
Caiu-me nas mãos um pequenino livro de bolso com o título “On bullshit”.
Este livro é editado pela Universidade de Princeton logo não é uma bullshit qualquer.
O autor, Harry G. Frankfurt, propõe-se a desenvolver uma teoria sobre esta expressão que classifica toda a interpretação enganosa da realidade induzida com dolo, isto é, com a intenção de provocar nos outros um certo sentimento. Por outras palavras, em toda a bullshit o contéudo da mensagem é fabricado de forma a condicionar a sua percepção.
Ocorre-me de imediato o dramatismo, a linguagem corporal e a entoação com que certos pivots dos Telejornais, principalmente na RTP1 e na TVI, usam ao transmitir notícias. Quando o José Rodrigues dos Santos pisca os olhos e franze a sobrancelha ao informar que foi encontrada mais uma idosa solitária morta em casa está a valorizar a reprovação, a comoção que sente mais do que o choque que é a notícia em si mesma. Ocorre-me também a forma como certas pessoas se publicam no FaceBook tentando passar uma imagem de si próprias que não corresponde necessariamente ao que são mas sim à forma como querem ser vistas por quem as espreita no mural.
Isto não quer dizer que uma pessoa esteja a veicular uma mentira. Signfica apenas que está a fornecer uma interpretação falaz da realidade.
O meu blog é uma produção de bullshit. Às vezes. Quem me conhece não acredita que eu seja como me escrevo. Eu defendo que me escrevo como sou e que poucos me conhecem de verdade.
Seja como for, a sociedade actual está sobrecarregada de bullshit e todos temos consciência desse fenómeno, mesmo quando acreditamos ser imunes ou inocentes em relação a essa produção de mensagens sem sentido, desproporcionadas, exageradas, parciais.
Esta "moda" dos debates e comentários, que começou com jornalistas ou peritos numa determinada área, mas que se alargou progressivamente a uma variedade heterogénea de egos enaltecidos, desde cineastas a artistas de circo, passando por mecânicos, eletricistas, médicos, espiritas e socialites, despoletou na sociedade uma vontade - ou deverei dizer um à vontade - para falar sobre qualquer tema, criticando, interpretando, censurando, extrapolando, nem sempre com bom senso, com sentido ou até sanidade.
O curioso é saber que etimológicamente, a palavra bullshit vai buscar as suas origens à expressão bull session, por definição “conversa de homens”, por norma o tipo de tertúlia em que se fala de tudo, de política a futebol, de futebol a gajas, de gajas a árbitros, naquela perspectiva de "livre trânsito" em que cada um pode dizer o que pensa, não sendo necessariamente muito rigoroso nas observações que faz nem quanto à forma, fundamentação ou conteúdo da sua argumentação. Quem quiser concordar concorda e acrescenta um parágrafo, quem não concordar fala mais alto ou remata a discussão com um vernáculo "vai para o c...!"

Finalmente estão a chegar as legislativas!
Depois dos debates televisivos, agora assistimos todos os dias às arruadas com figurantes, aos comícios com excurssionistas, aos almoços de bacalhau com natas e aos jantares de arroz de pato com uma rodela de chouriço.
Disparates são aos montes.
Sócrates igual a si mesmo, a viver num mundo paralelo que não é de certo este país, com um sorriso que lhe deve ter sido implantado com agrafes nas gengivas.
Passos Coelho a discutir o aborto e a apanha da cereja, a espalhar sermões de improviso que raras vezes têm princípio, meio e fim.
Portas, o meu preferido como cromo, na sua insólita satisfação entre feirantes, abraçando com vigor todas as peixeiras roliças.
Jerónimo de Sousa com a conversa do costume, com as frases feitas sobre fascismo e capitalismo, o discurso que o povo que vota na C.D.U. não entende e que quem percebe alguma coisa de economia e de finanças acha ridículo.
