
Por estes dias, entre a “mixórdia de temáticas”, os telejornais e as rapidinhas radiofónicas, foi assunto a proibição de fumar em veículos que transportem crianças.
É claro que me parece lógico que quem fuma o não faça no carro se as crianças vão lá dentro. Já agora até convém que não fumem em circunstância alguma já que o odor pestilento dos cigarros se entranha nos estofos, cabedais e plásticos. Em relação a cheiros, aromas e fragâncias advirto também que a utilização de ambientadores automóveis com perfume tão enjoativo como o mais puro dos Habanos poderá ser factor penalizador nas operações stop da brigada do "controle pelo olfacto".
Apesar de não conseguir demonstrá-lo científicamente quase arrisco que muitos pais fumadores evitam fazê-lo dentro de casa, logo não fumarão também nesse prolongamento do lar que é o carro de família. Posso até ir mais longe e aventar que os progenitores que partilham irresponsavelmente a sua adição em nicotina e alcatrão com as crianças são do tipo que diz palavrões, escarra, bate na mulher, mete-se nos copos, tem grande propensão para a condição de desempregado, de falhado ou de defunto precoce com cancro do pulmão, hepatite ou cirrose.
Esta hipótese de lei sobre a qual se anda a especular é uma grande treta!
Não basta o arrepio provocado pelo congelamento de subsídios e o atentado de protelar a idade da reforma até à fase da algália, ainda temos de aturar os delírios de governação daquele bando de figurantes da troika que, não podendo construir pontes, escolas, hospitais ou auto-estradas, nas horas de ócio se dedica a legislar sobre regras de educação e de bom senso.
Não me espanta que a seguir a isto se tentem aprovar leis sobre boa vizinhança, o uso de faca e garfo, a saudação com beijo -single ou duplo - e outras circunstâncias quotidianas sem relevância prática.
Se quisermos levar o fundamentalismo anti-tabágico a sério então o que fazer com as grávidas que fumam?
Não fumo e por acaso conheço cada vez menos pessoas que o fazem.
Seja como for há coisas piores e mais perigosas que se podem fazer no carro, como discutir com o conjuge ou falar ao telemóvel.
Desde que entraram em vigor estas normas de segregação dos viciados em nicotina – que os remetem para a varanda, para a porta de entrada ou para um cubo de vidro no aeroporto – admito que me tornei mais intolerante ao fumo dos outros. Quase me parece impossível que noutros tempos fumadores activos e passivos convivessem harmoniosamente num restaurante, bar ou café, do mesmo modo que estranho que no tempo em que tirei a carta (há vinte anos, precisamente!) a taxa de mortalidade ao volante não estivesse próxima dos 100% apesar de não ser obrigatória a utilização de cinto de segurança, ou que fosse normal comer arroz e batatas sem que esta mistura explosiva de hidratos de carbono nos convertesse numa cambada de obesos.
A perseguição aos viciados em alcatrão faz-me pena.
Fumar faz mal, envelhece, provoca um péssimo hálito e já nem sequer fica bem. Não acredito que nos tempos que correm alguém comece a fumar porque é in ou que persista no vício porque acha correcto. Os fumadores são tão viciados como os adictos noutras drogas e estas medidas proibitivas correm o risco de aumentar a propensão da malta nova para começar a fumar dada a lógica da atracção pelo proibido.
Seja como for, a acreditar na Constituição e na liberdade de ser e de estar até ao limite do metro quadrado de civilidade que nos deve separar do outro, então que se permita aos pais exercerem em relação ao fumo o que dita a sua consciência.

Na resposta a uma provocação de um leitor assíduo do meu blogue que declarou o dia 8 de Março como o “dia internacional da costela de Adão”, decretei que o dia 19 de Março seria o “dia do espermatozóide bem sucedido”.
Na realidade, para todos os homens sem excepção, a paternidade resulta de uma lotaria genética.
Idêntico raciocínio se poderia aplicar à probabilidade de uma mulher ter um dos seus óvulos fecundados, mas a odisseia a que os espermatozóides têm de sobreviver depois de descarregados num qualquer útero é uma autêntica prova de esforço e resiliência a que só o “cabeçudo bravo do pelotão” resiste (se existir um entre a cambada microscópica que anda por ali a divertir-se).
É claro que há homens que desejam tanto ou mais do que muitas mulheres ter filhos. Mas para a generalidade a fecundação é um momento de prazer e o milagre da paternidade só deixa de ser ficção quando o choro de um bebé lhes ecoa nos ouvidos.
Nos dias que correm, ser Pai é muito diferente do que era quando eu nasci.
