de gente com egos maiores do que a auto-estima, que desconhecem a dimensão do universo do bom senso, não percebendo também que a reserva nos protege com uma áurea de mistério, e que só assim nos conseguimos isolar num nenúfar soalheiro neste lago de águas turvas cujo fundo é feito de lodo e de lama.

Ocorreu-me um destes dias, depois de uma conversa casual, sem pretensões nem raciocínios elaborados, que afinal esta coisa da felicidade que todos temos como quimera, é afinal uma futilidade.
Dizia-me o meu interlocutor, homem, está claro - nestes assuntos tenho que admitir que os homens com alguma inteligência facilmente passam de básicos a pragmáticos -, que quando se é casado décadas com uma pessoa, a namorada de longa data, a mulher ao lado de quem se cresceu, amadureceu, escalou até à posição de pai de família respeitável e doutor-não-sei-das-quantas, não se questiona de forma tão leviana, neste registo de aliança no dedo, contas conjuntas, mães, pais, avós e outra família alargada, qual o coeficiente de felicidade.
Explicava-me ele que quando se faz amor durante tantos anos com a mesma pessoa, se toma aquele cheiro como certo, o sabor como familiar, as posições como confortáveis, não se estranha o silêncio, as rotinas feitas de horários possíveis e dias de semana prováveis. É claro que o sexo oposto desperta curiosidade. Haverá uma fase entre a crise dos trinta e a dos quarenta, entre o estar farto das festas dos miúdos aos fins-de-semana, da logísticas das compras e dos almoços de família, a calvície à espreita e os primeiros cabelos brancos, em que se tem efectivamente vontade de conhecer o lado do lá.
Há muitos que vão (e não estou a falar de homosexualidade mas de “facadinhas no matrimónio”), mas quase todos voltam. E não é só porque com uma pensão de alimentos se torna difícil pagar uma outra casa e financiar a vida colorida de homem divorciado. É porque na prática, depois do deslumbramento do sexo em sítios inusitados, da lingerie ousada, das posições acrobáticas e dos orgasmos em stereo com dolby surround, as relações convergem e estabilizam naquele destino macio e confortável que é um sofá onde há um sítio que é o nosso, um sábado à noite tranquilo e um domingo com almoço prolongado.
A felicidade está afinal num património que é um lugar comum, um sentimento de pertença, naquela sensação quentinha que é a familiaridade.
A felicidade é como a camisola velha ou como as pantufas fofas que enfiamos com prazer sempre que nos encontramos em casa.
A infeliciade deriva da incerteza, do não sabermos como estamos amanhã.
Nunca seremos donos absolutos do nosso destino e a vida está repleta de variáveis incontroláveis, mas no mínimo, dá-nos alguma segurança voar em trapézios com rede, sabermos em que cama vamos dormir, se acordamos sós e satisfeitos ou sózinhos e amargurados.
Pelos vistos, os sentimentos que nos enevoam os dias e induzem ataques de pânico, ultrapassam-se, minimizam-se, relativizam-se com um colo conhecido, um abraço seguro, um gesto de mimo desinteressado, um corpo que recebe o nosso mesmo que o sexo não seja cinematográfico.
A ausência de felicidade é apenas uma dúvida. A dúvida. Um conjunto de dúvidas metódicas.
Muitas vezes, nem que seja apenas por momentos, estas dúvidas dissipam-se quando o nosso ser frágil e cansado de aventuras se encaixa no corpo onde tatuamos aos poucos a nossa identidade.

Tive em tempos um director que dizia que quando queríamos passar uma mensagem ou ideia devíamos reger-nos pela regra K.I.S.S.: Keep It Simple and Stupid.
Este fim-de-semana, em conversa com uma amiga sobre um assunto que me aterroriza – as chamadas “relações adultas” – dizia-lhe que o amor, e seus sucedâneos ou equivalentes, só são autênticos quando são simples. Talvez até um pouco estúpidos. Básicos. Sem pechibeques nem cães de loiça, sem naperons com rendas, flores de plástico e outros adereços kitch.
