
Outra vez em modo zaping radiofónico, lá me entra outra vez pelos ouvidos dentro a voz do Quintino Aires. Apanhei a intervenção a meio mas o tema era “será que as mulheres têm menos líbido do que os homens?”.
Já li alguma coisas sobre o assunto e de facto teoriza-se muito sobre isto, com base em estudos científicos e pesquisas laboratoriais que levam anos a produzir conclusões, com muitos inquéritos, sessões de grupo e um acompanhamento exaustivo do dia-a-dia da população da amostra. Tudo se acaba por resumir numa evidência pouco lisonjeira: as mulheres perdem a líbido mais cedo do que os homens.
Sei que já escrevi sobre o tema, comentando que verificava isso entre amigas tão próximas quanto eu dos quarenta, que depois de serem mães e se rotinarem com as papas, cocós, colégios, festas de aniversário e com o canal Panda, adoptam na vida familiar uma postura de quem anda a “brincar às casinhas”, entretidas nas lides domésticas e no cuidar das crianças, sem tempo nem pachorra para outro tipo de marotices.
Hoje ouvi o professor Quintino Aires afirmar com convicção que esta história de as mulheres perderem a líbido é mais um mito urbano. Mesmo que as hormonas possam destrambelhar uma pessoa e que o corpo comece a ressacar por falta de estrogénio, a culpa de as mulheres perderem interesse sexual está todas nos homens! Depois de ouvir os argumentos concordo em pleno com este especialista.
A questão é simples: enquanto que as mulheres vão envelhecendo com algum cuidado, mesmo as que alargam dois tamanhos e se esquecem de pintar com regularidade os cabelos brancos, os homens envelhecem mil vezes pior do que elas. Eles não colocam cremes anti-rugas no rosto, hidratantes no corpo, não tratam os dentes, deixam pêlos crescerem para fora do nariz, penduram a barriga por fora do cinto e acham que um abraço amigo de vez em quando é quanto basta para manter o romance num casamento.
Todas sabemos que as mulheres têm um motor de arranque mais lento – apesar de o dos homens também perder velocidade – e que elas começam a fazer amor com a cabeça, ainda vestidas, a sair do trabalho, numa fila de trânsito ou no corredor do arroz e das massas na hora de ponta do Continente. Se o que encontram quando chegam a casa é um homem estirado no sofá que julga que um piscar de olhos e um “anda cá que eu não te aleijo” é um preliminar suficiente, é natural que percam a vontade, se refugiem na cozinha a depenar um pato ou procurem nos filhos os mimos que já não recebem do companheiro.
Há uma frase qualquer que diz uma coisa do género “não há sexo mau, há é pessoas sem jeito”. Assim sendo, vai muito da competência dos homens garantir que há líbido para a sobremesa… (ou sobre a mesa?)

Os homens podem não saber o que é o amor mas percebem cada vez mais de sexo. Já é possível falar em ponto G sem que ele pense que estamos a referir-nos a uma constelação ou a qualquer problema com a embraiagem. Até já há homens que conseguem perceber onde é que ele está e tiram partido de tamanha sabedoria!
Um famoso médico americano, o equivalente à avó Sue (Johanson) mas apenas com direito a programa de rádio (há dezoito anos) – o Dr. Drew Pinsky – fez há tempos revelações fabulosas no programa da Oprah.
Intimidade ou “sexo é como uma pizza”
A primeira foi que os homens a partir dos quarenta, porque começam a produzir menos testosterona, dão mais valor à intimidade. Querem uma relação mais profunda. Para além de sexo, querem afecto, com sorte até procuram o amor! A ironia é que intimidade para os homens é um conceito indizível. Segundo o Dr. Drew, para um homem sexo é como uma pizza. Pode ter só queijo, fiambre e oregãos e eles acham boa, pode ter chourição, anchovas, azeitonas, ananás e outros pedacinhos, e o que muda é que fica melhor ainda. Portanto, querer intimidade é querer sexo na mesma, bom como deve ser, mas com queijo extra ou com ingredientes adicionais por cima...
