
Um destes dias fui ver um daqueles filmes feitos à medida dos Óscares.
Em “Os descendentes”, George Clooney faz “o papel da sua vida” como apregoam os traillers e críticas. Para mim, a maior surpresa é verificar que o grisalho do café e das urgências por quem tantas mulheres suspiram é tão bom actor que até consegue passar por homem feio (dentro do género, é claro) sem pinga de charme, totalmente desinteressante, aquele com quem jamais gostaríamos de ser vistas em público com suas calças foleiras e camisas em padrões histéricos.
Agora sem ironias nem preconceitos: o filme é irresistível.
Há muito tempo que não me acontecia chegar ao “the end” e ficar colada à cadeira, enxugando lágrimas mal disfarçadas, com toda uma plateia em silêncio.
O bom que tem “Os Descendentes” não cabe numa teoria...
Começa pela narrativa. Adoro filmes em que há uma voz off que vai acrescentando aqueles detalhes da história que ficam piegas ou exagerados quando debitados numa deixa. Por isso amo Woody Allen. Por isso me comoveu ouvir George Clooney, no papel do pai perdido que neste filme lhe coube, relatar a tragédia que se abateu sobre a sua vida quando a mulher entra em coma na sequência de um acidente grave.
O início é fabuloso quando Clooney alerta que viver no Havai não é antídoto para a dor e que as praias de areia branca lotadas de surfistas não são garante de uma existência sem problemas.
Algures na locução surge uma brilhante descrição de família: um arquipélago, um conjunto de ilhas independentes que resultaram de um único pedaço de terra.
N"os descendentes" há uma história paralela de ilhas tão dispersas e heterogéneas como os Açores, uma típica história de heranças e testamentos, com a variante americana do king size e do XL que faz com que os herdeiros se constituam como trust e dividam parcelas de ilhas como património em vez de discutirem hipotecas, serviços de loiça incompletos e time-sharings em hotéis obsoletos...
O filme é intensamente real.
As pessoas retratadas não são perfeitas, as vidas não são fantásticas, as casas não são de revista, surgindo até tão desalinhadas e desconjuntadas no mobiliário e adereços kitsch que nos remetem para as casas dos nossos pais e avós como eram quando nascemos, nos idos anos setenta, com seus bonecos de loiça, cortinados de chita e padrões psicadélicos.
O acidente da mulher leva Matt King - o personagem que Clooney desempenha - a reconsiderar a sua forma de estar como homem de família. Disposto que está a mudar, a ser um melhor marido e um pai mais presente, decidido a salvar um casamento moribundo e a gozar a sua fortuna, descobre que a esposa não tem recuperação possível. Ao mesmo tempo que se vê forçado a encarar esta morte inesperada, a comunicá-la às filhas, a informar sogros e amigos para que tenham tempo de despedir-se antes que os últimos sinais vitais se desliguem daquele corpo inane, descobre também que a mulher por quem zela amargurado o traía.
Perante a morte e o conflito de emoções, Matt decide perdoar tudo.
A opção não é tão linear. Há um evidente conflito de interesses e de sentimentos, alguns momentos em que engole em seco, em que cala o grito antes de perder o controle.
O desconcertante do filme é precisamente esta ambivalência, a dicotomia entre o que é natural mas pode não estar certo, entre a moral e a imperfeição os papéis a que nos adaptamos, as nossas emoções e os nossos intintos.
Como seres humanos, somos muitas vezes rancorosos e mesquinhos...
É impossível não ser tocado pela honestidade deste marido incapaz de ser um cabrão, pela sensibilidade que tem este pai para aceitar a raiva e a irreverência das filhas.
Matt opta por relevar apenas e só porque deseja preservar as boas memórias que ficam da mulher enquanto mãe, esposa, amiga, filha.
Afinal, naqueles dias em que entramos na história, a senhora não é mais do que um corpo ligado a uma máquina que nas cenas finais é atirado ao mar como um mero punhado de cinzas. A insignificância daquilo em que nos tornamos quando cadáveres torna futéis as críticas, vãos os julgamentos morais, despropositadas as necessidades de vingança, de pena capital ou de folclore popular em jeito de vendeta.
Matt King é um homem bom, um tipo decente, honesto. Despede-se da mulher com um beijo de cortar a respiração, com uma solenidade moral que lhe saí do coração sem pieguices nem peneiras.
