Não há nada melhor do que estar com as amigas do coração, aquelas que conheço há tantos anos – antes da menstruação e dos tampões, antes do acne e dos rapazes, quando vestíamos calças com cinta sobre o umbigo e não éramos tão loiras – que são como uma espécie de prolongamento histórico da minha vida, uma causa, um efeito e uma consequência da pessoa que sou hoje.
Somos afortunadas por conseguirmos manter uma amizade durante tantos anos, gerindo tempos e espaços de distância com tanta naturalidade que, quando nos reencontramos, parece que a última vez que falmos foi apenas ontem.
Sempre que estamos juntas fazemos autênticas “biópsias à alma”, porque só com quem é tão próximo nos podemos “virar do avesso”, revelando coração, tripas e lágrimas sem reservas nem vergonhas ou medos.
Um grande bem-haja à “Casa de Pasto da Palmeira” que nos acolheu com uma série de petiscos art nouveau sem peneiras.
Creio que todos os jantares entre mulheres gravitam em redor do tema homem, muitas vezes em abstracto, porque nos intrigam mais as relações do que as pessoas.
Chegadas a esta fase da vida divorciadas é inevitável ficarmos presas, pelo menos durante uns tempos, nesse limbo alucinado que são as relações adultas, entre veteranos recalcados, com suas tácticas beligerantes e cicatrizes de guerra.
Ainda não sei o que procuram os homens, mas em relação às mulheres tenho como certo que procuram todas receber o Prémio Nobel pela descoberta da alma gémea. Mesmo as que ficam sós durante tanto tempo que a certa altura bradam com cartazes quão realizadas são com a sua independência, acabam por ficar tão vulneráveis quanto uma adolescente se um dia tropeçam num espécimen que por mais errado que seja ou pareça, tem potencial quanto baste para ocupar o lugar certo.
É claro que temos medo. Com o tempo ganhamos uma estranha imunidade que nos faz antever que qualquer relação está condenada ao insucesso, preparadas para que todo o candidato a residente se revele um parvo carregado de defeitos, incapazes de reagir em conformidade se afinal a pessoa a quem vamos abrindo a nossa porta até é um homem decente e bem-intencionado, apesar de ser esse o nosso inconfessável desejo.
O normal no mundo dos adultos é vogar entre relações plásticas, neste imenso bazar de amor contrafeito, à procura de sexo, de uma companhia para jantar ou para o cinema, de uns momentos de humanidade que nos suguem da nossa rotina de problemas no trabalho, contas para pagar e trânsito louco. Fazemos o que ontem ouvi designar como “zaping emocional”.
Na nossa essência, quando dissemos “sim” em frente a um altar carregado de flores, acreditavamos na lenda do “casamento para sempre”. Não concebo que alguém se case pensando no divórcio como solução para qualquer problema. Admito sim que recorremos mais a essa opção como se fosse uma “saída de emergência”, apenas e só porque desde miúdas aprendemos não sei onde que fomos programadas para ser felizes. Como não existem parâmetros que certifiquem o nosso grau de felicidade, como aqueles que são utilizados nas análises clínicas, quando começamos a agonizar ante o pressentimento de que não somos tão felizes quando poderíamos optamos por esta “fuga para a frente” que aumenta todos os problemas e discussões de um casamento naufrago quando se começa a equacionar a hipoteca da casa e as partilhas.
Gostavamos de pertencer aquela casta dos “cisnes”, os casais que permanecem juntos até à morte num amor cúmplice que é amizade tatuada na carne, caminhando de mãos dadas, com o ombro do outro ao nosso lado, porque assim se caminha num passo sincronizado e porque aí se procura aconchego quando a estrada que seguimos nos falha.
Em vez disso, a realidade revela-se um filme diferente do que tínhamos realizado como sequência lógica casamento–filhos, e acabamos por desempenhar papéis inspiradas no “Sexo & a Cidade”, que por sua vez se inspira em mulheres como nós, saltando de festa em festa, de desilusão em desilusão, de borboletas na barriga para socos no estômago.