Na prática, segundo este expert, quando um homem começa a deixar de querer “facturar” todas as mulheres que acha atraentes – sim, porque para eles a questão sexual baseia-se exclusivamente na atracção física -, o que ele quer é encontrar alguém que o atraía, claro, mas que se interesse pelas mesmas coisas que dão sentido à sua vida. Não é preciso gostar de futebol, de ir à pesca, jogar poker ou engolir de golada um copo de cerveja. Mas é importante que alinhe em programas tipo um jantar improvável numa tasca castiça, ature os amigos dele mesmo quando estão com os copos, têm conversas chatas ou andam deprimidos, não embirre com a sweat velha que ele usa em casa, não o chateie com a tampa da sanita levantada nem com os pêlos na banheira. Segundo o conceito de intimidade deles, quando a relação passa para “outro nível” o homem começa a dar mais importância ao que a parceira sente, não tanto em termos de sentimentos profundos e complicados como o amor, mas pelo menos em ter a certeza de que a excita. Ainda e sempre.
Sexo oral estimula o ego
Outra das revelações extraordinárias é que os homens gostam de sexo oral não porque é bom (mau sexo oral não existe, diz o médico, a não ser que seja com um vampira, digo eu), mas sim porque o pênis é uma espécie de prolongamento do seu ego, logo uma relação íntima com essa parte do corpo faz parte do “ser íntimo”. Um sinal de que a relação se está a tornar séria é quando a este nível “a coisa” se torna recíproca.
A monogamia é mais prática
Mais uma revelação que achei surpreendente foi que, apesar de eles acharem que a monogamia pode ser uma seca, ter um caso extra-conjugal ou andar com duas mulheres ao mesmo tempo dá tanto trabalho que os homens só cedem à tentação se o que têm em casa é uma pedra de gelo, se a relação anda pelas ruas da amargura ou se estão numa daquelas crises de idade em que precisam de dar uma queca com outra mulher para confirmarem que ainda são viris.
Na cama os homens são pilotos de aviões
Outra das perguntas que nos fazemos é “o que pensam eles quando estão com uma mulher na cama?” Responde o Dr. Drew que para um homem o acto sexual é como aterrar um Boeing topo de gama carregado de alminhas. Não pensam em nada. Apenas em sentir a vibração das rodas a tocarem na pista, travar em segurança e ouvir os aplausos da classe média que se senta nas últimas filas.
A única preocupação de um homem é conseguir perceber se a mulher o está a achar suficientemente bom. Não propriamente se ela está a gostar ou se está a sentir prazer, mas se a performance dele faz com que ela vá contar as amigas no dia seguinte que esteve na cama com um garanhão. Sim, porque as mulheres partilham estas inconfidências com as amigas, a não ser que estejam muito apaixonadas, situação em que preferem manter os detalhes íntimos como um tesouro só para si. Eles não falam tanto. Podem comentar conquistas rápidas mas também são reservados em relação à mulher que lhes toca o ponto G do coração, se calhar com receio de atiçar a cobiça.
Mulheres com iniciativa é bom... até ao dia seguinte
Os homens não se sentem intimidados quando uma mulher toma a iniciativa. Até podem gostar no momento porque isso poupa-lhes tempo e conversa. A única questão é que no dia seguinte podem acordar a pensar “mas será que ela faz isto com todos os gajos?” e a partir daí perdem a vontade de andar de mão dada com uma mulher de quem desconfiam.
O maior medo do homem: demonstrar sentimentos porque isso faz dele um marica
Outra revelação apocalíptica: o maior receio de um homem é que uma mulher se aperceba do poder que exerce sobre ele. Para eles as mulheres são seres misteriosos, de sentimentos profundos, de manuseamento complicado e humores tão instáveis como o anti-ciclone dos Açores.
Os homens não gostam de falar sobre emoções nem sentimentos, se calhar porque não perdem muito tempo a pensar nisso, mas acima de tudo porque são educados segundo a regra de que a vulnerabilidade associada à expressão do que sentimos, dos medos, das aspirações, dos traumas, dos desejos mais ocultos, não é coisa de macho, pelo que os únicos homens que falam sobre estas coisas são mesmo os maricas. Os homens têm dificuldade em revelar-se da mesma forma despudorada com que uma mulher desaba em lágrimas em frente às suas amigas porque isso os faz sentirem-se fracos. Segundo o código genético que transportam, os homens têm de ser fortes, andar à caça, lutar pelo território, defender a mulher e a família, pelo que uma lágrima no canto do olho, uma hesitação, uma dúvida é uma falha na sua masculinidade que não se devem permitir.
Na prática, para entender um homem é preciso saber ouvir os silêncios, medir as distâncias, interpretar os sinais que nos dizem que ele quer ficar lá por casa ou está só à espera de uma deixa para sair.

