Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.

Quinta-feira, 21 de Julho de 2011
Até que a morte NÃO nos separe...

 

 

Há dias, em conversa com um colega de MBA, saiu-nos a conclusão de que “as relações devem ser geridas como empresas”.

Serem uma espécie de organização com Direcção de Recursos Humanos, para definir responsabilidades e o âmbito das funções de cada um; com Direcção Financeira, para construir o orçamento e decidir a forma de afectação das verbas disponíveis; com Direcção Comercial/Marketing/Relações Públicas porque isto da vida em casal implica a capacidade de sociabilizar com os outros num jogo que muitas vezes é de troca, outras de charme, outras de protocolo; Direcção de Operações para assumir a logística da coisa, principalmente se existirem filhos e cães.

É claro que em teoria penso assim. Assumo, sou uma teórica.

Em teoria creio que todas as mulheres crêem pensar assim, pois quanto mais falo com amigas emancipadas mais ouço discursos pragmáticos muito bem estruturados sobre partilha de espaço, cama e roupeiro, como controle absoluto de sentimentos e absorção instantânea de lágrimas.

A questão é que o meu colega, homem, ainda por cima engenheiro, conseguirá muito bem gerir a sua vida privada segundo um modelo empresarial. Agora eu, que apesar de tudo me considero “muito homem” quando comparada com as ressabiadas, histéricas e melodramáticas que vejo por aí, posso até tentar ser membro executivo do Conselho de Administração desta estrutura emocional e familiar em que me apoio, mas no final, entre patuscadas, piqueniques e cusquices , não consigo retirar do cenário que imagino para o meu destino: a tal estrada amarela que percorrerei de mão dada com o companheiro de uma vida até alcançar o arco-íris.

Repeti várias vezes quando me divorciei que um casal só funciona se a relação for uma sociedade. Aquela coisa do ter objectivos comuns, uma forma semelhante de encarar o presente e planear o futuro, um esforço de equipa para que os resultados se atinjam. Depois de ter tido uma empresa, sei que esta história das sociedades é uma grande treta!

Não sei o que faz uma relação funcionar.

Ultrapassam-me as razões pelas quais duas pessoas se apaixonam, muito mais porque permite o tempo que a paixão que em algum momento foi amor, se esfume num sentimento de amizade sem sabor nem memória.

Sei que há pessoas com personalidades tão diferentes que aos olhos dos outros são incompatíveis, mas que na alma são siamesas.

Outras há, que de tão complementares são apenas meros companheiros unidos por um pacto de sangue, como escuteiros.

Percebo que muitas pessoas passem a vida a procurar o Príncipe Encantado sem realizarem que a figura do Príncipe que procuram é uma mistura das personagens que entraram e saíram das suas vidas.

Entendo que muitas pessoas se mantenham de mãos dadas porque o medo da solidão as atemoriza.

Mas tenho como certo, que seja o que for que nos atraí para uma pessoa, a ligação só perdura quando a pele se cola, os corações se fundem e os corpos respiram em sintonia.

Invejo por isso a imagem que partilho, em que um casal, ao antecipar uma morte certa, escolheu apagar-se num abraço que nunca mais se

desfez.

 



publicado por teoriasdacosta às 22:47
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Segunda-feira, 20 de Junho de 2011
Mulheres balzaquianas

 

Na semana passada, quando despi o casaco para me sentar à mesa, o meu namorado que eu amo, e que me conheceu há dois anos com uns joviais cinquenta e seis quilos, fez o seguinte comentário:

“As mulheres depois dos trinta têm uma tendência evidente para se tornarem balzaquianas.”

A vantagem de se ter um namorado muito para lá do básico, é que se ouvem críticas em forma de dissertação filosófica - nem sempre
decifráveis sem ter de googlar o assunto - e não bocas foleiras do género “esse decote fica-te ridículo”.

A desvantagem de namorar uma mulher do norte é que as respostas saem escorreitas, sem grandes cerimónias nem palavras difíceis: “a
culpa não é do decote” retorqui “é das mamas que estão maiores porque eu
engordei uns quilos!”

