
Fim-de-semana em grande no Porto.
A zona da Baixa ao rubro com bandas a tocar por toda a parte, um singular mercado Portobello no sábado à tarde, esplanadas apinhadas numa boémia efervescente, o Portugal Fashion com suas aves raras no Palácio do Freixo, as Galerias inundadas noite fora por um infindável mar de gente.
Uma temperatura ainda de Verono (nome fantástico que escutei para esta nova estação que se instalou depois do Verão e antes do Outono) e a conversa muito quente, por estarmos quatro mulheres de verbo fácil pródigas em tiradas sábias, satíricas, anedóticas ou eloquentes, bem acompanhadas por um tinto Syrah que nos fez grudar nas cadeiras do restaurante até sermos as últimas clientes.
Tenho amigas que já falam comigo como se me estivessem a dar dicas para uma teoria. Outras, com medo que alguém as identifique, pedem-me que não mencione nenhuma das nossas trocas de cromos e de galhardetes.
Entre todas, tempo para desabafar e desabar em lágrimas, rir muito, encontrar respostas e colocar perguntas, como se de um brainstorming entre loiras e morenas pudesse sair poção milagrosa ou solução mágica para todos os problemas.
Não vou mencionar nenhum dos assuntos. Posso apenas dizer que entre tanto o que se divagou sobre este ser que nos fascina e que recebe a designação de “homem” tivemos alguma dificuldade em encontrar um padrão, um fio condutor, uma lógica entre acção-reacção, palavra-pensamento, suficientemente credível e cabal para enquadrar as cartas atiradas para a mesa sobre telefonemas equívocos, silêncios inexplicáveis, ausências por tempo incerto, surpresas com travo agridoce, partidas apressadas e outros peculiares comportamentos.
No final, porque três amigas trocaram recentemente de carro e isto deu que falar quando ainda estávamos na fase da ementa, ocorreu-me que homens, mulheres e automóveis serão sempre variáveis independentes.
O que uma mulher quer num carro é que seja giro, tenho volante e rodas. Depois compra um usado que até é descapotável e topo de gama full extras, mas descobre que este mete água, que o seu interior com requintes de mogno e pele branca é um engodo, que é impossível ouvir a "música da sua vida" porque qualquer som é absorvido por uma insuportável chiadeira, perdem-se molas, porcas e jantes em cada trajecto, a garantia não menciona que o veículo foi reciclado com uma série de peças não autênticas. Vai-se o charme fica o chaço…
O homem só decide que carro quer depois de dar umas voltas. Confere a cilindrada, o ano, o chassis, os acabamentos, as polegadas e as outras tretas que compõem um ficha técnica, faz um test drive, retém o carro durante um fim-de-semana à experiência, ouve umas opiniões, medita introspectivamente, e só então decide se o investimento vale a pena.
Poucas serão as mulheres com algum entendimento de mecânica, capazes de mudar um pneu, com destreza para utilizar um macaco pneumático ou uma chave de fendas. Poucas são pois as mulheres capazes de entender a engrenagem do motor que faz acelerar um homem à sua máxima potência. Não falo em sexo mas sim em elevar um macho à qualidade de homem honesto, isto é, de homem que não mente, não traí, não dissimula, não ofende nem desaparece sem rasto, uma saída pela porta dos fundos sem direito a abraço sentido nem um “adeus até ao meu regresso!”
Assim, à primeira vista, todas as mulheres acreditam que é tudo uma questão de embraiagem e de ponto-morto, fiando-se que basta que o carro nunca vá a baixo para que o motor trabalhe a vida toda. O problema é que os homens não são só mudanças, marcha-atrás, piscas e médios, nenhum traz livro de instruções e o computador de bordo não é tão intuitivo como o painel com botõezinhos da Bimby nem tão básico como um interruptor apaga-acende.
As mulheres podem ser tão complexas como mapas astrais em que se cruzam cometas, estrelas e planetas, mas os homens são blocos de apontamentos onde se desenham estradas como rectas, para mal a viagem começa se perceber que as direcções não contemplam as rotundas, as lombas, as curvas perigosas, as inversões de marcha e as saídas de emergência.
Entendido ou preciso de fazer um esquema?

Numa das milhentas publicações que me aparecem nos feeds do FaceBook, encontrei uma que achei genial.
O filme que partilho enquadra-se numa série intitulada “Tales of mere existence” - não traduzível para português numa expressão que soe tão poética- que contém sketches com um toque de humor, ironia e oportunidade que valem por muitas das minhas singelas teorias.
O filme que partilho chama-se “Como perder uma rapariga em 64 etapas”, fenómeno que me parece digno de recorde no Guiness já que a maior dos homens que conheço acabam com a namorada que uma mulher julga que é num acto único: eclipsam-se.
Mas o filme não é exactamente um manual para uma saída airosa. É mais o relato do que são as relações ditas adultas nos nossos dias.
Para não plagiar o original, aqui vai a minha reinterpretação do filme:
Fase 1: a construção.