De regresso ao fantástico mundo das multinacionais, eis que na semana passada, dei por mim a chegar ao escritório todos os dias antes das oito e meia da manhã - e a não ser a primeira - e a sair nunca antes das oito e meia da noite - não sendo a última a fechar as luzes.
Não têm sido por isso raras as vezes em que penso como gere esta malta a sua vida matrimonial.
Vivo sózinha, vejo o namorado em datas marcadas, por vezes quase sincronizadas no Outlook e gravadas na agenda do telemóvel. Mas a maior parte das pessoas que por ali andam têm todas aliança no dedo, exibem orgulhosas no screen saver as fotos das suas criancinhas, supostamente deveriam estar em casa a horas de jantar em família e não de dar um beijo rápido de boa noite aos miúdos quando estes já estão a meio caminho do sono enroscados sob o endredon das suas camas.
Este fim-de-semana, o grupo de trabalho destacado para um projecto foi todo convocado para trabalhar on-line. Eu lá consegui passar o sábado almoçando tranquilamente na esplanada soalheira de um restaurante alentejano, dormir uma sesta, jantar num mexicano e abanar o esqueleto numa discoteca com música dos anos oitenta. É claro que também fiz limpezas e fui ao supermercado, que isto a vida de uma loira não é própriamente igual à vida de uma Barbie. No domingo dormi até à hora do almoço e depois lá me afundei até à uma da manhã no tal projecto.
Quanto aos meus colegas casados e com filhos, não consigo imaginar como passaram o seu tempo. Sei por experiência de treinador de bancada que com miúdos a única esplanada em que é possível almoçar é a do McDonalds. Pressuponho também que jantaradas com amigos e noites nos copos sejam programas impossíveis para quem passa tanto tempo fora de casa durante a semana.
A questão que me coloco também é que vida sexual tem esta gente?
Casados, a morarem a pelo menos uma hora de distância do trabalho, a sairem de casa de madrugada e a chegarem quando a mulher já tem a cozinha arrumada (grande parte dos colegas que fazem os mesmos horários que eu são homens...), dificilmente chegarão ao final do dia com o mais ténue sentido romântico ou réstia de energia sexual. Aos fins-de-semana devem acordar com os miúdos a esgueirar-se para a sua cama e adormecer no sofá depois do jantar enquanto as crianças ainda estão suficientemente despertas para jogar Playstation.
Chego assim à questão das efemérides.
Diz a Wikipedia que “coisas efémeras são aquelas transitórias, passageiras ou que duram pouco tempo”. Por sua vez, “Uma efeméride é um fato relevante escrito para ser lembrado ou comemorado em um certo dia”.
Não tenho dúvidas de que um orgasmo é efemero. Contudo, pelo que vou sabendo ou me arrisco a especular, há muito boa gente para quem os orgasmos são efemérides, uma espécie de dia de festa.
Dias de festa para aqueles que andam sem parceiro certo e só de vez em quando têm a sorte de fazer aquilo que os americanos descrevem como “get laid”; uma espécie de feriado santo para os que são casados e estabelecem os domingos, a primeira sexta-feira de cada mês, o dia de aniversário do conjuge ou outra qualquer data simbólica ou com significado para “fazer aquilo”; uma espécie de pequeno milagre para os milhares de mulheres que engrossam as estatísticas onde se juntam em amena cavaqueira “as que não se conseguem vir”, seja porque não conseguem mesmo seja apenas porque um orgasmo dá muito trabalho e não lhes apetece fazer o esforço ou o sacrifício.
Segundo o Psichology Today apenas 25% das mulheres – um quarto da população feminina! – atinge de forma consistente um orgasmo durante a relação sexual. Isto significa que há mesmo mulheres que não chegam lá, por mais que dure o acto, por mais ergonómico ou potente que seja o pênis, por mais que a mulher ame o parceiro ou se sinta feliz com a relação.
Fico-me assim pela dissertação filosófica que me leva a olhar de soslaio para os meus colegas, que chegam antes de mim e que se vão embora quando já eu estou em casa a comer a minha sopa. Penso nas suas esposas, que deverão encaixar-se nos 75% que não têm pachorra, vontade ou saúde física, mental, espiritual, emocional ou o que quer que seja para ver as estrelinhas do fogo-de-artifício. Tenho pena que a sua vida seja tão plana porque enquanto por cá andamos devíamos ser todos capazes de ter em cada dia um momento de festa. Ainda que efémero...
