
Anda por aí um anúncio institucional com o slogan “a depressão dói”.
Sei que o assunto é sério, mas um destes dias provocou-me o mesmo sorriso travesso que não consegui esconder quando percebi que as minhas amigas que são mães ligavam para uma linha com a designação “Dói-dói... trim-trim”, sempre que queriam esclarecer dúvidas sobre cócós amarelos ou vomitados fluorescentes das suas crianças.
Todos sabemos que os portugueses andam deprimidos. Os europeus andam deprimidos. O mundo anda deprimido. Conhecendo-se os casos de vida que as televisões não se cansam de nos relatar, com famílias de licenciados no desemprego, a morar em andares com acabamentos de luxo mas hipotecados até à quinta geração, outrora conduzindo carros topos de gama e agora a pé nas filas das refeições servidas pelas ajudas humanitárias, não me supreendem as depressões mas sim a ausência de um fenónemo explosivo de suicídios em massa.
Quando eu era criança, a depressão era coisa de que as mães falavam numa surdina de adultos. Lembro-me de a mãe de uma amiga ter ficado de baixa médica por andar deprimida e de a história ser contada de uma forma tão enredada que quase parecia que a senhora andava descontrolada, histérica, violenta, apenas dominável com recurso a medicação forte, choques eléctricos e colete de forças. Na prática, a mãe dessa amiga estava apenas triste. Apática. Incapaz de reagir. Sintomas que hoje temos como normais e que identificamos sem hesitação como uma depressão, mas que na altura conduziam a uma classificação preconceituosa das pessoas como malucas.
A depressão existe e dói.
Quando me encontrei perdidamente triste, tão triste que tive de chorar quatro horas em frente a um Freud que fez o favor de me ouvir como amigo, assumi com vergonha que estava deprimida. Para mim tal patologia era sinónimo de fraqueza e eu sempre me vi como uma guerreira. Daquelas que são imbatíveis. Uma espécie de Lara Croft au naturel com uma infindável reserva de vidas.
Utilizava amiúde a expressão “o segundo é o primeiro dos últimos” e tinha muitas vezes uma atitude tão arrogante como tem o Mourinho no mais marcial dos seus dias. Admitir que não estava em condições de chegar à meta da corrida de obstáculos em que transformei a minha vida foi uma enxurrada de pedras de gelo, que se gostasse de malte tinha emborcado em acto continuado com muitas doses de whisky.
Precisei de medicação.
A depressão começa por ser um desiquilíbrio químico do cérebro e foi fundamental convencer-me disso para aceitar que necessitava de ajuda de fármacos tanto como a cura de uma dor de cabeça requer ácido acetil-salicílico.
A publicidade à depressão como doença que dói incorre numa banalização tão perigosa quanto a do uso da pílula do dia seguinte como método contraceptivo.
Na prática, as drogas são solução fácil para qualquer problema.
Difícil é resolver as tormentas que nos apoquentam ao ponto de transformarem os nossos dias em rios de lágrimas que não contemos mesmo quando aparentemente nos rimos.
A saída da depressão não se faz fugindo à vida real com recurso a ansiolíticos e barbitúricos.
As dores só cessam quando identificamos o que nos magoa e encontramos forças para combater os demónios que deixamos crescer debaixo de cama enquanto dormimos.
A depressão dói mas em alguns casos é apenas tão grave como um daqueles arranhões que se curam com um beijinho...

Descobri que os quartos do hotel são locais tão inspiradores para escrever teorias como os aeroportos. Como ando entre pontes aéreas e noites de insónia em camas estranhas por questões de trabalho, ocorre-me um tema que é uma banalidade: as diferenças entre trabalhar com homens ou com mulheres.
Neste momento faço parte de um grupo de trabalho europeu constituído por homens.
Gostava que pelo menos um fosse maricas, mesmo que eventualmente encarado pelos outros como uma espécie de macho de segunda.