Corresponde àquela coisa gira de fazer crescer uma relação, identificando com orgulho os pequenos detalhes que fazem com que duas pessoas se tornem íntimas: irem juntos ao supermercado, acabarem as frases um do outro, rirem das mesmas piadas, perderem a vergonha de fazer cócó quando o outro está na divisão contígua.
Nesta fase as mulheres começam a acreditar que a relação é para toda a vida. Os homens começam a entrar em pânico perante essa perspectiva.
À medida que as relações amadurecem há coisas que mudam. Não há tanta inspiração para sms românticas ou atrevidas, as conversas são mais curtas, o sexo passa de diário a de três em três dias, depois a actividade de fim-de-semana até se tornar uma coisa de férias e de dias festivos.
Elas começam a sair com as amigas para desabafar, eles aproveitam os jantares de gajos para se divertirem à brava com os amigos.
Os desentendimentos aumentam e a relação acaba.
Fase dois: a segunda infância
Depois de uma relação sufocante é normal sentirmo-nos aliviados. Somos invadidos por uma eléctrica sensação de liberdade, e que atire a primeira pedra quem nunca passou ou conhece alguém que tenha passado por esta sensação de euforia, em que depois do fim de um namoro se volta a sair à noite como rotina, se muda o visual, se conhecem pessoas novas e se dão umas quecas sem compromisso.
Até que um dia se volta a tropeçar na/o ex.
Depois de um olhar e de um sorriso concluí-se que afinal aquela pessoa é a tal e que foi uma loucura deixá-lo/a fugir.
Fase três: a reconciliação
Os reencontros de namorados descambam quase sempre num abraço ansioso, com ela a tirar-lhe as calças pelo pescoço e ele a encostá-la contra à parede numa performance digna de filme.
É nesta fase que as duas pessoas que correram o mundo concluem que afinal durante todo esse tempo andaram com o coração vazio.
As reconciliações são sempre momentos de felicidade extrema. As pessoas convencem-se que a separação as fez amadurecer, que finalmente percebem aquilo que efectivamente querem para a sua vida. Admitem que sentiram imensas saudades e que são incapazes de viver uma sem a outra nem que seja só por um dia.
Apesar de eu ser das cépticas que acredita mais na teoria do “it´s never as good as the first time” – nunca é tão bom como da primeira vez – conta o filme que a sensação que duas pessoas têm quando se voltam a juntar é que a relação fica muito melhor do que era. Sou capaz de conceder que em muitos casos que conheço é mesmo esse o espírito.
A relação é reconstruída, remodelada, mudam-se as loiças da casa-de-banho, compra-se uma cozinha IKEA em tom beringela e acrescenta-se uma marquise. Feita a bricolage, volta tudo ao mesmo: o sexo passa de regular a transitivo, recomeçam as discussões, primeiro futéis, aos poucos com direito a amuo de um dia, depois estridentes e finalmente com recurso a artilharia (que em linguagem de casal significa a utilização de golpes baixos como o arremesso de episódios do passado que são cobradas com juros sem perdão de dívida).
A relação chega a um ponto em que os dois já nem sabem porque discutem. É altura de acabar novamente.
Fase quatro: a terceira infância
Esta fase é idêntica à segunda mas com menos pedalada. Também aqui acho que qualquer um já viveu a experiência de sair à noite e não encontrar ninguém com quem se identifique, não se sentir bem em canto algum, mesmo correndo todos os bares e ruas que compoem o animado quarteirão das galerias (no Porto) ou do Bairro Alto (em Lisboa), de não saber o que fazer nem para onde levar o corpo cansado e a precisar de mimo.
Nesta altura nem sempre a pessoa que se deixou está particularmente receptiva. Nem sempre acreditamos que vale a pena nova tentativa.
Nesta fase em que tudo nos aborrece é difícil encontrar alguém que nos cative.
Entra-se assim num estado moderadamente depressivo.
Fase cinco: a recuperação
Até que um dia, porque está Sol, porque as hormonas se agitam, porque nos cansamos de termos pena de nós próprios, entramos na fase da recuperação.
Inicialmente, a solidão, o não ter companhia é coisa para provocar urticárias, pesadelos e gastroenterites. Semanas ou meses depois habituamo-nos a estar sózinhos, a dormir no meio da cama, a deixar amontoar loiça suja na cozinha.
Quando já nos adaptamos a nós próprios, quando convivemos bem com a pessoa que somos, nos reconciliamos com os nossos defeitos e aceitamos que há coisas em que somos fraquinhos, estamos precisamente no ponto de mergulhar de cabeça numa relação e voltar a repetir o ciclo do início.

Todos temos um plano B.
(Nós cá pelo Porto ainda temos a sorte de ter um bar com este nome que fica na zona das galerias e cuja visita recomendo…)
É aquela coisa de sonhar com a casa em cima da praia, o duplex com terraço com vistas de mar, a Volvo V70 cross country, a mala Gucci, os sapatos Manolo Blahnik, as viagens para as compras de Natal em Manhattan, o jatinho privado para um jantar romântico na Sardenha ou para ir dar um mergulho de sereia num mar azul turquesa; mas depois termos de nos contentar com a casa com uma prestação compatível com o nosso ordenado, vistas de mar só nas férias, num hotel com quartos superiores em promoção no booking ou fora de época, um Volvo que é um autocarro, ou com sorte a viatura que nos concede a empresa, malas da Parfois, sapatos da Zara, jantares em restaurantes com ares de Tribeca e mergulhos em lençóis perfumados que nos aconchegam os sonhos com férias.
