Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.

Quarta-feira, 25 de Abril de 2012
Igualdade, fraternidade e liberdade

Hoje é 25 de Abril.

Entre as declarações e recordações emocionadas de combatentes, revolucionários, homens comuns, operárias de fábrica, retornados, presos políticos, anónimos e personalidades, as reportagens do costume que documentam a ignorância dos jovens sobre a revolução dos cravos, as cerimónias oficiais vazias de sentido, as palavras de ordem, as cantigas e os pá! entre meia dúzia de palavras, para a maior parte dos portugueses, o dia que hoje se comemora é apenas e só mais um feriado.

Entendo a importância histórica da data, percebo que a revolução de Abril foi um marco para a emancipação dos portugueses e para o progresso da sociedade, mas também alcanço os exageros do PREC e a ténue fronteira que se traçou então entre anarquia e liberdade.

Estando nós, no ano da graça de dois mil e doze, numa conjuntura que nos fez perder poder de compra, regredir, nivelar por baixo, aceitar o menos mau, contentar com pouco, viver do suficiente, do "poucachinho" e do assim-assim, as vitórias sociais que precederam o 25 de Abril são conquistas cada vez mais frágeis.

A classe média vive mal - não sei se pior do que em 1974 mas também o grau de exigência e as expectativas não são comparáveis -, nem toda a gente tem acesso ao ensino superior, o desemprego é assustador, o sistema de saúde público tornou-se selectivo, aumentou o fosso entre os ricos e os outros, passamos de novos ricos a novos pobres mais depressa do que os retornados reconstruíram as suas vidas quando voltaram para Portugal.

O mais assustador, quando olhamos para a Europa que nos anos sessenta nos acolheu e nos anos oitenta nos adoptou, é que o futuro desenha-se nos tons cinzentos de uma ideologia dita de extrema direita, talvez fascista, certamente racista e xenófoba, cujos discursos evocam tempos idos em que os direitos dos cidadãos eram discriminatórios e a sociedade excluía sem dó os mais fracos, as mulheres, os de cor e os pobres.

A votação que conseguiu Marine Le Pen em França é um aviso à navegação que nos deve deixar preocupados.

Enquanto por cá a crise social tem convertido os portugueses em seres humanos mais solidários, no país do senhor que faz parelha com a Merkell que manda em tudo isto o desemprego e a insegurança fizeram aumentar os sentimentos de xenofobia e a aversão aos imigrantes.

Numa altura em que para muitos portugueses a procura de emprego noutro país surge como alternativa à falta de perspectivas e de oportunidades neste país à beira-mar plantado, corremos o risco de escolher um destino que nos escorrace, agrida e diminua por muito democrática, livre e progressista que seja a ideologia dominante.

A igualdade, a fraternidade e a liberdade, os ideais da Revolução Francesa que impuseram uma nova ordem social correm o risco de tornar-se quimeras numa sociedade cada vez mais intolerante e egoísta, onde os privilégios e os direitos se perdem ou esbatem num jogo de economia social promotor de injustiças e de desiquilíbrios entre classes.

 



publicado por teoriasdacosta às 20:12
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Quinta-feira, 24 de Novembro de 2011
Greve Geral, what else?

Pois é, hoje foi dia de Greve Geral e não se falou noutra coisa...

Percebo que as pessoas estejam revoltadas e que sintam necessidade de o manifestar, considero válidas grande parte das razões de descontentamento dos eleitores (mesmo dos que não votam porque as eleições calham sempre num dia em que não lhes dá jeito), sou até sensível aos ideais da solidariedade, da equidade, da justiça social, que é como quem diz “sermos todos uns pelos outros”. O que não alcanço é em quê que uma Greve Geral nos pode ajudar, ainda para mais neste momento.

Exemplifico:

- Quem quis ir trabalhar e está acostumado a utilizar os transportes públicos teve hoje de ficar em casa (num dia que será considerado uma falta injustificada, logo será descontado no ordenado, aposto!) ou recorrer ao seu automóvel, com custos adicionais de combustível, desgaste da viatura e eventualmente portagens e parqueamento.

- Quem foi trabalhar e tem filhos pequenos teve de encontrar soluções para ocupar as crianças, uma vez que grande parte das escolas públicas estiveram fechadas, o que, no caso concreto de uma pessoa que trabalha comigo, representou um custo extraordinário equivalente a um dia de salário.