Francisco Louçã anda fraquinho. Não sei se estará doente ou deprimido, mas as palavras saem-lhe enroladas, o discurso é bacoco, sem aquela retórica que fascinava muitas pessoas mesmo as que não se identificavam com as suas ideologias.
Depois há um senhor que faz comícios ao domicílio, uma técnica que soa a venda de enciclopédias ou serões de demonstração da Bimby.
Há ainda o maluco da Madeira que hoje ouvi dizer que nas próximas eleições vai chegar a primeiro-ministro. Como?!? Só se para solucionar o problema da bancarrota Portugal se dedicar à cultura da coca e do haxixe!
Também me constou que existe um partido para os animais e para a natureza, preocupação realmente pertinente num momento em que muitas famílias recorrem aos bancos alimentares para adquirir ração para cães e fertilizante para orquídeas.
O pior de tudo são as sondagens. Todos os dias. Várias vezes ao dia.
Mas há necessidade de sabermos que o P.S. subiu num canal à hora de almoço mas se afasta cada vez mais do P.S.D. noutro canal informativo? Isto influencia os indecisos?
Para mim que sou pragmática, a verdadeira questão no domingo é votar na mudança ou em mais do mesmo lirismo. Quem quiser dar o voto a partidos pequenos, porque só reconhece no boletim essas siglas ou porque os acha fofinhos, não se impressiona com esta competição estatística. Quanto aos outros, se não quiserem eleger Sócrates, terão apenas de decidir quantos Ministros terá o C.D.S. num governo que será sempre do tipo cooperativa.
Quanto a ideias, programas, projectos não tem qualquer relevância o que por aí anda a ser dito.
O programa do próximo Governo já foi definido pelo ménage à trois que uns chamam de troika outros triunvirato, mas que até podia ter a alcunha de Trio Odemira. Quem for eleito apenas terá de o executar dentro dos prazos senão recebe castigo.
Estou ansiosa que chegue o dia 5 para que estas encenações e dissertações filosóficas em torno de probabilidades matemáticas terminem. Depois desta data, estes senhores todos terão de se fechar em gabinetes e salas, em grupos de trabalho e comissões executivas, para tentarem recuperar este país.
Quero acreditar que depois do choque que vamos sofrer quando nos entrar em casa o F.M.I., ainda chegamos ao final do ano confiantes de que podemos encarar o ano de 2012 com algum optimismo.
Assim seja!

Ocorreu-me um destes dias, depois de uma conversa casual, sem pretensões nem raciocínios elaborados, que afinal esta coisa da felicidade que todos temos como quimera, é afinal uma futilidade.
Dizia-me o meu interlocutor, homem, está claro - nestes assuntos tenho que admitir que os homens com alguma inteligência facilmente passam de básicos a pragmáticos -, que quando se é casado décadas com uma pessoa, a namorada de longa data, a mulher ao lado de quem se cresceu, amadureceu, escalou até à posição de pai de família respeitável e doutor-não-sei-das-quantas, não se questiona de forma tão leviana, neste registo de aliança no dedo, contas conjuntas, mães, pais, avós e outra família alargada, qual o coeficiente de felicidade.
Explicava-me ele que quando se faz amor durante tantos anos com a mesma pessoa, se toma aquele cheiro como certo, o sabor como familiar, as posições como confortáveis, não se estranha o silêncio, as rotinas feitas de horários possíveis e dias de semana prováveis. É claro que o sexo oposto desperta curiosidade. Haverá uma fase entre a crise dos trinta e a dos quarenta, entre o estar farto das festas dos miúdos aos fins-de-semana, da logísticas das compras e dos almoços de família, a calvície à espreita e os primeiros cabelos brancos, em que se tem efectivamente vontade de conhecer o lado do lá.