O prémio Nobel da Medicina este ano foi atribuído a Robert G. Edwards, o “pai” da fertilização in vitro. Dada a idade do laureado – oitenta e cinco anos – talvez seja mais adequado chamá-lo de avozinho…
O trabalho desenvolvido por este investigador britânico começou na década de cinquenta e teve como resultado o nascimento do chamado primeiro “bebé proveta” em 1978. Foram precisos mais de vinte anos de trabalho científico e de dedicação altruísta para que fosse possível a casais com problemas de fertilidade terem filhos biológicos, concebidos no útero materno. Desde então, o método tem evoluído e estima-se que existam cerca de quatro milhões de pessoas em todo o mundo geradas graças a métodos de reprodução medicamente assistida.
Imaginem pois o meu espanto ao ouvir na rádio que o Vaticano se insurgiu contra a nomeação deste cientista, reduzindo a sua contribuição para a felicidade de tantos casais a uma questão logística de embriões congelados com o propósito de serem “trasladados para úteros” – palavras de monsenhor Carrasco de Paula (nome simpático), o porta-voz que se pronunciou sobre a notícia - e a uma grosseria que alude ao “mercado de óvulos e espermatozóides” como um mero negócio próximo do pecado, da prostituição e da luxúria. Creio que ninguém minimamente são duvida que a procura de dadores é sempre o último recurso de um casal confrontado com uma realidade dolorosa que é a incapacidade de um dos dois poder gerar um filho. Até pode ser que exista um “mercado negro da reprodução”, da mesma forma que sabemos existir tráfego de órgãos humanos obtidos tantas vezes sem o consentimento dos dadores, que neste caso são vítimas. Concordo que se possa por em causa a ética de desenvolver embriões tendo como certo que apenas uma pequena percentagem sobrevive. Mas também não tenho a menor dúvida de que a existência destas soluções é uma bênção para quem deseja ser pai e mãe ao ponto de se sujeitar ao moroso, dispendioso e desgastante processo que uma fertilização in vitro implica.
Juro que fui educada de acordo com a fé católica. Fiz a primeira comunhão convencida de que era uma honra poder receber a hóstia como o corpo de Deus, tendo avançado até à comunhão solene porque era a única forma de ir a uma festa de vestido comprido, apesar de a catequese aos sábados à tarde coincidir com a série “O barco do amor”, que na altura estava na lista das minhas preferidas.
Hoje tenho a minha fé. A fé no tal Deus que está dentro de mim, que me perdoa e me entende porque, não sendo eu talibã, serial killer, criminosa, pessoa sem carácter, escrúpulos e princípios - assim tipo político que sorri para as câmaras, trama a vida a todos os cidadãos que habitam em solo português e mesmo assim dorme tranquilo - me aceita como um ser humano normal, com os meus defeitos mas sem grandes pecados, daqueles que mereçam penitências com auto-flagelação ou demoníacos castigos.
Não entendo portanto esta posição da Igreja.
Será que o Vaticano entende que os casais que se confrontam com a esterilidade estão a ser postos à prova de acordo com aquele folclore católico que ainda divulgam os padres de aldeia e que faz com que os fiéis temam a Deus como se este fosse um Pai tirano, daqueles que dá tareia de cinto? É possível que os monsenhores, bispos, cardeais e outros letrados da hierarquia da Igreja acreditem que se um casal não pode ter filhos então que assim seja porque esse é o desígnio do Senhor?
Lembro-me que quando casei, o padre que ministrou o elucidativo “curso de noivos” (que é o equivalente a um curso teórico de culinária dado por um homem que nem sequer sabe estrelar um ovo), informou que uma das razões para considerar um casamento nulo era que um dos conjuges se recusasse a ter filhos. Que fazer quando um dos conjuges não pode ter filhos?
Se a finalidade do casamento, de acordo com a Igreja, é procriar, o que são perante Deus as criaturas biologicamente incapazes de ter filhos? Serão excomungados como fornicadores? Impedidos de ter relações, mesmo que na posição do missionário, porque se é um facto que do acto jamais resultará a concepção de um ser humano, então a prática do sexo conjugal passa a ser acto ilícito?
As famílias profundamente católicas têm tantos filhos quantos Deus quer e até surgem ocasionalmente em reportagens na televisão como exemplos de coragem e de espírito de sacrifício. Se a base da Igreja é a família não percebo como pode ser tão errado querer ter uma família ainda que de forma artificialmente induzida. Por acaso Maria não concebeu Jesus de uma forma não natural? Quem sabe se a implantação do embrião no seu útero sem a intervenção directa de José não tenha sido a primeira grande experiência bem sucedida de fertilização in vitro?