- Os alunos não tiveram aulas, coisa que imagino nesta altura até fará alguma falta já que se aproxima o final do primeiro período, logo as horas em que hoje andaram pela rua à mercê dos pedófilos, se aperfeiçoaram na arte de enrolar cigarros ou estiveram num café a dizer baboseiras, são um crédito mal-parado em tempo para testes e aulas de dúvidas.

- Quem tinha consultas em hospitais ou centros de saúde foi provavelmente recambiado para casa, mesmo que tenha tido de se levantar com quatro horas de antecedência, andar de bicicleta, a pé ou a nado num triatlo competitivo contra os obstáculos dos piquetes.

- Coitadas das pessoas que tiveram uma daquelas dores agudas ou acidentes graves que desaguam nas urgências, porque imagino que as salas de espera nos hospitais públicos deviam hoje estar um caos, tranformando as regulares horas de espera numa jornada de internamento, sem direito a cama nem tenda.

- Como os aeroportos não estiveram operacionais não se fizeram viagens de trabalho mas também não se receberam turistas, que numa visita ao nosso ensolarado país, entre umas exclamações “how lovely!” e “trés jolie!”, com grande probabilidade deixariam ficar pelos restaurantes, museus e lojas de “recuerdos” alguns preciosos euros.

- Não sei se não houve recolha de lixo ou se é esta noite que não vai haver. De toda a forma, se na minha zona a “greve dos almeidas” (com todo o respeito) passou despercebida então se calhar a Câmara deveria perguntar-se até que ponto vale a pena que estes senhores andem a trabalhar todas as noites... Sempre conseguiam uma redução no orçamento...

- Imagino que os funcionários daquelas repartições bafientas onde as pastas de arquivo se amontoam pelo chão tenham aproveitado o dia para fazer gazeta, questionando também se a presença de tantas pessoas a encostar-se aos balcões ou escondidos atrás do ecrã do computador para não terem de aturar os utentes é efectivamente necessária. Parece-me escandaloso, quase pornográfico, que por causa da greve tenham fechado Centros de Emprego, já que é um insulto para os que não têm trabalho que alguém cuja missão é ajudá-los tire o dia para ir gritar pelos seus direitos.

Se existisse justiça, daquela popular como tanto gosta o português médio - o que foi trabalhar contrariado ou ficou em casa em vez de ir para a rua de cartaz em punho como é suposto fazer-se neste tipo de movimentos - os funcionários da administração pública que fizeram greve não recebiam ordenado e o proporcional dos impostos que nos são cobrados para pagar os seus vencimentos seria reembolsado com a entrega do I.R.S..

Hoje os sortudos dos funcionários públicos já receberam o ordenado (quem está no privado há-de receber para a semana ou, com o feriado na quinta-feira, só a 5 de Dezembro) percebendo em números a magnitude desta crise maldita sobre as suas prestações e sobre a sua despensa. Mesmo assim, porque ao final do dia tive de ir a um hipermercado que fica num shopping, fiquei estupefacta com a quantidade de carros no parque de estacionamento, mais surpresa ainda com as filas nas caixas e com todo o espírito natalício no interior das lojas onde se ouvia a banda sonora dos terminais multibanco.

A ceia de Natal é precisamente de hoje a um mês e quase que me pareceu que em dia de greve muitas famílias resolveram antecipar a festa.

 

 



publicado por teoriasdacosta às 21:32
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Sábado, 23 de Abril de 2011
Onde estavas tu no 25 de Abril?

 

Esta frase que nos habituamos a ouvir em jeito de chalaça (o autor foi Baptista Bastos, para os que o não sabem) não permite grandes respostas a pessoas na minha faixa etária, que em 1974 ainda mal andavam, pouco falavam e nada percebiam do mundo para além de que os adultos eram grandes e de que existia um grau de proporcionalidade directa entre a quantidade de mimo recebida e o tamanho.

Para a geração que anda à rasca, o 25 de Abril muito menos significa, já que a ignorância grassa nesta malta adestrada entre mudanças no estilo e no formato, programas alternativos, métodos de avaliação ambíguos, professores reinvindicativos e desmotivados, muitos deles - como os que tive o azar de apanhar no liceu, que eventualmente fizeram carreira tornando-se os professores das gerações que se seguiram à minha - uns frustrados da vida, talvez até uns falhados, que optaram pela via do ensino apenas porque a colocação em segundas e terceiras fases garantia emprego a muitos recém-licenciados sem perspectivas de uma outra profissão.