O filme termina com pai e filhas no sofá, numa daquelas cenas que nos são familiares por serem tanto aquilo que somos num domingo à tarde, sem glamour nem produções especiais, almas boas que a vida corrompe e que como sorte se purificam pela morte. As mortes dos que nos rodeiam para começar. A nossa morte como suposto clímax.
Não sei se tenho algum problema de percepção, mas para mim a mensagem deste filme é o perdão. O acto sublime e libertador de perdoar.
Palavra difícil nos dias que correm...

Não há nada melhor do que estar com as amigas do coração, aquelas que conheço há tantos anos – antes da menstruação e dos tampões, antes do acne e dos rapazes, quando vestíamos calças com cinta sobre o umbigo e não éramos tão loiras – que são como uma espécie de prolongamento histórico da minha vida, uma causa, um efeito e uma consequência da pessoa que sou hoje.
Somos afortunadas por conseguirmos manter uma amizade durante tantos anos, gerindo tempos e espaços de distância com tanta naturalidade que, quando nos reencontramos, parece que a última vez que falmos foi apenas ontem.
Sempre que estamos juntas fazemos autênticas “biópsias à alma”, porque só com quem é tão próximo nos podemos “virar do avesso”, revelando coração, tripas e lágrimas sem reservas nem vergonhas ou medos.
Um grande bem-haja à “Casa de Pasto da Palmeira” que nos acolheu com uma série de petiscos art nouveau sem peneiras.
Creio que todos os jantares entre mulheres gravitam em redor do tema homem, muitas vezes em abstracto, porque nos intrigam mais as relações do que as pessoas.
Chegadas a esta fase da vida divorciadas é inevitável ficarmos presas, pelo menos durante uns tempos, nesse limbo alucinado que são as relações adultas, entre veteranos recalcados, com suas tácticas beligerantes e cicatrizes de guerra.
Ainda não sei o que procuram os homens, mas em relação às mulheres tenho como certo que procuram todas receber o Prémio Nobel pela descoberta da alma gémea. Mesmo as que ficam sós durante tanto tempo que a certa altura bradam com cartazes quão realizadas são com a sua independência, acabam por ficar tão vulneráveis quanto uma adolescente se um dia tropeçam num espécimen que por mais errado que seja ou pareça, tem potencial quanto baste para ocupar o lugar certo.
É claro que temos medo. Com o tempo ganhamos uma estranha imunidade que nos faz antever que qualquer relação está condenada ao insucesso, preparadas para que todo o candidato a residente se revele um parvo carregado de defeitos, incapazes de reagir em conformidade se afinal a pessoa a quem vamos abrindo a nossa porta até é um homem decente e bem-intencionado, apesar de ser esse o nosso inconfessável desejo.
O normal no mundo dos adultos é vogar entre relações plásticas, neste imenso bazar de amor contrafeito, à procura de sexo, de uma companhia para jantar ou para o cinema, de uns momentos de humanidade que nos suguem da nossa rotina de problemas no trabalho, contas para pagar e trânsito louco. Fazemos o que ontem ouvi designar como “zaping emocional”.
Na nossa essência, quando dissemos “sim” em frente a um altar carregado de flores, acreditavamos na lenda do “casamento para sempre”. Não concebo que alguém se case pensando no divórcio como solução para qualquer problema. Admito sim que recorremos mais a essa opção como se fosse uma “saída de emergência”, apenas e só porque desde miúdas aprendemos não sei onde que fomos programadas para ser felizes. Como não existem parâmetros que certifiquem o nosso grau de felicidade, como aqueles que são utilizados nas análises clínicas, quando começamos a agonizar ante o pressentimento de que não somos tão felizes quando poderíamos optamos por esta “fuga para a frente” que aumenta todos os problemas e discussões de um casamento naufrago quando se começa a equacionar a hipoteca da casa e as partilhas.
Gostavamos de pertencer aquela casta dos “cisnes”, os casais que permanecem juntos até à morte num amor cúmplice que é amizade tatuada na carne, caminhando de mãos dadas, com o ombro do outro ao nosso lado, porque assim se caminha num passo sincronizado e porque aí se procura aconchego quando a estrada que seguimos nos falha.
Em vez disso, a realidade revela-se um filme diferente do que tínhamos realizado como sequência lógica casamento–filhos, e acabamos por desempenhar papéis inspiradas no “Sexo & a Cidade”, que por sua vez se inspira em mulheres como nós, saltando de festa em festa, de desilusão em desilusão, de borboletas na barriga para socos no estômago.