O ideal é que esta fase de zaping seja apenas um treino de resistência, força e endurance, necessário para sermos melhores mulheres para um homem, também ele aperfeiçoado na arte mágica de gerir afectos, impulsos, maus feitios e conflitos de personalidade.
Anda pela rádio uma música a que é impossível ficar indiferente.
Falo de “someone like you” da Adele.
Sempre que ouço esta mulher cantar uma relação falhada de uma forma tão sofrida quase me arrepio.
Ouvi dizer que se trata de uma declaração auto-biográfica. Googlei o assunto e lá descubro na Wikipedia que de facto esta música constituí um acto de expiação sobre uma relação que terminou ao final de dois anos. Todo o álbum é o produto de um doloroso exorcismo de amargura e de rancor. Confessa a brilhante "autora -intérprete" que ele, o tal, continua a ser uma das pessoas mais importantes da sua vida.
O que sucedeu é um clássico: a relação era de sonho e acabou. Acabou mal como terminam todas as relações em que a decisão é unilateral. Meses depois Adele descobre que ele se cai casar com outra pessoa.
A canção fala da incógita que fica quando alguém por quem estávamos apaixonados saí da nossa vida: será que algum dia vou encontrar alguém como tu?
A canção aflora também do medo que é reencontrar essa pessoa, feliz, de mão dada com outra, provavelmente com filhos, a viver uma vida de “anúncio a detergente Skip” numa casa com jardim, roupa esvoaçando ao vento, um cão de pêlo sedoso e uma família que se abraça e ri numa perfeita harmonia que é só marketing.
Confesso que sempre arrumei muito bem as minhas relações.
Não é coisa de que me orgulhe particularmente. Existem até pessoas que me criticam por ser assim.
No final de cada relação volto a página.
Arquivo as memórias numa gaveta que não pretendo voltar a abrir, apago o número de telemóvel e o endereço de e-mail, faço por evitar os mesmos circuitos, sou mesmo capaz de fugir a um contacto visual se nos cruzarmos num local público, remeto a conversa para os “diálogos de elevador” se um frente-a-frente é inevitável.
É claro que choro.
Choramos sempre quando algo nos dói.
Dói sempre perder alguém. Dói sempre perder a continuidade de um sonho que se previa eterno. Dói o vazio e o silêncio. Dói o coração e a alma, o corpo, o peito... Doem os olhos de tanto chorar.
Até que as lágrimas cessam. E depois desse dia sequer considero a hipótese de um recomeçar, com aquela pessoa, em idênticas circunstâncias ou num novo cenário.
Cada pessoa que entra e saí da minha vida tem o seu papel e o seu tempo. Sou incapaz de esquecer os maus momentos. Nunca perdoo as traições. Quem vai não volta porque se perdeu a base de qualquer relação: a confiança.
Confiança como sinónimo de acreditar que aqueles braços não nos largam e aqueles olhos não nos perdem.
A primeira vez que o final de uma relação, que afinal nem sequer o era, me deixou descontrolada, tive como reacção da minha melhor amiga, de quem eu esperava um ombro largo e um colo meigo: “afinal és humana!”
Foi essa mesma amiga que um dia vaticinou "um dia vais chorar a tua vida toda." Assim foi.
Ao ouvir a música da Adele há uma coisa qualquer que me toca sem que eu saiba porque se aperta desta forma o meu coração que presumo esculpido em pedra.
Não penso nos homens que tive e no que fazem eles com as suas mulheres.
Se calhar penso no homem que tenho e nas vidas que com as nossas se cruzaram até ao ponto do caminho em que nos encontramos.
Deixamos ambos algo para trás. Do meu lado ficou um nada a que me acostumo facilmente porque me sinto bem nesta pele de filha única habituada a falar com paredes e profundamente feliz com hobbies de anacoreta: ler ou escrever.
Incapaz de sofrer com os males que enterro em vala comum sem cerimónia nem zelo, fico emocionada com as dores que cantam os outros...