Dada a fraca qualidade do ensino público – reconheço que tive apenas uma professora com qualidade pedagógica na Escola Secundária Rodrigues de Freitas (ou liceu D. Manuel II) no Porto – não me surpreende esta falta de conhecimento, de interesse, de identidade ou simplesmente de curiosidade crítica.

O que me choca é que os portugueses da minha geração, e os das que me antecedem, se congratulem apenas pelo facto de o 25 de Abril ser um feriado, este ano por coincidência na segunda-feira a seguir ao Domingo de Páscoa, logo uma oportunidade excelente para um fim-de-semana prolongado. Só. Mais nada.

Hoje ao almoço, os meus pais e o meu namorado, nascido em 1964, teciam considerações sobre este marco histórico. Ouvi com atenção repescando na memória aquilo que aprendi em História Económica sobre as medidas implementadas por Salazar.

Na altura existiam planos. A dez anos, coisa impraticável nos dias que correm dada a velocidade a que o mundo se move. Mas existia uma direcção. Nos últimos anos existiram vaidades, lobbies, promessas mentirosas, o culto da dívida como motor do progresso, inaugurações e ostentação.

Salazar foi um ditador. Tirano e prepotente como qualquer outro líder nessa circunstância. Mas na época em que Salazar mandou neste rectângulo, a ditadura era o sistema ditatorial que dominava por toda a Europa, da mesma forma que depois se disseminou a social-democracia e o socialismo e mais recentemente se adivinha a ameaça de uma viragem à direita extrema e radical, fundamentada em ódios rácicos e na intolerância.

Históricamente, depois de proclamada a República, em 1910, Portugal conheceu dezasseis golpes. Em dez anos a dívida externa cresceu até 53,3% do Orçamento de Estado, fugiram capitais e condenaram-se à miséria milhares de famílias graças a uma inflação galopante. Nos anos vinte do século passado o país estaria por certo pior do que está no século actual.

Na ausência de um Fundo Monetário Internacional, Salazar tomou um país fortemente endividado e traçou um plano de recuperação económica implementando medidas altamente restritivas de impacto pouco mediático e questionavelmente democrático.

Instituiu-se assim um Estado Novo Corporativo, que nos isolou do mundo, numa espécie de tubo de ensaio, no pressuposto de que cidadãos ignorantes seriam mais subservientes. Daí o descontentamento crescente daqueles que em finais da década de sessenta se apercebiam  que toda a Europa vibrava ao som rebelde de uma excitante ebulição cultural.

Os erros de Salazar foram muitos. O maior de todos foi não ter saído no tempo certo, como sucede com todos os déspotas, tal como Sócrates nos dias que correm.

Os militares de Abril perpetraram um golpe de Estado que se transformou numa Revolução tal era a vontade que o povo tinha de mudar. O povo, a tal população ignorante e sem formação, saiu para a rua num apoio inequívoco e pacífico ao movimento militar.

O povo que somos hoje, menos ignorante e mais instruído em teoria, estende-se numa toalha à procura de uns raios de Sol, come uns petiscos à beira-mar ou refugia-se no interior do seu imaginário numa reprodução cenográfica da vida rural. Perante o descalabro que é a vida pública retratada dia-a-dia na televisão, noticiada sem cortes nem censura, com total liberdade para comentários que deixam este Governo pelo chão, os eleitores que revelam as sondagens ainda se interrogam se hão-de votar naquele domingo de Junho, em que provavelmente até vai estar um bom dia de praia, ou se, na dúvida, votam no mesmo, numa atitude displicente e inconsciente que é absolutamente chocante.

Sei pouco do que era a vida antes do 25 de Abril, da P.I.D.E., da falta de liberdade, da pobreza, da fome, do fascismo, da incoerência da política colonialista, que se arrastava há cinco séculos, (desde a conquista de Ceuta pelo Infante D. Henrique) e do morticínio da guerra além-mar, que para além de estúpida, como todas as guerras, absorvia quase metade do Orçamento de Estado (à época).

