Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.

Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011
Comprei uns Louboutin!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

 

São falsos, confesso. Mas como nunca tive uns verdadeiros nas mãos, muito menos nos pés, conhecendo pouquíssimas pessoas, para não dizer nenhuma, que tenham um exemplar fabricado no famoso atelier, estou a estoirar de euforia e de vaidade com esta compra num bazar, na mais exótica das cidades que conheci até hoje.

Para que os homens que me lêem consigam perceber a razão de tão fútil felicidade, posso comparar a aquisição destes scarpins de sola vermelha, ao que será a emoção de assistir no estádio à final da taça UEFA, ir para a cama com uma mulher escultural sem ter de pagar por isso (pelo menos naquela lógica tradicional da troca de dinheiro por um serviço) ou ter em primeira mão a versão mais recente daqueles jogos de futebol em que os bonecos têm cara e nome de profissionais do esférico.

A vantagem desta preciosa aquisição, é que os meus Louboutin custaram menos do que qualquer um destes exemplos...

Li no Verão no Expresso uma entrevista a “Louboutin himself” em que o criador dizia que para uma mulher uns saltos altos eram o caminho para uma nova vida. Por um lado, por questões aerodinâmicas: o equilíbrio sobre uns esguios oito ou mais centímetros obriga a que o corpo assuma um formato de “S” com rabo arrebitado e aspecto curvilíneo. Por outro, porque a estatura se eleva permitindo à mulher olhar os outros nos olhos (sejam homens ou a concorrência) ou até ficar mais alta que a média dos que a rodeiam concedendo-lhe uma sensação de poder e de grandeza.

Qual a importância de estes sapatos serem Loubontin, mesmo que réplicas, para não dizer “de contrafação” que é uma expressão feia? Porque a sola vermelha é uma espécie de código secreto. Um sinal de estatuto. Um pormenor de sensualidade. Uma pitada de luxo fingido entre tantas outros sinais exteriores de riqueza que difícilmente proporcionarão a mesma sensação orgásmica de ser mulher, tão sexy e brilhante como a mais famosa das estrelas que se passeiam por uma passadeira (vermelha, claro!).

Porque o vermelho, mesmo não sendo Loubontin, é a cor da paixão, uma alquímia perfeita e intensa, a cor do sangue que às vezes corre ferido no nosso coração, outras ferve na antecipação de uma promessa de prazer.

Por alguma razão Eva não seduziu Adão com uma maçã amarela...

 

 



publicado por teoriasdacosta às 21:35
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Domingo, 21 de Agosto de 2011
De machos latinos a príncipes encantados...

 

A revista do Expresso deste fim-de-semana traz como tema o macho latino como espécie em vias de extinção. Como é usual quando se falam destes assuntos gastos e com tanto interesse como contar grãos de areia na praia, lá vêm elas falar deles e eles falar do seu ego exarcebado.

Confesso que ainda não li as reportagens. Passei os olhos pelas fotos e pelas letras grandes.

Mas imagino contudo, que elas, todas mulheres com estilo e carreira, independentes e emancipadas, começam a falar do conceito “macho latino”, mas acabam inevitavelmente a divagar sobre as relações contemporâneas.

Todas as mulheres entre os quinze e os cinquenta tomam-se como emocionalmente estáveis, inteligentes e auto-suficientes. Para a maioria, um homem só é necessário para carregar as compras mais pesadas do supermercado, para mudar um pneu, ou para montar qualquer coisa do IKEA cujas instruções incluam mais do que três etapas.

Tretas! Por muito que se proclame a independência como se isso fosse uma espécie de medalha, a verdade é que são raras as mulheres que no seu íntimo, no cantinho mais secreto das suas aspirações inconfessáveis, não sonham que um dia vão adormecer nos braços do príncipe encantado.

Já por aqui escrevi que não sei o que é “o homem da nossa vida” nem sei se sou capaz de desenvolver uma teoria sobre o tema. Parece-me que a eles, aos homens, não lhes preocupa esta questão de ser o homem da vida de alguém. Se calhar esta perspectiva até os deixa assustados!

A questão é que todas as mulheres têm um ideal.

A culpa é dos filmes do Walt Disney, da Barbie e do Ken, dos filmes “água com açucar” e das séries românticas em que há sempre um casal que se beija apaixonadamente no final. Mas até a Jeniffer Aniston, que surge sempre na tela como a mulher de sonho de alguém, na vida real não tem grande sorte com os namorados...