A revista do Expresso deste fim-de-semana traz como tema o macho latino como espécie em vias de extinção. Como é usual quando se falam destes assuntos gastos e com tanto interesse como contar grãos de areia na praia, lá vêm elas falar deles e eles falar do seu ego exarcebado.
Confesso que ainda não li as reportagens. Passei os olhos pelas fotos e pelas letras grandes.
Mas imagino contudo, que elas, todas mulheres com estilo e carreira, independentes e emancipadas, começam a falar do conceito “macho latino”, mas acabam inevitavelmente a divagar sobre as relações contemporâneas.
Todas as mulheres entre os quinze e os cinquenta tomam-se como emocionalmente estáveis, inteligentes e auto-suficientes. Para a maioria, um homem só é necessário para carregar as compras mais pesadas do supermercado, para mudar um pneu, ou para montar qualquer coisa do IKEA cujas instruções incluam mais do que três etapas.
Tretas! Por muito que se proclame a independência como se isso fosse uma espécie de medalha, a verdade é que são raras as mulheres que no seu íntimo, no cantinho mais secreto das suas aspirações inconfessáveis, não sonham que um dia vão adormecer nos braços do príncipe encantado.
Já por aqui escrevi que não sei o que é “o homem da nossa vida” nem sei se sou capaz de desenvolver uma teoria sobre o tema. Parece-me que a eles, aos homens, não lhes preocupa esta questão de ser o homem da vida de alguém. Se calhar esta perspectiva até os deixa assustados!
A questão é que todas as mulheres têm um ideal.
A culpa é dos filmes do Walt Disney, da Barbie e do Ken, dos filmes “água com açucar” e das séries românticas em que há sempre um casal que se beija apaixonadamente no final. Mas até a Jeniffer Aniston, que surge sempre na tela como a mulher de sonho de alguém, na vida real não tem grande sorte com os namorados...
Desde a infância vamos concebendo um molde que queremos cobrir com um determinado tom de pele, olhos num tom indecifrável e cabelo de ondas suaves. Depois, tropeçamos em seres humanos que não têm nada a ver com o boneco imaginário, a quem achamos piada e por quem nos apaixonamos.
Às vezes, o príncipe dos sonhos é loiro e o homem que nos arrebata é moreno... A maior probabilidade é que o homem que nos desvirtua o modelo não seja capaz de um estóico acto romântico. Quase de certeza se vai esquecer de datas que são importantes, desconhece que há uma música que é a "nossa", deixa pêlos na banheira e a tampa da sanita levantada... Isto não quer dizer porém, que esses senhores cujo sorriso nos desarma sejam afinal uma espécie de sapo.
Quando se tem azar com a escolha eles não se revelam sapos mas sim seres invertebrados...
Grande parte das mulheres que conheço não têm a certeza se o homem que dorme com elas é realmente o “tal”. Um número cada vez maior prefere por isso não dormir acompanhada. Há ainda outras, poucas, que adormecem nos braços do Rei suspirando pelo príncipe encantado.
Eu prefiro acreditar no destino, confiando que a vida me conduzirá sempre, por mais que eu tropece e caía, à pessoa que me está predestinada...
Na semana passada, quando despi o casaco para me sentar à mesa, o meu namorado que eu amo, e que me conheceu há dois anos com uns joviais cinquenta e seis quilos, fez o seguinte comentário:
“As mulheres depois dos trinta têm uma tendência evidente para se tornarem balzaquianas.”
A vantagem de se ter um namorado muito para lá do básico, é que se ouvem críticas em forma de dissertação filosófica - nem sempre decifráveis sem ter de googlar o assunto - e não bocas foleiras do género “esse decote fica-te ridículo”.
A desvantagem de namorar uma mulher do norte é que as respostas saem escorreitas, sem grandes cerimónias nem palavras difíceis: “a culpa não é do decote” retorqui “é das mamas que estão maiores porque eu engordei uns quilos!”
A expressão mulher balzaquiana surgiu de uma obra que escreveu Honoré de Balzac no sec.XIX intitulada “A mulher de 30 anos”.
À época, uma mulher com esta idade, carregava imensas obrigações sociais inerentes ao seu estatuto de casada e de mãe de família, raras vezes feliz ou realizada na sua recatada clausura.