Para começar já é normal que eles assistam ao parto, coisa que imagino até seria proibida antes do 25 de Abril. Depois, eles mudam fraldas, fazem sopas, levantam-se de noite, acompanham os miúdos ao médico e no primeiro dia de aulas, se preciso for ficam em casa quando eles adoecem e até beneficiam de dias de licença de paternidade quando a criança nasce.
No meu tempo, a figura do pai era mais distante. Era suposto que o pai falasse mais alto, mais grosso, tivesse coragem para dizer “não” mais vezes, tomasse a última palavra em qualquer dicussão, decretasse regras, obrigações e castigos.
Habituei-me pois a um Pai assim - mais ausente, mais rigoroso, menos tolerante – nem bom nem mau, certamente melhor do que o de muitas das minhas amigas. Nunca vi nenhum outro Pai brincar com os filhos (presumo que na altura não seria usual) mas o meu pegava na miudagem do prédio e levava-nos ao cinema ou à praia, dava uns toques na bola se nos encontrava no pátio a jogar futebol, pegava em mim ao colo, carregava-me às cavalitas.
Durante anos vi o meu Pai apenas como o chefe de família.
Nos últimos anos fui conhecendo o meu Pai como homem, com uma sensibilidade que comove apesar de fazer questão de mantê-la escondida.
Ontem era a corrida do Dia do Pai no Porto e eu não pude ir. Falei com ele depois da prova (que o atleta que o meu Pai é completou em 54 minutos!) e celebramos antecipadamente ao telemóvel o 19 de Março fingindo-nos menos tristes com esta distância de quilometros que não se ultrapassa com novas tecnologias.
Hoje liguei-lhe à primeira hora da manhã para lhe desejar um dia feliz.
Até há pouco tempo apenas a minha Mãe se mantinha ligada a mim por um invisível cordão umbilical que lhe permitia saber ao primeiro som da minha voz se eu estava bem, se tinha fome ou se estava com dores de barriga. Agora tenho a certeza que também entre mim e o meu Pai há uma ligação de coração, de coronária, de aorta que sincroniza os nossos humores, emoções e batidas.
A primeira reacção do meu Pai quando eu lhe telefonei hoje foi de temor pela minha vida, como se a razão daquele contacto pudesse estar num acidente ou em qualquer outra tragédia. Esta preocupação de guardião é prova de amor tão grande como um abraço longo e sentido, por isso, porque nunca o disse nem escrevi, aqui fica registada a minha mensagem de filha:
AMO-TE PAI

Depois de um fim-de-semana como o que passou apetece-me escrever uma daquelas composições à escola primária em que celebrávamos a chegada da Primavera exultando o chilrear dos passarinhos, o colorido dos jardins, o alongar dos dias e a promessa de calor.
Em vez disso opto por comentar a esquizofrenia que nos tem assaltado por estes dias em que lamentamos a falta de chuva, temendo que este vislumbre de Verão antecipado seja o augúrio de semanas a fio de dilúvio. Já andam por aí boatos de más-línguas que vaticinam que vai chover todo o Agosto...
Portugal converteu-se subitamente num país de agricultores - como prescrevia o Dr. Salazar nos tempos da outra senhora - e a toda a hora ouvimos notícias sobre as couves, os tomates, os girassóis e as vitelinhas que correm o risco de engordar as estatísticas da baixa produtividade, já que não ganham peso, forma ou cor com esta míngua de água que quase parece mais uma das restrições da troika.
Falta apenas reeditarem os programas do saudoso Eng.º Sousa Veloso, que nos faziam companhia depois da Eucaristia Dominical, para voltarmos a um tempo que não é este em que a televisão era a preto e branco e o Borda d´água era best seller.
Segundo consta, a Ministra Assunção Cristas andou a resistir estoicamente a um pedido de ajuda à União Europeia, informando agricultores, metereologistas e outros cidadãos interessados que a vinda da chuva era uma questão de fé.
Concluo eu que Portugal é um país de ateus. Não há oração, nem reza, nem missa que nos salve.
(Foi-se o espaço para a analogia "Futebol, Fátima e Fado" tão a propósito deste regresso ao passado em versão "Conta-me como foi".)
Num presente em que estamos fartos de falar de crise e de desemprego, é curioso que entre as conversas de circunstância que as pessoas fazem ao redor da máquina do café se lamente a má sorte dos agricultores. Noutros tempos era mais natural ouvir falar em planos de férias para as Caraíbas ou, na pior das hipóteses, em fins-de-semana relâmpago no Algarve.