A expressão mulher balzaquiana surgiu de uma obra que escreveu Honoré de Balzac no sec.XIX intitulada “A mulher de 30 anos”.

À época, uma mulher com esta idade, carregava imensas obrigações sociais inerentes ao seu estatuto de casada e de mãe
de família, raras vezes feliz ou realizada na sua recatada clausura.

Balzac descreve a mulher de trinta anos com uma acidez pejorativa. Com o passar do tempo, apesar de todas as mudanças sociais
decorrentes da emancipação, a expressão mulher balzaquiana mantém uma conotação negativa.

Na sociedade actual, uma mulher de trinta anos provavelmente não é ainda casada, ou então já se divorciou e celebrou o evento
numa festa só com amigas, clama vitoriosa a sua independência, colecciona casos e flirts sem sentimentos de culpa e padece de uma tendência que quase parece natural para se continuar a vestir e a comportar como se estivesse no auge dos vinte e cinco.

Olhando em redor, para o meu grupo de amigas, muitas delas com filhos adolescentes, tão próximas dos cinquenta como estou eu
dos quarenta, noto que realmente, à medida que o tempo passa, passamos a vestir mais jeans do que calças masculinas, mais tops do que camisas, mais biquinis do que fatos-de-banho, mais acessórios da Parfois do que da Casa Batalha.

Reconheço que o fazemos porque não queremos parecer umas senhoras. Lembro-me perfeitamente de ser adolescente e de achar as
pessoas com quarenta já muito crescidas. Fico em estado de choque quando reencontro uma colega da faculdade e a vejo com colar de pérolas, saia pelo joelho e sabrinas.

A verdade é que ultrapassar os trinta marca mais o corpo do que o espírito.

Até há bem pouco tempo só engordava nas ancas e no rabo e com uma semana a sopa, maçãs e água a coisa resolvia-se. Agora a gordura já se eleva para o umbigo, numa almofadinha que para já é só um pneu de bicicleta mas que, se eu não voltar a correr dez quilómetros três vezes por semana, se pode converter numa roda de jipe. Em relação ao volume no peito não me importo nada. Tenho na minha “wishlist” um implante de silicone como presente pelo quadragésimo aniversário, mas dado o efeito “wonderbra” que agora consigo ostentar só porque me ficam apertados os vestidos, talvez deva pegar no valor das “bolas de plástico” e utilizá-lo numa lipo.

Por outro lado, se com muito esforço e fundamentalismo alimentar, consigo perder os quilos que surgem sem que eu perceba como, fico magra na cara mais do que em qualquer outro sítio, o que revela um inestético vinco do nariz até à linha do queixo, sempre que esboço um sorriso.

Com o avançar do tempo imagino que me vão surgir gorduras indesejáveis e inexplicávies, como aquela almofada sobre o omoplata
que salta do soutien na maior parte das senhoras com as quais balzaquiana alguma quer ser parecida.

Pensando bem, a expressão “mulher balzaquiana” não constituí uma crítica mas sim um tremendo desafio...

 



publicado por teoriasdacosta às 20:44
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Domingo, 12 de Dezembro de 2010
A história de Maria e José via FaceBook

 

Com a rapidez a que a vida corre pelo mundo digital, imagino que só quem está de férias numa ilha paradisíaca com a promessa sagrada de manter desligado o telemóvel e amnésico em relação à password que faz arrancar o portátil, não viu ainda o filme que partilho.

A história é genial e, se este romance entre Maria e José pudesse ser verdade – considerando que ele levou para casa uma noiva com brinde sem nunca lhe ter tocado, o que seria logo motivo para divórcio – provavelmente teria assistência com muitos “gosto”, comentários e bocas foleiras no Facebook.