Nós os adultos que nos atiramos de cabeça para as relações – ou então a pés juntos ou ainda devagarinho como fazemos no mar quando a água está muito fria – temos todos esqueletos no armário, casos mal resolvidos, feridas de guerra e uma panóplia imensa de medalhas e cicatrizes. Mas quando de repente conhecemos alguém com quem nos identifcamos – sim, porque o “nunca” é uma palavra que a experiência nos ensina ser demasiado definitiva – esquecemos as promessas, as juras de raiva, as resoluções de bom senso, os valores e os princípios.
Se aquela pessoa nos parecer a “tal” estamos dispostos a correr o risco.
Quando não estamos, quando jogamos à defesa, levantamos objecções, erguemos obstáculos ou questionamos cada suspiro, então não amamos de verdade, gostamos um pouco, talvez mais do que gostamos de chocolate, de praia ou do Benfica, mas não gostamos o suficiente para permitir que aquele sentimento bom que nos eleva para lá das nuvens se apodere do nosso corpo, tinja de branco-luz a nossa alma e encha de cor os nossos nebulados dias.
Por mais voltas que sejam dadas, por muitas equações, raciocínios lógicos ou divagações filosóficas que se construam, no final, na essência mais humana do que somos, tudo se resume a uma igualdade quase infantil “eu gosto de ti = tu gostas de mim”.
Quando essa igualdade não se verifica, a relação até pode funcionar a curto prazo, mas há um momento em que os “ses” e “poréns” , os avisos à navegação e os alertas de perigo fazem com que uma das partes volte atrás. A que não gosta o suficiente, porque há uma sensação de vazio imensa que nos submete quando falta aquele “friozinho na barriga”, ou a que gosta mais do que é gostada, porque já tem no currículo muitas noites de lágrimas e não está disposta a massacrar o seu coração ainda dorido.
Relações adultas são aquelas em que as pessoas conversam muito antes do primeiro beijo ou depois da primeira queca.
Amores maduros são aqueles a que nos entregamos com um afrodisíaco delírio infantil, em que trememos com o nervosismo do primeiro toque de lábios, em que antecipamos com uma angústia feita de desejo a primeira noite íntima.
Conversas de adultos são coisas complicadas. Amores entre pessoas maduras são coisas simples.

Os homens podem não saber o que é o amor mas percebem cada vez mais de sexo. Já é possível falar em ponto G sem que ele pense que estamos a referir-nos a uma constelação ou a qualquer problema com a embraiagem. Até já há homens que conseguem perceber onde é que ele está e tiram partido de tamanha sabedoria!
Um famoso médico americano, o equivalente à avó Sue (Johanson) mas apenas com direito a programa de rádio (há dezoito anos) – o Dr. Drew Pinsky – fez há tempos revelações fabulosas no programa da Oprah.
Intimidade ou “sexo é como uma pizza”
A primeira foi que os homens a partir dos quarenta, porque começam a produzir menos testosterona, dão mais valor à intimidade. Querem uma relação mais profunda. Para além de sexo, querem afecto, com sorte até procuram o amor! A ironia é que intimidade para os homens é um conceito indizível. Segundo o Dr. Drew, para um homem sexo é como uma pizza. Pode ter só queijo, fiambre e oregãos e eles acham boa, pode ter chourição, anchovas, azeitonas, ananás e outros pedacinhos, e o que muda é que fica melhor ainda. Portanto, querer intimidade é querer sexo na mesma, bom como deve ser, mas com queijo extra ou com ingredientes adicionais por cima...
