Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.

Domingo, 23 de Outubro de 2011
Obrigada Passos Coelho!
Eu sei que é injusto agradecer apenas ao Passos Coelho. Na verdade, deveria começar os agradecimentos pelo Guterres, pelo outro Primeiro-Ministro que ficou conhecido pelo cognome de “O cherne” ou até retroceder aos tempos em que Cavaco Silva foi o campeão das legislativas era eu uma adolescente que andava pelos comícios empenhando bandeiras apesar de ainda não votar.
No fundo todos os homens da nossa vida são importantes... Mesmo assim, porque o homem de agora é o Pedro, é a ele que gostava de dar um abraço.
Porquê tanto entusiasmo? Porque hoje, convencida que estou que o Outono está mesmo mesmo a chegar, dediquei parte da manhã a arrumar os meus trapinhos de Verão. Descobri com satisfação que aqueles vestidinhos mini, que guardo como relíquia do tempo em que pesava cinquenta e cinco quilos e conseguia enfiar-me num tamanho trinta e quatro, estão quase a servir-me novamente depois de dois Verões em que me limitei a retirá-los da naftalina e a pendurá-los no roupeiro, com a secreta esperança de que um dia ainda fosse possivel levá-los a passear.
Depois de algumas teorias em que reclamava precisar de uma burka, me insurgia exasperada contra a balança, reclamava deste corpinho saudável demasiado habituado ao ginásio e às mínguas de açucares e de hidratos de carbono, eis que consigo escrever com orgulho que as calças do Inverno que só em Março terminou me estão agora largas!
Devo isto ao Passos Coelho, aos macambuzios representantes da troika e às políticas de austeridade que lentamente me entraram pela casa adentro condicionando as minhas decisões com o medo de que qualquer euro gasto sem discernimento hoje me possa fazer falta a curto prazo.
Gosto de comer. Adoro ir a bons restaurantes sejam os tradicionais com cozido à portuguesa e suculentas doses de cabrito assado, sejam os minimalistas da nouvelle cuisine com amostras de comida que nos dá vontade de repetir não fosse o preço escandaloso dos pratos.
Mesmo assim, quando percebi que com tantas medidas suicídas teria de fazer uma gestão quase científfica do ordenado, tive de fazer opções retirando dos meus gastos comuns as coisas que considero dispensáveis.
Sou mulher, gosto de mim e tenho uma necessidade hedonista de certas futilidades que tenho a noção serem luxos supérfulos mas que funcionam como bâlsamos para a minha auto-estima e reforços vitamínicos para esta alma de diva que trago colada à minha identidade.
Não me imagino por isso a deixar de fazer nuances loiras (uma vez tentei a descoloração e sob a luz pálida do elevador parecia-me que o cabelo que na versão original é castanho se tinha tornado azulado), a retirar o gel das unhas, até porque sou alérgica a verniz e detestava ter de andar o resto dos meus dias com unhas au naturel como uma mulher pré-histórica, prescindir de uma massagem no SPA nem que seja apenas uma vez por mês, porque mereço aquele tratamento VIP que me exorciza o stress do corpo e me desliga da vida real por uma hora.
Em que consigo pois poupar? Em comida. E em electricidade...
Habituei-me a ter o frigorífico meio vazio, ou apenas meio cheio dependendo do optimismo do ângulo, seguindo uma dieta de fruta, iogurtes e cereais que me dispensa o tempo que me falta para cozinhar uma refeição que requeira mais de cinco minutos de preparação, sem ter de ligar o fogão ou o forno, apenas esporádicamente o micro-ondas, nem necessidade de utilizar a máquina de lavar loiça, com uma redução substancial da lista de compras a produtos que posso comprar no LIDL com uma nota de dez euros e ainda receber uns trocados.
Agradeço por isso ao Primeiro-Ministro e aos seus lacaios porque com esta alimentação que não me faz sentir pobrezinha tenho assistido com espanto a uma transformação do corpo que me está a deixar encantada. É claro que com a idade que tenho, considerando como é injusta e cruel a lei da gravidade, o efeito não é o de lifting ou de uma plástica.
A surpresa que tive hoje com a roupa do Inverno passado deixa-me com uma esperança motivadora de que a continuar assim vou ter um corpinho mais do agrado do meu espelho quando o próximo Verão chegar.

A fé é uma coisa maravilhosa... Amen.