Na época contemporânea Maria receberia a novidade do anjo via sms, pois está claro! Quantos de nós não sabemos via mensagem com meia dúzia de caracteres, muitos vezes completamente cifrados de tantas as abreviaturas, que temos de levar o carro à inspecção, que há saldos antecipados numa determinada loja, que o nosso namorado está naquele preciso momento a passar a mão pela perna da colega lá do escritório, que temos consulta no hospital que nem sequer é privado dali a vinte e quatro horas, que a nossa melhor amiga vai ter um bebé, que um parente afastado bateu a bota ou fugiu com uma fortuna incalculável para o Brasil

Na história que se celebra no Natal, Maria diz a José “... vou estar grávida...”, tipo assim que esta coisa do espírito santo funcione e se comece a subdividir o óvulo. José, como verdadeiro homem de família lá trata do trajecto até ao local do recenseamento. De Nazaré a Belém, sem SCUTS se possível! A reserva da estadia é feita on-line e, azar dos azares, em plena época alta só há um estábulo disponível.

Depois a partilha constante de informações, coisa que nos habituamos a fazer no Facebook, que nos pergunta a cada instante “estás a pensar em quê?”. Eu limito-me a pensamentos teóricos, existem pessoas que debitam frases profundas, outras escrevem “...a comer um bife...”

É hilariante ver José adquirir a vaca e o burro que são figurantes na história directamente no Farmville, aplicação que tive que bloquear tantas eram as solicitações para tábuas, regadores, sementes e fertilizantes que apareciam diariamente, da parte de amigos com muito tempo livre e um vício preocupante em actividades agrícolas.

Nasce o bebé e logo José publica a fotografia, com direito a milhares de polegares para cima instantaneamente nos primeiros minutos. É prodigiosa este à vontade com que nos habituamos a expor a nossa vida – contra mim, falo – quer porque queremos mostrar as fotos em que estamos bem, divertidos e em cenários fantásticos aos amigos, quer porque não nos importamos de revelar detalhes da nossa vida que até são íntimos, a estranhos que adicionamos por serem amigos de alguém que só conhecemos vagamente em terceira ou quarta linha, por estarmos convictos que o que sentimos é nobre e o que pensamos é digno.

Hilariante também a ideia de associar a presença dos Reis Magos a um evento do Facebook.  Qualquer voyeur profissional ou curioso distraído consegue seguir os nossos passos só por receber os nossos feeds, aqueles em que combinamos jantares com as amigas (alguém já sabe onde fica a famosa Tribeca onde me reuno com as bruxinhas?), os em que colamos fotos com legendas sugestivas, os “aceitos” que caem na página de toda a gente que adicionamos para tornar mais numerosa a nossa lista de amigos.

A compra da prenda também só podia ser on-line, facto que condiz com o que ouvi hoje nas notícias: estão em alta as compras sem sair do sofá com o pc ao colo, sem ter de enfrentar filas de trânsito nem crianças aos gritos pelo shopping, lojas apinhadas de gente e aquela dificuldade epidémica de escolhar a prenda adequada entre prateleiras desarrumadas, bonecadas e pechibeques em série.

Diz o filme para terminar “os tempos mudam, o sentimento continua o mesmo” e eu acrescento, porque este mundo virtual me trouxe muitas surpresas e presentes, que se calhar até é verdade que conhecemos pessoas mais reais e somos mais dados a sentimentos verdadeiros quando teclamos com fúria, paixão ou entusiasmo um comentário sincero no mural daqueles que conhecemos para lá do ecrãn ou que, não conhecendo a três dimensões, conseguem mesmo ser nossos amigos.

Bem haja!



publicado por teoriasdacosta às 23:20
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Sábado, 13 de Novembro de 2010
Os homens não sabem o que é o amor

 

Esta semana, uma das minhas amigas do Facebook publicou um texto que suscitou logo meia dúzia de comentários.

Com o título “os homens não sabem o que é o amor”, o referido texto, de Michel Houellebecq, in 'As Partículas Elementares', começa assim “De forma geral, os homens não sabem o que é amor, é um sentimento que lhes é totalmente estranho. Conhecem o desejo, o desejo sexual em estado bruto e a competição entre machos”.