Há já bastante tempo que um amigo me desafiou via FaceBook a escrever uma teoria sobre o cisne, na continuação daquelas teorias em que fazia analogias entre o mundo animal, tal como nos relata o National Geographic, e a vida real, tal como a vejo através destes meus olhinhos meios vesgos e a processo neste meu cérebro meio de loira.
O cisne é um animal gracioso, belo, algo monótono na sua estética silenciosa, digo eu, que desliza com suavidade pelas águas passando pela vida como entendo que todos deveríamos ser capazes de o fazer: com elegância, low profile q.b. e muita classe.
Eu própria gosto de me equiparar a um cisne. Não que a descrição de brandura seja uma nota dominante no meu perfil – mas ando a trabalhar nisso e estou convencida que lá para os sessenta serei uma verdadeira lady -, mas porque comecei por ser um patinho feio que ao chegar ao final da adolescência se transformou numa miúda gira, e hoje se pavoneia em águas que são sempre agitadas demais para manter o bailado num registo harmonioso, como uma mulher que em linguagem de “piropo de trolha” andará próxima da figura da “loiraça boazuda”. Graças a Deus! Depois de ter sido feia numa idade em que o aspecto físico era fundamental para a aceitação social, nada como esta figura de loira exuberante para me assegurar alguma sorte na vida, melhor atendimento nos serviços em que o funcionário é hetero e conseguir que os automobilistas parem para me deixar atravessar a rua na passadeira.
Uma das principais características dos cisnes é a sua lealdade. Uma vez escolhido o parceiro, o cisne vive uma aparentemente feliz relação monogâmica até ao resto da sua vida, não sendo raros os casos em que, quando um dos membros do "casal" morre, o outro reconstrua o ninho sucessivamente na expectativa de fazer o seu parceiro voltar.
Isto é que é bonito! É assim que eu entendo o casamento ou qualquer outra relação que se pretenda duradoura, ou pelo menos eterna enquanto dure.
Por definição, melhor dizendo, em teoria, não concebo a infidelidade numa relação dita séria.
Por curiosidade, o meu guru Júlio Machado Vaz abordou o tema num programa de rádio no passado Domingo, alegando que, apesar de por definição nos ser difícil aceitar a traição, a verdade é que há muitos casais que convivem com isso, gerindo com alguma frieza as “facadinhas no matrimónio” como um meio, tão eficaz como qualquer outro, para manter a harmonia no casamento e a estabilidade familiar.
Pelos vistos há muitos casais ao estilo Bill e Hillary Clinton, que gerem uma espécie de sociedade por quotas que é uma base sólida para as suas carreiras pessoais, sendo que, independentemente de ainda haver ou não sexo entre eles ou de existir até um resquício de amor, admitem que o outro possa cometer as suas extravagâncias com uma terceira pessoa desde que isso não comprometa a união sólida em que se alicerça o património do casal. Por património não se entende apenas as casas, os carros, as contas bancárias, mas também o status, a personalidade social associada aquela família, a reforma numa casa sobre a praia, numa época em que estarão ambos velhos demais para sentir interesse sexual por outra pessoa, ou no mínimo sem vigor para o concretizar, e que arvorarão a sua felicidade sobre o caminhar pela praia de mãos dadas como dois seniores apaixonados, com a certeza de que o caminho que fizeram até ali os realizou como pessoas ambiciosas e como seres humanos cheios de garra.
Hillary reagiu de forma surpreendente ao caso de Bill com Monica Lewinsky. Foi preciso um poder de encaixe fora do comum para publicamente perdoar o marido. No final, Hillary saiu-se bem, manteve o marido que continua a aparecer ao seu lado, segurando a sua mão com um sorriso espontâneo e um olhar minimamente apaixonado, enquanto Monica retornou ao anonimato, empanturrando-se com donuts e hambúrgueres, fumando umas valentes charutadas e sonhando, como qualquer mulher, com o seu príncipe encantado.
Dizia Machado Vaz este fim-de-semana que já ouviu de pacientes suas confissões tão fascinantes como esta “Mas o Sr. Doutor acha que eu vou por em causa o casamento, a casa, a família, o meu futuro e o dos meus filhos por causa de uma lambisgóia qualquer? Vou é deixá-lo divertir-se uns meses até que esta euforia adolescente lhe passe e depois volta tudo ao normal…”
Ouvi uma vez Marta Crawford dizer que há mulheres que agradecem que os maridos não as procurem. Mulheres essas que se calhar nem se importam que os maridos arranjem umas lambisgóias porque essa é a forma de os manter distraídos. São também estas as mulheres que se mantêm até ao fim da vida como as legítimas mesmo sabendo e compactuando com as infidelidades do marido, crónicas ou compulsivas, chorando umas lágrimas de raiva e engolindo em seco umas mentiras mal contadas, só para manterem a aliança no dedo e aparecerem nas festas de braço dado.