 



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Segunda-feira, 20 de Junho de 2011
Mulheres balzaquianas

 

Na semana passada, quando despi o casaco para me sentar à mesa, o meu namorado que eu amo, e que me conheceu há dois anos com uns joviais cinquenta e seis quilos, fez o seguinte comentário:

“As mulheres depois dos trinta têm uma tendência evidente para se tornarem balzaquianas.”

A vantagem de se ter um namorado muito para lá do básico, é que se ouvem críticas em forma de dissertação filosófica - nem sempre
decifráveis sem ter de googlar o assunto - e não bocas foleiras do género “esse decote fica-te ridículo”.

A desvantagem de namorar uma mulher do norte é que as respostas saem escorreitas, sem grandes cerimónias nem palavras difíceis: “a
culpa não é do decote” retorqui “é das mamas que estão maiores porque eu
engordei uns quilos!”

A expressão mulher balzaquiana surgiu de uma obra que escreveu Honoré de Balzac no sec.XIX intitulada “A mulher de 30 anos”.

À época, uma mulher com esta idade, carregava imensas obrigações sociais inerentes ao seu estatuto de casada e de mãe
de família, raras vezes feliz ou realizada na sua recatada clausura.

Balzac descreve a mulher de trinta anos com uma acidez pejorativa. Com o passar do tempo, apesar de todas as mudanças sociais
decorrentes da emancipação, a expressão mulher balzaquiana mantém uma conotação negativa.

Na sociedade actual, uma mulher de trinta anos provavelmente não é ainda casada, ou então já se divorciou e celebrou o evento
numa festa só com amigas, clama vitoriosa a sua independência, colecciona casos e flirts sem sentimentos de culpa e padece de uma tendência que quase parece natural para se continuar a vestir e a comportar como se estivesse no auge dos vinte e cinco.

Olhando em redor, para o meu grupo de amigas, muitas delas com filhos adolescentes, tão próximas dos cinquenta como estou eu
dos quarenta, noto que realmente, à medida que o tempo passa, passamos a vestir mais jeans do que calças masculinas, mais tops do que camisas, mais biquinis do que fatos-de-banho, mais acessórios da Parfois do que da Casa Batalha.

Reconheço que o fazemos porque não queremos parecer umas senhoras. Lembro-me perfeitamente de ser adolescente e de achar as
pessoas com quarenta já muito crescidas. Fico em estado de choque quando reencontro uma colega da faculdade e a vejo com colar de pérolas, saia pelo joelho e sabrinas.

A verdade é que ultrapassar os trinta marca mais o corpo do que o espírito.

Até há bem pouco tempo só engordava nas ancas e no rabo e com uma semana a sopa, maçãs e água a coisa resolvia-se. Agora a gordura já se eleva para o umbigo, numa almofadinha que para já é só um pneu de bicicleta mas que, se eu não voltar a correr dez quilómetros três vezes por semana, se pode converter numa roda de jipe. Em relação ao volume no peito não me importo nada. Tenho na minha “wishlist” um implante de silicone como presente pelo quadragésimo aniversário, mas dado o efeito “wonderbra” que agora consigo ostentar só porque me ficam apertados os vestidos, talvez deva pegar no valor das “bolas de plástico” e utilizá-lo numa lipo.

Por outro lado, se com muito esforço e fundamentalismo alimentar, consigo perder os quilos que surgem sem que eu perceba como, fico magra na cara mais do que em qualquer outro sítio, o que revela um inestético vinco do nariz até à linha do queixo, sempre que esboço um sorriso.

Com o avançar do tempo imagino que me vão surgir gorduras indesejáveis e inexplicávies, como aquela almofada sobre o omoplata
que salta do soutien na maior parte das senhoras com as quais balzaquiana alguma quer ser parecida.

Pensando bem, a expressão “mulher balzaquiana” não constituí uma crítica mas sim um tremendo desafio...

 



publicado por teoriasdacosta às 20:44
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Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010
Obesidade mental

 

Uma Tribecana enviou-me há tempos um texto de João César das Neves com a indicação de que continha todos os ingredientes para um post no meu blogue.

O texto, com o título “Obesidade mental” inspirado numa obra de Andrew Oitke, catedrático de Antropologia em Harvard, que publicou em 2001 o polémico livro “Mental Obesity”, introduziu este conceito para descrever o que considera ser o maior problema da sociedade moderna: o excesso de informação, mas essencialmente o esbanjamento de uma informação sem qualidade, sensacionalista, sem interesse nem conteúdo, sem qualquer virtude edificante, enriquecedora, formadora.