Mas sei alguma coisa da conjuntura em que se faz a festa da democracia neste ano da graça de 2011. Sei o suficiente para me sentir indignada e envergonhada com a apatia que permanece mesmo depois de concretizada a pior de todas as hipóteses: a necessidade de recorrer à ajuda internacional.

As palavras de ordem do 25 de Abril foram descolonizar, democratizar e desenvolver.

Em retrospectiva, apenas a primeira foi uma mudança irreversível. A democracia teve um arranque lento e o desenvolvimento andou em progressão aritmética decrescente até se afundar em taxas abaixo do limiar da dignidade patriótica.

 



publicado por teoriasdacosta às 21:16
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Segunda-feira, 18 de Abril de 2011
Profissão: político

 

Tenho andado a conter-me.

Juro que tenho andado a evitar a piada fácil do homem que viu crianças a correr atrás de galinhas e afinal não se importa de correr atrás de coelhos.

Mas perante os últimos acontecimentos, com tanto borbadeamento informativo sobre o tema, é impossível não comentar o que se vai passando no nosso país de pequena política, quando algures por aí, entre Lisboa e Nova Iorque, pessoas da grande economia decidem o futuro próximo de quem vota mas não decide.

Não censuro que Nobre se junte ao PSD. A decisão é contraditória, ambígua, paradoxal, mas este candidato a Presidente demonstrou tantas vezes a sua curta memória e inabilidade política, que no fundo Nobre não está a ser mais do que coerente consigo próprio, na lógica do “cada cavadela, um minhoca”.

Questiono-me sim, como crê este Sr. Dr. que conquistou tantos fãs com o estatuto de anti-herói do movimento cívico, que exercendo o cargo de Presidente da Assembleia da República (P.A.R.) poderá ter na política um papel activo. A inexperiência política de Nobre é evidente, mas por certo este candidato - que concluo quer é ser Presidente de alguma coisa, porque se habituou ao título desde que passou pela AMI - nunca assistiu a uma enfadonha sessão parlamentar na AR TV.

O P.A.R.concede a palavra, gere tempos de intervenção, pede educadamente ao orador que termine a sua prédica, no limite sugere-lhe que se cale quando a intervenção excede o tempo de antena ou ultrapassa o tom que os níveis de educação no hemiciclo tomam como aceitáveis perante a baixa bitola da linguagem boçal e do insulto gratuito. O P.A.R. conta votos mas não emite juízos de valor nem sugere temas para debate.

Quanto ao facto de Nobre ser um homem que se assume como de esquerda e aceitar a ligação a um partido de direita o que tenho a comentar é que me parece cada vez mais que os políticos são comos os jogadores de futebol: marcam golos pelo clube que lhes paga o ordenado! Por exemplo, o Rui Costa sempre foi do Benfica, segundo consta, e não foi por isso que deixou de assinar contrato com outro clube e foi ao estádio da Luz marcar golos sem cerimónia nem vergonha.

Ainda hoje, se informava que Basílio Horta, que todos conhecemos como figura proeminente do C.D.S., ia ser cabeça de lista pelo P.S..

A viragem da esquerda para a direita e da direita para esquerda é pois uma coisa comum. Comum, mas não natural.

O equivalente a estas trocas de orientação ideológica é a alternância na orientação sexual: hetero porque é suposto, gay porque até está na moda, abstinência sexual quando se anda em baixa de forma, se alinha por uma religião fundamentalista ou se está simplesmente farto de brincadeiras a tender para o promíscuo.

Admiro bastante o discurso inteligente do Francisco Louçã mas jamais votaria no Bloco de Esquerda porque não subscrevo os pilares dogmáticos que sustentam as suas propostas governativas. Supostamente sou de direita mas desilude-me imenso esta forma de fazer oposição assente na negociação de tachos e cunhas em vez de marcação cerrada ao que se faz, se diz e se propõe nas reuniões do F.M.I.

A política desilude-me.

Quero votar e desta vez, mais do que nunca, tenho de fazer porque é esse o meu dever cívico se quero mudar o que me parece que está errado, ou no mínimo demonstrar o meu descontentamento, mas esta caça ao voto por índices de popularidade converte a governação numa espécie de comércio que me envergonha e indigna.

