Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.

Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011
Voando sobre um ninho de "cuscos"

 

Estou ainda a recuperar de uma jornada de mudanças para uma casa nova com potencial para ser um lar assim que se desentulhem todos os centímetros quadrados de área útil actualmente ocupados por caixas, caixinhas, caixotes, malas, sacos do IKEA, molhos e montes de coisas avulso sem inventário nem ordem. Temos pelo chão todos os pedaços do que somos, embrulhados em jornal ou plástico perfurado, que pretendemos pendurar numa parede, alinhar numa estante, colocar em santuário ou pedestal para a partir daí retomarmos sem medos o rumo que nos fez cruzar na mesma estrada.

Até esta manhã ainda me doíam as costas.

Depois do amanhecer passei todo o dia angustiada com uma inexplicável dor de alma.

Seis da manhã e rumo ao aeroporto para mais uma viagem de trabalho. Ainda não eram sete, a cafeína não tinha sequer começado a correr pelo sangue, e eis que sou abalroada pela conversa de uma senhora, minutos antes da descolagem, que argumentava com o pai da sua filha as opções que friamente colocava como hipóteses de resolução de fim de ano. O seu tom de voz era tão agreste e desapaixonado que a decisão que a meu lado se cumpriu deixou-me absolutamente prostrada.

Ameaçava ela que emigraria. Respondia ele, presumo eu, que não se importava. Pelo meio tempo para uma azeda troca de palavras com a cria, que se resumiu a um conjunto de ordens, recomendações e ameaças de castigo, sem um beijinho doce na despedida, apenas um virtual toque de lábios na face, sem som, sem sabor e sem aquele calor cheiroso que só encontramos nos braços da mãe que nos ama.

Fiquei tão envergonhada com o despudorado despejar de azedume, com reminiscências de combate em arena com arremessos de luta greco-romana, que não tive sequer coragem de olhar para a mulher de gelo que tão laconicamente se desprendia de um moribundo projecto que em algum momento sonhou como conto de fadas.

Não me incomodam as opções dos outros. Incomodam-me sim os diálogos beligerantes, esta cruel troca de palavras, disparadas por bocas que num passado que não estará tão distante se engoliram, suspiraram em uníssono, sussurraram meiguices, repetiram que se amavam e adormeceram sobre a mesma almofada num abraço embrulhado de pernas e braços, desfeito entre sorrisos e gargalhadas.

Incomoda-me também esta proximidade de vidas que se sentam ao nosso lado, tocam no nosso ombro, empurram os nossos braços, usurpam o nosso espaço, nos subtraem o ar de oxigénio e de vácuo, vociferando sem pejo nem recato os seus problemas trágicos.

Fenómenos do tipo Big Brother, que agora se chamam “Casa dos Segredos”, são um prolongamento deste voyerismo que, no meu caso, é involuntário, mas que mescla as nossas vidas de "Querido mudei a casa" com as vidas destas personagens de novela mexicana, com tiques de tia de Cascais ou truques de "playboy de vão de escada".

Acho incrível a descontracção com que uma estranha disserta em Dolby Surround sobre a sua vida privada.

É igualmente desconcertante assistir à versão moderna do caixeiro viajante em espécime “frequent flyer” a falar num inglês macarrónico, num portunhol aldrabado ou num português de cigano com clientes, fornecedores ou quem sabe com um telemóvel desligado, discutindo negócios que deviam ser segredo com uma satisfação amplificada, debitando números que são milhões, descrevendo projectos que são milionários, como se ainda fosse crível que numa Europa que se encolhe dentro de uma tanga, proliferassem oportunidades gordas como as vacas da Alemanha (sem qualquer piada subliminar à senhora Merkel).

Não quero saber quanto ganha o senhor careca, quanto custou o telemóvel do homem de bigode, quantos casos tem a cinquentona de cabelo armado que confessa à amiga que com ela viaja que desde o divórcio tem levado tudo o que mexe para a cama.

Quero que me deixem adormecer enquanto as hospedeiras fazem uma coreografia sem graça pelo corredor, alimentando o mito dos coletes que ninguém sabe insuflar ou das mascaras de oxigénio que como um milagre nos salvam.

