Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.
Segunda-feira, 20 de Junho de 2011
Mulheres balzaquianas

Na semana passada, quando despi o casaco para me sentar à mesa, o meu namorado que eu amo, e que me conheceu há dois anos com uns joviais cinquenta e seis quilos, fez o seguinte comentário:
“As mulheres depois dos trinta têm uma tendência evidente para se tornarem balzaquianas.”
A vantagem de se ter um namorado muito para lá do básico, é que se ouvem críticas em forma de dissertação filosófica - nem sempre
decifráveis sem ter de googlar o assunto - e não bocas foleiras do género “esse decote fica-te ridículo”.
A desvantagem de namorar uma mulher do norte é que as respostas saem escorreitas, sem grandes cerimónias nem palavras difíceis: “a
culpa não é do decote” retorqui “é das mamas que estão maiores porque eu
engordei uns quilos!”
A expressão mulher balzaquiana surgiu de uma obra que escreveu Honoré de Balzac no sec.XIX intitulada “A mulher de 30 anos”.
À época, uma mulher com esta idade, carregava imensas obrigações sociais inerentes ao seu estatuto de casada e de mãe
de família, raras vezes feliz ou realizada na sua recatada clausura.
Balzac descreve a mulher de trinta anos com uma acidez pejorativa. Com o passar do tempo, apesar de todas as mudanças sociais
decorrentes da emancipação, a expressão mulher balzaquiana mantém uma conotação negativa.
Na sociedade actual, uma mulher de trinta anos provavelmente não é ainda casada, ou então já se divorciou e celebrou o evento
numa festa só com amigas, clama vitoriosa a sua independência, colecciona casos e flirts sem sentimentos de culpa e padece de uma tendência que quase parece natural para se continuar a vestir e a comportar como se estivesse no auge dos vinte e cinco.
Olhando em redor, para o meu grupo de amigas, muitas delas com filhos adolescentes, tão próximas dos cinquenta como estou eu
dos quarenta, noto que realmente, à medida que o tempo passa, passamos a vestir mais jeans do que calças masculinas, mais tops do que camisas, mais biquinis do que fatos-de-banho, mais acessórios da Parfois do que da Casa Batalha.
Reconheço que o fazemos porque não queremos parecer umas senhoras. Lembro-me perfeitamente de ser adolescente e de achar as
pessoas com quarenta já muito crescidas. Fico em estado de choque quando reencontro uma colega da faculdade e a vejo com colar de pérolas, saia pelo joelho e sabrinas.
A verdade é que ultrapassar os trinta marca mais o corpo do que o espírito.
Até há bem pouco tempo só engordava nas ancas e no rabo e com uma semana a sopa, maçãs e água a coisa resolvia-se. Agora a gordura já se eleva para o umbigo, numa almofadinha que para já é só um pneu de bicicleta mas que, se eu não voltar a correr dez quilómetros três vezes por semana, se pode converter numa roda de jipe. Em relação ao volume no peito não me importo nada. Tenho na minha “wishlist” um implante de silicone como presente pelo quadragésimo aniversário, mas dado o efeito “wonderbra” que agora consigo ostentar só porque me ficam apertados os vestidos, talvez deva pegar no valor das “bolas de plástico” e utilizá-lo numa lipo.
Por outro lado, se com muito esforço e fundamentalismo alimentar, consigo perder os quilos que surgem sem que eu perceba como, fico magra na cara mais do que em qualquer outro sítio, o que revela um inestético vinco do nariz até à linha do queixo, sempre que esboço um sorriso.
Com o avançar do tempo imagino que me vão surgir gorduras indesejáveis e inexplicávies, como aquela almofada sobre o omoplata
que salta do soutien na maior parte das senhoras com as quais balzaquiana alguma quer ser parecida.
Pensando bem, a expressão “mulher balzaquiana” não constituí uma crítica mas sim um tremendo desafio...
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Segunda-feira, 16 de Maio de 2011
Homens que enfiam a camisa dentro das calças...
Nas minhas incurssões pelo google descobri o site
http://manofthehouse.com/
que é um sítio impensável há uma década mas que hoje aposto será ponto de paragem para muitos homens, hetero ou gay.