Li e reli o texto original, achei o tema pertinente mas não sabia como utilizá-lo para uma teoria. Até que comecei a ler um livro de Mário de Carvalho (“Fantasia para dois coronéis e uma piscina”) e finalmente fez-se luz em relação à forma como deveria abordar a questão.

O problema, parece-me, não é o excesso de informação, muito embora tenha de admitir que somos constantemente bombardeados com notícias, cusquices e novidades. A grande questão é a nossa capacidade para filtrar e seleccionar a informação que nos entra pelos olhos e pelos ouvidos, que se senta à mesa dos cafés, interrompe reuniões de trabalho e se intromete em jantares de família, promovendo a discussão nem sempre positiva, a discórdia e a polémica. Acresce ainda, que se popularizou entre nós a profissão de comentador, que para uns é emprego para outros é hobby, com políticos a comentar os assuntos em que supostamente são entendidos, mas também a darem uns toques na bola dos campeonatos, a opinar sobre livros e filmes em exibição e, com sorte, a darem umas dicas sobre como escalfar um ovo ou grelhar uma alheira sem a rebentar.

O “comentarismo” tornou-se um desporto nacional. Apercebo-me disso nas imensas horas que passo ao volante em que tantas estações de rádio abrem o debate à opinião do seu público, atendendo os telefonemas de pessoas mais ou menos esclarecidas a quem até consigo dar alguma razão, mas também ouvem a pastora que se enganou e pensava que estava a ligar para os discos pedidos, a dona-de-casa que ainda não consegue destrocar a reforma em euros e fala nos contos de reis que gasta em lixívia e em medicamentos, o motorista de camião que manda um piropo para a “boa” que vê sentada na berma da estrada sem ter noção de que está no ar, o desempregado depressivo que clama por uma reforma agrária, um Maio de 68 ou uma revolução com salsa e merengue como a de Fidel.

Oitke recorreu a uma série de metáforas alimentícias para classificar este esbanjamento de informação: “(…) a nossa sociedade está mais sobrecarregada de preconceitos do que de proteínas; e mais intoxicada de lugares-comuns do que de hidratos de carbono. As pessoas se viciaram em estereótipos, em juízos apressados, em ensinamentos tacanhos e em condenações precipitadas. Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada (...) Os 'cozinheiros' desta magna “fast food” intelectual são os jornalistas, os articulistas, os editorialistas, os romancistas, os falsos filósofos, os autores de telenovelas e mais uma infinidade de outros chamados 'profissionais da informação (...) Os telejornais e telenovelas estão se transformando nos hambúrgueres do espírito. As revistas de variedades e os livros de venda fácil são os donuts da imaginação. Os filmes se transformaram na pizza da sensatez.”

E o que tem Mário de Carvalho a ver com isto? É que no início do seu livro escreve o autor numa prosa verdadeiramente brilhante “Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice (…) fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é a causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações. (…) O país fala, fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.”

Assim andamos nós nos últimos tempos, a discutir futebol, política, justiça, orçamento, déficit, futebol, dívida pública, política, crise financeira, justiça, política, orçamento, futebol, Sócrates, Free Port... num corrupio faustoso e abundante que à nossa moda ainda se fica pela slow food que reúne à volta de uma mesa analistas, comentadores, jornalistas, politólogos, peritos em futebol, investigadores, cientistas, curiosos, políticos, filósofos, sociólogos, antropólogos e idiotas que se pelam por um bom jantar, regado a tinto, que se arrasta durante horas, terminando em sobremesas calóricos ensopadas em digestivos.

Tenho de admitir que sofro um bocadinho desse vício informativo. Leio jornais, estou atenta às notícias, ouço os debates em que os interlocutores são pessoas cujas opiniões e perspectivas considero válidas, mesmo quando discordo do que dizem, devoro livros e, para além disso, escrevo teorias!

Em paralelo com esta abastança de informação sobrecarregada de um conteúdo calórico que cérebro algum é capaz de digerir, alerta Oitke que os miúdos de hoje passam a vida a devorar desenhos animados, jogos que não estimulam qualquer capacidade cognitiva para além da coordenação entre o que decorre no ecrã e os polegares esquerdo e direito, séries com adolescentes que são sempre magros, bonitos, têm dinheiro para comprar roupas de marca e para ir para os copos, e problemas que têm a ver apenas com futilidades e hábitos de acasalamento a tender para o promíscuo. Neste caso estaremos perante um fenómeno semelhante ao da anorexia intelectual.