Acima de tudo quero que me permitam manter a minha vida protegida destes ataques suicidas de gente com egos maiores do que a auto-estima, que desconhecem a dimensão do universo do bom senso, não percebendo também que a reserva nos protege com uma áurea de mistério, e que só assim nos conseguimos isolar num nenúfar soalheiro neste lago de águas turvas cujo fundo é feito de lodo e de lama.

 

 



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Domingo, 4 de Dezembro de 2011
Zaping emocional

 

Não há nada melhor do que estar com as amigas do coração, aquelas que conheço há tantos anos – antes da menstruação e dos tampões, antes do acne e dos rapazes, quando vestíamos calças com cinta sobre o umbigo e não éramos tão loiras – que são como uma espécie de prolongamento histórico da minha vida, uma causa, um efeito e uma consequência da pessoa que sou hoje.

Somos afortunadas por conseguirmos manter uma amizade durante tantos anos, gerindo tempos e espaços de distância com tanta naturalidade que, quando nos reencontramos, parece que a última vez que falmos foi apenas ontem.

Sempre que estamos juntas fazemos autênticas “biópsias à alma”, porque só com quem é tão próximo nos podemos “virar do avesso”, revelando coração, tripas e lágrimas sem reservas nem vergonhas ou medos.

Um grande bem-haja à “Casa de Pasto da Palmeira” que nos acolheu com uma série de petiscos art nouveau sem peneiras.

Creio que todos os jantares entre mulheres gravitam em redor do tema homem, muitas vezes em abstracto, porque nos intrigam mais as relações do que as pessoas.

Chegadas a esta fase da vida divorciadas é inevitável ficarmos presas, pelo menos durante uns tempos, nesse limbo alucinado que são as relações adultas, entre veteranos recalcados, com suas tácticas beligerantes e cicatrizes de guerra.

Ainda não sei o que procuram os homens, mas em relação às mulheres tenho como certo que procuram todas receber o Prémio Nobel pela descoberta da alma gémea. Mesmo as que ficam sós durante tanto tempo que a certa altura bradam com cartazes quão realizadas são com a sua independência, acabam por ficar tão vulneráveis quanto uma adolescente se um dia tropeçam num espécimen que por mais errado que seja ou pareça, tem potencial quanto baste para ocupar o lugar certo.

É claro que temos medo. Com o tempo ganhamos uma estranha imunidade que nos faz antever que qualquer relação está condenada ao insucesso, preparadas para que todo o candidato a residente se revele um parvo carregado de defeitos, incapazes de reagir em conformidade se afinal a pessoa a quem vamos abrindo a nossa porta até é um homem decente e bem-intencionado, apesar de ser esse o nosso inconfessável desejo.

O normal no mundo dos adultos é vogar entre relações plásticas, neste imenso bazar de amor contrafeito, à procura de sexo, de uma companhia para jantar ou para o cinema, de uns momentos de humanidade que nos suguem da nossa rotina de problemas no trabalho, contas para pagar e trânsito louco. Fazemos o que ontem ouvi designar como “zaping emocional”.

Na nossa essência, quando dissemos “sim” em frente a um altar carregado de flores, acreditavamos na lenda do “casamento para sempre”. Não concebo que alguém se case pensando no divórcio como solução para qualquer problema. Admito sim que recorremos mais a essa opção como se fosse uma “saída de emergência”, apenas e só porque desde miúdas aprendemos não sei onde que fomos programadas para ser felizes. Como não existem parâmetros que certifiquem o nosso grau de felicidade, como aqueles que são utilizados nas análises clínicas, quando começamos a agonizar ante o pressentimento de que não somos tão felizes quando poderíamos optamos por esta “fuga para a frente” que aumenta todos os problemas e discussões de um casamento naufrago quando se começa a equacionar a hipoteca da casa e as partilhas.

Gostavamos de pertencer aquela casta dos “cisnes”, os casais que permanecem juntos até à morte num amor cúmplice que é amizade tatuada na carne, caminhando de mãos dadas, com o ombro do outro ao nosso lado, porque assim se caminha num passo sincronizado e porque aí se procura aconchego quando a estrada que seguimos nos falha. 