Todos temos como ícones de vida o champanhe e o caviar, mas contentamo-nos com tremoços e umas cervejas. Chama-se a isto capacidade de sobrevivência. Se não conseguirmos aceitar com gratidão aquilo que a vida nos dá, se passamos o tempo a alimentar quimeras, o risco de frustração fica de tal forma exponenciado que só conseguimos sair da raiva que nos enclausura e tolda os sentidos batendo com a cabeça numa parede (até à perda de consciência e o mítico encontro com o S.Pedro).
A sabedoria, a experiência, revistas como a Maria, a Vogue e a Happy, livros como os que escreve a Margarida Rebelo Pinto e crónicas na Caras do Paulo Coelho, ensinam-nos que sim, de facto é importante ter objectivos, que claro, que estes têm de ter um mínimo de tangibilidade para que sejam fonte de ânimo e não de desespero, mas que também, mais vale dar um desconto entre a 10 a 50% para aquilo que se pretende, não vão as coisas correr mal e os nossos projectos naufragarem em mar alto ou morrerem na praia como tantas vezes sucede.
Por isso, quase inconscientemente, para cada plano de vida, engendramos uma alternativa. Ou várias.
Assim como a selecção vai para um Mundial a dizer que fica contente se chegar aos oitavos de final, também nós podemos dizer convictas que não precisamos de um homem que seja giro desde que seja inteligente, se não for muito inteligente pelo menos que não diga muitas idiotices que nos causem embaraço em público, que até antecipamos que podia chover no fim-de-semana por isso tiramos o biquíni do armário mas, pelo sim pelo não, também fomos ao caderno de lazer do Expresso ver que filmes andam pelas salas de cinema.
Nós termos um plano B, ou C ou D, ou XYZ, é bom, é normal, é saudável e recomendável.
O que quer que seja que nos aconteça podemos sempre argumentar que foi uma das nossas escolhas. E foi. Talvez não a preferida, mas uma das consideradas.

Agora sermos o plano B de outra pessoa é uma maldade caústica.
Imaginem saberem que o nosso namorado nos escolheu porque levou um corte da nossa melhor amiga. Descobrir que ficamos com aquele posto de trabalho porque mais ninguém o queria, ou porque quem a entidade patronal desejava, por questões éticas de razão espanhola, não estava disponível.
Quando somos nós que escolhemos, seja qual for o valor da escolha, podemos sorrir com orgulho porque conseguimos aquilo que não nos importávamos de ter. Quando somos seleccionados porque quem nos escolheu não conseguiu quem queria, a coisa deve doer, ali naquele pedacinho de consciência onde fica a nossa auto-estima, o nosso orgulho e o nosso ego.
Mas a vida nem sempre é justa. Há um homem para cada sete mulheres, muitos desempregados e poucos empregos disponíveis, pelo que, em épocas de crise em que a oferta escasseia, temos mesmo de disfarçar com um sorriso quando nos desenham na testa a letra B.
Quando apanhei na Net um estudo que se debruçava sobre as razões que levam um homem a apaixonar-se não resisti a cuscar. Pensei "deve ser um daqueles artigos de auto-ajuda super pindéricos e pimba" mas acabei por lê-lo e relê-lo na diagonal e na horizontal.
De facto, a conversa soa a "salão de cabeleireiro" mas não deixa de ser interessante. Mantive o título original, porque a translação fica muito fatela, partilhando a versão da tradução opinativa que produzi do texto que resume "o que faz um homem apaixonar-se" a quatro coisas.
Quatro coisas!!! Como é possível?
Sobre as mulheres já toda a gente sabe que se apaixonam, amam loucamente, desesperam, choram baba e ranho, ficam para morrer quando o amor acaba, são melodramáticas, histéricas, psicopatas, partem a loiça toda, empanturram-se em chocolate ou em anti-depressivos, para depois, dias, semanas ou meses mais tarde, chegarem à conclusão que afinal o homem por quem julgavam estar apaixonadas era um totó, e que o homem que lhes entrou pelo FaceBook adentro há três dias, ou o sujeito alto que lhes deu um encontrão nas galerias é que parece ser o “tal”.