A falta de tudo tem suscitado um estranho fenómeno de solidariedade. Arrisco comentar que a desgraça do vizinho nos faz sentir menos mal com o dinheiro que nos some. Talvez seja por isso que todos se preocupam tanto com este Sol de praia que ameaça estragar a lavoura.
Entre voltas saudosistas ao passado até a Ministra que tutela as hortas, pomares e galinheiros resiste a requerer auxílio recuperando um costume dos nossos antepassados que acreditavam que pedir era uma vergonha.
Num mês qualquer do ano passado, fizeram-se múltipas reportagens sobre a chuva e seu impacto sobre patologias melancólicas. Estamos em altura de reciclar o tema, averiguando se a ausência do tal tempo cinzento que potencia estados depressivos não tem o efeito oposto, isto é, se este bâlsamo de Primavera que é grátis não deve ser absorvido como terapia, com efeitos milagrosos sobre o estado de espírito, a auto-estima e o humor.
Não quero acreditar que a procura da felicidade nestas pequenas coisas viole alguma das reclamações da troika, apesar de sabermos agora que esses nórdicos senhores de fato assumem que Portugal é um país de pagodeiros inconscientes incapazes de gerir com parcimónia feriados e pontes...
Eu, que às vezes prefiro ser levezinha, tão ingénua como uma menina que ainda anda de baloiço, abstraío-me de todos os sinais que me recordam o cenário de catástrofe e saúdo efusivamente o bom tempo!

Estou ainda a recuperar de uma jornada de mudanças para uma casa nova com potencial para ser um lar assim que se desentulhem todos os centímetros quadrados de área útil actualmente ocupados por caixas, caixinhas, caixotes, malas, sacos do IKEA, molhos e montes de coisas avulso sem inventário nem ordem. Temos pelo chão todos os pedaços do que somos, embrulhados em jornal ou plástico perfurado, que pretendemos pendurar numa parede, alinhar numa estante, colocar em santuário ou pedestal para a partir daí retomarmos sem medos o rumo que nos fez cruzar na mesma estrada.
Até esta manhã ainda me doíam as costas.
Depois do amanhecer passei todo o dia angustiada com uma inexplicável dor de alma.
Seis da manhã e rumo ao aeroporto para mais uma viagem de trabalho. Ainda não eram sete, a cafeína não tinha sequer começado a correr pelo sangue, e eis que sou abalroada pela conversa de uma senhora, minutos antes da descolagem, que argumentava com o pai da sua filha as opções que friamente colocava como hipóteses de resolução de fim de ano. O seu tom de voz era tão agreste e desapaixonado que a decisão que a meu lado se cumpriu deixou-me absolutamente prostrada.
Ameaçava ela que emigraria. Respondia ele, presumo eu, que não se importava. Pelo meio tempo para uma azeda troca de palavras com a cria, que se resumiu a um conjunto de ordens, recomendações e ameaças de castigo, sem um beijinho doce na despedida, apenas um virtual toque de lábios na face, sem som, sem sabor e sem aquele calor cheiroso que só encontramos nos braços da mãe que nos ama.
Fiquei tão envergonhada com o despudorado despejar de azedume, com reminiscências de combate em arena com arremessos de luta greco-romana, que não tive sequer coragem de olhar para a mulher de gelo que tão laconicamente se desprendia de um moribundo projecto que em algum momento sonhou como conto de fadas.
Não me incomodam as opções dos outros. Incomodam-me sim os diálogos beligerantes, esta cruel troca de palavras, disparadas por bocas que num passado que não estará tão distante se engoliram, suspiraram em uníssono, sussurraram meiguices, repetiram que se amavam e adormeceram sobre a mesma almofada num abraço embrulhado de pernas e braços, desfeito entre sorrisos e gargalhadas.
Incomoda-me também esta proximidade de vidas que se sentam ao nosso lado, tocam no nosso ombro, empurram os nossos braços, usurpam o nosso espaço, nos subtraem o ar de oxigénio e de vácuo, vociferando sem pejo nem recato os seus problemas trágicos.
Fenómenos do tipo Big Brother, que agora se chamam “Casa dos Segredos”, são um prolongamento deste voyerismo que, no meu caso, é involuntário, mas que mescla as nossas vidas de "Querido mudei a casa" com as vidas destas personagens de novela mexicana, com tiques de tia de Cascais ou truques de "playboy de vão de escada".
Acho incrível a descontracção com que uma estranha disserta em Dolby Surround sobre a sua vida privada.