Balzac descreve a mulher de trinta anos com uma acidez pejorativa. Com o passar do tempo, apesar de todas as mudanças sociais decorrentes da emancipação, a expressão mulher balzaquiana mantém uma conotação negativa.
Na sociedade actual, uma mulher de trinta anos provavelmente não é ainda casada, ou então já se divorciou e celebrou o evento numa festa só com amigas, clama vitoriosa a sua independência, colecciona casos e flirts sem sentimentos de culpa e padece de uma tendência que quase parece natural para se continuar a vestir e a comportar como se estivesse no auge dos vinte e cinco.
Olhando em redor, para o meu grupo de amigas, muitas delas com filhos adolescentes, tão próximas dos cinquenta como estou eu dos quarenta, noto que realmente, à medida que o tempo passa, passamos a vestir mais jeans do que calças masculinas, mais tops do que camisas, mais biquinis do que fatos-de-banho, mais acessórios da Parfois do que da Casa Batalha.
Reconheço que o fazemos porque não queremos parecer umas senhoras. Lembro-me perfeitamente de ser adolescente e de achar as pessoas com quarenta já muito crescidas. Fico em estado de choque quando reencontro uma colega da faculdade e a vejo com colar de pérolas, saia pelo joelho e sabrinas.
A verdade é que ultrapassar os trinta marca mais o corpo do que o espírito.
Até há bem pouco tempo só engordava nas ancas e no rabo e com uma semana a sopa, maçãs e água a coisa resolvia-se. Agora a gordura já se eleva para o umbigo, numa almofadinha que para já é só um pneu de bicicleta mas que, se eu não voltar a correr dez quilómetros três vezes por semana, se pode converter numa roda de jipe. Em relação ao volume no peito não me importo nada. Tenho na minha “wishlist” um implante de silicone como presente pelo quadragésimo aniversário, mas dado o efeito “wonderbra” que agora consigo ostentar só porque me ficam apertados os vestidos, talvez deva pegar no valor das “bolas de plástico” e utilizá-lo numa lipo.
Por outro lado, se com muito esforço e fundamentalismo alimentar, consigo perder os quilos que surgem sem que eu perceba como, fico magra na cara mais do que em qualquer outro sítio, o que revela um inestético vinco do nariz até à linha do queixo, sempre que esboço um sorriso.
Com o avançar do tempo imagino que me vão surgir gorduras indesejáveis e inexplicávies, como aquela almofada sobre o omoplata que salta do soutien na maior parte das senhoras com as quais balzaquiana alguma quer ser parecida.
Pensando bem, a expressão “mulher balzaquiana” não constituí uma crítica mas sim um tremendo desafio...
Tenho a certeza de que ninguém ficou indiferente à notícia da senhora que esteve morta em casa durante nove anos.
Chocou-me nesta história o isolamento e a indiferença com que se encarceram os bichos que somos entre paredes de betão.
No Verão de há dois anos, uma família inteira que morava no meu prédio morreu soterrada no desmoronamento de uma falésia no Algarve e eu só dei pela falta destas quatro pessoas no ano seguinte, quando confrontada por uma vizinha mais sénior. Só então realizei a falta do senhor calvo que saía todas as noites para passear o cão e fumar e a ausência do carro das filhas, com um inconfundível volante em peluche rosa da Hello Kitty, estacionado sempre ao alcance da vista entre tantos outros veículos de presença habitual. É assustador que eu interaja mais com amigos do FaceBook do que com os vizinhos do quarto andar...
No caso concreto da senhora que morreu lá para os lados de Sintra, não houve esse alheamento- Pelo contrário, existiram até vários avisos. Mas o que sucedeu foi que entre a displicência e a burocracia não foi possível arrombar a porta para confirmar a morte pressentida por pessoas que, pela idade e cuidados de gente antiga, a sociedade não trata com seriedade.
Escreveu Jorge Luís Borges que “a velhice poderia ser a suprema solidão, não fosse a morte uma solidão ainda maior”.