Um dia destes temos o C.D.S. a anunciar os “homens da luta” (no âmbito desta coerência disléxica) como futuros líderes de bancada só para conseguir “comprar” votos da malta que anda à rasca mas continua a usar sapatinhos de vela e pullover Paul & Shark por cima da camisa...



publicado por teoriasdacosta às 21:20
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Domingo, 13 de Março de 2011
A geração rasca também está à rasca!

 

Sou suspeita.

Estava ainda na faculdade quando em 1994, Vicente Jorge Silva, então Director do Jornal Público, se referiu aos jovens como “geração rasca” criando assim um rótulo que ficou para sempre associado aos adolescentes daquela época.

Essa geração, a que me sinto inevitavelmente colada, ingressou na faculdade e fez o curso superior que desejava, porque mesmo não tendo média para o ensino público, multiplicavam-se as universidades privadas com réplicas dos cursos da moda – economia, gestão, direito e relações internacionais -, mas também com cursos de nomes pomposos e aplicação duvidosa, de que me ficou na memória o extraordinário curso de engenharia publicitária.

Os pais da geração rasca - que em regra se viram afastados do ensino superior por questões financeiras, que concluíram os estudos numa árdua epopeia de trabalhador-estudante ou ainda, no caso dos adolescentes mais novos, se safaram sem saber como depois da rebaldaria em que se converteu o ensino no pós 25 de Abril - fizeram todos questão de proporcionar aos filhos um curso universitário. As propinas nas universidades privadas eram caras, mas ficavam mais ou menos ao nível do valor que era cobrado em muitos colégios pelo ensino pré-primário.

Tornamo-nos pois todos doutores e engenheiros. Nos prósperos anos noventa, em que Portugal vivia insuflado a subsídios comunitários, arranjamos todos empregos com relativa facilidade.

Muitos dos meus colegas estão hoje desempregados. Ou então a trabalhar em condições precárias, o que quer dizer a recibos verdes ou com sucessivos contratos a prazo, com ordenados tão miseráveis que em alguns casos os obrigaram a devolver a casa ao Banco e a voltar humildemente para a casa dos pais.

A geração rasca também está à rasca!

Somos trintões a caminhar assustadoramente para a idade em que começamos a ficar velhos para o mercado de trabalho.

Os nossos pais também estão à rasca!

Os pensionistas coitados, até aqueles das reformas tão baixas que equivalem ao que somos capazes de gastar num jantar com noite de copos, vêm-se confrontados com mais cortes numa série de benefícios que provavelmente os vão colocar perante a difícil decisão de comprar os comprimidos para a artrose ou as batatas para a sopa.  

Sou suspeita porque não gosto dos Deolinda e porque, entre espíritos revolucionários, prefiro os do Bloco de Esquerda com as suas teorias intelectuais às paródias do povo do megafone. Correndo o risco de ser tomada como uma arrogante cidadã de classe média burguesa, acredito estar um bocadinho acima do patamar  d´“a malta” e d´“a gente”, principalmente daquela que se expressa em calão e termina as frases com pá.

Compreendo a frustação daqueles que chegam ao final de uma etapa carregados de expectativas para perceberem que afinal não há no mercado um posto de trabalho onde possam aplicar aquilo que julgam que sabem.

Retiro alguma legitimidade às lamúrias daqueles que optaram por cursos que, há três ou cinco anos atrás, se sabia já serem um cartão de livre passe para o desemprego, como Filosofia, História, Relações Públicas ou Belas Artes. É óptimo podermos fazer o que gostamos mas a vida real é mesmo passada a simular sorrisos e a engolir sapos.

Aplaudo que finalmente se tenha feito alguma coisa para manifestar o descontentamento perante o conjunto de restrições e medidas de austeridade que se abatem sobre nós como uma espécie de maldição incontornável. Temos sido um povo a tender para a abstenção como expressão clara de uma certa prostração apática, mas este é definitivamente o momento em que temos de nos descolar dos nossos míticos costumes brandos.

Pelo que consta os cortejos de ontem realizaram-se de forma ordeira e apartidária, como se frisou desde o primeiro momento, quando quatro jovens a partir de uma conversa num café decidiram utilizar o FaceBook como instrumento de intervenção democrática.