Em vez disso, a realidade revela-se um filme diferente do que tínhamos realizado como sequência lógica casamento–filhos, e acabamos por desempenhar papéis inspiradas no “Sexo & a Cidade”, que por sua vez se inspira em mulheres como nós, saltando de festa em festa, de desilusão em desilusão, de borboletas na barriga para socos no estômago.

O ideal é que esta fase de zaping seja apenas um treino de resistência, força e endurance, necessário para sermos melhores mulheres para um homem, também ele aperfeiçoado na arte mágica de gerir afectos, impulsos, maus feitios e conflitos de personalidade.

Assim seja!

 

 



publicado por teoriasdacosta às 18:54
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Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011
O fantasma do Natal que aí vem... (não, não é um post sobre a crise, que isso já não é assunto para publicar na blogosfera)

 

Adoro o conto de Charles Dickens em que um velho avaro e resmunguento é visitado na véspera de Natal pelos fantasmas do Natal: o do “Passado”, que lhe recorda a sua infância longínqua, uma míngua de quase tudo em que o mais generoso dos mimos fazia transbordar o seu coração de alegria; o do “Presente”, que lhe revela como será o Natal do que os rodeiam, não tão afortunado como o do velho quando era menino, em parte porque a sua sovinice e tirania comprometem a ventura dos que lhe estão próximos; o do “Futuro” que anuncia um devir de noites de consoada numa solidão fúnebre, antecipando também a maior de todas as angústias dos que partem: extinguir-se sem deixar rasto de afecto nem de saudade.

Adoro o Natal e todos os sons, odores e paladares que o acompanham!

Não concebo uma casa sem luzes intermitentes, velas cintilantes sobre arranjos com azevinho e pinhas, coloridos vibrantes de bolas e fitas, um presépio em destaque com todas as personagens e figurantes, uma toalha de linho centenária sob um extasiante desfile de doces, uma mesa comprida com o serviço que só se utiliza nesta altura do ano, os melhores talheres lá de casa e copos em cristal harmoniosamente alinhados para uma deleitosa ceia que é apenas o mais simples dos pratos do receituário da nossa gastronomia: bacalhau cozido com batatas e couves.

Recordo o “Natal Passado” como o tempo em que saía para jantar em casa de uns primos que durante anos adoptei como irmãos, antecipando em cada estrela que se deslocava a uma velocidade idêntica à do carro as luzes de um trenó puxado a renas. Ainda me emociono quando revejo a surpresa de regressar, encontrando os presentes junto à árvore, o contentamento quase febril ao perceber que o “avô inventado de barba branca” não me excluíra da sua lista, sinal de que afinal eu era uma boa menina.

Evoco um Natal mais próximo como o “Natal Presente”: eu e os meus pais, os três orgulhosamente sós como família mononuclear, sem raízes nem nós que nos prendam a outros com apelido comum e laços de consanguinidade, nos atem a um local com memórias, a uma casa com sala, lareira, traves de madeira no tecto e chão rangendo num timbre acolhedor sobre a euforia dos nossos passos. Por maior que seja o amor que nos una, um Natal assim não passa de um jantar. Regozijamo-nos por estarmos juntos, como estaríamos sempre de forma incondicional, mas falta um calor de pessoas, de risos e de vozes sobrepostas, o verdadeiro sinal de festa de consoada, o mais autêntico dos presentes que se pode desejar.

Imaginei muitas vezes um “Natal Futuro” em que me veria só, de pijama e roupão, no sofá com uma taça de cereais ao colo e o comando numa mão, esquecida no calendário do tempo do significado das datas e das comemorações. Numa versão mais optimista imaginava-me rodeada de amigos numa festa que seria mais um jantar tertúlia do que uma clonagem de qualquer tipo de ceia em família "postiça".