O eco desta frase e o turbilhão de pensamentos que me assaltaram no rescaldo da notícia escabrosa que abriu telejornais até ao fim-de-semana, fizeram-me reflectir sobre esta coisa que nós os adultos chamamos de independência: o viver só, ainda que não na solidão, entre ligações e relações que se gerem e alimentam no perímetro imenso que fica para lá da nossa casa.
Comentava uma amiga este fim-de-semana, que as pessoas depois dos quarenta se atiram com mais facilidade para a opção da partilha de espaço porque lhes faz falta a companhia de fim de tarde.
Tenho um tio na casa dos setenta, que ficou viúvo em Outubro do ano passado, e que tem vivido o seu novo estado civil com tão profícua actividade amorosa que me começo a questionar se esta urgência para acabar os dias com alguém deitado ao nosso lado não será mais uma das nossas necessidades básicas.
Enquanto adultos vivemos obcecados com a ideia de trepar ao cume da pirâmide de Maslow onde pontificam as necessidades sociais, de auto-estima e de auto-realização porque condicionamos os nossos dias e as nossas opções de vida em função de uma imagem social, da vaidade que depende do aspecto físico e de uns tantos bens materiais, de um egocentrismo feito de títulos, tribos e estratificações sociais.
Mas no final, despida a farda, quando trazemos a nossa carreira profissional num caixote e nos preparamos para as imensas horas que ganha um dia quando passamos a viver de uma reforma, se calhar o que queremos mesmo é ter alguém com quem conversar.
Conta esse tio que julga ter encontrado o amor num corredor do Pingo Doce. Imagino que o desblqueador de conversa possa ter sido estarem ambos a cantarolar a festivaleira canção d´“o preço é baixo o ano inteiro”. Viúvo como está, triste como anda, mal entabulou conversa com a senhora convidou-a logo para um chá. Na própria semana ela acompanhava-o a uma consulta no hospital e ele descrevia como acto romântico o facto de ela ter ido pagar a taxa moderadora enquanto ele era visto pelo médico. Tudo muito rápido, tudo muito simples, porque estão ambos sózinhos, sem a muleta de um emprego nem o escudo de um cargo ou posição social. São apenas um homem e uma mulher cientes de que caminham a passos largos para o final da vida, apesar do reumatismo e da ciática, e de todas as dores e maus humores que lhes atrasam o passo.
O meu tio não procura uma mulher mais nova, com uma imagem tipo a das senhoras que anunciam as fraldas da LINDOR ou os cremes da TOKALON (cremes de beleza que usavam as mulheres da sua geração). Aceita rugas e gorduras localizadas desde que a candidata a namorada queira ser a sua companhia de todas as horas nos dias que passam lentos, submersos no silêncio de uma casa que chora de saudade.
Ela, por sua vez, não quer um galã de cinema do género dos que faziam cartaz nos filmes a preto e branco. Aceita as dores e queixas que são nele uma patologia desde que ele a trate bem e seja educado.
No final, nenhum dos dois quer morrer à fome no chão frio de uma cozinha porque não ter ninguém que o ajude a levantar-se...
Síndrome da “filha-única-que-vive-sózinha-há-muito tempo"
Esta semana tenho andado com sintomas da síndrome da “filha-única-que-vive-sózinha-há-muito tempo”.
Hoje, sexta-feira, decidi que queria vir para casa, vestir o pijama, esticar-me no sofá - ocupando toooooodo o sofá - comer o jantar em regime de piquenique com o prato no colo, escrevinhar qualquer coisita, manter a televisão como som de fundo num nível suficientemente moderado para me deixar absorver por aquela suavidade que é o silêncio, que sabe tão bem quando é desejado, não se transformando em momento algum no zumbido mudo que nos deixa tontos quando somos engolidos pela solidão.
Passo o dia todo a lidar com pessoas – como todos aqueles que não trabalham em jardins zoológicos, circos ou parques aquáticos – e às vezes preciso mesmo de me isolar, de me refugiar neste canto que é a minha casa, de me afundar entre as almofadas num estado de apatia que nem sequer é de reflexão, sentindo o corpo cair naquele torpor que é o cansaço a que raramente cedo, fechando os olhos como quem chama aquele sono bom em que flutuamos sobre o próprio corpo, ouvindo ao longe os sons da televisão.