Desde a infância vamos concebendo um molde que queremos cobrir com um determinado tom de pele, olhos num tom indecifrável e cabelo de ondas suaves. Depois, tropeçamos em seres humanos  que não têm nada a ver com o boneco imaginário, a quem achamos piada e por quem nos apaixonamos.

Às vezes, o príncipe dos sonhos é loiro e o homem que nos arrebata é moreno... A maior probabilidade é que o homem que nos desvirtua o modelo não seja capaz de um estóico acto romântico. Quase de certeza se vai esquecer de datas que são importantes, desconhece que há uma música que é a "nossa", deixa pêlos na banheira e a tampa da sanita levantada... Isto não quer dizer porém, que esses senhores cujo sorriso nos desarma sejam afinal uma espécie de sapo.

Quando se tem azar com a escolha eles não se revelam sapos mas sim seres invertebrados...

Grande parte das mulheres que conheço não têm a certeza se o homem que dorme com elas é realmente o “tal”. Um número cada vez maior prefere por isso não dormir acompanhada. Há ainda outras, poucas, que adormecem nos braços do Rei suspirando pelo príncipe encantado.

Eu prefiro acreditar no destino, confiando que a vida me conduzirá sempre, por mais que eu tropece e caía, à pessoa que me está predestinada...

 



publicado por teoriasdacosta às 23:29
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Segunda-feira, 6 de Junho de 2011
Adeus Sócrates

 

 

Sempre fui uma pessoa de extremos: amo ou odeio.

Julgava não ter meios termos nem mais ou menos, semi-frios, agri-doces, mesclados, matizados ou bejes. Descobri recentemente que afinal, entre o oito e o oitenta existe uma possibilidade.

Quem me conduziu a essa descoberta foi José Sócrates.

Com o Primeiro-Ministro que já era, descobri que é possível odiar uma pessoa e mesmo assim admirá-la. E a admiração, como descrita no dicionário Priberam, é um“sentimento agradável que se apodera do ânimo ao ver coisa extarordinária, bela ou inesperada”.

Em relação a Sócrates consigo experimentar um misto destes sentimentos, não da mesmo forma como me delicio com uma redução de chef que mistura compota de frutos silvestres com mostarda, mas como me surpreendo com uma daquelas instalações que de repente surgem numa exposição no CCB ou no jardim de Serralves, que a partir de um monte de lixo edificam um conceito que dizem que é uma ponte ou uma retrete, deixando-me num estado de catatónica perplexidade.

Quem estudou gestão encontrou certamente entre os compêndios sobre estratégia, referências a um manuscrito escrito por Sun Tzu no século IV a.c. que contém uma série de instruções milimétricamente estudadas sobre a arte de vencer uma guerra com recurso à inteligência militar. Uma das recomendações estratégicas de Sun Tzu é “(...) um comandante militar deve atacar onde o inimigo está desprevenido e deve utilizar caminhos que, para o inimigo, são inesperados...”

É precisamente o que escreve Ricardo Costa numa reportagem brilhante que saiu na revista do Expresso no início de Abril quando refere que uma das mais notáveis características de Sócrates é a forma como conduzia as entrevistas e debates, manipulando os temas de forma a evitar as questões polémicas e a destacar os seus feitos relevantes. Foi mais ou menos assim que Sócrates escapou às notícias que poderiam ascender ao estatuto de escândalo do Face Oculta, do Freeport e da licenciatura dúbia baseada numa boa nota em Inglês técnico numa universidade particular.

Quando se começou a vislumbrar o falhanço do P.E.C. III, a pouco provável aprovação do P.E.C. IV e o inevitável recurso à ajuda internacional, Sócrates seguiu nova recomendação do japonês milenário: “O verdadeiro método, quando se tem homens sob as nossas ordens, consiste em utilizar o avaro e o tolo, o sábio e o corajoso, e em dar a cada um a responsabilidade adequada”.

Assim saíram para a ribalta os porta-vozes do Governo, com expoente máximo no desgraçado do Teixeira dos Santos, tentando explicar aos portugueses que apesar de estarmos em queda ainda havia uma hipótese de o pára-quedas sobresselente funcionar .

Sócrates rodeou-se de um bando de avaros, tolos, sábios e corajosos, ou talvez, de ingénuos e cobardes, cujo denominador comum era a sua incapacidade em dizer “não” ao que o “chefe” ordenava.