Na prática, segundo este expert, quando um homem começa a deixar de querer “facturar” todas as mulheres que acha atraentes – sim, porque para eles a questão sexual baseia-se exclusivamente na atracção física -, o que ele quer é encontrar alguém que o atraía, claro, mas que se interesse pelas mesmas coisas que dão sentido à sua vida. Não é preciso gostar de futebol, de ir à pesca, jogar poker ou engolir de golada um copo de cerveja. Mas é importante que alinhe em programas tipo um jantar improvável numa tasca castiça, ature os amigos dele mesmo quando estão com os copos, têm conversas chatas ou andam deprimidos, não embirre com a sweat velha que ele usa em casa, não o chateie com a tampa da sanita levantada nem com os pêlos na banheira. Segundo o conceito de intimidade deles, quando a relação passa para “outro nível” o homem começa a dar mais importância ao que a parceira sente, não tanto em termos de sentimentos profundos e complicados como o amor, mas pelo menos em ter a certeza de que a excita. Ainda e sempre.
Sexo oral estimula o ego
Outra das revelações extraordinárias é que os homens gostam de sexo oral não porque é bom (mau sexo oral não existe, diz o médico, a não ser que seja com um vampira, digo eu), mas sim porque o pênis é uma espécie de prolongamento do seu ego, logo uma relação íntima com essa parte do corpo faz parte do “ser íntimo”. Um sinal de que a relação se está a tornar séria é quando a este nível “a coisa” se torna recíproca.
A monogamia é mais prática
Mais uma revelação que achei surpreendente foi que, apesar de eles acharem que a monogamia pode ser uma seca, ter um caso extra-conjugal ou andar com duas mulheres ao mesmo tempo dá tanto trabalho que os homens só cedem à tentação se o que têm em casa é uma pedra de gelo, se a relação anda pelas ruas da amargura ou se estão numa daquelas crises de idade em que precisam de dar uma queca com outra mulher para confirmarem que ainda são viris.
Na cama os homens são pilotos de aviões
Outra das perguntas que nos fazemos é “o que pensam eles quando estão com uma mulher na cama?” Responde o Dr. Drew que para um homem o acto sexual é como aterrar um Boeing topo de gama carregado de alminhas. Não pensam em nada. Apenas em sentir a vibração das rodas a tocarem na pista, travar em segurança e ouvir os aplausos da classe média que se senta nas últimas filas.
A única preocupação de um homem é conseguir perceber se a mulher o está a achar suficientemente bom. Não propriamente se ela está a gostar ou se está a sentir prazer, mas se a performance dele faz com que ela vá contar as amigas no dia seguinte que esteve na cama com um garanhão. Sim, porque as mulheres partilham estas inconfidências com as amigas, a não ser que estejam muito apaixonadas, situação em que preferem manter os detalhes íntimos como um tesouro só para si. Eles não falam tanto. Podem comentar conquistas rápidas mas também são reservados em relação à mulher que lhes toca o ponto G do coração, se calhar com receio de atiçar a cobiça.
Mulheres com iniciativa é bom... até ao dia seguinte
Os homens não se sentem intimidados quando uma mulher toma a iniciativa. Até podem gostar no momento porque isso poupa-lhes tempo e conversa. A única questão é que no dia seguinte podem acordar a pensar “mas será que ela faz isto com todos os gajos?” e a partir daí perdem a vontade de andar de mão dada com uma mulher de quem desconfiam.
O maior medo do homem: demonstrar sentimentos porque isso faz dele um marica
Outra revelação apocalíptica: o maior receio de um homem é que uma mulher se aperceba do poder que exerce sobre ele. Para eles as mulheres são seres misteriosos, de sentimentos profundos, de manuseamento complicado e humores tão instáveis como o anti-ciclone dos Açores.
Os homens não gostam de falar sobre emoções nem sentimentos, se calhar porque não perdem muito tempo a pensar nisso, mas acima de tudo porque são educados segundo a regra de que a vulnerabilidade associada à expressão do que sentimos, dos medos, das aspirações, dos traumas, dos desejos mais ocultos, não é coisa de macho, pelo que os únicos homens que falam sobre estas coisas são mesmo os maricas. Os homens têm dificuldade em revelar-se da mesma forma despudorada com que uma mulher desaba em lágrimas em frente às suas amigas porque isso os faz sentirem-se fracos. Segundo o código genético que transportam, os homens têm de ser fortes, andar à caça, lutar pelo território, defender a mulher e a família, pelo que uma lágrima no canto do olho, uma hesitação, uma dúvida é uma falha na sua masculinidade que não se devem permitir.