O ideal é que esta fase de zaping seja apenas um treino de resistência, força e endurance, necessário para sermos melhores mulheres para um homem, também ele aperfeiçoado na arte mágica de gerir afectos, impulsos, maus feitios e conflitos de personalidade.
Assim seja!

Outra vez em modo zaping radiofónico, lá me entra outra vez pelos ouvidos dentro a voz do Quintino Aires. Apanhei a intervenção a meio mas o tema era “será que as mulheres têm menos líbido do que os homens?”.
Já li alguma coisas sobre o assunto e de facto teoriza-se muito sobre isto, com base em estudos científicos e pesquisas laboratoriais que levam anos a produzir conclusões, com muitos inquéritos, sessões de grupo e um acompanhamento exaustivo do dia-a-dia da população da amostra. Tudo se acaba por resumir numa evidência pouco lisonjeira: as mulheres perdem a líbido mais cedo do que os homens.
Sei que já escrevi sobre o tema, comentando que verificava isso entre amigas tão próximas quanto eu dos quarenta, que depois de serem mães e se rotinarem com as papas, cocós, colégios, festas de aniversário e com o canal Panda, adoptam na vida familiar uma postura de quem anda a “brincar às casinhas”, entretidas nas lides domésticas e no cuidar das crianças, sem tempo nem pachorra para outro tipo de marotices.
Hoje ouvi o professor Quintino Aires afirmar com convicção que esta história de as mulheres perderem a líbido é mais um mito urbano. Mesmo que as hormonas possam destrambelhar uma pessoa e que o corpo comece a ressacar por falta de estrogénio, a culpa de as mulheres perderem interesse sexual está todas nos homens! Depois de ouvir os argumentos concordo em pleno com este especialista.
A questão é simples: enquanto que as mulheres vão envelhecendo com algum cuidado, mesmo as que alargam dois tamanhos e se esquecem de pintar com regularidade os cabelos brancos, os homens envelhecem mil vezes pior do que elas. Eles não colocam cremes anti-rugas no rosto, hidratantes no corpo, não tratam os dentes, deixam pêlos crescerem para fora do nariz, penduram a barriga por fora do cinto e acham que um abraço amigo de vez em quando é quanto basta para manter o romance num casamento.
Todas sabemos que as mulheres têm um motor de arranque mais lento – apesar de o dos homens também perder velocidade – e que elas começam a fazer amor com a cabeça, ainda vestidas, a sair do trabalho, numa fila de trânsito ou no corredor do arroz e das massas na hora de ponta do Continente. Se o que encontram quando chegam a casa é um homem estirado no sofá que julga que um piscar de olhos e um “anda cá que eu não te aleijo” é um preliminar suficiente, é natural que percam a vontade, se refugiem na cozinha a depenar um pato ou procurem nos filhos os mimos que já não recebem do companheiro.
Há uma frase qualquer que diz uma coisa do género “não há sexo mau, há é pessoas sem jeito”. Assim sendo, vai muito da competência dos homens garantir que há líbido para a sobremesa… (ou sobre a mesa?)

A empresa em que trabalho fechou o ano na sexta-feira.
Isto não quer dizer que andamos as últimas três semanas naquela "onda da festa e da amizade” que muda a atitude e o humor das pessoas assim que se instala o espírito de Natal, mas sim que passamos estes dias sem ver o Sol, com a sensação de irmos a casa apenas o tempo bastante para tomar banho e mudar de roupa tão curta a distância entre o apagar das luzes e o regresso ao escritório.
Este fim-de-semana, perante a minha dificuldade em arranjar seis horas para ir ao Porto (contando o tempo da ida, da vinda e das paragens para café, xixi e gasóleo) os meus pais vieram visitar-me.
Como sempre sucede à mesa, nas refeições em que se senta uma família – neste caso a minha e a que me abraçou como adoptada - com três gerações em animado diálogo, falou-se de quão complicada se vem tornando a vida, com os filhos que somos nós a fugir para a frente numa procura incerta de estabilidade, e com os filhos da geração que se segue preparando-se para que o seu local de trabalho seja o mundo, na certeza de que o sítio onde conseguirão ter um emprego que lhes pague um ordenado digno, capaz de financiar alguns caprichos e sustentar uma casa, só com muito sorte ficará a apenas trezentos quilómetros de casa.
Confessava a minha Mãe que quando eu vim para Lisboa pela primeira vez, em 2004, padeceu imenso com as dores da distância.
Quando regressei no ano passado, o sofrimento não foi tão atroz porque me viu pelo Porto numa situação de precaridade que jamais foi hipótese nos seus planos.