Mas o Natal que sempre quis é o que vou ter este ano, com uma casa a ser estreada por uma vintena de pessoas, num espírito de entreajuda e partilha. As mulheres dividirão tarefas entre os milagres da Bimby e a magia dos segredos culinários que apenas ficam registados nas imagens que gravamos no coração, como a da minha Mãe debruçada sobre o fogão embebendo fatias de pão numa espécie de poção mágica. Os homens, na sala, enchendo o ar com a estridência das suas gargalhadas, circulando pela casa sem ultrapassar o território sagrada da cozinha, como se vigiar a azafama dos preparativos fosse o equivalente a "dar uma ajudinha".

Este é o meu “Natal Futuro”, com uma mão cheia de gente à mesa, família que nem me atrevo a dizer que foi a escolhida (quando o que sempre ouvi dizer foi que “família não se escolhe”) porque se algum dia tivesse de me imaginar na noite de consoada, jamais teria ousado pedir tanto, com almas tão autênticas, sentimentos tão genuínos e, é claro, os meus pais em perfeita harmonia com estes parentes herdados por amor e por osmose transformados em irmãos, primos e sobrinhos, num desdobrar de laços de afinidade que não tem grau nem limite.

 



publicado por teoriasdacosta às 23:28
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Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011
Quando nos doem as dores dos outros...

 

Anda pela rádio uma música a que é impossível ficar indiferente.

Falo de “someone like you” da Adele.

Sempre que ouço esta mulher cantar uma relação falhada de uma forma tão sofrida quase me arrepio.

Ouvi dizer que se trata de uma declaração auto-biográfica. Googlei o assunto e lá descubro na Wikipedia que de facto esta música constituí um acto de expiação sobre uma relação que terminou ao final de dois anos. Todo o álbum é o produto de um doloroso exorcismo de amargura e de rancor. Confessa a brilhante "autora -intérprete" que ele, o tal, continua a ser uma das pessoas mais importantes da sua vida.

O que sucedeu é um clássico: a relação era de sonho e acabou. Acabou mal como terminam todas as relações em que a decisão é unilateral. Meses depois Adele descobre que ele se cai casar com outra pessoa.

A canção fala da incógita que fica quando alguém por quem estávamos apaixonados saí da nossa vida: será que algum dia vou encontrar alguém como tu?

A canção aflora também do medo que é reencontrar essa pessoa, feliz, de mão dada com outra, provavelmente com filhos, a viver uma vida de “anúncio a detergente Skip” numa casa com jardim, roupa esvoaçando ao vento, um cão de pêlo sedoso e uma família que se abraça e ri numa perfeita harmonia que é só marketing.

Confesso que sempre arrumei muito bem as minhas relações.

Não é coisa de que me orgulhe particularmente. Existem até pessoas que me criticam por ser assim.

No final de cada relação volto a página.

Arquivo as memórias numa gaveta que não pretendo voltar a abrir, apago o número de telemóvel e o endereço de e-mail, faço por evitar os mesmos circuitos, sou mesmo capaz de fugir a um contacto visual se nos cruzarmos num local público, remeto a conversa para os “diálogos de elevador” se um frente-a-frente é inevitável.

É claro que choro.

Choramos sempre quando algo nos dói.

Dói sempre perder alguém. Dói sempre perder a continuidade de um sonho que se previa eterno. Dói o vazio e o silêncio. Dói o coração e a alma, o corpo, o peito... Doem os olhos de tanto chorar.

Até que as lágrimas cessam. E depois desse dia sequer considero a hipótese de um recomeçar, com aquela pessoa, em idênticas circunstâncias ou num novo cenário.

Cada pessoa que entra e saí da minha vida tem o seu papel e o seu tempo. Sou incapaz de esquecer os maus momentos. Nunca perdoo as traições. Quem vai não volta porque se perdeu a base de qualquer relação: a confiança.

Confiança como sinónimo de acreditar que aqueles braços não nos largam e aqueles olhos não nos perdem.

A primeira vez que o final de uma relação, que afinal nem sequer o era, me deixou descontrolada, tive como reacção da minha melhor amiga, de quem eu esperava um ombro largo e um colo meigo: “afinal és humana!”

Foi essa mesma amiga que um dia vaticinou "um dia vais chorar a tua vida toda." Assim foi.

Ao ouvir a música da Adele há uma coisa qualquer que me toca sem que eu saiba porque se aperta desta forma o meu coração que presumo esculpido em pedra.