Este site está cheio de conselhos utéis para o sexo masculino. Não fala apenas de abdominais à Cristiano Rolando nem de como desenvolver os ombros até ao Verão, como a maior parte das revistas masculinas chamam para título de capa. Este site trata de questões mais másculo-femininas, se é que esse termo se pode aplicar, apelando mais aos sentimentos e às relações humanas (não necessariamente entre um homem e uma mulher), à atitude e às mezinhas da auto-ajuda de que esta geração a que pertenço é tão fã, mesmo quando se afirma agnóstica.
Para além disso partilha uma série de dicas utéis desde como fazer bricolage, como acrescentar aplicações ao i-phone, sugestões de moda, truques e curas para as alergias de Primavera, conselhos sobre lavagem de roupa à máquina, como ensinar os bebés a fazer cócó no pote and so on and so on...
De entre os artigos que estão em destaque chamou-me a atenção um com o título “quatro razões pelas quais os homens não devem enfiar a camisa dentro das calças” (foi a melhor tradução que encontrei para “4 reasons man should not tuck in a shirt”).
O artigo conta a história de um Pete que tem tudo na vida a correr-lhe de feição: está de novo solteiro (equivalência que dão os americanos à condição de divorciado), uma carreira em ascensão, é simpático e empático mas, apesar de tanta coisa a seu favor, tem um grande obstáculo à sua vida social: mete a camisa dentro das calças.
Explica então o autor do texto que meter a camisa dentro das calças pode arruinar a vida de qualquer homem nas circunstâncias do Pete, que eu imagino um quarentão activo no mercado do engate como qualquer ex-casado que de repente se vê "sózinho em casa":
- A camisa dentro das calças não favorece a maior parte dos homens, devido àquela coisa da “curva da felicidade”, que a ex-mulher chamará desrespeitosamente de pança e uma candidata a namorada de barriguinha.
- Em relação às t-shirts, nunca, jamais em tempo algum se devem meter dentro das calças. Mas isso imagino eu que só ainda acontece nos Estados Unidos, onde os nativos na sua maioria, não os que aparecem nas séries ou nos anúncios televisivos, vestem-se como homem algum em território nacional ousaria sair à rua. Nós por cá, tirando o Zé Camarinha do Bigode, temos homens que se vestem melhor do que os ingleses que nos poluem o Algarve ou do que os americanos que aterram ou atracam em Lisboa e acham tudo "very typical".
- O autor do texto fala depois dos jerseys, que são aquelas camisolas alusivas a clubes e ligas desportivas, que fazem furor nos States e que muitos pais trazem como recordação para os filhos, mas que são só para usar quando se vai ao estádio ou naqueles domingos de casa em que não se sabe o que vestir. Na nossa santa terra o que se vende mais ainda são os santinhos, mas se o Futre tivesse chegado à direcção do Sporting teríamos montes de t-shirts, sweats, porta-chaves, bonés e outras quinquilharias made in China. Seja como for andar com uma camisola que diga NIKE só no ginásio ou para fazer jogging.
- Por último vêm as sweats, mas aqui é preciso ser “bimbo mais bimbo não há” para enfiar uma coisa dessas por dentro do cinto, moda que sei que fez furor na década de oitenta, no tempo em que as calças se apertavam acima do umbigo.
É uma delícia percorrer este site e tenho a certeza de que lá vou voltar mais vezes.
O que acho curioso é que o tipo de temas que interessam aos homens nos tempos que correm não diverge muito dos temas que interessam às mulheres. O que muda é a forma de abordagem. Afinal, um diálogo que passe por glúteos tonificados ou por depilação a cera fria até pode ser uma coisa possível entre seres de planetas distintos...
Domingo, 27 de Março de 2011
Felicidade paradoxal: o Bangladesh como case study...
Tive imensa dificuldade em encontrar um título para esta teoria.
O tema é a felicidade, mas uma felicidade que surge de uma forma tão dura e cruel, como um exemplo irónico do quanto a vida pode ser cínica, que utilizar esse rótulo para identificar o contéudo pareceu-me excessivo.
Este texto fala sobre a intervenção que fez um fotógrafo de renome na TED, identificada como “Survivors”, ou seja “Sobreviventes”.


GMB Akash começou por falar sobre o país do qual é originário – o Bangladesh – onde a maior parte da população consegue sobreviver com menos de $2 USD por dia. Mesmo assim, um estudo recente que este fotógrafo citou, e que eu própria googlei para confirmar de tão incrédula fiquei com a conclusão revelada, indica que oito em cada dez pessoas no Bangladesh se consideram felizes.