Quando a queda do líder se começou a desenhar como altamente provável surgiram as figuras afastadas, nem sempre em circunstâncias claras, das quais destaco Ferro Rodrigues que ontem aplaudia o discurso de despedida com uma estranha expressão que me pareceu esconder um sorriso de vingança.

Fiquei a saber no dito texto de Ricardo Costa, que Sócrates era assessorado por uma das maiores empresas de relações públicas do mundo, a Kreab, Gavin & Anderson. Este homem é pois um produto de marketing.

Como sabem também todos os que estudaram neste área, qualquer produto tem uma fase de introdução, ascensão, maturidade e queda, um ciclo de vida que raras vezes é inevitável.

Sócrates vestiu-se como bem premium. Uma espécie de produto de griffe vendido ao povo como contrafacção de plástico.

Um produto com uma resistência notável. Fez upgrades (substituição da agressividade que lhe era criticada por uma atitude de vítima da oposição), restylings (começou a aparecer de sorriso quando no passado era muito mais frequente vê-lo de “cara fechada”), oferta de extras (só lhe faltou envergar uma capa de super-herói quando no seu discurso completamente alienado defendia ainda que podia salvar Portugal).

Durante todo este tempo, Sócrates seguiu um guião. Ainda ontem me impressionou - no seu discurso em que não percebi se a gotícula ao canto do olho era suor, uma lágrima artificial que queria verter ou uma lágrima verdadeira que queria conter – que estivesse a ler no tele-ponto um texto que certamente foi previamennte ensaiado. Mesmo quando expressou os seus agradecimentos à família, aquele José, que antes de ser o personagem Primeiro-Ministro, é um homem e um pai, teve de  procurar a frase políticamente correcta, lida no tom limite entre o sentimento puro e a manipulação sentimental.

O seu discurso de derrota soou quase sempre a declaração de “não-vitória”.

A sua saída foi a de um anti-herói: o líder que se afasta com honra para permitir aos seus sucessores brilharem.

Acho que Sócrates disse que queria ser feliz.

Pergunto-me se depois de tantos anos com maquiagem, à procura do melhor ângulo para as câmaras, com cartões de tópicos meticulosamente organizados, Sócrates sabe viver neste ambiente natural que é a realidade.

 



publicado por teoriasdacosta às 23:14
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Segunda-feira, 14 de Março de 2011
Método da tentativa e erro

 

Sou uma pessoa de métodos.

Gosto de teorias mas gosto ainda mais de ser pragmática.

Um dos métodos que raramente falha é o da dúvida metódica: desconfiar à primeira, acreditar depois dos testes em laboratório... Nem sempre isto funciona na prática. Às vezes esqueço-me ou distraío-me... Cedo ao impulso... Atiro-me de cabeça e de olhos fechados... Nem sempre o resultado é bom. Já me aconteceu mergulhar em piscinas sem água... Dói. Bastante.

Hoje dei por mim a enviar uma mensagem a uma amiga - como comentário a mais uma expectativa de dor de barriga que podia ser paixão mas que afinal foi apenas uma simples e passageira cólica – “há que insistir no método da tentativa e erro... até que finalmente acertamos.”

Há tempos li num filme levezinho, apesar de contar com o Robert de Niro e com o Dustin Hoffman (chama-se “manobras na Casa Branca” e faz parte do meu espólio de heranças do Expresso) uma frase fantástica que se reproduz mais ou menos assim “sabedoria é o que chamamos a quarenta anos de erros”

De facto, nesta coisa mirabolante por vezes perversa que é a vida, nesta sucessão de encontros, fugas para a frente, passos atrás, coincidências que podem ser uma desgraça ou uma conspiração divina do acaso, cometemos muitos erros. Muitos deles pagam-se caro. Com juros de dívida, mazelas e cicatrizes, perdas materiais ou apenas danos morais que o senso comum gosta de classificar como traumas.

Mas para além dos erros e dos desvios no caminho, há também aquelas jogadas de sorte, aqueles momentos em que estavamos no lugar certo à hora marcada, e a pessoa predestinada a mudar a nossa vida nos apareceu como um “coelhino da cartola”, remetendo para a gaveta os rabiscos de planos e as folhas de cálculo que fazemos como passatempo enquanto não acontece a oportunidade no amor, no trabalho ou na sociedade, que sem querer, por inércia ou porque é mais cómodo, estamos à espera que nos caía do céu num espécie de versão “O Natal é quando um homem quer”, como se esta tese alguma vez tivesse sido científicamente comprovada.