(Eu sei que estou a colocar as coisas de forma muito fria e generalista, mas este raciocínio não está assim tão longe da verdade)
Segundo Paul Dobransky, M.D., autor do livro "The Secret Psychology of How We Fall in Love” – “A psicologia secreta de como nos apaixonamos” – o cérebro de um homem tem uma espécie de checklist que tem de ser preenchida com vistos para que ele seja capaz de assumir um compromisso. Nas mulheres, escrevo eu, com base na minha experiência de vida e nos casos de amor, desamor e paixão súbita de que sou espectadora, essa checklist também existe, mas há sempre a possibilidade de uma mulher que tinha como ideal um homem loiro com mais de um metro e oitenta, andar orgulhosamente pelo braço de um moreno atarracado, de uma professora universitária se render aos encantos de um bombeiro ou de uma anónima e silenciosa administrativa se submeter à brutalidade de um careca com barriga de cerveja que usa t-shirts a dizer “morte aos pretos”.
A checklist das mulheres será pois uma coisa complexa, com pontos, alíneas, ressalvas e notas de rodapé, enquanto a dos homens se resume a quatro simples desejos:
1. O desejo de protecção
Esta tem mesmo a ver com aquilo que todos estão a pensar: aquele instinto que vem desde o tempo das cavernas, aquela coisa de macho que cobre a fêmea (em todos os sentidos e acepções do termo). Diz David Givens, Ph.D, psicólogo que escreveu um livro com o nome "Love Signals" ("Sinais de amor") que afinal estes seres que conhecemos como estóicos e empedernidos têm corações a transbordar de carinho, que se revela de formas que só eles compreendem, como porrada na mulher quando o Benfica perde (abençoado Jesus que este ano trouxe a paz a muitos lares), mas que de uma forma muito elementar se pode traduzir na necessidade de proteger a sua dama (como diz qualquer puto que cante rap). Esta sensação de superioridade física, de músculo, força e fibra faz com que o homem se sinta um machão.
Daí que as mulheres independentes, aquelas que têm carreira, casa própria, viatura com alguma cilindrada, ganham dinheiro para malas que custam mais que o salário mínimo e fazem pelo menos duas viagens por ano, estejam quase todas a morar sozinhas, divertindo-se à brava umas com as outras, despontado aqui e ali umas paixões que são sempre passageiras, porque no meio de tanta auto-suficiência não demonstram a menor vulnerabilidade, fazendo com que o potencial companheiro se sinta como mais um objecto dos que compõem a decoração da casa, e não como um bem necessário.
Para que um homem se apaixone por uma mulher é fundamental desencadear este instinto protector, o que não quer dizer que a mulher se tenha de posicionar como uma sonsa daquelas que até medo têm de por o pé fora de casa, mas que pelo menos lhe peça ajuda para carregar garrafões de 5 litros de água (3 em cada mão, no mínimo), para mudar uma lâmpada num spot embutido que fica no cantinho mais inacessível no tecto da sala, para verificar o nível do óleo no carro (como se isso não fosse automático) e para fazer o reset na power box depois de mais uma actualização de canais.
Apesar da fantasia sexual que muitos homens devem fazer à volta da Lara Croft, eles preferem o lado soft da personagem e não o da guerreira destemida, com força de Rambo e jeitinho de MacGyver.
2. O desejo de liberdade
Esta é um clássico. Todos os homens fazem chichi pelas pernas abaixo com o medo que uma relação estável lhes quarte a liberdade. Outro Ph.D, de nome Dan Neuharth, que também escreveu um livro fantástico com título de best seller em supermercado - "Secrets You Keep from Yourself" ("segredos que escondemos de nós próprios"?) defende que os homens sentem o impulso de fuga sempre que percebem que o seu "eu", a sua identidade, a sua forma de estar e de ser, está ameaçada. Os homens até se podem deixar dominar, mas só quando estão distraídos e não percebem que a sugestão da camisa branca em substituição do padrão de riscas que ele insiste em usar é só um conselho querido e não uma imposição ao estilo "se não deitas essas camisas da década passada ao lixo, mando-te reciclar!".
Segundo o autor do livro, os erros a evitar são excesso de planos e programas em comum, ao estilo "hoje vais conhecer a minha melhor amiga, amanhã jantamos com os meus pais, passamos o fim-de-semana com os meus primos, nas férias grandes já temos com quem ir para o Algarve..." SOCOOOOOORRO! Até eu fico angustiada...
Pelos vistos um truque que funciona muito bem é a mulher assumir que também ela tem dúvidas, partilhando esse receio de um compromisso sério e de perda de liberdade. Com esta estratégia eles ficam mais tranquilos porque deixam de ver cada namorada solteira como uma "caçadora de aliança para o dedo" e cada divorciada como uma "desesperada à procura de segundo marido".
Como é evidente, todos os erros relacionados com mexer no telemóvel dele ou revirar as gavetas lá de casa estão completamente fora de questão... Aguentem a curiosidade!
3. O desejo de brilhar
Dizem os especialistas que, no fundo, no fundo, os homens até tendem para o inseguro, o que quer dizer que eles gostam de estar ao lado de uma mulher que contribua para o aumento da sua auto-estima, interna e externa, que é como quem diz na cama e aos olhos dos outros, a tal "massagem ao ego" só para o fazer sentir mais confortável. O Dr. Dobransky, que ainda não é Ph. D mas vai ser certamente, argumenta que coisas tão simples como rir das piadas que o nosso namorado conta, mesmo que sejam daquelas secas que fazem chorar as pedras da calçada, fazer qualquer coisa que active o lado esquerdo do cérebro dele - como desporto, tarefas mecânicas ou matemáticas, coisas práticas - e contribuir para amenizar a insuficiente utilização do seu lado direito (associado a socialização, exteriorização de emoções), incrementam a auto-confiança dele, que acredita que tem piada, que é muito rápido e ágil nas tarefas físicas e que tem quem o ajude a desenrascar-se com as outras tretas.