A teoria que sustenta os resultados desta pesquisa levada a cabo por investigadores da Universidade de Bath, em Inglaterra, explica que quando vivemos num país onde o cidadão comum não tem legitimidade para aspirar a praticamente nada, ter uma família com saúde é motivo mais do que suficiente para ser feliz. Ser amado compensa todas as agruras que são na vida desta gente uma constante.
Concluíram os académicos que todo o conceito de pobreza tem de ser revisto. A felicidade não tem a ver com dinheiro – frase que citamos como cliché sem estarmos de todos convencidos – mas sim com o bem-estar, com a integração do indivíduo na comunidade em que reside.
GMB Akash, um nativo, esclarece que no seu país ser um sobrevivente é o único motivo para estar feliz.

Existem no Bangladesh cerca de sete milhões de crianças a trabalhar. Quando falo em crianças estou a referir-me a um grupo etário que começa nos cinco e acaba nos quinze anos, idade a partir do qual se é adulto no Bengali. A razão é simples: as famílias são pobres demais para se permitirem ter uma boca para sustentar que não traga para casa algum rendimento, os empregadores têm nesta mão-de-obra barata e subserviente (pelo medo da coacção física acrescente-se) uma forma fácil de aumentar a rentabilidade das suas empresas. Um adulto aufere uma remuneração média de $80 USD por mês enquanto que a uma criança são pagos apenas $10 USD.

Ilustro esta teoria com as imagens que Akash foi mostrando na sua intervenção abstendo-me de qualquer comentário adicional, porque se me embarga a voz se verbalizo o horror que esta situação me provoca e me soam redundantes quaisquer palavras que possa escrever para transmitir o que sinto.
Quando este fotógrafo começou a revelar ao mundo as suas fotos, muitas das pessoas no seu país insurgiram-se contra ele, alegando que estava a passar uma imagem errada do seu próprio povo. Quando começou a ganhar prémios pelo seu trabalho Akash decidiu financiar os estudos ao maior número possível de crianças, mas a resposta que obteve de pais, filhos e governantes foi “mas estes miúdos não sabem fazer outra coisa para além de trabalhar...”
Aparentemente, muitos dos miúdos que trabalham para além das suas capacidades humanas sonham em ser médicos ou professores, mas a verdade é que muitos deles não sabem o que é uma escola nem saberiam estar sentados um dia inteiro a uma mesa com cadernos e lápis.
No fundo, os rapazes são até mais afortunados do que as raparigas.

O Bangladesh é também um paraíso para a prostituição infantil. A zona de Kandaportte Potitalow é uma espécie de gueto habitado por mil e quinhentas prostitutas e respectivas famílias, sem contacto algum com o “mundo do outro lado”, para além dos clientes que são obrigadas a atender diáriamente, numa média de dezoito por dia. Muitas destas meninas são vendidas ou “alugadas” pelas famílias, engordadas com as mesmas hormonas com que se alimenta o gado para acelerar o seu crescimento, e mantidas num cativeiro repugnante até que ficam velhas (aos trinta) e gordas demais para que alguém pague pelos seus serviços.

Akash disse muito mais do que isto, descreveu outras cenas horripilantes, revelou outras verdades incómodas. Sendo as suas imagens tão fortes não acrescento qualquer outra frase das que registei à medida que o ia ouvindo.

A título pessoal, depois de rever algumas fotografias, pergunto-me como pode a felicidade ser tão paradoxal.
Compreendo que possa existir uma adaptação genética às limitações do meio envolvente. Os nossos pais eram felizes com muito menos coisas do que as que são tidas como fundamentais para garantir um sorriso nos lábios dos netos.

Mesmo assim, admitir que se pode ser feliz pela mera circunstância de estar vivo quando na verdade meramente se sobrevive - uns graus abaixo dos limites da dignidade e da decência - é uma constactação que não consigo assumir como verdade mesmo que comprovada científicamente.
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Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010
Obesidade mental
Uma Tribecana enviou-me há tempos um texto de João César das Neves com a indicação de que continha todos os ingredientes para um post no meu blogue.