Como creio que já escrevi “um maricas é o melhor amigo de uma mulher”.
Porquê esta afinidade entre mulheres e gays? Gostamos ambos do mesmo, sendo que eles nos conseguem apreciar numa perspectiva de potencial concorrência - apesar de não jogarmos no mesmo campeonato e de ser certo (de forma mais ou menos rigorosa, apesar desta tendência para a bissexualidade e para o swing baralhar as estatísticas) que quem é vegetariano não come vaca nem vitela – com a vantagem de serem capazes de nos admirar ou criticar enquanto ser humano que pode interessar a um macho, sem a inveja nem a malícia com que o faz uma mulher.
Neste grupo de trabalho, quando falo, mesmo que a minha análise faça tanto sentido como os comentários do Marcelo Rebelo de Sousa ou esteja em rigor ao nível de um relatório científico da NASA, recebo sempre um sorriso condescendente ou paternalista do género “pois, pois”, sendo as minhas opiniões apenas consideradas como merecendo algum tempo de antena quando digo algo que realmente lhes agita o ego naquela zona anti-erógena que equivale à sensação de desprazer “mas porquê que não fui eu que me lembrei disto?”
Eles fingem que me consideram mas na prática vêem-me como uma loira mais do que como a responsável por uma área de negócio na empresa. Tenho como certo que só se eu não tivesse penteado mas apenas cabelo, aumentasse o meu peso em dobro e deixasse crescer pêlos no queixo, seria olhada de forma diferente. Talvez com pena, mas certamente como quem até pode falar sobre as coisas com algum conhecimento, já que o preconceito é de que só uma mulher com uma imagem de virgem de Willendorf (aquela estátua pré-histórica que representa a mulher como uma cabeça, um par de mamas até ao umbigo e um descomunal par de ancas) poderá ser efectivamente competente.
Já quando entrei na faculdade – há vinte anos, vejam só! – se dizia que as mulheres ou eram bonitas ou iam para engenharia, insinuando que, sendo este um curso de reconhecida complexidade e elevado nível de testosterona, só uma mulher com problemas hormonais (por defeito, entenda-se) escolheria tal opção universitária.
Na prática, ao contrário da maior parte das pessoas, apesar de reconhecer as vantagens de trabalhar com homens, adoro trabalhar com mulheres. Não em abstracto, mas em concreto com a minha equipa. Ou o que dela fica...
As vantagens em trabalhar com eles são evidentes: como não perdemos tempo a falar de futebol ou sobre aquelas leggings novos que prometem um rabo “à preta”, somos muito mais focados, completamente orientados para um resultado que queremos alcançar tão rápido quanto um homem espera atingir um orgasmo. A maior desvantagem é perceber que mesmo estando em maioria nas faculdades, quando ascendemos a posições equivalentes às deles, continuamos a ser subestimadas pelo simples facto de sermos "gajas".
Quando trabalhamos com elas, se as pessoas são maduras e têm bom senso, a relação funciona por osmose, como é suposto funcionar um casamento.
Para além daquele mito de que começamos todas a ter o período menstrual ao mesmo tempo, temos sensibilidade q.b. para saber quando o momento é sério, de trabalho em corta-mato, em sprint de cem metros ou a ritmo de maratona. Nestas alturas somos capazes de nos concentrar, com um grau de abstracção equivalente ao de um monge budista, dificilmente fazendo um comentário que saía fora do contexto.
Transpondo a análise para o nível das relações entre casal, os casamentos mais duradouros são aqueles em que a mulher respeita os dias em que o homem está mais sorumbático ou irritado, porque não se desliga de um problema que trouxe do trabalho ou não esquece o resultado da sua equipa no último jogo, deixando-o submergir na “caixa do nada” até que ele esteja com alguma paciência para fazer aquilo que é suposto num relacionamento: interagir com o outro. Nas relações maritais, sendo os seres tão diferentes quanto dois planetas, a gestão destes momentos pode redundar num silêncio permanente, uma espécie de hábito, passando o casamento a ser apenas um estado que se mantém por comodidade ou displicência.