As manifestações que ocorreram um pouco por todo o país reuniram jovens, adultos no activo, desempregados, reformados e crianças que não tinham onde ficar num sábado à tarde. No fundo, não há português que não se sinta enrascado (excepto a minoria que nos Governa e os empresários que gravitam na sua órbita).

Sou suspeita porque o meu posicionamento a tender para a direita, mesmo que não no extremo do “então vá” e do sapatinho de berloque, não se identifica com o espírito reaccionário. A iniciativa é de louvar, mas o que me parece hoje, que estamos no day after, é que esta manif foi apenas um corso ao estilo flower power, que junto da classe política fica como um evento que não belisca nem mancha, e que na comunicação social teve uma cobertura dúbia entre a crítica destrutiva e a eloquência demagógica.

 



publicado por teoriasdacosta às 21:46
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Sábado, 19 de Fevereiro de 2011
Revolução via FaceBook

 

Reza a lenda, que no longínquo ano de 1974, foi a canção “Grândola Vila morena”, de Zeca Afonso, o sinal escolhido como “senha de avanço” para a revolução. Há trinta e sete anos foi pois uma canção passada na rádio que desencadeou a revolução pacífica que ficou para a História como a dos cravos.

No ano da graça de 2011, uma revolta do mesmo género, com as devidas adaptações por o evento decorrer no mundo árabe, tem início numa mensagem publicada no Facebook, que em poucas horas teve mais de 100.000 “gosto” e comentários. As mensagens internáuticas multiplicaram-se, com dicas sobre como iniciar protestos e como conduzir as manifestações, por exemplo, sem provocar nem dirigir palavra aos militares ou polícias, por estes, tal como lido entre mensagens, serem também egípcios logo sensíveis às razões da rebelião.

Pelos vistos, cá por Lisboa, também foi convocada via Facebook uma manifestação de apoio aos egípcios, na Praça do Município, que juntou pouco mais de algumas dezenas de intelectuais de esquerda, sem nada de especial para fazer num sábado à tarde ensolarado (não o de hoje, entenda-se). Soube também que anda a correr pela net uma rede que tem como mote derrubar este Governo, mas eu, talvez pelo meu ar de fascista e pelo meu estilo de vida aburguesado, continuo a receber apenas convites para grupos que apoiam criancinhas e uma série de patologias graves, nada de bandos relacionados com ideias de esquerda revolucionárias.

O que me parece incrível em toda esta história que fica para a História, para além do extraordinário facto de este fenómeno viral se estar a estender a outros países do mundo árabe, é que um processo fracturante desta natureza possa ter tido a sua origem numa rede virtual, que todos vemos como lúdica e pacífica.

Andamos nós por cá, “à rasca” como dizem por aí, sem dinheiro para grandes jantaradas e a cortar nas idas para os copos, a ocupar os tempos livres a cuscar os murais de outras pessoas, a fazer amigos com quem partilhamos o gosto por uma música ou uma outra qualquer publicação, quando noutras realidades, aparentemente mais atrasadas e primitivas, onde todas as pessoas parecem saídas de uma televisão a preto e branco, este universo prodigioso que é a internet é utilizado como grito de insurreição.

Esta nova sociedade, dita de informação, revela-se afinal um agente facilitador para transformações sociais e culturais, pelo acesso que uns têm à cultura dos outros, pela percepção que têm das diferenças e pela consequente listagem dos termos de comparação, pelo questionamento do status quo, pela exigência de que se transponham para o seu universo outros modelos organizacionais.

Achava eu, na santa ignorância que até tenho vergonha de declarar, que o mundo árabe primava pela info-exclusão, dado o atraso tecnológico que intuía em relação ao mundo ocidental, e afinal, estes morenos não só têm acesso às novas tecnologias e tendências como as utilizam de uma forma que, há um mês atrás, todos classificariam de inimaginável.

Hosni Mubarak foi derrubado no Egipto graças a uma contestação iniciada na maior de todas as redes sociais. Acudiram à Praça Tahir no Egipto milhares de pessoas, apesar de, na prática, apenas vinte por cento dos egípcios terem acesso à Internet, e de menos de dez por cento da população desse país ter perfil no Facebook. Quer isto dizer que uma minoria ligada em rede conseguiu despoletar uma revolução capaz de derrubar um regime num país de costumes pouco brandos.

Isto dá que pensar...

 

 



publicado por teoriasdacosta às 17:49
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