O texto, com o título “Obesidade mental” inspirado numa obra de Andrew Oitke, catedrático de Antropologia em Harvard, que publicou em 2001 o polémico livro “Mental Obesity”, introduziu este conceito para descrever o que considera ser o maior problema da sociedade moderna: o excesso de informação, mas essencialmente o esbanjamento de uma informação sem qualidade, sensacionalista, sem interesse nem conteúdo, sem qualquer virtude edificante, enriquecedora, formadora.
Li e reli o texto original, achei o tema pertinente mas não sabia como utilizá-lo para uma teoria. Até que comecei a ler um livro de Mário de Carvalho (“Fantasia para dois coronéis e uma piscina”) e finalmente fez-se luz em relação à forma como deveria abordar a questão.
O problema, parece-me, não é o excesso de informação, muito embora tenha de admitir que somos constantemente bombardeados com notícias, cusquices e novidades. A grande questão é a nossa capacidade para filtrar e seleccionar a informação que nos entra pelos olhos e pelos ouvidos, que se senta à mesa dos cafés, interrompe reuniões de trabalho e se intromete em jantares de família, promovendo a discussão nem sempre positiva, a discórdia e a polémica. Acresce ainda, que se popularizou entre nós a profissão de comentador, que para uns é emprego para outros é hobby, com políticos a comentar os assuntos em que supostamente são entendidos, mas também a darem uns toques na bola dos campeonatos, a opinar sobre livros e filmes em exibição e, com sorte, a darem umas dicas sobre como escalfar um ovo ou grelhar uma alheira sem a rebentar.
O “comentarismo” tornou-se um desporto nacional. Apercebo-me disso nas imensas horas que passo ao volante em que tantas estações de rádio abrem o debate à opinião do seu público, atendendo os telefonemas de pessoas mais ou menos esclarecidas a quem até consigo dar alguma razão, mas também ouvem a pastora que se enganou e pensava que estava a ligar para os discos pedidos, a dona-de-casa que ainda não consegue destrocar a reforma em euros e fala nos contos de reis que gasta em lixívia e em medicamentos, o motorista de camião que manda um piropo para a “boa” que vê sentada na berma da estrada sem ter noção de que está no ar, o desempregado depressivo que clama por uma reforma agrária, um Maio de 68 ou uma revolução com salsa e merengue como a de Fidel.
Oitke recorreu a uma série de metáforas alimentícias para classificar este esbanjamento de informação: “(…) a nossa sociedade está mais sobrecarregada de preconceitos do que de proteínas; e mais intoxicada de lugares-comuns do que de hidratos de carbono. As pessoas se viciaram em estereótipos, em juízos apressados, em ensinamentos tacanhos e em condenações precipitadas. Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada (...) Os 'cozinheiros' desta magna “fast food” intelectual são os jornalistas, os articulistas, os editorialistas, os romancistas, os falsos filósofos, os autores de telenovelas e mais uma infinidade de outros chamados 'profissionais da informação (...) Os telejornais e telenovelas estão se transformando nos hambúrgueres do espírito. As revistas de variedades e os livros de venda fácil são os donuts da imaginação. Os filmes se transformaram na pizza da sensatez.”
E o que tem Mário de Carvalho a ver com isto? É que no início do seu livro escreve o autor numa prosa verdadeiramente brilhante “Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice (…) fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é a causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações. (…) O país fala, fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.”
Assim andamos nós nos últimos tempos, a discutir futebol, política, justiça, orçamento, déficit, futebol, dívida pública, política, crise financeira, justiça, política, orçamento, futebol, Sócrates, Free Port... num corrupio faustoso e abundante que à nossa moda ainda se fica pela slow food que reúne à volta de uma mesa analistas, comentadores, jornalistas, politólogos, peritos em futebol, investigadores, cientistas, curiosos, políticos, filósofos, sociólogos, antropólogos e idiotas que se pelam por um bom jantar, regado a tinto, que se arrasta durante horas, terminando em sobremesas calóricos ensopadas em digestivos.
Tenho de admitir que sofro um bocadinho desse vício informativo. Leio jornais, estou atenta às notícias, ouço os debates em que os interlocutores são pessoas cujas opiniões e perspectivas considero válidas, mesmo quando discordo do que dizem, devoro livros e, para além disso, escrevo teorias!