Na prática, sei de histórias em que um caso extra-conjugal foi a solução milagrosa para um casamento em crise. Porque elevou a auto-estima de um conjugue carente de atenção, mais do que de afecto, porque quebrou a rotina que mina lentamente qualquer relação, porque fez aos envolvidos perceber que afinal, a pessoa com quem partilhavam a cama é o melhor companheiro ou companheira que poderiam desejar, e que só ao seu lado é que a vida faz sentido. Conheço outros casos em que o casamento vacilou ao ponto de ruir e nem sempre o adultero ficou com a pessoa que o fez perceber a dimensão da sua infelicidade, o abismo entre o casal, a inviabilidade de manter aquele compromisso até que a morte os separe. Também já ouvi coisas mirabolantes do género "fui colocado perante uma situação em que se não fosse para a cama com ela era considerado maricas!" e outras versões melodramáticas em que o adultério aconteceu, muitas vezes de forma sistemática, como uma ida ao ginásio três vezes por semana, mas assumido como uma penitência, um castigo, a moeda de troca para fazer o casamento durar... Há coisas piores tipo "quando acordei ela estava nua, debaixo de mim" ou aquela do adultero patológico que se confessa viciado em sexo e clama por tratamento.
As tentações fazem parte do nosso dia-a-dia. Ceder a essas tentações depende da moral de cada um, da volatilidade em que se encontra no momento, da vontade de resistir.
O problema, dizia Júlio Machado Vaz, surge apenas quando a traição deixa de ser esta coisa meramente física, uma espécie de terapia sexual, e se transforma numa coisa espiritual, talvez até virtual, eventualmente sem qualquer contacto físico entre o traidor e o objecto do seu desejo.
Nesse caso a traição é séria. É séria porque envolve emoções para além das associadas à excitação e ao orgasmo. Eventualmente, envolverá até amor.
Todos os adultos, numa relação, sobreviventes de várias relações, solteiros por convicção ou sozinhos por opção, por mais estruturados e de bem com a vida que sejam, por mais cépticos ou pragmáticos, voltam sempre a cair na vertigem daquela sensação que é o frio na barriga quando o nosso olhar se cruza com o olhar de alguém que nos atraí. Por mais que a experiência ou a mera intuição nos façam antever que a aventura pode correr mal poucos são os que se afastam antes de tentar. No fundo, estamos sempre à espera da pessoa que possa ser "aquela". A tal que fica connosco até sermos velhinhos sem dentes. Por isso, temos medo de deixar fugir quem, num momento quase sempre inesperado, se atravessa no nosso caminho.
É o medo de deixar fugir a possibilidade do amor eterno…
Na prática, a história humana não é feita de amores eternos, nem na literatura nem na realidade, onde é cada vez mais abstracta a jura "até que a morte nos separe"... As histórias de amor são quase sempre uma sucessão de episódios, alguns apoteóticos, outros melodramáticos, momentos alegres que raiam o hilariante, ou infelizes ao ponto de afundarem quem os vive num negro pranto.
Eu, que sou uma romântica disfarçada de céptica, e que imagino que no final dos meus dias, quando as minhas costas vergarem, o cabelo ficar ralo e o meu esqueleto ranger com as dores do reumatismo articular, hei-de ter ao meu lado um homem tão decrépito como eu, mas que ainda me há-de ver tal como estou hoje, e que eu serei capaz de amar profundamente com o mesmo instinto apaixonado, vejo como um sonho romântico a possibilidade de na vida os Homens serem como os cisnes e de as relações entre casais durarem tanto como a eternidade.
Arthur Aron, psicólogo da Stony Brook University, de Nova Iorque, nos Estados Unidos é um “estudioso da felicidade conjugal eterna” tendo concluído que, afinal, para uma afortunada minoria - um em cada dez dos casais analisados -, o amor pode mesmo durar a vida inteira.