É igualmente desconcertante assistir à versão moderna do caixeiro viajante em espécime “frequent flyer” a falar num inglês macarrónico, num portunhol aldrabado ou num português de cigano com clientes, fornecedores ou quem sabe com um telemóvel desligado, discutindo negócios que deviam ser segredo com uma satisfação amplificada, debitando números que são milhões, descrevendo projectos que são milionários, como se ainda fosse crível que numa Europa que se encolhe dentro de uma tanga, proliferassem oportunidades gordas como as vacas da Alemanha (sem qualquer piada subliminar à senhora Merkel).
Não quero saber quanto ganha o senhor careca, quanto custou o telemóvel do homem de bigode, quantos casos tem a cinquentona de cabelo armado que confessa à amiga que com ela viaja que desde o divórcio tem levado tudo o que mexe para a cama.
Quero que me deixem adormecer enquanto as hospedeiras fazem uma coreografia sem graça pelo corredor, alimentando o mito dos coletes que ninguém sabe insuflar ou das mascaras de oxigénio que como um milagre nos salvam.
Acima de tudo quero que me permitam manter a minha vida protegida destes ataques suicidas de gente com egos maiores do que a auto-estima, que desconhecem a dimensão do universo do bom senso, não percebendo também que a reserva nos protege com uma áurea de mistério, e que só assim nos conseguimos isolar num nenúfar soalheiro neste lago de águas turvas cujo fundo é feito de lodo e de lama.

Adoro o conto de Charles Dickens em que um velho avaro e resmunguento é visitado na véspera de Natal pelos fantasmas do Natal: o do “Passado”, que lhe recorda a sua infância longínqua, uma míngua de quase tudo em que o mais generoso dos mimos fazia transbordar o seu coração de alegria; o do “Presente”, que lhe revela como será o Natal do que os rodeiam, não tão afortunado como o do velho quando era menino, em parte porque a sua sovinice e tirania comprometem a ventura dos que lhe estão próximos; o do “Futuro” que anuncia um devir de noites de consoada numa solidão fúnebre, antecipando também a maior de todas as angústias dos que partem: extinguir-se sem deixar rasto de afecto nem de saudade.
Adoro o Natal e todos os sons, odores e paladares que o acompanham!
Não concebo uma casa sem luzes intermitentes, velas cintilantes sobre arranjos com azevinho e pinhas, coloridos vibrantes de bolas e fitas, um presépio em destaque com todas as personagens e figurantes, uma toalha de linho centenária sob um extasiante desfile de doces, uma mesa comprida com o serviço que só se utiliza nesta altura do ano, os melhores talheres lá de casa e copos em cristal harmoniosamente alinhados para uma deleitosa ceia que é apenas o mais simples dos pratos do receituário da nossa gastronomia: bacalhau cozido com batatas e couves.
Recordo o “Natal Passado” como o tempo em que saía para jantar em casa de uns primos que durante anos adoptei como irmãos, antecipando em cada estrela que se deslocava a uma velocidade idêntica à do carro as luzes de um trenó puxado a renas. Ainda me emociono quando revejo a surpresa de regressar, encontrando os presentes junto à árvore, o contentamento quase febril ao perceber que o “avô inventado de barba branca” não me excluíra da sua lista, sinal de que afinal eu era uma boa menina.
Evoco um Natal mais próximo como o “Natal Presente”: eu e os meus pais, os três orgulhosamente sós como família mononuclear, sem raízes nem nós que nos prendam a outros com apelido comum e laços de consanguinidade, nos atem a um local com memórias, a uma casa com sala, lareira, traves de madeira no tecto e chão rangendo num timbre acolhedor sobre a euforia dos nossos passos. Por maior que seja o amor que nos una, um Natal assim não passa de um jantar. Regozijamo-nos por estarmos juntos, como estaríamos sempre de forma incondicional, mas falta um calor de pessoas, de risos e de vozes sobrepostas, o verdadeiro sinal de festa de consoada, o mais autêntico dos presentes que se pode desejar.
Imaginei muitas vezes um “Natal Futuro” em que me veria só, de pijama e roupão, no sofá com uma taça de cereais ao colo e o comando numa mão, esquecida no calendário do tempo do significado das datas e das comemorações. Numa versão mais optimista imaginava-me rodeada de amigos numa festa que seria mais um jantar tertúlia do que uma clonagem de qualquer tipo de ceia em família "postiça".
Mas o Natal que sempre quis é o que vou ter este ano, com uma casa a ser estreada por uma vintena de pessoas, num espírito de entreajuda e partilha. As mulheres dividirão tarefas entre os milagres da Bimby e a magia dos segredos culinários que apenas ficam registados nas imagens que gravamos no coração, como a da minha Mãe debruçada sobre o fogão embebendo fatias de pão numa espécie de poção mágica. Os homens, na sala, enchendo o ar com a estridência das suas gargalhadas, circulando pela casa sem ultrapassar o território sagrada da cozinha, como se vigiar a azafama dos preparativos fosse o equivalente a "dar uma ajudinha".