Nas relações de trabalho entre mulheres, dado que possuem todas a mesma peculiar forma de gerir os silêncios e idêntica paciência para conversas monótonas ou cinzentas, é inevitável que ao final de algum tempo, um dos elementos do grupo pergunte a outra “essas botas são novas?”, gerando-se imediatamente um coffee break psicológico equivalente a uma ida virtual às compras que, como todos sabem, é uma terapia excelente para equilibrar humores, logo para recuperar o nível de convergência.
A desvantagem de um grupo de mulheres deriva das competições que começam pelo tamanho das calças e pela área volumétrica ocupada na cadeira; passando pela cadência de idas à casa-de-banho, ao exterior para fumar, à manicure ou ao cabeleireiro; pela profissão do cônjuge e mostruário de sinais de amor que este oferece; com remate no sucesso dos filhos na escola e desfecho em forma de “gota de água” no reconhecimento que cada uma consegue obter dentro da empresa, sendo certo que também elas desconfiam quando uma Amazonas sobe na escala, como se um triunfo profissional só fosse crível com um cruzar de pernas à Sharon Stone ou na sequência de uma troca infiel de fluidos ou de favores com quem decide.
Assim é, por muito que seja politicamente incorrecto escrevê-lo.

Sou fã daqueles discursos tipo homilia do Reino de Deus, uma espiral de palavras que nos elevam e no final nos fazem bater palmas, de lágrimas nos olhos, gritando “vivas” ou “aleluias”.
Nas faculdades norte-americanas há sempre discursos deste género no dia da formatura. Já por aqui partilhei uma intervenção de Steve Jobs, que soube
esta semana abandonou o cargo de CEO da Apple debilitado como está da luta que vem travando há anos contra um cancro no pâncreas.
A intervenção que partilho hoje é de Conan O´Brien, que com o seu inegualável sentido de humor, começa o discurso congratulando os finalistas de Dartmouth Collegue, relembrando que eles fazem parte dos 92% de americanos com um diploma universitário, estando por isso numa posição de vantagem em relação aos 8% que abandonaram os estudos, como Bill Gates, Steve Jobs ou Mark Zuckerberg, que por acaso frequentava Harvard quando se lembrou de criar uma rede social entre os alunos do campus, que hoje conhecemos como Facebook.
Depois de uma primeira parte hilariante, O´Brein partilha finalmente a tal mensagem que nos estremece. Num tom mais sério (dentro do género), este gigante ruivo apalhaçado, evoca uma intervenção que fez em Harvard em 2000, na qual aludiu a uma frase que é um cliché: “nunca devem ter medo de falhar”.
É universal a frase “o que não nos mata torna-nos mais forte” mas O´Brien alerta que às vezes quase morremos a tentar.
O comediante fala então da desilusão por que passou quando abandonou o seu programa de televisão em horário nobre, passando de bestial a besta como nos acontece sucessivamente ao longo da vida. Com esta saída sem glória, na altura surpreendente e incompreensível, a estrela televisiva retrocedeu na sua fabulosa carreira, regressando ao mundo das digressões, em palcos nem sempre glamorosos, fazendo stand-up comedy como tantos outros, anónimos ou mais ou menos conhecidos, que conseguem encadear algumas chalaças que fazem rir uma plateia de gente que entre gargalhadas se engasga com os amendoins e a cerveja. Também experimentou o mundo da música, gravou um albúm, fez um documentário e andou à deriva entre opções irreflectidas, espontâneas, algumas disparatadas, quase todas inconvencionais e irracionais, que deixaram bastante preocupados os seus amigos e família.
Depois de tantos loopings em montanhas russas, O´Brien viu-se forçado a abandonar todos os preconceitos que mantinha enquanto a estrela televisiva que foi (num canal nacional) para assinar um contrato como o mero entertainer que se viu forçado a reconhecer que era, num canal por cabo.