Na prática, para entender um homem é preciso saber ouvir os silêncios, medir as distâncias, interpretar os sinais que nos dizem que ele quer ficar lá por casa ou está só à espera de uma deixa para sair.

A propósito do meu último texto, um amigo do Facebook enviou-me uma daquelas piadas enlatadas que creio valer a pena partilhar:
Sabem quais são os animais de sonho de uma mulher?
Um “Vison” no armário, um Jaguar na garagem e um Tigre na cama.
Mas na realidade, o que é que uma mulher tem?
Um Coelho no armário, um Panda na garagem e uma Lontra no sofá.
A propósito disto lembrei-me logo daquelas minhas teorias do National Geographic aplicadas às relações humanas pelo que não resisto a algumas dissertações.
Com que sonha hoje uma mulher?
O Vison parece-me uma coisa do passado. Com tanta associação fundamentalista de protecção aos animais quase que é preferível trocar a pele pelo plástico, não vá uma frustrada sexual qualquer descarregar todos os seus traumas de vida despejando-nos um balde de tinta vermelha pela cabeça a pretexto de que são iniciativas destas que salvam as baleias e os golfinhos.
O Jaguar é bom… Claro que não me importava de ter um apesar de o meu carro aspiracional ser outro. Mas nos dias que correm, com tanto desemprego, tanto emprego precário, uma redução generalizada das remunerações e fringe benefits, já fico contente se a minha entidade patronal me oferecer carro da empresa com cartão frota para o combustível.
O Tigre na cama, ou o Leão, o Cordeiro ou o Gatinho, ou o animal de estimação ou garanhão selvagem que nos apetece em cada momento, depende em muito daquilo que pedimos, e já agora, da forma como retribuímos. Há alturas em que queremos que nos mordam outras em que só desejamos uma carícia.
O difícil é mesmo definir o que se deseja.
Com este refúgio que são os planos B, os sonhos que em criança são realidades quase matemáticas, com descrição pormenorizada das cores, texturas e cheiros convertem-se, à medida que entramos na idade adulta até ao dia em que olhamos ao espelho e percebemos que estamos a ficar velhos, numa miragem difusa que tanto pode ser um castelo como uma tenda da Quechua.
A inteligência está em conseguir equilibrar de tal forma os nossos sonhos, os planos, as rotas, os trajectos, as metas e os destinos, para que a cada dia conseguirmos inspirar e expirar, manter a cabeça à tona, sem grandes lágrimas nem exageradas euforias. É aquilo a que se chama a gestão de expectativas. A cada dia. Um dia de cada vez.
Este texto se calhar soa um pouco a livro de auto-ajuda, conversa do programa da Oprah ou artigo de três páginas na Cosmopolitan. Mas a verdade é que é possível sentirmo-nos inspirados por palavras como estas, que mantive afixada na porta do meu frigorífico durante algum tempo:
DECIDE O QUE QUERES
ACREDITA que PODES TÊ-LO
Acredita que O MERECES
Acredita que É POSSÍVEL
Acrescentei na altura com a minha letra redondinha: "E nunca desistas!"
Hoje percebo que desistir é natural, e até saudável, quando a insistência passa de tenacidade a teimosia.

Ontem vi um daqueles filmes que nos deixa a pensar durante dias.
“Solitary man” (vertido para “O eterno solteirão” por um tradutor que com este título está injustamente a posicionar o filme na categoria das comédias caseiras), com Michael Douglas sublime no papel principal, conta a história de um homem com sucesso na vida a quem um dia o médico diz “temos de fazer uns exames mais detalhados ao seu coração, não estou a gostar do que vi.”