Aos casais imunes ao declínio da paixão, a equipa de investigadores da universidade nova-iorquina atribuiu a designação de "cisnes", uma das espécies que, no mundo animal, dedica toda a sua vida ao mesmo parceiro. O relacionamento destes casais tende a permanecer intenso e sexualmente activo apesar de uma longa vida passada em comum.
Estudos anteriores nesta área haviam validado a visão corrente de que a paixão esmorece, em média, ao fim de doze a quinze meses. E que, ao fim de dez anos, "a química" pura e simplesmente já não existe. A famosa "crise dos sete anos", na base de tantos divórcios, corresponderia, assim, a um dos "pontos de fractura" que marcam a generalidade dos relacionamentos amorosos. A sabedoria deve estar em ser capaz de manter a cumplicidade, o companheirismo ou lá o que é que nos faz querer morrer ao lado de outra pessoa, mesmo quando aquele amor que se baseou na atracção física, na tensão sexual, no desejo esmorece….
Na onda dos temas levezinhos, há dois que me apaixonam: as relações e o sexo.
Estes temas não têm necessariamente a ver um com o outro, a não ser quando falo em relações sexuais, em relações em que há sexo ou em sexo que acaba por dar origem a uma relação.
Dentro do tema das relações a que mais me enche o coração é a amizade – o amor que nunca acaba -, mas a que mais me intriga é o casamento.
Objectivamente, não acredito muito em casamentos nem em uniões de facto, que são exactamente a mesma coisa, com a diferença da festa, da lista de presentes, da lua-de-mel e do papel passado.
Logísticamente, reconheço que quando um namoro ultrapassa aquela fase do “não tenho bem a certeza do que quero” para a fase do “são mais os dias em que me apetece estar contigo do que aqueles em que me apetece estar sózinho”, é melhor pensar em procurar uma casa onde caibam as vidas das duas pessoas, pois isto de acordar um dia na cama de um e outro dia na cama do outro, é uma complicação enorme por causa da roupa, dos cremes de noite, dos cremes de dia, dos toalhetes de desmaquilhagem, dos pensinhos diários, da lingerie e de todos os acessórios e porcarias que temos de levar connosco, que metemos à pressa nos bolsos e bolsinhas das malas, mas que entre casas, bagageiras, elevadores e escadas se perdem para sempre, depauperando o nosso património.
Romanticamente defendo que todas as mulheres devem ter o seu “dia de noiva”, pois até para uma céptica como eu - que nunca comprei uma revista de noivas! - o dia do vestido branco com véu é mesmo mágico, com toques de conto de fada exactamente com o sabor e a forma dos que povoam o nosso imaginário.
Científicamente, há montes de estudos e teses sobre casamentos, que em regra defendem que é possível ser casado e ser feliz, e até que quem é casado consegue ser mais feliz do que quem permanece só.
Estar casada, leia-se “junta”, dá uma carga de trabalhos.
Dá trabalho à mulher, porque para os homens está sempre tudo bem até ao dia em que tropeçam numa miúda com metade da idade e decidem sair de casa. Dá trabalho à mulher porque normalmente são elas que se preocupam em manter a chama acesa – daí o sucesso de revistas como a Happy -, são elas que tentam dirimir litígios de forma a que cada desentendimento não acabe numa gritaria, são elas que normalmente cedem, por cansaço, por desistência ou porque já não se importam.
Há tempos, um dos artigos em destaque na homepage do msn compilava uma série de conselhos matrimoniais, dados não por cientistas, mas por pessoas comuns, que têm a seu favor o facto de estarem casadas e assumidamente felizes há mais de vinte anos.
Algumas das dicas são tão interessantes que merecem ser partilhadas:
Dicussões só se forem políticamente correctas
Eu por acaso detesto discutir, seja em que circunstância for. Mas o que me apercebo, é que grande parte dos casais se refugia na discussão como uma forma de estar na vida a dois, como se ficar zangado para fazer as pazes fosse um segredo para manter o dinamismo na relação. Não concordo nem subscrevo. Parece-me que quando a discussão é rotina as pessoas deixam de discutir argumentos para passarem para a crítica destrutiva e fazê-lo é um absurdo.
Procurar actividades e interesses comuns
Um casal não tem de andar sempre junto, para toda a parte, mas uma das coisas que me apercebi quando o meu primeiro marido saiu de casa foi que ele não me fazia falta rigorosamente nenhuma, já que tirando o período de jantar, os nossos hábitos de vida eram tão díspares que o ponto de contacto era apenas a refeição ao final do dia e o dormirmos na mesma cama.