Esta questão de participar em tarefas que envolvam físico e mente, tipo jogar futebol na Playstation ou ter pachorra para uma noite inteira com o Pictionary, não só fomentam o envolvimento, como também são inconscientemente percebidas pela mente masculina como indicador de que aquela mulher é suficientemente dinâmica para ser uma companheira para toda a vida, e ainda vem com o bónus de ser inteligente q.b. para com ele assegurar a combinação ideal de genes para a descendência.
Outro factor importante é eles sentirem que a mulher que trazem debaixo do braço é um troféu. Seja porque faz virar muitas cabeças quando entram num sítio apinhado de gente, seja porque se destaca pelo sentido de humor, pela inteligência (moderada, acrescento eu, para não ser intimidante) ou pelas suas aptidões sociais.
4. O desejo de conforto
Alan Hirsch, M.D., director do departamento de neurologia da "Smell and Taste Treatment and Research Foundation" (Fundação para o tratamento e pesquisa do cheiro e gosto" ou "olfato e paladar", as coisas que estes gajos inventam...) escreve que o processo que leva uma pessoa a apaixonar-se resulta de uma descarga de oxitacina no cérebro. Esta "hormona do amor" é desencadeada quando um homem julga que encontrou a mulher que se encaixa na perfeição com o seu ser, aquela com quem se sente tão à vontade, tão bem, tão realizado, que pura e simplesmente se esquece que a relação até é séria, uma coisa a tender para o compromisso, palavra proibida no vocabulário para que a coisa dê mesmo certo.
Eles gostam de se sentir especiais e de sentir que a mulher que está com eles é igualmente diferente, acima da média. Há momentos de intimidade que eles adoram presenciar, como aquele em que a mulher se maquilha antes de sairem para um jantar (jamais o momento em que tira uns pêlos indiscretos da zona superior do lábio), como a partilha de tarefas (desde que levezinhas e desde que não se convertam em rotina), como o adormercer nos seus braços, coisa que incomoda os mais calorentos, mas que despoleta o sentimento primitivo de "fazer ninho".
Tudo isto parece demasiado óbvio e simples, não sei se ridiculamente romântico, se uma prosa a tender para o conceito de livro de auto-ajuda que todos temos lá por casa mas que nos recusamos a ler numa esplanada para não parecermos patéticos...
A minha cidade é o Porto. Facto.
Não é escura como criticam alguns lisboetas que se dão mal com o nosso clima directamente importado de Londres.
O Porto é azul.
Não é azul por ser indissociável do Futebol Clube do Porto, o único que nos podemos honrar de ter, já que o outro, que em tempos se disse estar para o Porto como o Sporting para Lisboa, posicionando-se como um clube de elite, deixou há muito de ser clube, muito menos de gente chique.
É azul porque é desta cor que vejo o rio sempre que cruzo a ponte da Arrábida, mesmo nos dias de chuva e névoa, em que a água corre lenta como uma mescla que parece cinzenta.
O Porto é azul porque
“Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende até ao mar”
O Porto, para lá das tais pequenas casas velhas e corroídas que ilustram a cidade no seu lado mais sombrio, da tal “cascata são-joanina erigida sobre um monte no meio da neblina”, é uma cidade aberta para o mar.
“Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós”
há um caminho que se faz, com o rio a acompanhar-nos, que desagua num jardim de palmeiras com toque exótico ladeado por chalés de estilo britânico. Depois do jardim do Passeio Alegre, surge o mar de ondas revoltas, vêem-se praias com rochas, pedrinhas e conchas, canteiros quase espontâneos de cactos, flores e outras plantas que sobrevivem luxuriantes mesmo quando fustigadas pelo vento agreste que tantas vezes se sente na marginal.
“E esse teu ar grave e sério
num rosto de cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria”
O Porto é uma cidade de trabalho, daí que se posicione como séria. Mas é uma cidade de gente sincera, onde é mais frequente o sorriso que brilha entre as tais ruas esguias sem Sol que fazem do centro histórico um labirinto sombrio.
“Ver-te assim abandonado
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento”
O Porto de hoje está em fase de ressurreição (perdoem-me a heresia). Se tempos houve em que o centro era um aglomerado de prédios devolutos, abrigo de drogados, desalojados e mulheres da má vida, assistimos há um par de anos a uma recuperação da baixa, da zona periférica de Miguel Bombarda que de repente se converteu numa espécie de Soho à escala desta cidade que orgulhosamente se mantém como de província, com todas as vantagens de uma urbe cosmopolita, mas com a mesma cumplicidade entre vizinhos de longa data, velhas que assistem à vida que passa da sua janela, figuras típicas que entabulam conversa com os turistas, malta nova que se agrupa pelas ruas das galerias Paris, Cândido dos Reis ou junto ao mítico Piolho numa colorida palete de risos, sotaques cerrados, disfarçados ou “à Erasmus” que se sobrepõem ao tom pardacento do granito.