Na prática, entre os riscos que corremos há apenas duas hipóteses “jogar no vermelho e sair preto” ou “apostar no negro e sair encarnado” (versão norte vs versão sul).

Podemos sempre ceder ao medo e ao cansaço. Desistimos da arricar. Ficamos cépticos (para não dizer ressabiados). Os cépticos, como brilhantemente descreveu Affonso Romano de Sant´Anna é aquele que “(...) não vive, desconfia. Não participa, espia. Não faz, assiste”.

Eu só gosto de ser plateia nos filmes.

Na vida real, seja para surfar sobre as ondas ou para apanhar com baldes de água fria, prefiro ficar uma ou outra vez vermelha com a vergonha ou a raiva do fracasso, do que a vida toda amarela com os remorsos de nunca ter tentado.

 



publicado por teoriasdacosta às 23:48
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Segunda-feira, 22 de Novembro de 2010
De bestial a besta

 

Fã como sou de Barak Obama li com interesse a entrevista publicada pelo Expresso neste fim-de-semana.

Obama caiu em desgraça. Como tantas vezes acontece na vida, cíclicamente, tão certo como continuarmos vivos, de forma constante enquanto estivermos activos.  Passamos sucessivamente de bestiais a bestas, de bestas a bestiais, de felizes a nem por isso, da infelicidade negra à euforia psicadélica.

Admite Obama que se enganou. Nas palavras que o artigo cita, aprendeu algumas “lições tácticas”. Errar é humano, ou como estava gravado a canivete na mesa onde me sentava nas aulas de educação visual no 9.º ano “Herrar he umano”. A nossa humanidade, carregada de orgulho, preconceito e vaidade, nem sempre nos permite admitir os enganos.

Em vez de optar pela atitude arrogante, de uma cegueira insane como a do Primeiro-Ministro que dá a cara pelo país falido em que se transformou Portugal, Obama decidiu fazer um mea culpa.

É claro que este assumir de culpas vem embrulhado num papel dourado com um grande laçarote. Nas palavras do Presidente do mundo – sim, porque os E.U.A. continuam a ser “A Potência” , apesar da assustadora ascendência da China e do seu avanço hegemónico por territórios de Àfrica (onde o G7 não vê para além de poços de petróleo) – “há um certo orgulho perverso em fazer as coisas como devem ser feitas, ainda que a curto prazo sejam impopulares”.

Obama quer colocar-se como o homem bom, aquele que queria fazer tudo certo mas que, depois de castigado pela opinião pública, admite que quem quer permanecer na Casa Branca tem de seguir as regras de Washington. Durão Barroso e Che Guevara sabem bem que dos rebeldes reza-se na história, somente quando estes estão mortos. Os revolucionários podem ter seguidores, clubes de fãs, tropas, milícias e grupos organizados na sua órbita, mas raramente chegam ao poder se não cedem às regras pelas quais se guia a maioria da sociedade.

A vida é assim. Não sei se justa se injusta, se gloriosa ou ingloria. Na prática, quem quer ascender, manter-se à tona, sobreviver, tem de alinhar pelo status quo, navegar com as marés, aproveitar a força das ondas na esperança que uma dessas seja o tal super-tubo, que nos permite fazer uma surfada que acelera o corpo e eleva a alma, daquelas que contamos aos netos e que uma foto recorda para a história.

Quer isto dizer que devemos deixar de correr atrás daqueles ideais transcendentes, benfazejos para o espírito, nobres para a sociedade, dignos de lápides, estátuas, nomes de rua, ou simplesmente de um abraço carregado de gratidão sincera, de um “obrigada” em forma de sorriso? Claro que não. São os ideais, tantas vezes as utopias, que fazem com que o mundo avance como bola colorida nas mãos de uma criança, como se cantava na época em que o país inteiro vivia inebriado com as promessas do 25 de Abril.

A vida apenas nos ensina a ser menos apaixonados e provocadores.

Num momento de inspiração, em que as nossas ambições se concretizam, somos bestiais. Quando os dados do jogo se alteram, se vira o tabuleiro, nos saí consecutivamente o vermelho depois de uma aposta firme no preto, então mais vale estar preparado para enfiar as “orelhas de burro” e ultrapassar com a dignidade possível os tempos que se seguem, em que é garantido que seremos vistos como “bestas”.