No discurso em Dartmouth, ultrapassado este período negro que consegue agora rever como gratificante, surge então o alerta: “o mundo desaba quando o nosso maior pesadelo se concretiza”.
A mensagem que O´Brien quer que os recém-licenciados retenham é que os objectivos que traçamos quando acabamos o curso não estarão necessariamente realizados uma década depois. Porque mudamos e com isso alteramos a nossa matriz. Porque as variáveis se alteram impondo desvios na estrada que acreditávamos ser uma espécie de piso alcatroado e não um sinuoso caminho em terra batida.
Todos temos sonhos. Muitos deles não se realizam.
Argumenta O´Brien que é essa incapacidade em nos tornarmos na pessoa que estávamos convictos que seríamos que nos permite, finalmente, amadurecer como seres humanos únicos e não como a clonagem imperfeita de um personagem que já existe.
O falhanço pode pois ser o catalizador da nossa reinvenção.
Depois de ter passado vinte e cinco anos a persseguir o seu sonho – ser o apresentador do Tonight Show -, acreditando que o alcance dessa meta lhe garantia a medalha de sucesso que destaca uma pessoa das demais, O´Brien percebeu que mesmo quando o sonho se alcança há sempre a possibilidade de este se dissolver como um castelo de areia.
Em conclusão, fica a ideia de que não devemos ter medo de falhar, pois o falhanço é o maior garante de objectividade e de originalidade para os momentos que viveremos a seguir.
As últimas palavras de O´Brien são “work hard, be kind and amazing things will happen” – trabalhem duro, sejam condescendentes e coisas maravilhosas acontecerão.
Assim seja...

Sou mulher mas admito que há coisas insuportáveis na espécie.
Para não ser subjectiva nem “boazinha” andei a googlar o tema e até encontrei um blogue que elenca 40 coisas detestáveis nas mulheres!!!!
Feita a triagem, aqui vai a lista:
Falarem
Estava na dúvida entre escrever falar muito, falar ao telemóvel, falar alto, falar sobre tudo com toda a gente, falar sobre sentimentos, falar sobre a relação, falar sobre a cor de verniz que melhor fica com as sandálias prateadas, falar sobre o novo corte de cabelo da amiga, falar sobre a menopausa da mãe, falar sobre qualquer coisa que começa em férias e acaba em comprar um sofá novo para sala... Mas o que concluo é que basicamente os homens detestam que as mulheres falem. Há um limite de tolerância para os tais minutos da conversa higiénica - “então como correu o dia?”, “amanhã levas os miúdos à escola?”, “vai dar a Taça UEFA na SIC importas-te de ir ver a novela para o quarto?” -, mas a partir daí tudo o resto é blá, blá, blá...
Dizerem que demoram 5 minutos a arranjar-se e afinal demorarem 50
Raras são as mulheres que conseguem estar prontas antes dos respectivos maridos (ou sucedâneos). Eles fazem a barba, mas elas têm sempre que fazer qualquer coisa ao cabelo e mesmo quando não se pintam ou só colocam rimmel, andam a saracotear de um lado para outro enquanto os respectivos esperam impacientes. Num dia de trabalho ele saí primeiro. Numa noite de jantar fora, ele senta-se no sofá, faz zaping, assiste às notícias, coça a cabeça, morde os lábios, enquanto ela espalha creme pelo corpo, se veste, mancha o vestido, troca de indumentária, experimenta sapatos, revista o armário para se certificar que escolheu a roupa certa e volta atrás quando já estão à porta do elevador porque se esqueceu dos brincos e do gloss.
Implicarem com tudo
... com os amigos dele, com a família dele, com a roupa dele, com o pigarrear, com o ressonar, com a tampa da sanita para cima, com os pêlos na banheira, por ele comer demais, por ele suspirar pela comida da Mãe, por ele achar que conhece atalhos e ignorar as indicações do GPS, por ele se esquecer de datas que são simbólicas (tipo o dia do primeiro beijo), por ele ter tido outras namoradas e aventuras antes de a conhecer, por ele ocupar ¾ do sofá... por isto e por aquilo... por tudo e por nada...