Em paralelo com esta abastança de informação sobrecarregada de um conteúdo calórico que cérebro algum é capaz de digerir, alerta Oitke que os miúdos de hoje passam a vida a devorar desenhos animados, jogos que não estimulam qualquer capacidade cognitiva para além da coordenação entre o que decorre no ecrã e os polegares esquerdo e direito, séries com adolescentes que são sempre magros, bonitos, têm dinheiro para comprar roupas de marca e para ir para os copos, e problemas que têm a ver apenas com futilidades e hábitos de acasalamento a tender para o promíscuo. Neste caso estaremos perante um fenómeno semelhante ao da anorexia intelectual.
Confesso que morro de vergonha quando ouço as calinadas que dizem os adolescentes quando falam e a ignorância divertida com que admitem aos dezoito anos que nunca leram um livro (a não ser os que trazem os textos em balões de diálogo e têm uma história ridícula a correr ao longo de quadrículas…)
Não é preciso fazer um doutoramento para admitir que o que escreve Oitke tem um fundo de verdade.
“O homem moderno está adiposo no raciocínio, nos gostos e nos sentimentos.”
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Terça-feira, 16 de Março de 2010
Surfar na "grande onda"

Ainda a propósito da TEDxOPorto 2010 uma nota especial sobre a intervenção de um personagem daqueles com performances dignas de um Uau!!!!
Michael Tchong apresentou-se com o nome pomposo de "trend searcher", que eu romanticamente traduzo para "explorador de tendências", mas que, para contextualizar no tema do mar, mar - Descobrimentos, Descobrimentos - portugueses, portugueses - pessoas do Porto, Porto - mar, mar - surf, surf - prancha, prancha - tábua, tábua - ferro, ferro - Worten (este texto não tem patrocínio mas apeteceu-me fazer a chalaça...) podemos denominar como "descobridor de tendências".
Tchong, um tipo com ar de made in Japan dedica-se a olhar para o mundo com olhos de Super-homem e a antecipar aquilo que algum iluminado do marketing, dias, semanas ou meses mais tarde, vai captar e corporizar num produto ou serviço com estatuto de inovação.
Diz Tchong -acho que Mike soa melhor, por isso vou trocar - diz Mike que anda por aí muita malta a apanhar ondas, mas ele é o que apanha sempre (ou quase sempre) a "maior onda". Acrescentando que quem quer ser alguém e navegar até algum lado tem de ter a capacidade para apanhar a grande onda, a maior de todas, a que fica melhor na fotografia, seja uma cornucópia suave ou um super tubo. Apanhem a onda antes que a onda vos engula afirmou ele num tom messiânico:
"You have to catch the big wave before it catches you..."
Uma ubertrend, as tendências que Michael Tchong surfa, são as maiores ondas do mundo. São o que se chama, em linguagem de malta da gestão de negócios que adora colar estrangeirismos nas frases, "the major movements".
Os "grandes movimentos" sobre as quais Mike dissertou são paradoxalmente surpreendentes e simples, como é, para quem já experimentou, tentar equilibrar-se numa tábua onde mal cabem os nossos pés sobre uma onda que tão depressa desliza como abala. Depois de reler as notas fiquei a pensar como somos estranhos, nós os seres humanos que se passeiam por esta imensa praia em pleno século XXI.
Uma destas grandes ondas é, como todos nós agora sabemos, mas como Mike descobriu ainda o Facebook não tinha entrado nas nossas vidas, o fenómeno das redes sociais. Estamos tão viciados em estar on-line, amigar, fazer posts do tipo "estou a ler um livro" (e a teclar ao mesmo tempo) ou "hoje está um rico dia de praia" (via mobile-phone) que desenvolvemos um meio de comunicação feito de siglas, abreviaturas e sorrisos. Eu, nos meus trinta e tais, admito que dificilmente decifro uma sms escrita por um adolescente, de tão cifrada que é a linguagem que estes seres com ar giro (pelo menos, mais giro do que na rídicula época de oitenta em que vivi esta fase) utilizam.
Mesmo assim, os adultos lá se vão adaptando e adoptando estas novas formas de comunicação que fazem parecer o tempo em que não existiam telemóveis uma época enquadrada num qualquer período pré-histórico.