Confesso que morro de vergonha quando ouço as calinadas que dizem os adolescentes quando falam e a ignorância divertida com que admitem aos dezoito anos que nunca leram um livro (a não ser os que trazem os textos em balões de diálogo e têm uma história ridícula a correr ao longo de quadrículas…)

Não é preciso fazer um doutoramento para admitir que o que escreve Oitke tem um fundo de verdade.

 “O homem moderno está adiposo no raciocínio, nos gostos e nos sentimentos.”

 



publicado por teoriasdacosta às 21:54
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Sexta-feira, 4 de Junho de 2010
Socorro, tragam-me uma burka!!!!

 

Hoje pesei-me. Socoooooooooooooorro!

Estou com mais 5 quilos do que tinha no início do Verão passado, altura em que até mandei apertar calças que me dançavam pelas ancas abaixo e que hoje não me servem ou que, servindo-me com esforço, acabam por me colocar em situações humilhantes quando de repente, como aconteceu no início da semana, em simultâneo com um espirro exuberante rebentam por todas as costuras e pespontos.

Eu até podia argumentar que não percebo como é que isto aconteceu, que a culpa é dos nervos, do calor, da retenção de líquidos, da humidade, do diabo a quatro. Mas a verdade é simples e dura: ando a comer como uma desgraçada! Como se não houvesse amanhã! E a verdade é que se hoje fosse o último dia eu era daquelas que ficava sentada a uma mesa a enfardar tudo a que tenho direito porque adoro comida, adoro comer e, pasmem-se, até convivo bem com aquela sensação de enfartamento, preferindo as dores de barriga que vêm depois dos excessos gourmet às dores de estômago que me torturam de forma sistemática devido ao meu periclitante estado de ansiedade.

Para além do excesso na ingestão de hidratos de carbono – pão – e gorduras – com manteiga – que não me fazem falta (era capaz de viver meses a fio a meias de leite e torradas), estou menos regular nas idas ao ginásio e até deixei as corridas apesar da promessa de fazer a meia maratona este ano. Pior do que treinar pouco é a falta de vontade que tenho de me mexer, tal é o cansaço que trago acumulado no corpo. Sinto as pernas pesadas, doem-me as articulações, não sei se da falta de exercício, se do excesso de peso, se da idade. Apetece-me usar o tempo livre para dormir, para colocar o cérebro off-line, para deixar o esqueleto numa posição horizontal, depois de semanas que têm sido de uma pressão imensa para aprender rapidamente uma nova profissão, passando horas na estrada a percorrer o norte do país, do Douro ao litoral, passando por Trás-os-Montes, pelas Beiras e por zonas que tenho dificuldade em identificar no mapa.

O resultado de tanta turbulência está a ver-se a olho nu e foi hoje comprovado cientificamente na balança.   Se a vida fosse justa estes quilinhos a mais iriam directamente em lotes de dois quilos e meio para cada mama. Se calhar era exagero... A Dolly Parton pode fazer sucesso com camionistas mas não é propriamente um sex symbol.

Como a vida tem uma forma irónica de distribuir riqueza, alimentos, doenças, catástrofes naturais e maus especímenes, cá fico eu com esta gordura no rabo, com esta banha que esconde o umbigo quando me sento a escrever no portátil, com este aumento de volume generalizado, que no rosto até me dá um ar mais saudável, mas que no corpo pode perigosamente fazer-me parecer uma matrioska.

Que inveja que eu tenho daquelas minhas amigas que são umas estúpidas que comem que se fartam sem ganhar um grama, e que até andam preocupadas a fazer consultas por que se sentem infelizes por não conseguirem engordar... Lá diz o ditado “corpinho de liceu, carinha de museu”...

Isto de ser mulher é tudo menos fácil.