Há muitos que vão (e não estou a falar de homosexualidade mas de “facadinhas no matrimónio”), mas quase todos voltam. E não é só porque com uma pensão de alimentos se torna difícil pagar uma outra casa e financiar a vida colorida de homem divorciado. É porque na prática, depois do deslumbramento do sexo em sítios inusitados, da lingerie ousada, das posições acrobáticas e dos orgasmos em stereo com dolby surround, as relações convergem e estabilizam naquele destino macio e confortável que é um sofá onde há um sítio que é o nosso, um sábado à noite tranquilo e um domingo com almoço prolongado.
A felicidade está afinal num património que é um lugar comum, um sentimento de pertença, naquela sensação quentinha que é a familiaridade.
A felicidade é como a camisola velha ou como as pantufas fofas que enfiamos com prazer sempre que nos encontramos em casa.
A infeliciade deriva da incerteza, do não sabermos como estamos amanhã.
Nunca seremos donos absolutos do nosso destino e a vida está repleta de variáveis incontroláveis, mas no mínimo, dá-nos alguma segurança voar em trapézios com rede, sabermos em que cama vamos dormir, se acordamos sós e satisfeitos ou sózinhos e amargurados.
Pelos vistos, os sentimentos que nos enevoam os dias e induzem ataques de pânico, ultrapassam-se, minimizam-se, relativizam-se com um colo conhecido, um abraço seguro, um gesto de mimo desinteressado, um corpo que recebe o nosso mesmo que o sexo não seja cinematográfico.
A ausência de felicidade é apenas uma dúvida. A dúvida. Um conjunto de dúvidas metódicas.
Muitas vezes, nem que seja apenas por momentos, estas dúvidas dissipam-se quando o nosso ser frágil e cansado de aventuras se encaixa no corpo onde tatuamos aos poucos a nossa identidade.

Hoje a TSF passou uma reportagem sobre o candidato Francisco Lopes. Não a ouvi. Tão pouco tive curiosidade de espreitar o site da rádio. O que me ficou dos excertos que passaram entre os blocos de notícias matinais, o hilariante Bruno Nogueira e o maravilhoso Fernando Alves, é que Francisco Lopes, o Xico, é o típico candidato comunista, eleito pelo Comité Central, anónimo por vocação, habituado a obedecer ao Secretário-Geral e a clamar palavras de ordem.
A minha imaginação logo divagou para o que é um candidato do partido comunista, um electricista, com pouca formação mas com uma militância próxima da devoção, em substituição da fé em Deus que qualquer ateu entende como coisa estranha. Mais à esquerda, ou talvez mais ao centro, comecei a especular sobre o que poderia ser um candidato de Esquerda. Do Bloco, entenda-se. Não seria o poeta que é apenas um sucedâneo apoiado por força das circunstâncias, mas um produto genuíno do partido das camisas da Ralph Lauren.
Imaginei pois um intelectual licenciado em Economia, Política, Antropologia, Filosofia ou, porque não, em Psicanálise, idealmente com grau de Doutor e emprego do estilo Politólogo ou Professor Universitário.
Adoro ouvir as pessoas do Bloco de Esquerda dissertarem sobre o que quer que seja pois, estudiosas e inteligentes como são, emitem sempre raciocínios muito sensatos, nos quais quase sempre nos conseguimos abstrair da demagogia dos que defendem a igualdade de classes, numa versão de reforma agrária assente na agricultura biológica, com proprietários em camisas de flanela e botas Timberland a testarem inovações como música clássica no olival para produzirem azeite gourmet e azeitonas topo de gama (de preferência a sairem da árvore com travo a especiarias e queijo de cabra).
O candidato do Bloco de Esquerda, por ser tão socialmente consciente e eticamente correcto, jamais utilizaria o termo “porco preto”, designando antes o bicho por “porco de cor”, já agora nunca acompanhado por arroz e batatas fritas, talvez sim por uma redução de tinto de casta Sirah com castanhas caramelizadas.
Conhecendo eu com certa proximidade algumas pessoas com elevado nível intelectual, tenho por certo que para aqueles que passam os dias entre livros, citações, estudos e papers universitários, a vida real é uma coisa pitoresca, algo passível de enfiar num tubo de ensaio para fazer experiências e discorrer teorias, não sei se muito diferentes das “da Costa”.