Apesar de ter tido a sorte de ter encontrado homens que me amaram, daqueles que são românticos, fazem surpresas, dizem as palavras que queremos ouvir, nos abraçam de uma forma que transforma o seu colo no nosso ninho, confesso que concordo em parte com o que este autor diz. Sim, há homens que amam mulheres. Mas muitas são as mulheres que andam com homens que não as amam, não apenas porque a lei da oferta as não favorece, mas porque os homens só são capazes de amar verdadeiramente uma ou duas mulheres durante toda a sua vida. Em relação às outras, os seus sentimentos podem variar entre o “gosto” e o “tolero”. Quando entram na fase do “não suporto” já têm outra presa na mira.

Como já por aqui escrevi, para os homens sexo é mais fundamental do que para as mulheres. Nós passamos a infância a sonhar com príncipes, contos de fada, vestidos de noiva e histórias com final feliz. Eles passam da fase do jogar à bola (ou Playstation) para a fase da explosão de testosterona que os faz comprar revistas com mulheres nuas. Para os rapazes, a relação homem-mulher é uma mera questão física, um acerto hormonal, uma descarga de adrenalina. Para elas, a mesma relação tem de ser magia.

Claro que há os adoslescentes que se apaixonam e que reagem como “romeuzinhos”, mas a maior parte entra na faculdade sem nunca ter tido uma miúda que tiveram a coragem de assumir como namorada, com a preocupação única de não acabarem o ensino secundário virgens.

Há competição entre machos, claro, mas se calhar a competição é muito maior entre fêmeas. Até entre eles e elas, a começar na pré-primária e a atingir o auge quando se ingressa na vida activa.

Continua o texto, a propósito de como os filhos varões herdavam dos pais o mesmo tipo de comportamento, considerando todas as mulheres como objecto de desejo à excepção da mãe dos seus filhos, “Hoje, nada disso existe. As pessoas são assalariadas, locatárias, não têm nada para deixar aos filhos. Não têm nada para lhes ensinar, nem sequer sabem o que eles poderão vir a fazer; as regras que conheceram não serão de todo aplicáveis a eles, porque eles viverão num mundo completamente diferente. Aceitar a ideologia da mudança permanente significa aceitar que a vida de um homem está reduzida estritamente à sua existência individual e que as gerações passadas e futuras não têm, aos seus olhos, nenhuma importância.”

Apesar da visão pessimista, conheço cada vez mais pessoas que questionam até que ponto vale a pena terem um filho se o presente é tão instável e o futuro tão incerto, com o orçamento familiar a ser curto para férias, infantário, actividades extra-curriculares, pacote completo da TV Cabo, uma visita mensal ao cabeleireiro e uma ida anual ao dentista.

Concluí Michel Houellebecq, escritor francês conhecido pelo seu cinismo polémico, “ter um filho, hoje, para um homem, já não faz qualquer sentido. O caso das mulheres é diferente, porque elas continuam a sentir a necessidade de terem um ser que amem – o que não é, nem nunca foi, o caso dos homens. É um disparate acreditar que os homens também têm necessidade de acarinhar e de brincar com os filhos, de lhes fazer festinhas.”

Aqui, admito que tenho alguma dificuldade em concordar. É demasiado cruel pensar os homens como seres tão tiranos, muito embora seja verosímel este tipo de atitude austera nos homens de outros tempos, os tais que tinham uma mulher em casa em quem mal tocavam, mas que recorriam amiúde a mulheres de fama duvidosa para poderem “fazer porcarias” e assim libertar-se do tal desejo animal que os transforma em seres quase primitivos.

Grande parte dos homens que conheço, mesmo quando divorciados, mantém uma forte ligação emocional aos filhos. Sofrem com a distância, muitas vezes até aguentam relações que já só são logística familiar porque não suportam a ideia de não lhes dar um beijo de “boa noite” todos os dias. Infelizmente conheço também muitos casos em que os casais se separam e o homem segue uma nova vida, volta a ser solteiro, livre e descomprometido, ignora os filhos ou passa a tratá-los como amiguinhos com quem faz programas de umas horas, mas que depois “despeja” na casa da mãe para pode ir ter com as amigas.