Não basta ter de ser uma profissional exemplar, muito mais à frente do que os colegas do sexo oposto, que têm aquela forma paternalista de nos tratar como se fossemos uma loira de um neurónio só, que ora ouve o que lhe dizem num ouvido ora presta atenção à chamada que tem no telemóvel no outro, ainda temos de ser giras, boas, magras, andar bem vestidas, de saltos altos de preferência porque nos alongam as pernas e nos dão um ar mais sexy, unhas das mãos e pés arranjadas, com verniz igual, acrescente-se,  e ainda conciliar ginásio, esteticista, cabeleireira com horários demoníacos de trabalho que começam antes das nove da manhã e com sorte terminam às oito da noite! Para além disso, há a vida social ao estilo "sexo & a cidade" com aperitivos, jantares e noites de copos e as surpresas gastronómicas que o namorado espera que façamos quando vem passar o fim-de-semana a nossa casa. Que alguém me explique como é possível compatibilizar o descontrole no apetite por culpa deste estado quase histérico de nervos, com Martinis Rosatos temperados com hortelã, acepipes e presenças assíduas nos restaurantes de que toda a gente fala, em vez de ficar no sofá a fazer zapping, a morrer estúpida com o estômago a roncar de fome porque nos torturamos com a única forma eficaz de fazer dieta: não ter nada que se coma dentro de casa!

Socooooooooorro!!!!! 

Se há coisa de que tenho a certeza é de que em menos de um mês derreto esta gordura toda! Porque me conheço o suficiente para saber que a partir desta data vou cerrar os lábios com um fecho eclair e lembrar-me do número que vi hoje com um susto na balança sempre que me apetecer mais uma torrada. Mas até lá, por favor tragam-me uma burka que eu sinto-me completamente aprisionada nas calças que orgulhosamente mandei encolher no início do Verão do ano passado...

 



publicado por teoriasdacosta às 19:32
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Quinta-feira, 20 de Maio de 2010
Saber ser feliz

 

 

Escreve Daniel Gilbert no livro “Tropeçar na felicidade” que “usamos os nossos olhos para olharmos através do espaço e a nossa imaginação para olharmos através do tempo”. O que acontece é que os nossos olhos, mesmo quando não são míopes nem vesgos, vêm as coisas de forma diferente do que elas efectivamente são; da mesma forma que a nossa imaginação ultrapassa muitas vezes os limites do exequível e do provável.

Quase sempre nos vemos mais gordas e velhas do que somos, e nos imaginamos com um potencial de magreza e de jovialidade que ficam para além das capacidades revigorantes da dieta de Atkins, da beterraba e do sumo de aipo com espinafre.

Ao longo do seu livro, Gilbert dedica-se a analisar as limitações que nos impedem de ser felizes, todas elas decorrentes da forma como vemos a realidade (raras vezes com clareza e objectividade) e de que como imaginamos que essa realidade pode evoluir no futuro, seja este tão próximo como daqui a dois minutos, quando este texto chegar ao fim, ou tão longínquo como daqui a trinta anos, quando finalmente metermos os papéis para a reforma.

Diz Gilbert que a “felicidade” não passa de uma palavra, tão elástica e profunda que alberga uma série de conceitos e teorias. Segundo este psicólogo de Harvard, existem pelo menos três níveis de felicidade: a emocional , a mais básica, que corresponde a um estado subjectivo, a uma experiência; a moral, definida pelos filósofos gregos como viver a vida de acordo com o potencial de cada um, ou seja, como o produto de uma vida de virtude, conceito que mais tarde os teólogos converteram na noção de recompensa por uma vida de virtude, situações que remetem a felicidade para o final da nossa vida e não para experiências que podemos gozar ao longo da vida; e a judicativa, a preferida dos psicólogos, que pretendem perceber as causas objectivas para um estado de espírito subjectivo.

O problema de qualquer experiência subjectiva é que só pode ser observada pela pessoa que a tem. Como escreveu Shakespeare “... que coisa amarga é olhar para a felicidade pelos olhos de outro homem.” A felicidade emocional é tão ampla que engloba aquela sensação boa que sentimos quando nos deitamos na nossa cama de lençóis lavados, quando recebemos o prémio anual, quando colocamos os pés na areia no primeiro dia de férias, quando adormecemos nos braços de quem amamos, quando acordamos com um beijo de quem nos ama... Dormir numa cama fresca, ganhar um bónus monetário, amar e ser amado não são experiências semelhantes ou directamente comparáveis, mas têm um certo denominador conceptual comum que permitem sintetizá-las com a palavra felicidade, mesmo admitindo que esta tem uma escala e que os exemplos que citei não nos provocam o mesmo grau de satisfação todos os dias, todas as semanas, de ano a ano.