Para os do Bloco a pobreza é uma coisa digna, notável, humana. São até capazes de se imaginar durante uns dias a dormir em sacos cama, espalhados por recintos de festivais cobertos de pó ou de lama, como se esse contacto com o chão e com a terra os tornasse profundos conhecedores dos dramas de quem habita em bairros sociais ou que, na imaginação de outros candidatos que contraíram febres alucinogéneas em Àfrica, corre atrás de galinhas porque tem fome.
Um candidato do Bloco de Esquerda faria a campanha entre saraus, cafés concertos e bares da moda, acompanhado por jovens pseudo-rastafaris, calçando ténis Adidas ou botas Hugs, pois estamos no Inverno e não dá lá muito jeito andar de pés descalços.
Um candidato do Bloco de Esquerda seria o mais eloquente e palavroso nos debates, deixando os adversários K.O. com as suas brilhantes análises sobre a situação político-económica.
Sucede porém que um candidato deste tipo faria pouco pelo país para além da crítica e da dissertação especulativa. Numa época de adversidade em que as pessoas se debatem com problemas concretos como pagar as contas do gás ou da electricidade, as acusações sobre o capital, a concentração de riquezas e as insinuações sobre a grande fatia do PIB que é transferida sem pudor para contas off-shore não resolvem qualquer problema nem funcionam como paleativo com capacidades milagrosas.
Saber mudar lâmpadas em Belém é capaz de ser simpático, mas só no Brasil um operário chega a Presidente, dá beijos de telenovela à sucessora, se senta com os eleitores a comer feijão ou se perde entre cortejos carnavalescos em assombrosas demonstrações de samba.
Nota: Madeira não é Portugal, é um micro-cosmos...

Canta Vinicius "que seja eterno enquanto dure"... o amor, para quem não conhece esta celebrérrima frase que uns dizem com um suspiro de esperança quando acreditam que uma relação vale a pena, ou com um sorriso sarcástico quando a "coisa" se revela como um dejá vú, que em linguagem corrente se traduz na frase "já vi este filme".
Em Ibiza li na argila de uma bar "O amor não é eterno; eterna é a capacidade para amar".
Será que essa miríade do amor eterno não é mais do que uma fantasia elevada ao estatuto de mito?
Os dois conceitos são complexos: amor e eternidade. Milhentas formas de perceber o que uma e outra palavra significam, poucas definições concretas, simples e objectivas para as quantificar numa regra simples que a mente mais básica possa memorizar.
A eternidade pode ser explicada numa perspectiva teológica, associada ao ideal de vida eterna, ou filosófica, associada à procura de um sentido para a nossa existência. Como sou uma pessoa de teorias que redundam em questões práticas mais do que de dissertações filosóficas que se convertem em raciocínios circulares sem resposta, eis que dou por mim a googlar insistentemente o termo "amor eterno" para ver se encontro uma explicação minimamente consistente para o projecto de vida com que não me canso de sonhar.
Um famoso princípio de biologia diz-nos que "Na natureza nada se perde, tudo se transforma..." Se quisermos pois ver esta coisa do amor eterno à luz das ciências naturais, então a eternidade no amor é bem capaz de ser um fenómeno que vai sofrendo transformações em todos os seus segmentos.
Não devo ser a única pessoa que se interessa por esta fábula do amor eterno. Há toda uma anatomia corporal que explica o fenómeno amor como algo físico e mensurável. Históricamente, o amor começou por ser associado ao coração. Depois, veio a época cerebral, em que o amor se podia explicar por uma série de processos químicos e neurológicos, mensuráveis em mapas que coloriam os hemisférios desta massa cinzenta tão intrigante. Recentemente, explica-se o amor pela compatibilidade hormonal.