NOTA: todas as reproduções de diálogos baseiam-se unicamente na minha memória. Podem não corresponder ao diálogo exacto mas expressam os conteúdos das conversas em concreto.
Acho que todos nós tememos por um momento como este. Confesso que se a minha ginecologista me dissesse algo parecido depois de uma ecografia ou de uma mamografia começava logo a fazer o filme trágico de uma história que não me apetece viver.
Michael Douglas (desculpem, mas o actor está mesmo a fazer o papel daquilo que é, um sessentão charmoso com um problema de saúde que pode ser fatal, por isso esquivo-me de o tratar pelo nome do personagem) reage a esta notícia de uma forma que nem todos teríamos coragem para assumir: prefere não saber! Saí do consultório do médico, faz uma retrospectiva da sua vida, e decide que vai viver os últimos dias como sempre lhe apeteceu viver. Deixa de ser o marido fiel, o empresário honesto, o pai presente, o avô responsável e torna-se um mulherengo, comerciante charlatão, pai inconsciente, avô infantil.
O tempo vai passando e Michael continua vivo. As suas opções de vida destoem-lhe o casamento, arruínam-lhe o negócio, arrasam a sua credibilidade no mundo empresarial, afastam-no da filha e do neto.
Michael torna-se uma pessoa amarga e cínica, que diz tudo aquilo que lhe apetece, não cala nada do que pensa e nem sequer se importa com o efeito que as suas palavras têm nas pessoas que agride ou critica. Creio que todos gostávamos de ser assim, mas a sinceridade às vezes é uma arma de arremesso perigosa e “Michael – o agressor” também sente os efeitos carrascos de quando se é agredido.
Arrepiaram-me momentos do filme como aquele em que ele leva para a cama a mãe de um amiguinho de escola do seu neto e, no dia seguinte, quando acordam os dois de uma grande bebedeira, ela diz uma daquelas frases feitas com que muitas mulheres se desculpam: “não sei como é que fiz isto contigo!”. Ele responde “fizeste isto comigo porque tens trinta e muitos anos e os pais dos amigos do teu filho andam é atrás de miúdas de vinte.” Ui! Esta senti-a na pele!
Outras cenas de crueldade palavrosa são o momento em que ele, depois de ter ido para a cama com a enteada de dezoito anos, a assedia novamente acreditando que, dadas as experiências sexuais pouco satisfatórias que ela confessou ter tido até à data, lhe proporcionou uma das melhores noites da sua vida. Diz-lhe ele “tivemos uma química tão boa, nem sequer pensei na diferença de idades.” Responde a miúda secamente “pois eu não me consegui abstrair da diferença de idades em nenhum momento”. Ui! Esta também deve doer a muito homem maduro que por aí anda e que vê na possibilidade de dar umas cambalhotas com uma miúda mais nova uma espécie de experiência alucinogénea afrodisíaca.
A qualidade de vida do personagem decaí à medida que o filme rola, tudo à sua volta se desmorona, mas o seu corpo, ao contrário do que era suposto, mantém-se firme... e sexualmente activo!
Lições a retirar deste filme que não vou dizer como termina: viver a vida no limite tem um preço que pode sair muito caro. Como diz o povo “sofrer de véspera, só o peru no Natal”, mas festejar sem festa pode colocar-nos num estado de ressaca permanente.
Quanto à mensagem que me toca, que tem a ver com a amizade e com aquele texto que publiquei há dias em que defendia que os verdadeiros amigos são aqueles que estão ao nosso lado nos momentos de alegria, e não apenas os que alimentam e nutrem, às vezes de forma doentia, os nossos piores momentos, Michael descobre que quem nos ama nunca nos abandona. Descobre também que o amigo que não via há mais de trinta anos e que deliberadamente desprezou partilhou todas as suas alegrias como se as suas vitórias lhe trouxessem algum proveito.
Filme que vale a pena ver. De espírito aberto e coração sensível.
Teorias dos outros
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