Todos os seres humanos querem ser felizes, mesmo que para alcançar a felicidade no futuro tenham de abdicar da felicidade no presente. É o que acontece quando nos propomos fazer uma dieta e sofremos com as restrições alimentares porque acreditamos que vamos ficar maravilhosas a correr pela praia num ritmo de câmara lenta como no genérico das “Marés Vivas”, esquecendo que há muito silicone, produção artística e personal trainning nos corpos tonificados daquelas nadadoras-salvadoras com bóias incorporadas nas mamas e não banhas acopladas ao fato-de-banho.

A vida tem-me trazido a capacidade de ser feliz com cada vez menos coisas, menos metros quadrados, menos dígitos na conta do banco, menos etiquetas de marca na roupa...

A vida tem-me ensinado a valorizar cada vez mais a experiência emocional associada aquela felicidade subjectiva, que não deriva de nenhuma coisa em concreto, de nenhuma projecção ou especulação sobre o futuro, mas tão só daquele calor feito de sorrisos e risos, que faz disparar o nosso coração, que nos eleva a alma para lá do nosso corpo imperfeito, ainda que por meros nanosegundos, que por instantes apenas enche de cor o cinzentismo dos dias, preenche com uma banda sonora celestial, pimba ou rockeira um momento banal que subitamente se tornou único e irrepetível, nos faz abstrair de uma rotina que era melancólica, de um cenário que até era feio, de um contexto que nos oprimia.

Hoje sei ser feliz com o olhar de ternura sincera que acompanha os meus passos pelo meio de um bando de gente. Sei ser feliz com um abraço silencioso e apertado. Com o sorriso dorido de uma amiga em sofrimento que encontrou numa palavra, num gesto, numa insignificância que disse ou fiz uma fonte de motivação para ser agarrar à vida e para perceber da vida apenas aquilo que é belo.

Hoje sei ser feliz por estar aqui, sózinha, em casa, a teclar no computador, acompanhada pelas presenças que pressinto para lá do ecrán. Porque estar aqui, respirando, com a certeza de que amanhã acordo de novo, e de que amanhã as pessoas que amo vão despertar também, mesmo que melancólicas, rabujentas ou com mau hálito, é a maior felicidade que posso ter enquanto ser humano.

 

 



publicado por teoriasdacosta às 23:43
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Quarta-feira, 31 de Março de 2010
O casamento engorda, o amor emagrece - tese científicamente comprovada

Há uns tempos, o i-online publicou um artigo com o título “O casamento engorda”, ou algo semelhante. O tal artigo baseava-se num estudo publicado no "The American Journal of Preventive Medicine" que concluía que as mulheres comprometidas engordam mais do que as solteiras.

A questão não tem só a ver com a maternidade que, como todos sabem, tende a alargar a anca e a arredondar a barriga. Este estudo revela que mesmo as mulheres que não têm filhos, desde que vivam numa situação de união estável, tendem a engordar mais do que as que vivem sozinhas.

A minha própria experiência confirma a evidência demonstrada pela investigação. Quando casei, empenhada como estava em ser uma verdadeira fada-do-lar, fazia cozinhados elaboradíssimos, cheios de gorduras, proteínas e hidratos do carbono tão do agrado de um marido como o meu, o típico “bom garfo”. Resultado, ele engordou alguma coisa que se distribuiu pelo seu mais de metro e noventa e se acumulou suavemente na zona abdominal conferindo-lhe um respeitável ar de homem de família. Meses depois do casamento, eu estava com quase mais seis quilos e tinha calças do ano anterior que não me passavam das ancas (que eu até duvidava me tivessem alguma vez servido!). As perdas de peso que experimentei durante o casamento foram raras e muito voláteis, pelo que andei cinco anos de cara redondinha, corpo ondulante (a minha sorte ainda foi esta adição que é o ginásio) e um sorriso de felicidade como só as pessoas bem nutridas conseguem ter.

Com o divórcio a perda de peso foi automática. Primeiro porque as lágrimas alimentam e quem chora um dia inteiro consegue sobreviver a maçãs e meias de leite. Depois porque não tendo de fazer jantar nem de encher o frigorífico de petiscos, adoptei a dieta de cereais, sopas e saladas que até hoje me acompanha. Resultado, perdi peso e os efeitos de tantas horas de ginásio, até então cobertos por uma suave camada adiposa, começaram a aparecer.

Voltei a vestir as calças que usava antes do dia da aliança só para verificar que não eram um mito, mas jamais as voltei a usar em público porque casei no século passado e entretanto veio a moda da cinta descaída...