Escreveu Virginia Woolf "o amor é apenas uma ilusão. A história que alguém compõe mentalmente sobre outra pessoa. E sabe-se o tempo todo que não é verdade. É claro que se sabe; por que o eterno acalentar não destrói a ilusão". Podemos ter a noção da ilusão com prazo e fim previsível, podemos iludir-nos com a imagem de uma pessoa ficionada que na prática é uma personalidade real com defeitos e falhas que não queremos detectar, podemos prever que o futuro afinal não vai ser ao seu lado, mas enquanto vivemos aquela doideira da paixão arrebatada preferimos alimentar a ideia de eternidade, mesmo que seja só uma ideia, uma ideia tão vaga que, nos momentos de lucidez, não nos deixa esquecer que aquele relacionamento não passa de uma ilusão.
Quando a relação que podia ser amor acaba podemos ficar iguais, indiferentes porque afinal é só mais uma que correu mal, frustrados porque estamos cansados de falhar, ou infelizes porque nos convencemos que aquela era a nossa última oportunidade para encontrar a felicidade.
Sucede porém que a felicidade também é outro conceito muito relativo.
Se assumirmos que a felicidade é outro dos conceitos que se enquadra na categoria dos eternos - todos queremos ser felizes para sempre - então, a própria felicidade, de acordo com o tal princípio da biologia, só é um sentimento eterno, porque se renova, ou se transforma através dos tempos. Quer isto dizer que, ao longo da vida, o que temos de bom é esta possibilidade de ir acumulando na memória os momentos felizes que gravamos como cenas de um filme e que nos servem de referência quando passamos por momentos mais difíceis. Às vezes só percebemos o quanto fomos felizes quando revemos essas cenas que no momento exacto em que as protagonizamos foram só sorrisos, suspiros, um sabor doce na boca, um aroma indefinido que nos deixou zonzos.

Não consigo evitá-lo: penso. Penso muito. A julgar pelo que dizia Decartes a minha existência é tão certa como o mais exacto teorema matemático (para os que não sabem Descartes, que adorei estudar pela forma pragmática como desenvolveu um método filosófico para defender a sua concepção unitária do saber e, a partir daí, do indivíduo, foi também responsável por contribuições matemáticas fundamentais para a geometria analítica).
Como penso reflicto, raciocino, crio opiniões e, para gaudio de muitos e afronta de outros, escrevo-as sobre a forma de teorias.
Perante o estado actual do país, depois do balde de água fria que nos foi vertido sobre a cabeça pelo Sócrates e pelo Teixeira dos Santos, assim uma mangueirada de alta pressão a tender para o congelado, com lascas de gelo cortante e sem anestesia, não páro de pensar, de reflectir e de teclar.
Em primeiro lugar, uma das questões com que a minha querida Mãe muitas vezes se intriga, tem a ver com a forma como cheguei a este nível de pensar quase hiperactivo com esta necessidade de debitar em textos todas as matérias sobre as quais reflicto. A acreditar que somos um produto do meio em que crescemos, mais uma série de factores exógenos e endógenos que condicionam o nosso perfil, determinando os nossos traços de personalidade e características, então sou obrigada a recuar para os meus tempos mais remotos de infância para perceber as minhas orientações políticas.
Como já referi, no tempo em que eu era pré-escolar, era perfeitamente risível que uma família de classe média como a minha tivesse empregada interna. Quando cheguei aos seis anos, por uma série de factores que não importa detalhar, deixamos de ter a dita empregada, eu saí do colégio de freiras que detestava frequentar, pelo que passei para uma escola pública. As aulas decorriam de manhã e à tarde ficava na casa da minha vizinha. A minha companhia era uma empregada interna de idade indefinida, mas que para mim era uma espécie de avózinha, que cozinhava maravilhosamente, era obcecada com a poupança ao ponto de só me permitir descarregar a água do autoclismo uma única vez durante o dia, e tinha um interesse fora do comum por política, com um fanatismo próximo da paixão delirante e da devoção pagã por Sá Carneiro (a dita senhora, a Linda, de Deolinda, tinha no seu quarto uma fotografia do político sobre a mesa de cabeceira, ao lado do terço, da estatueta fluorescente da Nossa Senhora de Fátima e da Bíblia).