Serem obcecadas com dietas
Não suportando se ele não repara que após três dias sem comer pão ela conseguiu perder quinhentos gramas nem se ele não oferece o seu ombro solidário quando ela entra em desespero porque não se consegue enfiar nuns jeans slim (se é que eles sabem o que isso é...)
Terem dores de cabeça
Precisamente no momento em que mais lhes apetece fazer sexo.
Gostarem mais de mimo do que de sexo
Principalmente depois do sexo, quando ela quer aninhar-se nos braços do parceiro e falar sobre parvoíces românticas em vez de o deixar entregar-se ao sono pós-orgásmico.
Mudarem de personalidade na fase da tensão pré-menstrual
Com incompreensíveis alterações de humor, lamentos constantes, sacos de água quente e reclamações porque ele não percebe o que ela sente, seja nos três dias antes do período, seja em todas as vezes em que não lhe deu a mão em público.
Cuscuvelharem-lhe o telemóvel, o perfil do Facebook, gavetas e bolsos dos casacos
Explodindo de uma forma que não passa despercebida aos vizinhos se apanham uma sms de um amigo a combinar um jantar de homens, se se apercebem que uma amiga de proveniência desconhecida coloca um “gosto” numa palermice que ele publicou, se confirmam que ele ainda não deitou fora a t-shirt velha que a ex-namorada lhe ofereceu no Verão de 2003, se encontram uma factura de uma refeição num restaurante que não é o seu local habitual para almoçar.
Não gostarem das prendas que eles escolhem
... porque ela andava há meio ano a insinuar que queria um i-phone, porque ele comprou uma saia que parece feita com os tecidos do IKEA para cortinas de cozinha, porque o tamanho é errado (se for grande demais a discussão pode ser grave!), porque aquela é a cor que mais detestam, porque queriam um anel de noivado e não um perfume de que até não gostam enfiado num desinspirado coffret...
Usarem maquiagem em excesso
Com rosto beje e pescoço branco, deixando manchas castanhas em tudo o que tocam se passam os dedos por uma face empastada em base.
Feitas as contas estão cá as 10. Admito que me encaixo em quase todas...

Há uma expressão americana que adoro “if live gives you lemons, make a lemonade” (se a vida te der limões, faz uma limonada).
Acho genial esta forma de reverter uma situação potencialmente má – amarga e ácida como um limão – num refresco agradável que, segundo consta até é diurético, logo pode trazer uns centímetros de felicidade a qualquer mulher na fase pré-biquini.
A imagem que escolhi para ilustrar o texto não podia ser mais adequada aos tempos que correm. Quando a vida nos dá limões fazemos logo um post que partilhamos no FaceBook, e já agora tiramos foto com o telemóvel e enviamos m.m.s. aos amigos, sem esquecermos de twittar a novidade para que a coisa chegue ao maior numero de pessoas no mais curto espaço de tempo possível.
Com a mentalidade dos portugueses, quando a vida nos dá limões ficamos logo desconfiados. “A que propóstio é que isto me veio parar aqui?” Mas depois da suspeita inicial, olhamos em redor para confirmar que ninguém nos vê, e metemos os limões no saco pois tudo o que é grátis aproveita-se.
Na realidade do FaceBook, se alguém nos dá limões anda de certeza naquele jogo adulto infantil que é o Farmville, enviando-nos a fruta no mural na expectativa de uma retribuição com fardos de feno ou com mais galinhas para a quinta.
Por acaso, até existe neste universo fantástico do FaceBook um grupo com o nome “If life gives you lemons... ask for tequilla em salt!” (se a vida te der limões... pede tequilla e sal!). Na adaptação à nossa realidade o mais certo é que um castiço qualquer tente trocar os limões por limas para fazer uma caipirinha...