“E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa”
Não há canção mais bela do que o “Porto sentido”, que confesso ouvi muitas vezes emocionada, nos tempos em que vivi em Lisboa.
Gosto de Lisboa. Facto.
Sou completamente contra aqueles bairrismos provincianos que fazem com que uns digam que Lisboa é que a capital, o epicentro do país, que tudo à volta é paisagem, que os alentejanos são uns retardados, os algarvios estrangeiros, os de Coimbra uns presunçosos, os do norte uns pacóvios e os do Porto uns palermas.
Lisboa é a capital do país. Outro facto.
As capitais de qualquer país têm quase sempre mais pessoas do que as restantes cidades, logo mais eventos culturais, logo mais turistas, sendo que o tamanho da população – fixa e flutuante – se repercute num fenómeno cilíndrico que teoricamente se poderá designar com um nome muito pomposo, assim a tender para o estrangeirismo, mas que em bom português se traduz pela expressão “pescadinha de rabo na boca” (de preferência acompanhada por um arroz malandrinho): se há mais pessoas constroem-se mais casas, criam-se mais infra-estruturas, organizam-se mais eventos; se há mais eventos há mais turistas; se há mais turistas organizam-se mais coisas; se há mais pessoas há mais actores, encenadores, músicos, poetas, artistas logo têm de promover-se mais eventos culturais para dar que fazer a esta gente; se há mais eventos há mais turistas; se há mais turistas há mais dinheiro a circular; se há mais dinheiro a circular há mais investimento.
Posso afirmar com conhecimento de causa que Lisboa é bom para trabalhar ou fazer turismo, o Porto é bom para viver.
A expressão “bom para trabalhar” associada à capital é coisa que certamente espantará muita gente da minha terra, que cresceu a acreditar no mito de que no Porto é que se trabalha, em Lisboa saí-se do escritório às cinco e mandam-se trabalhar os gajos do norte. Na prática, posso admitir que esta crença popular tenha alguma coisa a ver com a elevada concentração de indústria em muitas das terras que ficam acima de Águeda, com especial relevo para o em tempos abençoado Vale do Ave. Lisboa focou-se no sector terciário porque, desde logo, ao ser capital centraliza grande parte dos serviços da administração pública, e funcionários do Estado, como todos sabem, saem sempre na “hora da Coca-Cola light” (quatro e meia, ainda se lembram do anúncio?), a não ser aqueles que têm de ficar fechados a ouvir cusquices em comissões de inquérito, que mesmo assim se divertem mais do que a ver mails no parlamento. Por outro lado, as multinacionais que agora assumem como epicentro ibérico Madrid ou Barcelona, abriram filiais na capital nos prósperos anos oitenta e noventa, tornando Lisboa uma cidade excelente para arranjar empregos com nomes a soar a importante, como Key Account (vendedor) ou Junior Consultant (pessoa que tira fotocópias e cafés).
Lisboa é pois uma cidade onde é bom trabalhar. Mesmo agora, com plena crise instalada, continua a haver mais oportunidades e menos instabilidade na capital do que no resto do país. Os salários já estiveram muito mais inflacionados, porque também o custo de vida em Lisboa é incomparavelmente superior, mas mesmo sendo a realidade dos contratos precários e dos recibos verdes completamente diferente da que contam as notícias dos jornais acerca dos salários, bónus, prémios e outras regalias que recebem certas pessoas em certos cargos, ainda se ganha mais emigrando para Sul do que ficando pelo Norte.
Lisboa é uma cidade maravilhosa para calcorrear como turista, da mesma forma que o Porto se tem convertido num destino cada vez mais atractivo e interessante. Falta-nos uma coisa: o clima. É que apesar de as mudanças climáticas terem aproximado as temperaturas médias das duas cidades que são sempre referência nas previsões meteorológicas, a verdade é que há grandes diferenças entre as máximas e as mínimas, que se traduzem nas camadas de roupa sob as quais nos escondemos no Inverno ou na possibilidade de sair para jantar numa esplanada com vestido de alças e havaianas.
Lisboa não é bom para viver porque morar no centro é caríssimo. Morar na periferia é coisa de pobre, tipo os subúrbios de Almada, Amadora-Sintra, Odivelas, Loures e outros sítios medonhos à distância de uma procissão na ponte, de um tormento no IC19 ou de uma penitência na calçada de Carriche. Enquanto lá estive morei no Alta da Barra, um sítio giríssimo em Oeiras, com vista para o forte de S. Julião da Barra e Ponte 25 de Abril num T0 do tamanho da sala da minha casa de 150 m2 no Porto. Depois fui para Carcavelos, para um moderno T3 de divisões minúsculas mas com uma varanda fantástica, ficando a apenas mais 3 quilómetros de Lisboa do que na casa anterior, mas que na prática, me obrigou a ter de sair para trabalhar com mais de meia hora de avanço, tal era o tamanho das filas que apanhava na A5 ou na marginal.