Os pais que educam os filhos como príncipes pressupoem que o seu futuro terá a magia e os tons com que se pincela um conto de fadas. E nós, esses filhos aburguesados, quando ainda somos demasiado ingénuos para duvidar, ao sair da faculdade com atitude guerreira, ao descer do altar num transe de felicidade ou naquele domingo preguiçoso em que acordamos ao lado da pessoa que queremos amar até à morte, imaginamos que a nossa vida seguirá milimetricamente o rumo que entre o primeiro emprego, o primeiro casamento e o primeiro filho, tão convictamente traçamos.
Poucas são as pessoas que concebem que alguns anos (ou meses) depois do dia do “sim” vão estar separadas, a viver numa casa mais pequena, despojadas das prendas comuns e das memórias fotográficas, a acordar com as vozes dos filhos de outra pessoa ou a adormecer na solidão confusa de quem se restabelece de um jet lag.
Suspirava a minha Mãe “como é difícil deixar os filhos voar”.
A alternativa ideal, suponho eu, seria mantê-los em gaiola dourada protegidos de qualquer mal.
Duvido que qualquer adulto em gestação aceitasse permanecer em incubadora depois da maioridade.
Explicava-lhe pois que hoje em dia temos de ir voando por uma questão de sobrevivência, saltidando entre ninhos temporários em troncos de árvore ou beirais alugados, sempre predispostos a mudar de continente como se a nossa vida fosse uma sequência de ciclos migratórios.
Esquece-se a minha Mãe que também ela um dia bateu as asas. A grande diferença está no facto de ela ter transformado o seu ninho num lar, com carácter perene e consistência sólida, mesmo assim distante da terra onde nasceram os seus pais.
Eu, os outros, os pais da minha idade e os seus filhos adolescentes ou universitários, vamos vivendo por temporadas, como nas séries dos canais por cabo, com personagens que entram e saiem, algumas alterações nos cenários, reviravoltas surpreendentes no enredo e no desenrolar da história.
Um voo entre destinos que são meros locais de passagem.
Parar é morrer... Até lá, vamos simplesmente voando...

Anda pela rádio uma música a que é impossível ficar indiferente.
Falo de “someone like you” da Adele.
Sempre que ouço esta mulher cantar uma relação falhada de uma forma tão sofrida quase me arrepio.
Ouvi dizer que se trata de uma declaração auto-biográfica. Googlei o assunto e lá descubro na Wikipedia que de facto esta música constituí um acto de expiação sobre uma relação que terminou ao final de dois anos. Todo o álbum é o produto de um doloroso exorcismo de amargura e de rancor. Confessa a brilhante "autora -intérprete" que ele, o tal, continua a ser uma das pessoas mais importantes da sua vida.
O que sucedeu é um clássico: a relação era de sonho e acabou. Acabou mal como terminam todas as relações em que a decisão é unilateral. Meses depois Adele descobre que ele se cai casar com outra pessoa.
A canção fala da incógita que fica quando alguém por quem estávamos apaixonados saí da nossa vida: será que algum dia vou encontrar alguém como tu?
A canção aflora também do medo que é reencontrar essa pessoa, feliz, de mão dada com outra, provavelmente com filhos, a viver uma vida de “anúncio a detergente Skip” numa casa com jardim, roupa esvoaçando ao vento, um cão de pêlo sedoso e uma família que se abraça e ri numa perfeita harmonia que é só marketing.
Confesso que sempre arrumei muito bem as minhas relações.
Não é coisa de que me orgulhe particularmente. Existem até pessoas que me criticam por ser assim.
No final de cada relação volto a página.
Arquivo as memórias numa gaveta que não pretendo voltar a abrir, apago o número de telemóvel e o endereço de e-mail, faço por evitar os mesmos circuitos, sou mesmo capaz de fugir a um contacto visual se nos cruzarmos num local público, remeto a conversa para os “diálogos de elevador” se um frente-a-frente é inevitável.
É claro que choro.
Choramos sempre quando algo nos dói.
Dói sempre perder alguém. Dói sempre perder a continuidade de um sonho que se previa eterno. Dói o vazio e o silêncio. Dói o coração e a alma, o corpo, o peito... Doem os olhos de tanto chorar.
Até que as lágrimas cessam. E depois desse dia sequer considero a hipótese de um recomeçar, com aquela pessoa, em idênticas circunstâncias ou num novo cenário.