Ser paciente
A paciência, conceito onde cabem a tolerência, a calma, a tranquilidade, o “contar até dez antes de proferir uma palavra menos agradável”, é de facto das coisas mais importantes numa relação. É verdade que os opostos se atraem, que uma relação funciona melhor quando as duas pessoas são os pólos opostos um do outro – a optimista e o céptico, o pateta alegre e a maníaco-depressiva, o guloso e a controlada, a inovadora e o conservador – pois a vida corre como se a calma de um servisse de freio à impulsividade do outro, a exuberância temperasse a discrição, a alegria insuflasse positivamente a melancolia negativista. Tudo isto, tão poético quanto se lê, feito com a conta, peso e medida que só a sabedoria da experiência nos ajuda a saber utilizar, permite que duas pessoas imperfeitas se sintam felizes na imperfeição da sua relação, sem que as diferenças pareçam antagonismo inconciliáveis nem que a outra pessoa, tão diferente de nós, se converta num ser estranho de um planeta inóspito e desabitado para onde não nos apetece ir morar.
Romance
Esta dica, de uma rapariga de 28 anos de Los Angeles, é uma verdade incontornável “quando o sexo é bom, tem um peso de 10% no casamento, quando é mau tem uma carga de 90% na relação.” De facto é mesmo assim: todos partimos do princípio de que o sexo só pode ser bom, e se o não for está tudo estragado. A questão é que, sexo é sempre bom quando se inicia uma relação – se não é, a relação tem os dias contados -, mas pode converter-se numa coisa tipo “águinha com açucar” depois de um par de anos a fazer amor com a mesma pessoa. O que salva a relação, mantém acesa a chama, não é o sexo, nem sequer será o tal amor que, pouco tempo depois de nos habituarmos à presença de alguém, e temos como certa a sua permanência ao nosso lado, passa a ser um dado adquirido, uma espécie de “atmosfera respirável”, uns dias com aroma de flores do campo, outras com aquele cheiro de monóxido que poluí as ruas da cidade. O que salva uma relação é o romance, essa capacidade de surpreender o outro com um beijo inesperado, uma carícia despropositada, uma palavra mais doce, um olhar cúmplice, um mimo, um abraço.
Falar é melhor do que adivinhar
O problema de muitos casais é partirem do pressuposto de que já conhecem tão bem o outro, que intuem automaticamente o que ele ou ela está a pensar ou a sentir. Se é verdade que a vida em comum nos traz um conhecimento do outro que nos permite acertar em algumas dessas suposições, é mais verdade ainda que o sistema que gere as emoções humanas é tão complexo que muitas vezes não somos capazes de antecipar, ler e interpretar os nossos próprios sentimentos quanto mais os da pessoa que está ao nosso lado. Assim sendo, dado que não nascemos com os dons premonitórios do Dr. Kizomba ou da Madame Magda Patológica, na dúvida mais vale perguntar “o que foi?” do que dizer num tom a puxar para o drama “já percebi tudo!”.
Para terminar, um conselho que ouvi ao padre que me casou a primeira vez, no chamado “curso de noivos”, pessoa que considero ter um sentido de humor e uma capacidade de comunicação próxima do melhor dos entertainers: o casal nunca se deve esquecer que é a base da família.
Explico o alcance desta frase da mesma forma que esse padre o fez. As pessoas quando casam, à medida que vão tecendo a sua rede de amigos e família, esquecem ou subvalorizam o seu papel nuclear.
Quando acrescentamos ao casal os irmãos, os cunhados, os pais, os sogros, os primos, sobrinhos, amigos próximos, outras personagens e figurantes, verifica-se que muitas pessoas se adaptam à figura estranha de uma peça do puzzle em vez de assumirem sem pudor que ele e ela, aquele marido e aquela mulher, são as figuras principais sem as quais essa rede de relações não funciona nem faz sentido. Se são pais convertem-se em prestadores de serviços esquecendo-se que são um casal que em tempos teve interesses comuns, fez programas a dois, teve um espaço próprio.
Dizia com piada o tal padre que me casou “Quando me vêm para aqui casais solicitar uma sala para uma reunião em que pretendem discutir os problemas da paternidade sabem o que respondo? NÃO! O importante é que os casais discutam e resolvam os problemas que têm entre si, a partir do momento em que o conseguem fazer tudo o resto se resolve...”
Não tive nenhuma relação que chegasse sequer à crise dos 7 anos, mas assim a olho nú, parece-me que esta declaração tem o seu quê de verdade.
Teorias dos outros
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