Não penso nos homens que tive e no que fazem eles com as suas mulheres.

Se calhar penso no homem que tenho e nas vidas que com as nossas se cruzaram até ao ponto do caminho em que nos encontramos.

Deixamos ambos algo para trás. Do meu lado ficou um nada a que me acostumo facilmente porque me sinto bem nesta pele de filha única habituada a falar com paredes e profundamente feliz com hobbies de anacoreta: ler ou escrever.

Incapaz de sofrer com os males que enterro em vala comum sem cerimónia nem zelo, fico emocionada com as dores que cantam os outros...

 

 



publicado por teoriasdacosta às 21:37
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Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011
O que não nos mata torna-nos diferentes

 

Sou fã daqueles discursos tipo homilia do Reino de Deus, uma espiral de palavras que nos elevam e no final nos fazem bater palmas, de lágrimas nos olhos, gritando “vivas” ou “aleluias”.

Nas faculdades norte-americanas há sempre discursos deste género no dia da formatura. Já por aqui partilhei uma intervenção de Steve Jobs, que soube
esta semana abandonou o cargo de CEO da Apple debilitado como está da luta que vem travando há anos contra um cancro no pâncreas.

A intervenção que partilho hoje é de Conan O´Brien, que com o seu inegualável sentido de humor, começa o discurso congratulando os finalistas de Dartmouth Collegue, relembrando que eles fazem parte dos 92% de americanos com um diploma universitário, estando por isso numa posição de vantagem em relação aos 8% que abandonaram os estudos, como Bill Gates, Steve Jobs ou Mark Zuckerberg, que por acaso frequentava Harvard quando se lembrou de criar uma rede social entre os alunos do campus, que hoje conhecemos como Facebook.

Depois de uma primeira parte hilariante, O´Brein partilha finalmente a tal mensagem que nos estremece. Num tom mais sério (dentro do género), este gigante ruivo apalhaçado, evoca uma intervenção que fez em Harvard em 2000, na qual aludiu a uma frase que é um cliché: “nunca devem ter medo de falhar”.

É universal a frase “o que não nos mata torna-nos mais forte” mas O´Brien alerta que às vezes quase morremos a tentar.

O comediante fala então da desilusão por que passou quando abandonou o seu programa de televisão em horário nobre, passando de bestial a besta como nos acontece sucessivamente ao longo da vida. Com esta saída sem glória, na altura surpreendente e incompreensível, a estrela televisiva retrocedeu na sua fabulosa carreira, regressando ao mundo das digressões, em palcos nem sempre glamorosos, fazendo stand-up comedy como tantos outros, anónimos ou mais ou menos conhecidos, que conseguem encadear algumas chalaças que fazem rir uma plateia de gente que entre gargalhadas se engasga com os amendoins e a cerveja. Também experimentou o mundo da música, gravou um albúm, fez um documentário e andou à deriva entre opções irreflectidas, espontâneas, algumas disparatadas, quase todas inconvencionais e irracionais, que deixaram bastante preocupados os seus amigos e família.

Depois de tantos loopings em montanhas russas, O´Brien viu-se forçado a abandonar todos os preconceitos que mantinha enquanto a estrela televisiva que foi (num canal nacional) para assinar um contrato como o mero entertainer que se viu forçado a reconhecer que era, num canal por cabo.

No discurso em Dartmouth, ultrapassado este período negro que consegue agora rever como gratificante, surge então o alerta: “o mundo desaba quando o nosso maior pesadelo se concretiza”.

A mensagem que O´Brien quer que os recém-licenciados retenham é que os objectivos que traçamos quando acabamos o curso não estarão necessariamente realizados uma década depois. Porque mudamos e com isso alteramos a nossa matriz. Porque as variáveis se alteram impondo desvios na estrada que acreditávamos ser uma espécie de piso alcatroado e não um sinuoso caminho em terra batida.

Todos temos sonhos. Muitos deles não se realizam.

Argumenta O´Brien que é essa incapacidade em nos tornarmos na pessoa que estávamos convictos que seríamos que nos permite, finalmente, amadurecer como seres humanos únicos e não como a clonagem imperfeita de um personagem que já existe.