Resultado, tenho a sensação que passei grande parte do meu tempo de vida na capital enfiada dentro do carro, tão distante de Lisboa que, se queria fazer um programa de cidade à noite, ou levava o kit de roupa para me mudar no escritório ou no ginásio, ou me submetia a noventa quilómetros de trajecto (voltar-ir-voltar) para um jantar no Bairro Alto ou uma noite de teatro.
Aqui pelo Porto tudo fica à distância de cinco minutos. E mesmo quando há trânsito, que reconheço se torna medonho na VCI, mas raras vezes ao nível da segunda circular, nunca ficamos numa fila tanto tempo que comecemos a sentir cãibras na planta dos pés por já não aguentarmos mais fazer ponto de embraiagem com saltos altos.
Vantagem essencial, qualquer que seja o local de trabalho ou de residência, nunca se está tão longe da costa que numa viagem que dura pouco mais do que uma faixa de música se possa relaxar com os olhos em estado contemplativo sobre o casario de postal ilustrado que se reflecte nas águas do rio ou sobre o horizonte infinito que se vislumbra para lá do mar.
Por isso o Porto é azul…
Por isso esta é cidade que amo.
Estamos na Páscoa, supostamente na Primavera.
Ainda me lembro do tempo em que as estações do ano estavam claramente definidas e nesta altura estreava sempre um vestidinho de manga curta e soquetes.
Mais tarde, era impensável não rumar ao Algarve e aguentar estoicamente umas horas de praia só para estar com um ar bronzeado no regresso às aulas.
Por estes dias, já em pleno mês de Abril de 2010, vejo pessoas de gola alta, casacos de fazenda e galochas. Ou as ruas estão cheias de gente estranha ou andamos todos com o Inverno às costas...
A Páscoa não tem só a ver com estrear roupa nova, fazer mini-férias, dar prendas aos afilhados, devorar amêndoas em catadupa ou comer pão-de-ló até ficar mal disposto.
Para quem é religioso, ou pelo menos, andou na catequese até à primeira comunhão, a Páscoa é a celebração da ressurreição de Jesus e é neste episódio que reside a essência da fê cristã: Jesus morreu para nos salvar e a Sua subida aos céus indica-nos que todos podemos esperar idêntica recompensa depois de mortos.
(Podem continuar a ler o texto sem medo que eu não endoidei, nem me converti a nenhuma seita do Reino de Deus).
Metaforicamente falando ir para o Céu deve ser o que todos os católicos ambicionam, o prémio por uma vida sem pecados graves, sem ofensas ao próximo nem facadinhas no matrimónio. Para mim, que até fiz a comunhão solene, a ideia de ir para o Céu só é aliciante se o imaginar como uma imensa praia de mar azul turquesa assim ao estilo mar das Caraíbas. De vez em quando também defendo a tese "as meninas boas vão para o Céu, as más vão para a toda a parte...", logo o céu será aquilo que eu quiser, mas sempre com categoria cinco estrelas e serviço irrepreensível.
Fisicamente, a ideia de ressurreição e subida aos céus não só é absolutamente disparatada como coloca em causa tudo aquilo que pensamos sobre este imenso tecto azul que, segundo o Ásterix, um dia nos pode cair em cima da cabeça.
Uma americana de nome Lisa Miller vai pubicar brevemente um livro com o nome "Our Enduring Fascination With the Afterlife", que quer dizer “O nosso persistente fascínio com a vida após a morte”, mas que provavelmente chegará a Portugal com uma tradução do tipo “Dissertação sobre a vida após a morte” ou “Queremos morrer e ir para o Céu”. Este livro tem como tema central a ideia que depois de lida é uma evidência, mas sobre a qual, se calhar, nunca perdemos muito tempo a reflectir: Será que acreditamos mesmo que depois da morte vamos para o Céu? E se acreditamos nisto, ir para o Céu quer dizer o quê?"
Para mim, o Céu só pode ser uma espécie de resort com tudo incluído. Para outros é um cenário vazio cheio de fumo branco a fingir de nuvens, com S. Pedro à entrada de um portão imaginário, onde as nossas figuras vestidas com a bata do hospital ainda com a agulha do soro, a algália e o dreno são recebidas com um sorriso. Outros há que se imaginam sobre nuves fofas, entre anjos semi-nus (mas asexuados) a tocar harpa.
Qualquer que seja a concepção que temos desse Céu para onde vamos, imaginamos que vamos lá chegar tal como somos hoje, não como cadáveres em decomposição nem como expectros ou figuras fantasmagóricas. Imaginamos até, posso arriscar, que depois de entrarmos no Céu, vamos encontrar montes de malta amiga, familiares, pessoas cujo rasto perdemos, e que passaremos os dias em convívios, piqueniques e agradáveis tertúlias. Ainda há outros fanáticos que o que sonham encontrar depois de morrerem é um harém com virgens, o que eu presumo que não deve servir para grande coisa porque as pessoas sem experiência tendem a ser muito menos produtivas...