Os homens não sabem o que é o amor? Talvez. Se calhar não precisam. Se calhar por não saberem têm uma capacidade superior às mulheres para serem felizes. Ou pelo menos, conformados, que é aquela atitude inócua que permite a qualquer ser humano moderado nas ambições e nos desejos sobreviver sem sobressaltos ao correr dos dias. Não estão à espera de mais nada do que acordar, ir para o trabalho, contar umas anedotas aos colegas, olhar para o rabo da secretária do departamento, tomar uma cerveja antes de ir para casa, chegarem ao fim-de-semana para poderem passar dois dias sem desfazer a barba, contentes se o clube ganha, desalentados se continua a perder pontos e a afastar-se do líder.

As mulheres precisam dos olhares, dos mimos, das palavras, de um pouco de sonho, de cenário, de vida cor-de-rosa para se abstraírem do branco e negro em que tão facilmente se transforma a rotina que asfixia a vida. Por isso andam sempre à procura de amor, nos homens ou nos filhos, tantas vezes humilhando-se, sujeitando-se, fingindo-se de burras...

Homens e mulheres, seres tão diferentes que quase diria incompatíveis...

 

 



publicado por teoriasdacosta às 16:40
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Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010
Uma lição de vida

 

Ontem vi um daqueles filmes que nos deixa a pensar durante dias.

Solitary man” (vertido para “O eterno solteirão” por um tradutor que com este título está injustamente a posicionar o filme na categoria das comédias caseiras), com Michael Douglas sublime no papel principal, conta a história de um homem com sucesso na vida a quem um dia o médico diz “temos de fazer uns exames mais detalhados ao seu coração, não estou a gostar do que vi.”

NOTA: todas as reproduções de diálogos baseiam-se unicamente na minha memória. Podem não corresponder ao diálogo exacto mas expressam os conteúdos das conversas em concreto.

Acho que todos nós tememos por um momento como este. Confesso que se a minha ginecologista me dissesse algo parecido depois de uma ecografia ou de uma mamografia começava logo a fazer o filme trágico de uma história que não me apetece viver.

Michael Douglas (desculpem, mas o actor está mesmo a fazer o papel daquilo que é, um sessentão charmoso com um problema de saúde que pode ser fatal, por isso esquivo-me de o tratar pelo nome do personagem) reage a esta notícia de uma forma que nem todos teríamos coragem para assumir: prefere não saber! Saí do consultório do médico, faz uma retrospectiva da sua vida, e decide que vai viver os últimos dias como sempre lhe apeteceu viver. Deixa de ser o marido fiel, o empresário honesto, o pai presente, o avô responsável e torna-se um mulherengo, comerciante charlatão, pai inconsciente, avô infantil.

O tempo vai passando e Michael continua vivo. As suas opções de vida destoem-lhe o casamento, arruínam-lhe o negócio, arrasam a sua credibilidade no mundo empresarial, afastam-no da filha e do neto.

Michael torna-se uma pessoa amarga e cínica, que diz tudo aquilo que lhe apetece, não cala nada do que pensa e nem sequer se importa com o efeito que as suas palavras têm nas pessoas que agride ou critica. Creio que todos gostávamos de ser assim, mas a sinceridade às vezes é uma arma de arremesso perigosa e “Michael – o agressor” também sente os efeitos carrascos de quando se é agredido.

Arrepiaram-me momentos do filme como aquele em que ele leva para a cama a mãe de um amiguinho de escola do seu neto e, no dia seguinte, quando acordam os dois de uma grande bebedeira, ela diz uma daquelas frases feitas com que muitas mulheres se desculpam: “não sei como é que fiz isto contigo!”. Ele responde “fizeste isto comigo porque tens trinta e muitos anos e os pais dos amigos do teu filho andam é atrás de miúdas de vinte.” Ui! Esta senti-a na pele!

Outras cenas de crueldade palavrosa são o momento em que ele, depois de ter ido para a cama com a enteada de dezoito anos, a assedia novamente acreditando que, dadas as experiências sexuais pouco satisfatórias que ela confessou ter tido até à data, lhe proporcionou uma das melhores noites da sua vida. Diz-lhe ele “tivemos uma química tão boa, nem sequer pensei na diferença de idades.” Responde a miúda secamente “pois eu não me consegui abstrair da diferença de idades em nenhum momento”. Ui! Esta também deve doer a muito homem maduro que por aí anda e que vê na possibilidade de dar umas cambalhotas com uma miúda mais nova uma espécie de experiência alucinogénea afrodisíaca.