O falhanço pode pois ser o catalizador da nossa reinvenção.

Depois de ter passado vinte e cinco anos a persseguir o seu sonho – ser o apresentador do Tonight Show -, acreditando que o alcance dessa meta lhe garantia a medalha de sucesso que destaca uma pessoa das demais, O´Brien percebeu que mesmo quando o sonho se alcança há sempre a possibilidade de este se dissolver como um castelo de areia.

Em conclusão, fica a ideia de que não devemos ter medo de falhar, pois o falhanço é o maior garante de objectividade e de originalidade para os momentos que viveremos a seguir.

As últimas palavras de O´Brien são “work hard, be kind and amazing things will happen” – trabalhem duro, sejam condescendentes e coisas maravilhosas acontecerão.

Assim seja...

 

 



publicado por teoriasdacosta às 22:12
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Domingo, 21 de Agosto de 2011
De machos latinos a príncipes encantados...

 

A revista do Expresso deste fim-de-semana traz como tema o macho latino como espécie em vias de extinção. Como é usual quando se falam destes assuntos gastos e com tanto interesse como contar grãos de areia na praia, lá vêm elas falar deles e eles falar do seu ego exarcebado.

Confesso que ainda não li as reportagens. Passei os olhos pelas fotos e pelas letras grandes.

Mas imagino contudo, que elas, todas mulheres com estilo e carreira, independentes e emancipadas, começam a falar do conceito “macho latino”, mas acabam inevitavelmente a divagar sobre as relações contemporâneas.

Todas as mulheres entre os quinze e os cinquenta tomam-se como emocionalmente estáveis, inteligentes e auto-suficientes. Para a maioria, um homem só é necessário para carregar as compras mais pesadas do supermercado, para mudar um pneu, ou para montar qualquer coisa do IKEA cujas instruções incluam mais do que três etapas.

Tretas! Por muito que se proclame a independência como se isso fosse uma espécie de medalha, a verdade é que são raras as mulheres que no seu íntimo, no cantinho mais secreto das suas aspirações inconfessáveis, não sonham que um dia vão adormecer nos braços do príncipe encantado.

Já por aqui escrevi que não sei o que é “o homem da nossa vida” nem sei se sou capaz de desenvolver uma teoria sobre o tema. Parece-me que a eles, aos homens, não lhes preocupa esta questão de ser o homem da vida de alguém. Se calhar esta perspectiva até os deixa assustados!

A questão é que todas as mulheres têm um ideal.

A culpa é dos filmes do Walt Disney, da Barbie e do Ken, dos filmes “água com açucar” e das séries românticas em que há sempre um casal que se beija apaixonadamente no final. Mas até a Jeniffer Aniston, que surge sempre na tela como a mulher de sonho de alguém, na vida real não tem grande sorte com os namorados...

Desde a infância vamos concebendo um molde que queremos cobrir com um determinado tom de pele, olhos num tom indecifrável e cabelo de ondas suaves. Depois, tropeçamos em seres humanos  que não têm nada a ver com o boneco imaginário, a quem achamos piada e por quem nos apaixonamos.

Às vezes, o príncipe dos sonhos é loiro e o homem que nos arrebata é moreno... A maior probabilidade é que o homem que nos desvirtua o modelo não seja capaz de um estóico acto romântico. Quase de certeza se vai esquecer de datas que são importantes, desconhece que há uma música que é a "nossa", deixa pêlos na banheira e a tampa da sanita levantada... Isto não quer dizer porém, que esses senhores cujo sorriso nos desarma sejam afinal uma espécie de sapo.

Quando se tem azar com a escolha eles não se revelam sapos mas sim seres invertebrados...

Grande parte das mulheres que conheço não têm a certeza se o homem que dorme com elas é realmente o “tal”. Um número cada vez maior prefere por isso não dormir acompanhada. Há ainda outras, poucas, que adormecem nos braços do Rei suspirando pelo príncipe encantado.

Eu prefiro acreditar no destino, confiando que a vida me conduzirá sempre, por mais que eu tropece e caía, à pessoa que me está predestinada...

 



publicado por teoriasdacosta às 23:29
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