Como conseguiríamos nós, a meio de uma reunião enfadonha, enviar uma sms com dois pontos e um parêntesis ao colega que se sentou duas cadeiras à frente só para dizer
"estou a morrer de tédio :("
Ou então, como clamar num silêncio estridente e entusiasta um "sim" quando o nosso namorado pergunta via msn se queremos ir jantar fora, a não ser enviando como resposta a cara redonda de um boneco amarelo com um sorriso parvo de felicidade?

As "coisas" que nos permitem comunicar com os outros, aceder a informação, mostrar que estamos vivos, conhecer pessoas, namorar, ter casos extra-conjugais e até, pasmem-se, trabalhar, entraram de tal forma no nosso quotidiano que já não concebemos a vida sem telemóvel, no mínimo dois, de redes diferentes (ter um telemóvel com dois cartões é uma seca!) e sem computador: o da secretária que fica lá no escritório, o de casa ou os de casa - o do pai, o da mãe e um por filho - e o portátil, essa coisa que passa de “trambolho” pesado quando o carregamos em trabalho a "ente indispensável” quando o levamos connosco para almoçar num restaurante (só para fazer companhia), quando não conseguimos sair para uma escapadela de fim-de-semana sem ele (só para ver como está o mundo fora daquela pousada perdida na serra enquanto o "outro" toma banho) ou quando decidimos que é produto tão indispensável nas férias como o protector solar factor 40.
Hoje em dia estar on-line é estar vivo!
Outro movimento importante, na sequência e em paralelo com esta obsessão pelo fenómeno do on-line é uma nova doença de que padecemos quase todos e que se chama "logonhorrea": a amenorreia das passwords para fazer logon. É a password só para entrar no computador, depois as passwords para o continente on-line, para o site do banco, para o Facebook, para as Farmácias Portuguesas, para o hotmail, para o gmail, para o site das calças de ganga, para os sonhos de férias no exit, no travel, no atmosphere, no secret places, para o blogue do sapo.... e ainda o código que temos para desbloquear a nossa estação de trabalho! Como é que um cérebro humano de tamanho médio, tão sobrecarregado com informação que já nem sequer consegue memorizar o número do telemóvel do dono, consegue fixar tanta palavra-passe com nome do cão, data de nascimento, diminutivo com que nos gozavam na escola, nome fofinho que o primeiro namorado chamava à nossa vagina (ou a namoradinha tímida dava ao pénis)? O pior, é que a táctica da mesma password para tudo raramente funciona porque lá aparece um site que recusa "Apolo13" por não ser suficientemente forte, ou sites com esquisitices como os que preferem pins mas que nos obrigam a trocar frequentemente os números, de tal forma que umas vezes é a data de nascimento, outras é o dia de Natal, outras é o dia do primeiro casamento, outras o dia em que assinamos os papéis do divórcio no notário...
Mais uma tendência que gravita em torno do on-line é a e-fashion, que faz as mulheres escolherem portáteis com ar vintage, capa em pele ou vinil rosa fuscia e os homens optarem por telemóveis que serão, inevitavelmente blackberry, com tantos extras como um carro tunning. Confesso que desde que a minha conta de telemóvel atingiu o valor de umas botas Prada desactivei a ligação ao servidor. Mas apesar de o modo internet estar desligado é óbvio que prefiro atender um telefonema em público num aparelho com máquina fotográfica, memória de muitos gigas, quinhentas mil possibilidades para chat, pesquisa e navegação na rede, mesmo que na prática o aparelhinho com ar minimalista e design retro só sirva para chamadas e mensagens.
Mais uma estrelinha a acrescentar a esta constelação do on-line é o multitasking que é, como quem diz, flexibilidade e polivalência. Apesar de o povo interpretar com desconfiança esta designação que se cola nos contratos de trabalho a querer dizer "hoje és gestor de produto amanhã ficas na copa a tratar dos coffee breaks da reunião de direcção", a internet fez de todos nós pessoas altamente versáteis. Passamos da monotarefa - vulgo ver televisão ou ler um livro ou conversar com um amigo ou dois ou três - para a multi-tarefa do ver mails em três contas diferentes, fazer comentários no Facebook, escrever uma teoria com muito mais do que 1.500 caracteres, falar no msn com o namorado e com a amiga que nos diz olá sempre que nos apanha, mesmo se estamos em modo "ausente", atender o telefonema diário da Mãe a confirmar que já jantamos, ver vídeos no youtube, verificar as principais notícias do dia, incluindo reportagens e piadas subliminares dos pivôs, ouvir as músicas que nos enviaram e googlar alguns temas que nos passaram pelos ouvidos só para ganhar "bagagem".