Este é o meu “Natal Futuro”, com uma mão cheia de gente à mesa, família que nem me atrevo a dizer que foi a escolhida (quando o que sempre ouvi dizer foi que “família não se escolhe”) porque se algum dia tivesse de me imaginar na noite de consoada, jamais teria ousado pedir tanto, com almas tão autênticas, sentimentos tão genuínos e, é claro, os meus pais em perfeita harmonia com estes parentes herdados por amor e por osmose transformados em irmãos, primos e sobrinhos, num desdobrar de laços de afinidade que não tem grau nem limite.

Toda a gente sabe que “o melhor do mundo são as criancinhas”.
Confesso que não sou daquelas mulheres que ficam histéricas quando se cruzam com um bébé e, se alguma vez houve um tic-tac no meu relógio biológico, foi há tanto tempo que arquivei o chamamento para a maternidade como uma coisa do meu passado arqueológico. Apesar de ter APENAS trinta e oito anos e de tanta gente insistir que ainda vou a tempo de experimentar a intraduzível sensação de amor que é gerar no ventre um ser humano, decidi aos trinta e qualquer coisa que não queria ser a mãe mais velha do infantário.
Esta é uma decisão meramente prática: tudo tem um tempo e uma oportunidade. Podemos prescindir de soutien se as maminhas forem copa trinta e dois, mas só até aos doze anos; não devemos ousar nos decotes se essa copa ultrapassar os trinta e quatro, qualquer que seja a idade; não podemos usar saia com tamanho micro-mini depois dos dezoito se não crescermos para lá do metro e sessenta e cinco mas só enquanto coubermos no maior dos tamanhos da secção de criança (equação muito difícil de fazer a não ser para as estúpidas das magras...).
Mesmo não querendo ter filhos confesso que acho uma certa piada aos miúdos, principalmente em idade pré-primária. Em doses de “prato de sobremesa”, confesso, porque assim como o abuso de doces tem consequências perigosas, também o convívio excessivo com seres de um metro, mais coisa menos coisa, tem os seus efeitos nocivos, quando as crianças não são nossas, claro está!
Ouvi de bocas de miúdos ainda suficientemente imunes às Play Station e aos telemóveis, as saídas mais espontâneas e as perguntas mais deliciosas. Como quando a minha priminha de cinco anos ao perceber que o meu pacote de TV Cabo não incluía o canal Panda me comunicou pesarosa que “quem não tem Panda não pode ter filhos”, ou quando o meu vizinho de três anos e qualquer coisa perguntou com curiosidade de engenheiro de aeronáutica “como é que as moscas dão as curvas?”
Este fim-de-semana, num bucólico cenário de prados e vacas, sempre rodeados de água, hortênsias e rochas, dei por mim num passeio com um casal que procurava desesperadamente mostrar à sua filha de oito anos todas as fotográficas maravilhas ao redor de Ponta Delgada. O impossível aconteceu e, numa estrada de um sentido só, estreita demais para uma inversão de marcha, nos deparamos com um engarrafamento provocado por um carro de aluguer mal estacionado que bloqueava a passagem de um autocarro carregado de turistas da terceira idade.
O pai da menina entrou em desespero. Vociferou, bateu com as mãos no volante, praguejou, perdeu a calma numa amplitude que me pareceu despropositada, até que cinco minutos depois o condutor distraído apareceu e retirou a sua viatura da berma da estrada.
Comentei eu, que procuro sempre desanuviar o ambiente com a deixa da loira bem-disposta “pronto, já passou, ainda vamos ver as furnas antes que o Sol se esconda nas montanhas!”. Acrescentou a menina num tom solene de quem recita uma oração “vamos fingir que estes cinco minutos nunca aconteceram.”
“Fantástico!” pensei, não resistindo a agradecer tamanha sabedoria com um cúmplice piscar de olhos “ a vida é mais fácil de digerir se fingirmos que os momentos maus que nos amarguram foram apenas um sonho mau, um pensamento vago, um sopro que não deixa marca nem odor, apenas a sensação de que pairou sobre nós um espectro ou de que fomos atravessados por um fantasma.
O que não for suficientemente bom para ficar na memória
deve ser apagado.
Como dizem numa rádio que de há tempos por cá se lembrou de nos tratar a todos por tu “vale a pena pensar nisto...”
Teorias dos outros
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