A boa notícia é que “não há mal que sempre dure” e quando se bate com os pés no fundo é certinho que regressamos à superfície mais depressa.

 



publicado por teoriasdacosta às 22:34
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Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010
Plano B(ento)

 

 

Todos temos um plano B.

(Nós cá pelo Porto ainda temos a sorte de ter um bar com este nome que fica na zona das galerias e cuja visita recomendo…)

É aquela coisa de sonhar com a casa em cima da praia, o duplex com terraço com vistas de mar, a Volvo V70 cross country, a mala Gucci, os sapatos Manolo Blahnik, as viagens para as compras de Natal em Manhattan, o jatinho privado para um jantar romântico na Sardenha ou para ir dar um mergulho de sereia num mar azul turquesa; mas depois termos de nos contentar com a casa com uma prestação compatível com o nosso ordenado, vistas de mar só nas férias, num hotel com quartos superiores em promoção no booking ou fora de época, um Volvo que é um autocarro, ou com sorte a viatura que nos concede a empresa, malas da Parfois, sapatos da Zara, jantares em restaurantes com ares de Tribeca e mergulhos em lençóis perfumados que nos aconchegam os sonhos com férias.

Todos temos como ícones de vida o champanhe e o caviar, mas contentamo-nos com tremoços e umas cervejas. Chama-se a isto capacidade de sobrevivência. Se não conseguirmos aceitar com gratidão aquilo que a vida nos dá, se passamos o tempo a alimentar quimeras, o risco de frustração fica de tal forma exponenciado que só conseguimos sair da raiva que nos enclausura e tolda os sentidos batendo com a cabeça numa parede (até à perda de consciência e o mítico encontro com o S.Pedro).

A sabedoria, a experiência, revistas como a Maria, a Vogue e a Happy, livros como os que escreve a Margarida Rebelo Pinto e crónicas na Caras do Paulo Coelho, ensinam-nos que sim, de facto é importante ter objectivos, que claro, que estes têm de ter um mínimo de tangibilidade para que sejam fonte de ânimo e não de desespero, mas que também, mais vale dar um desconto entre a 10 a 50% para aquilo que se pretende, não vão as coisas correr mal e os nossos projectos naufragarem em mar alto ou morrerem na praia como tantas vezes sucede.

Por isso, quase inconscientemente, para cada plano de vida, engendramos uma alternativa. Ou várias.

Assim como a selecção vai para um Mundial a dizer que fica contente se chegar aos oitavos de final, também nós podemos dizer convictas que não precisamos de um homem que seja giro desde que seja inteligente, se não for muito inteligente pelo menos que não diga muitas idiotices que nos causem embaraço em público, que até antecipamos que podia chover no fim-de-semana por isso tiramos o biquíni do armário mas, pelo sim pelo não, também fomos ao caderno de lazer do Expresso ver que filmes andam pelas salas de cinema.

Nós termos um plano B, ou C ou D, ou XYZ, é bom, é normal, é saudável e recomendável.

O que quer que seja que nos aconteça podemos sempre argumentar que foi uma das nossas escolhas. E foi. Talvez não a preferida, mas uma das consideradas.

 

Agora sermos o plano B de outra pessoa é uma maldade caústica.

Imaginem saberem que o nosso namorado nos escolheu porque levou um corte da nossa melhor amiga. Descobrir que ficamos com aquele posto de trabalho porque mais ninguém o queria, ou porque quem a entidade patronal desejava, por questões éticas de razão espanhola, não estava disponível.

Quando somos nós que escolhemos, seja qual for o valor da escolha, podemos sorrir com orgulho porque conseguimos aquilo que não nos importávamos de ter. Quando somos seleccionados porque quem nos escolheu não conseguiu quem queria, a coisa deve doer, ali naquele pedacinho de consciência onde fica a nossa auto-estima, o nosso orgulho e o nosso ego.

Mas a vida nem sempre é justa. Há um homem para cada sete mulheres, muitos desempregados e poucos empregos disponíveis, pelo que, em épocas de crise em que a oferta escasseia, temos mesmo de disfarçar com um sorriso quando nos desenham na testa a letra B.



publicado por teoriasdacosta às 20:22
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