A qualidade de vida do personagem decaí à medida que o filme rola, tudo à sua volta se desmorona, mas o seu corpo, ao contrário do que era suposto, mantém-se firme... e sexualmente activo!

Lições a retirar deste filme que não vou dizer como termina: viver a vida no limite tem um preço que pode sair muito caro. Como diz o povo “sofrer de véspera, só o peru no Natal”, mas festejar sem festa pode colocar-nos num estado de ressaca permanente.

Quanto à mensagem que me toca, que tem a ver com a amizade e com aquele texto que publiquei há dias em que defendia que os verdadeiros amigos são aqueles que estão ao nosso lado nos momentos de alegria, e não apenas os que alimentam e nutrem, às vezes de forma doentia, os nossos piores momentos, Michael descobre que quem nos ama nunca nos abandona. Descobre também que o amigo que não via há mais de trinta anos e que deliberadamente desprezou partilhou todas as suas alegrias como se as suas vitórias lhe trouxessem algum proveito.

Filme que vale a pena ver. De espírito aberto e coração sensível.

 



publicado por teoriasdacosta às 21:29
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Quarta-feira, 31 de Março de 2010
O casamento engorda, o amor emagrece - tese científicamente comprovada

Há uns tempos, o i-online publicou um artigo com o título “O casamento engorda”, ou algo semelhante. O tal artigo baseava-se num estudo publicado no "The American Journal of Preventive Medicine" que concluía que as mulheres comprometidas engordam mais do que as solteiras.

A questão não tem só a ver com a maternidade que, como todos sabem, tende a alargar a anca e a arredondar a barriga. Este estudo revela que mesmo as mulheres que não têm filhos, desde que vivam numa situação de união estável, tendem a engordar mais do que as que vivem sozinhas.

A minha própria experiência confirma a evidência demonstrada pela investigação. Quando casei, empenhada como estava em ser uma verdadeira fada-do-lar, fazia cozinhados elaboradíssimos, cheios de gorduras, proteínas e hidratos do carbono tão do agrado de um marido como o meu, o típico “bom garfo”. Resultado, ele engordou alguma coisa que se distribuiu pelo seu mais de metro e noventa e se acumulou suavemente na zona abdominal conferindo-lhe um respeitável ar de homem de família. Meses depois do casamento, eu estava com quase mais seis quilos e tinha calças do ano anterior que não me passavam das ancas (que eu até duvidava me tivessem alguma vez servido!). As perdas de peso que experimentei durante o casamento foram raras e muito voláteis, pelo que andei cinco anos de cara redondinha, corpo ondulante (a minha sorte ainda foi esta adição que é o ginásio) e um sorriso de felicidade como só as pessoas bem nutridas conseguem ter.

Com o divórcio a perda de peso foi automática. Primeiro porque as lágrimas alimentam e quem chora um dia inteiro consegue sobreviver a maçãs e meias de leite. Depois porque não tendo de fazer jantar nem de encher o frigorífico de petiscos, adoptei a dieta de cereais, sopas e saladas que até hoje me acompanha. Resultado, perdi peso e os efeitos de tantas horas de ginásio, até então cobertos por uma suave camada adiposa, começaram a aparecer.

Voltei a vestir as calças que usava antes do dia da aliança só para verificar que não eram um mito, mas jamais as voltei a usar em público porque casei no século passado e entretanto veio a moda da cinta descaída...

Quem é casada ou vive como tal, tem de cozinhar, às vezes para uma família com mais de duas pessoas, logo tende a comer mais entre assados, pataniscas e sobremesas. Quem é solteira, ou dentro do género, bebe mais bebidas alcoólicas, carregadinhas de calorias, mas também desgasta aquilo que ingere rua acima – rua abaixo (aqui no Porto pelas galerias), em sessões de dança que não são mais do que abanar o corpo numa sala abafada cheia de gente (o que tem o mesmo efeito de fazer uma aula de aeróbica à Jane Fonda dentro de uma sauna) e é capaz de passar uma semana a beber litradas de água com cor estranha só para desintoxicar das euforias. 