Com tanta "coisa" - detesto esta palavra mas não sei como se designa tanta informação, tanta possibilidade, tanta diversidade, tamanha capacidade de socialização, de diversão, de encarnação de personagens, exorcização de demónios, psico-terapia, cura de males de amor e superação de problemas existenciais - desenvolvemos uma personalidade que, por ser mais demonstrável através de posts, imagens, músicas, filmes e frases enigmáticas, se traduz num ego exacerbado, mesmo quando o eu que apresentamos aos outros seja apenas um smile com boca em forma de tracinho, num tom amarelo a fugir para o pálido.
Surfar na Net, desporto que até a minha Mãe pratica, pode ser uma aventura tão tranquila como chapinar em ondinhas de espuma, tão rotineira como um café antes de "mergulhar" nos papéis que se avolumam na secretária ou tão potenciadora de adrenalina como deslizar na vertigem das famosas Jaws no Havai.
Muitos portugueses alimentam a sua auto-estima apoiando-se na lembrança histórica dos descobridores que se atreveram a navegar por mares desconhecidos por esse mundo fora. Eu, que tenho aquele mau feitio que me leva a afirmar secamente que o passado não pode ser o sofá em que nos sentamos confortavelmente a ver passar o presente, mas sim o trampolim em que saltamos para fazer do futuro que queremos uma realidade, remato o texto dizendo que esta plataforma que é o mundo à distância de um clique abre a quem quiser as portas que cada um deseja abrir. Por isso, entre amizades, amor, negócios, arte, diversão, cultura ou depravação, que cada um faça do mundo on-line (ou do mundo real, para quem ainda conseguir distinguir as duas esferas) a sua praia...
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Sexta-feira, 5 de Março de 2010
Fazer humor

Na TEDxOPorto falou-se de amor e de humor.
Devo dizer que os dois oradores convidados para falar sobre o tema me surpreenderam imenso.
Um deles, Wellington Nogueira, fundador da ONG "Doutores da Alegria" deixou a audiência em lágrimas ao explicar a importância dos médicos com nariz vermelho que ministram o paliativo da alegria a crianças hospitalizadas. O tema é tão profundo que ainda não sou capaz de falar sobre este assunto com a dignidade que tão nobre missão merece.
O outro, o Nilton, que já todos vimos várias vezes na televisão, e que eu tive a oportunidade de ver ao vivo como animador de um jantar empresarial, impressionou pela sua inquestionável capacidade de fazer humor, capacidade essa que, segundo ele, pode ser elevada ao estatuto de ciência, assim daquelas com métodos, corolários, testes de laboratório e experiências com seres humanos (neste caso os ratinhos não servem de cobaias porque o seu sentido de humor é quase tão peculiar como o dos britânicos).
Pelos vistos, o Nilton não faz humor apenas porque tem jeito para contar anedotas. O Nilton, com aquele ar de cromo a tender para o intelectual porreiraço, não da espécie que chega virgem aos trinta, mas da outra que dá a volta a todas as miúdas e se veste de uma maneira castiça, é um estudioso desta coisa que é a capacidade para fazer rir.
Nilton partilhou algumas coisas interessantes sobre o riso e eu, ao googlar pela Net, descobri outras tantas que podem perfeitamente ser utilizadas para desbloquear conversas, como deixas de engate ou arquivadas na pasta intelectual do "vale a pena pensar sobre isto".
Pensadores como Platão e Aristóteles, Hobbes, Kant, Schopenhauer e Freud, analisaram o riso para explicar o humor. Recentemente, os pesquisadores descobriram que o riso não está necessariamente relacionado com o humor. O riso é uma forma de interagir socialmente com os outros, de criar alianças, de ser aceite ou integrado. Isto parece uma parvoíce? Então pensem nos seguintes exemplos:
- Quando o chefe conta uma daquelas piadas secas, secas, tão secas que ficamos uns segundos em silêncio à espera que surja mais alguma deixa, vocês ficam com ar enjoado ou riem, só para facilitar a vida?