Mas depois também há aqueles, como eu às vezes conforme os dias, que acreditam que as nossas almas reencarnam noutros corpos assim que "a máquina" se desliga, sendo que o mundo está povoado por almas milenares, que passam a vida a saltar de corpo em corpo, de época em época, de sexo em sexo, de profissão em profissão... de acordo com uma qualquer lógica matemática divina que nos faz atingir o pico da felicidade numa vida, para nos fazer sofrer até à morte na vida seguinte, permitindo-nos ser maquiavélicos, pérfidos e cruéis numa encarnação, mas castigando-nos de forma veemente na encarnação seguinte.
Segundo esta autora, que se baseia numa série de estudos e inquéritos americanos, há os que acreditam na ressurreição, os que preferem acreditar na reincarnação, e os que acreditam em ambas as coisas, mesmo sendo católicos daqueles que ainda sabem as orações de cor e vão todos os domingos à missa. Aparentemente, é absolutamente paradoxal que um católico possa acreditar na reincarnação, pois se acredita que a sua alma vai regressar à terra não pode simultâneamente esperar que esta suba ao Céu. Se assim fosse, o Céu era um imenso hospício dedicado a doentes com esquizofrenia.
Para poder acreditar na reincarnação é preciso pertencer à categoria das "pessoas espirituais mas não necessariamente religiosas".
Pelos vistos, a cremação também é um acto anti-católico já que não foi assim que Deus explicou que a ressurreição acontecia. Segundo a Bíblia, Jesus subiu aos Céus com o seu corpo, o que quer dizer que as pessoas cremadas se excluem desta possibilidade, mas significa também que quem tem o azar de morrer num trágico acidente de viação em que fica com o corpo desfeito aos pedaços só pode ir para o Céu se meter uma cunha.
Diz Lisa Miller que qualquer cristão que acredite na ressurreição se visualiza a subir aos céus instalado no seu corpinho, de preferência numa versão melhorada, mais magra e com menos rugas. A lógica, mesmo quando temos alguma fé, diz-nos que a sequência do processo é: morrer, alma sobe aos céus e corpo apodrece debaixo da terra. Mas que coisa é esta da alma? É que a alma, em boa verdade, não faz grande coisa... De que nos serve ir para algum lado sem corpo, se é com esse conjunto de ossos, orgãos e músculos que nos movemos, sentimos, tocamos, ouvimos, vemos, degustamos?
Lá pelos E.U.A. onde há imensos doutorados a perderem anos de vida a fazer estudos sobre temas que não lembram ao Diabo (tenho de falar sobre o Inferno!) há um professor da Universidade de Boston, de nome, Stephen Prothero, que defende a tese de que o aumento exponencial das cremações em detrimento dos enterros é uma prova inequívoca da falta de crença na ressurreição. Eu podia alegar que se calhar tem alguma causa económica tipo custo da pira e do fósforo versus custo da urna e de um pedaço de terra, mas como não devo especular sobre commodities nem sobre imóveis quando estou a dissertar sobre a fé, limito-me a acrescentar que o oposto a ir para o Céu é ir para o Inferno, um local com ares de incineradora gigante, repleto de gente má e medonha, com diabos provocadores à solta. Ou então, uma coisa mais light, assim tipo o Plano B cá no Porto, uma cave onde tropeçamos em quinquilharia, com salas escuras onde se ouvem sons electrónicos sem coerência ou música dos anos oitenta posta por Dj´s amadores que conseguem torturar quem dança com as más transicções entre faixas.
A questão seguinte é: qual a checklist que decide quem sobe para o Céu ou quem desce para o Inferno? Uma velhinha que vá todos os dias à Igreja, duas a três vezes ao dia, para rezar o terço, acender velas, fazer arranjos de flores e assistir à missa, mas que fora daquelas quatro paredes tem uma personalidade mesquinha, intriguista e avarenta tem direito a ir para o Céu ou tem de passar pelo Purgatório para ouvir uns raspanetes? Um homem casado, pai de família exemplar, profissional competente, extraordinário no seu comportamento cívico, se uma vez por semana gostar de se vestir de mulher e deixar-se ser apalpado por meninos fica à porta do Céu em lista de espera ou desce direitinho para o Inferno como castigo por ser perverso?
Jon D. Levenson, um estudioso judeu que se debruça sobre o conceito de ressurreição, defende que este fenónemo não se pode analisar em laboratório, mesmo no mais sofisticado dos laboratórios do MIT, porque esta coisa dos corpos subirem aos céus é um evento sobrenatural, uma coisa tipo “Ficheiros Secretos” num daqueles episódios da última série em que raramente se percebia o final.
Seja como for, seja lá o que for que nos espera quando batermos a bota, mais vale ir vivendo a vida ao máximo mas sem pecados muito graves, não vá o Céu existir mesmo e ficarmos bloqueados à porta porque não constamos da Guest List.
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