As casadas investem na família. As solteiras investem na imagem.

As casadas adoptam uma vida mais sedentária, em que o exercício físico se reparte por actividades domésticas, carregar crianças e correr pelos corredores do supermercado. As solteiras fazem da vida uma passadeira dinâmica (desde que não estejam deprimidas).

Na mudança de estado civil há sempre uma mudança de peso. É normal que as mulheres que se divorciam emagreçam. Diz o i-online, citando um entendido na matéria, que "A procura da auto-estima e de um novo parceiro explicam que a mulher volte a olhar-se mais ao espelho, se preocupe mais com a imagem e programe dietas e rotinas de ginásio." (...) "E se à separação associarmos uma nova paixão, mais facilmente o ponteiro da balança desce. Está comprovado que a paixão tem uma relação directa com a perda de apetite e sono. (...) A excitação e a adrenalina disparam. E se a paixão for correspondida, é normal que se faça mais sexo e mais sexo é igual a perda de calorias", explica Allen Gomes, citando o livro da antropóloga Helen Fisher: "Porque amamos".

E agora sim, o amor. Até aqui, para assegurar a legitimidade da tese limitei-me a falar de dados objectivos – o estado civil – e quantificáveis – o peso. Mas onde é que entra a variável “amor”, tão subjectiva e imensurável, nesta equação?

As definições de amor que se encontram pela Net ao googlar a palavra são tão pouco românticas que nem vou perder tempo a citá-las. Cada um sabe certamente o que sente e como vibra quando está apaixonado, o rubor na face, o suor frio nas mãos, o tremor de pernas, as palpitações do coração, os apertos na alma, a sensação de desmaio, de transe, de elevação, de nirvana, de tudo o que não cabe em palavras, nem em sorrisos nem em beijos, porque é mais amplo do que o que abrange a concepção de humanidade.

O livro de Helen Fisher que referi pretende demonstrar a natureza química do amor, apoiando-se numa série de estudos e estatísticas (mesmo como eu gosto) que revelam dados curiosíssimos, nomeadamente que “a perda de apetite e sono tem uma relação directa com outra das sensações esmagadoras do amor: uma enorme energia.” (…)“A paixão romântica pode produzir uma variedade de mudanças estonteantes de humor que vão da exultação, quando o amor é retribuído, à ansiedade, desespero ou até raiva quando o ardor romântico é ignorado ou rejeitado.” Escreveu Freud que "Nunca somos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos"

Mas como de coisas tristes não vale a pena falar, recuso-me a encarar esta teoria sob a perspectiva dos amores não correspondidos. O que interessa reter do que dizem os cientistas é que o o amor induz um caos estimulante nos corpos e comportamentos. O amor emagrece porque a felicidade é tanta que nos deixa cheios e completos, insuflados em energia, oxigénio, alegria, vontade de viver, de voar, de planar, de permanecer acordados noite e dia para não perder um minuto de vida ao lado da pessoa que nos encantou.

Sorrisos apaixonados à parte, não se pode viver toda a vida nesse estado de paixão que deixa os casais como coelhos alimentados com pilhas Duracell. Porquê? De acordo com Helen Fisher a paixão aumenta o fluxo sanguíneo acendendo áreas específicas do cérebro, sendo que nenhum ser humano conseguiria aguentar fisicamente a explosão química que esse estado nos provoca...

Mesmo sabendo que esse estado de amor pode ser nocivo, prefiro viver apaixonada, mesmo que num estado de esgotamento e descontrole para lá daquela euforia boa que sentem as crianças na noite de Natal, a sobreviver na solidão acompanhada com que se iludem os casais que fazem do seu dia-a-dia um anúncio contínuo ao Skip ou ao Fairy...

 



publicado por teoriasdacosta às 23:49
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