- Quando ficam fechadas no elevador com um estranho que até é giro a vossa primeira reacção é desatar aos gritos, deixando-o pensar que são mais uma galinha histérica, ou tentam fazer uma graçola na esperança que ele faça um convite para um copo assim que o elevador ressuscite?
- Quando metem uma argolada tremenda, daquelas tipo perguntar a uma amiga que engordou cinco quilos se ela está grávida ou confundir a namorada de um amigo com a legítima, ficam gagos e corados com a vergonha, ou inventam uma piada brejeira para escaparem imunes ao drama emocional que se avizinha?
Em todas estas situações haverá riso, nem que seja muito forçado, humor do mais negro possível, mas uma coisa e outra não estão directamente relacionadas. Nestes casos o riso corresponde, como dizem os peritos, a uma "libertação de energia nervosa".
O neurocientista Robert Provine que estuda o riso há 20 anos (há pessoas com profissões divertidas…) descobriu que 90% das nossas gargalhadas não decorrem de uma deixa hilariante da piada. Pelo contrário, segundo os estudos efectuados por este senhor as pessoas que falam são mais propensas a rir do que as que ouvem.
Afirmam alguns neurologistas que os circuitos do nosso cérebro que produzem o riso evoluíram de tal forma que hoje constituem um complexo mecanismo sinalizador para demonstrar amizade. Segundo um artigo publicado on-line na edglobo "O "ha-ha-ha" humano se desenvolveu a partir da respiração ofegante de primatas como chimpanzés, quando faziam cócegas e corriam um atrás do outro enquanto brincavam. Assim eles asseguravam a seus companheiros que não representavam uma ameaça hostil."
O riso estimula os circuitos de euforia no cérebro e funciona como um excelente "motor social", ou, como li num artigo brasileiro, um "lubrificante social". O riso é uma das ferramentas mais subtis e eficientes para estimular emoções positivas. Está cientificamente demonstrado por estudos americanos (só podia ser...) que os líderes mais bem sucedidos são os que conseguem fazer rir as suas equipas. Do mesmo modo, os candidatos que conseguem fazer rir os interlocutores numa entrevista de emprego são os que têm maior probabilidade de ser escolhidos.
É relativamente fácil fingir um sorriso amarelo, mas muito mais complicado simular uma gargalhada sem que soe a cinismo. Como disse alguém "O riso é um sorriso que explode".
Vitor Borge, um comediante dinamarquês, país conhecido pela sua extraordinária escola de humor (estou a ser cínica) afirmou um dia que "O riso é a menor distância entre duas pessoas". Os neurologistas defendem exactamente a mesma preposição, mas explicam-na com um palavreado mais científico, alegando que a reacção imediata e involuntária que é o riso activa sistemas neurais altamente complexos e difíceis de simular na parte límbica (emocional) do cérebro humano equivalendo, na prática, a uma comunicação directa entre cérebros, o da pessoa que falou e o da pessoa que riu.
Como o Homem é um ser gregário, o riso talvez seja uma piada da Natureza para facilitar o processo de socialização.
Para além das vantagens sociais, o riso é um libertador de endorfinas, tendo um papel fundamental na prevenção de algumas doenças. O riso contribui para um alívio do stress, baixa a pressão sanguínea, melhora o sistema imunológico e até reduz a ânsia por comida. Nem percebo como é que depois de South Beach, do Dr. Atkins e do tipo sanguíneo, ninguém se lembrou ainda da dieta do riso.
Antoine de Saint-Exupéry escreveu: “No momento em que sorrimos para alguém, descobrimo-lo como pessoa, e a resposta do seu sorriso quer dizer que nós também somos pessoa para ele”.
O sorriso é pois um convite para entrar na intimidade de alguém. O sorriso, aquele sorriso especial, tímido e sedutor, é provavelmente a primeira forma de um homem e uma mulher se tocarem. Se o sorriso é cúmplice, evoluí para a gargalhada em uníssono, ou em dolby surround como costumo dizer, que é o que acontece quando duas pessoas no início da paixão acham piada a tudo e se riem continuamente, muitas vezes sem nenhuma outra razão para além da felicidade que os preenche.
Num casamento saber sorrir é fundamental para vencer o desgaste da rotina, para dissipar angústias, para fazer esquecer dias maus para lá das redomas da bola mágica de cristal que deve ser uma família.