Este é talvez o texto mais curto que já escrevi, mas hoje, não sei porquê lembrei-me disto e ocorreu-me partilhá-lo por aqui.
Pelo menos hoje não falo da crise, de relações nem de questões filosóficas...

Um dos oradores presentes na TED foi João Marques Teixeira, psiquiatra e psicoterapeuta, que se apresentou como um neurocientista que investiga a cronobiologia da melancolia.
Só o título da intervenção suscita um “uau!” Mas o que este Professor Doutor foi explicar, numa linguagem que a partir do terceiro slide se transformou num dialecto feito de gráficos com linhas ondulantes, é que o culpado pelos nossos estados de alma é o planeta!
Como a terra gira sobre si própria e gravita em torno do Sol, estamos sujeitos, ao longo do dia e durante o ano, a oscilações entre claridade e obscuridade que determinam a forma como nos sentimos.
Como o mais comum dos mortais é capaz de confirmar, no Inverno, quando acordamos de noite, a claridade se esfuma antes da pausa para o lanche e há muitos dias em que nem sequer vemos o Sol, sentimo-nos naturalmente mais melancólicos.
Melancólicos, não necessariamente deprimidos.
Mario Quintana, um autor que eu adoro, dizia que a “melancolia é uma forma romântica de ficar triste”.
Freud descrevia a melancolia como “a ausência que dói”, um inexplicável sentimento de vazio e tristeza, que eu ilustro com recurso à imagem daquela pessoa que caminha pelos dias com um displicente arrastar de pés.
Os dias cinzentos transportam-nos para uma zona cinzenta, nem branca nem negra, uma espécie de aguinha com açucar que se bebe quando as pernas nos traem o corpo.
O Sol como imagem de alegria não é apenas uma metáfora alegórica.
Qualquer criança quando faz um desenho incluí num qualquer canto da folha uma bola amarela se pretende retratar uma circunstância feliz.
Grande parte dos adultos escolhe como imagem de perfil no FaceBook uma fotografia que tirou no pico Verão quando estava mais bronzeado, mais sorridente, com ar mais saudável, ou pelo menos com o rosto iluminado por um delicioso Sol, mesmo que de Inverno, para disfarçar o ar pálido e olheirento que o Inverno nos implanta na cara como injecção de botox.
Hoje quando saí do escritório e constactei que ainda era dia senti-me automaticamente energizada por esta luz que já cheira a Primavera. Pelo caminho vi pessoas a passear cães, a caminhar pela margem do rio, a correr, a andar de bicicleta, a brincar com crianças nos recantos com relva e quase me pareceu estar a assistir a um video com a música do Louis Armstrong, “what a wonderfull world”.
Este efeito que o Sol induz no nosso grau de melancolia tem a ver com o nosso relógio biológico. Não aquele que deixa algumas trintonas doidas quando se sentem em contagem decrescente para a possibilidade de serem mães, mas o relógio que controla a nossa temperatura corporal, o batimento cardíaco, o apetite e, mais importante do que qualquer outra coisa, os afectos.
O relógio biológico não é um mito urbano mas sim um mecanismo regulador do nosso organismo localizado no hipotálamo, que determina o ciclo metabólico.
Segundo a cronobiologia, que “estuda os ritmos e os fenómenos físicos e bioquímicos periódicos que ocorrem nos seres vivos (in Wikipedia)”, os movimentos de rotação e translação desta terra que nos alberga têm impacto directo sobre a forma como nos sentimos.
Concordo que de facto somos uma espécie com tendência a funcionar a “energia solar”, mas também defendo que muitas vezes o Sol é um mero estado de alma – pode ser um sorriso num dia de chuva -, sendo que muitas pessoas permanecem num letárgico estado melancólico simplesmente porque andam com uma nuvem negra permanentemente sobre a cabeça.
Teorias dos outros
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