Quem é casada ou vive como tal, tem de cozinhar, às vezes para uma família com mais de duas pessoas, logo tende a comer mais entre assados, pataniscas e sobremesas. Quem é solteira, ou dentro do género, bebe mais bebidas alcoólicas, carregadinhas de calorias, mas também desgasta aquilo que ingere rua acima – rua abaixo (aqui no Porto pelas galerias), em sessões de dança que não são mais do que abanar o corpo numa sala abafada cheia de gente (o que tem o mesmo efeito de fazer uma aula de aeróbica à Jane Fonda dentro de uma sauna) e é capaz de passar uma semana a beber litradas de água com cor estranha só para desintoxicar das euforias. 

As casadas investem na família. As solteiras investem na imagem.

As casadas adoptam uma vida mais sedentária, em que o exercício físico se reparte por actividades domésticas, carregar crianças e correr pelos corredores do supermercado. As solteiras fazem da vida uma passadeira dinâmica (desde que não estejam deprimidas).

Na mudança de estado civil há sempre uma mudança de peso. É normal que as mulheres que se divorciam emagreçam. Diz o i-online, citando um entendido na matéria, que "A procura da auto-estima e de um novo parceiro explicam que a mulher volte a olhar-se mais ao espelho, se preocupe mais com a imagem e programe dietas e rotinas de ginásio." (...) "E se à separação associarmos uma nova paixão, mais facilmente o ponteiro da balança desce. Está comprovado que a paixão tem uma relação directa com a perda de apetite e sono. (...) A excitação e a adrenalina disparam. E se a paixão for correspondida, é normal que se faça mais sexo e mais sexo é igual a perda de calorias", explica Allen Gomes, citando o livro da antropóloga Helen Fisher: "Porque amamos".

E agora sim, o amor. Até aqui, para assegurar a legitimidade da tese limitei-me a falar de dados objectivos – o estado civil – e quantificáveis – o peso. Mas onde é que entra a variável “amor”, tão subjectiva e imensurável, nesta equação?

As definições de amor que se encontram pela Net ao googlar a palavra são tão pouco românticas que nem vou perder tempo a citá-las. Cada um sabe certamente o que sente e como vibra quando está apaixonado, o rubor na face, o suor frio nas mãos, o tremor de pernas, as palpitações do coração, os apertos na alma, a sensação de desmaio, de transe, de elevação, de nirvana, de tudo o que não cabe em palavras, nem em sorrisos nem em beijos, porque é mais amplo do que o que abrange a concepção de humanidade.

O livro de Helen Fisher que referi pretende demonstrar a natureza química do amor, apoiando-se numa série de estudos e estatísticas (mesmo como eu gosto) que revelam dados curiosíssimos, nomeadamente que “a perda de apetite e sono tem uma relação directa com outra das sensações esmagadoras do amor: uma enorme energia.” (…)“A paixão romântica pode produzir uma variedade de mudanças estonteantes de humor que vão da exultação, quando o amor é retribuído, à ansiedade, desespero ou até raiva quando o ardor romântico é ignorado ou rejeitado.” Escreveu Freud que "Nunca somos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos"

Mas como de coisas tristes não vale a pena falar, recuso-me a encarar esta teoria sob a perspectiva dos amores não correspondidos. O que interessa reter do que dizem os cientistas é que o o amor induz um caos estimulante nos corpos e comportamentos. O amor emagrece porque a felicidade é tanta que nos deixa cheios e completos, insuflados em energia, oxigénio, alegria, vontade de viver, de voar, de planar, de permanecer acordados noite e dia para não perder um minuto de vida ao lado da pessoa que nos encantou.

Sorrisos apaixonados à parte, não se pode viver toda a vida nesse estado de paixão que deixa os casais como coelhos alimentados com pilhas Duracell. Porquê? De acordo com Helen Fisher a paixão aumenta o fluxo sanguíneo acendendo áreas específicas do cérebro, sendo que nenhum ser humano conseguiria aguentar fisicamente a explosão química que esse estado nos provoca...

Mesmo sabendo que esse estado de amor pode ser nocivo, prefiro viver apaixonada, mesmo que num estado de esgotamento e descontrole para lá daquela euforia boa que sentem as crianças na noite de Natal, a sobreviver na solidão acompanhada com que se iludem os casais que fazem do seu dia-a-dia um anúncio contínuo ao Skip ou ao Fairy...

 



publicado por teoriasdacosta às 23:49
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