Cada pessoa que entra e saí da minha vida tem o seu papel e o seu tempo. Sou incapaz de esquecer os maus momentos. Nunca perdoo as traições. Quem vai não volta porque se perdeu a base de qualquer relação: a confiança.
Confiança como sinónimo de acreditar que aqueles braços não nos largam e aqueles olhos não nos perdem.
A primeira vez que o final de uma relação, que afinal nem sequer o era, me deixou descontrolada, tive como reacção da minha melhor amiga, de quem eu esperava um ombro largo e um colo meigo: “afinal és humana!”
Foi essa mesma amiga que um dia vaticinou "um dia vais chorar a tua vida toda." Assim foi.
Ao ouvir a música da Adele há uma coisa qualquer que me toca sem que eu saiba porque se aperta desta forma o meu coração que presumo esculpido em pedra.
Não penso nos homens que tive e no que fazem eles com as suas mulheres.
Se calhar penso no homem que tenho e nas vidas que com as nossas se cruzaram até ao ponto do caminho em que nos encontramos.
Deixamos ambos algo para trás. Do meu lado ficou um nada a que me acostumo facilmente porque me sinto bem nesta pele de filha única habituada a falar com paredes e profundamente feliz com hobbies de anacoreta: ler ou escrever.
Incapaz de sofrer com os males que enterro em vala comum sem cerimónia nem zelo, fico emocionada com as dores que cantam os outros...

Há dias, em conversa com um colega de MBA, saiu-nos a conclusão de que “as relações devem ser geridas como empresas”.
Serem uma espécie de organização com Direcção de Recursos Humanos, para definir responsabilidades e o âmbito das funções de cada um; com Direcção Financeira, para construir o orçamento e decidir a forma de afectação das verbas disponíveis; com Direcção Comercial/Marketing/Relações Públicas porque isto da vida em casal implica a capacidade de sociabilizar com os outros num jogo que muitas vezes é de troca, outras de charme, outras de protocolo; Direcção de Operações para assumir a logística da coisa, principalmente se existirem filhos e cães.
É claro que em teoria penso assim. Assumo, sou uma teórica.
Em teoria creio que todas as mulheres crêem pensar assim, pois quanto mais falo com amigas emancipadas mais ouço discursos pragmáticos muito bem estruturados sobre partilha de espaço, cama e roupeiro, como controle absoluto de sentimentos e absorção instantânea de lágrimas.
A questão é que o meu colega, homem, ainda por cima engenheiro, conseguirá muito bem gerir a sua vida privada segundo um modelo empresarial. Agora eu, que apesar de tudo me considero “muito homem” quando comparada com as ressabiadas, histéricas e melodramáticas que vejo por aí, posso até tentar ser membro executivo do Conselho de Administração desta estrutura emocional e familiar em que me apoio, mas no final, entre patuscadas, piqueniques e cusquices , não consigo retirar do cenário que imagino para o meu destino: a tal estrada amarela que percorrerei de mão dada com o companheiro de uma vida até alcançar o arco-íris.
Repeti várias vezes quando me divorciei que um casal só funciona se a relação for uma sociedade. Aquela coisa do ter objectivos comuns, uma forma semelhante de encarar o presente e planear o futuro, um esforço de equipa para que os resultados se atinjam. Depois de ter tido uma empresa, sei que esta história das sociedades é uma grande treta!
Não sei o que faz uma relação funcionar.
Ultrapassam-me as razões pelas quais duas pessoas se apaixonam, muito mais porque permite o tempo que a paixão que em algum momento foi amor, se esfume num sentimento de amizade sem sabor nem memória.
Sei que há pessoas com personalidades tão diferentes que aos olhos dos outros são incompatíveis, mas que na alma são siamesas.
Outras há, que de tão complementares são apenas meros companheiros unidos por um pacto de sangue, como escuteiros.
Percebo que muitas pessoas passem a vida a procurar o Príncipe Encantado sem realizarem que a figura do Príncipe que procuram é uma mistura das personagens que entraram e saíram das suas vidas.
Entendo que muitas pessoas se mantenham de mãos dadas porque o medo da solidão as atemoriza.
Mas tenho como certo, que seja o que for que nos atraí para uma pessoa, a ligação só perdura quando a pele se cola, os corações se fundem e os corpos respiram em sintonia.
Invejo por isso a imagem que partilho, em que um casal, ao antecipar uma morte certa, escolheu apagar-se num abraço que nunca mais se
desfez.
Teorias dos outros
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