Cresci portanto a receber como doutrina que os comunistas comiam criancinhas ao pequeno-almoço (e nessa altura nem se falava em pedofília!), que o Sá Carneiro era um deus na terra convertido em mártir depois do seu assassinato, que todos os políticos que não se posicionassem no vasto universo da aliança democrática eram demoníacos.
No Verão de 1991, quando Cavaco disputou uma reeleição depois da dissolução do Governo, apesar de eu só ter catorze anos (ou se calhar porque só tinha essa idade) andei empenhadíssima a percorrer o litoral norte (entre Vila do Conde e a Póvoa de Varzim) no autocarro dos Jotinhas, de t-shirt laranja, cartaz em punho e voz afinada para as canções da campanha, para os vivas e para os slogans que um líder de grupo nos fazia repetir de comício em comício.
Já na faculdade, como dirigente associativa, fui convidada para o congresso em que o C.D.S. se transformou em P.P., divertindo-me imenso a passear entre betinhos de risco ao lado e sapatos com berloquinhos, tendo chegado à conclusão que aquele meio de gente com sede de palco e muita demagogia não era o meu ambiente natural.
O meu interesse na área passou-se então para a esfera teórica, onde na cadeira de “política económica internacional”, brilhantemente leccionada pelo Professor Rui Nunes, aprendi que a diferença entre esquerda e direita está, na sua essência, nos ideias entre o pensamento Marxista e o Keynesiano, muitos deles tão impraticáveis que tendem para a filosofia, mas que a vida real, a necessidade de viabilizar a vida em sociedade de acordo com os princípios da democracia, criou uma zona de consenso entre a esquerda menos radical e a direita menos elitista para a qual todos os Governos convergem, quer o partido em maioria seja de inspiração socialista quer seja de inspiração social democrata.
Nos últimos dias, o que se discute em Portugal, com o pretexto de viabilizar um Orçamento de Estado sem ter de recorrer à estratégia do "finge que estás morto e na hora da votação não levantes o bracinho", são as vaidades e arrogâncias de dois líderes partidários que muito gostam de se ouvir a eles próprios, mas que, entre discursos inflamados se esqueceram completamente que é suposto que cada um, pela oposição que ocupa e pelas responsabilidades que consequentemente assumiu, zele pelos interesses de Portugal, pela qualidade de vida dos portugueses e pelo futuro dos nossos filhos.
Jogam-se na mesa cartadas que prevêm poucas medidas para conter o escandaloso despesismo do Estado e estão carregadas de iniciativas com resultados a curto prazo mas que se podem revelar catastróficas ainda antes de se começarem a debater as contas públicas para o próximo ano. Como penso, irritam-me estes debates com discursos redondos, entrecortados por “é uma vergonha!” ou “apoiado!”, como se retórica, apupos, vaias e salvas de palmas fossem as únicas coisas que aqueles senhores que se passeiam pela Assembleia sabem fazer... Nos últimos dias, trabalha-se ao fim-de-semana, fazem-se horas extra, sentam-se uma série de rabos gordos ou mirradinhos a uma mesa que podia ser de poker mas que não é mais do que um sarau recreativo em que se brinca ao Jogo da Glória, com o P.S. a querer sair como quem acabou de fazer um lifting para que os que brevemente deixarão de ser boys possam ocupar cargos internacionais, e o P.S.D. a tentar arranjar um pretexto para deixar passar um Orçamento numa circunstância em que serão dramáticas as consequências de o chumbar, mas com o Passos Coelho a querer promover-se como um herói, estilo o bombeiro que apagou umas fogueiritas no quintal enquanto deixava arder o resto da freguesia.
Teorias dos outros
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