A síndrome da “filha-única” já é perigosa. Habituei-me durante tantos anos a brincar sozinha, falando com amigos imaginários e personagens inventados que coabitavam o mesmo espaço e se sentavam ao meu lado na mesa para jantar que, confesso, por vezes estranho as pessoas reais, as refeições em que os diálogos se sobrepõem, o drama que pode ser escolher um prato ou a gestão de consensos que é necessário invocar para eleger o vinho que há-de acompanhar a refeição, principalmente se uns escolheram peixe e outros carne.
Quando à síndrome da “filha-única” se acrescenta o “viver-sózinha-há-muito-tempo” a coisa complica porque o espaço que ocupa a nossa vida tende a ser maior do que o espaço que ocupam as outras pessoas que fazem parte da nossa vida.
Quando era miúda tinha um “quarto de brincar”, um quarto ao lado do meu, onde tinha as bonecas, tachos e comidas de plástico, sendo que, como filha única, tinha ainda direito a ocupar uma parte da sala com os Lego, porque quando anoitecia tinha medo de ficar sozinha a brincar num quarto à distância de um corredor sem janelas que me parecia um imenso túnel assombrado. Hoje tenho um quarto onde durmo e guardo as roupas da estação, um quarto que faço de escritório onde estão as malas e as roupas ditas “de festa” e outro quarto com a roupa da outra estação e todas as caixas de sapatos cujo conteúdo está orgulhosamente identificado a marcador preto com descrições do género “sandálias pretas com tira”; “sapatos clássicos com fivela”; “botas esquimó”, “botas pretas salto agulha”…
O primeiro instinto que tive quando o meu primeiro marido saiu de casa foi correr para o quarto e confirmar que as coisas dele tinham desaparecido como por magia. “Isto agora é TUDO meu!” juro que pensei com um suspiro de alívio que foi quase um sorriso…
A noção do meu, de propriedade, de território, de espaço, de tempo são os sintomas mais acutilantes de quem sofre da mesma síndrome que eu e que, chegada a determinado limite, que poderá ser de horas, dias, semanas, ou até meses, começa a sufocar, a sentir-se invadida, acorrentada, angustiada, com suores frios, calores e comichões, tudo porque há uma área que não lhe pertence em exclusivo, um ar que partilha, um momento em que tem de dar, falar, ceder espaço, comunicar… O pior é que a síndrome não se cura com o isolamento. O antídoto é muitas vezes um veneno. Deseja-se tanto este silêncio único para depois se perceber que até o silêncio quando é partilhado pode ter um sabor especial.
A doença não tem cura. Tem altos e baixos, oscilações, retrocessos, avanços e remissões.
Depois de cada crise a ressaca é terrível. Uma dor não localizada com epicentro no coração. Um vazio que entra pelo corpo dentro e se apodera da alma, equiparando a nossa existência à de um espectro, um fantasma com uma vontade imensa de ser notado, tocado e integrado num corpo, que, por ser humano, é necessariamente um ser social.
A crise passará quando eu conseguir colocar alguma ordem nestes cosmos que é o meu universo particular e que, depois do Big Ben que fez explodir a minha vida tal como eu a conhecia até há uns tempos, permanece agora num caos de poeira e fragmentos de estrelas onde me sinto à deriva. Preciso de encontrar os meus pontos cardeais. Tenho um Sol que são os meus pais, a Lua que reservo para o Amor e para os humores, os planetas, constelações e estrelas-Maiores que balizam o meu trajecto e tenho-me a mim, como um ponto minúsculo, quase insignificante, nesta tela imensa de luzes cintilantes que ora me esmagam ora me embiagram, ora me oprimem como um tecto preste a esmagar-me ora me fascinam como à criança que ainda acredita em fadas, princesas e outros seres com auras brancas que viajam num baile harmonioso por este imenso pedaço de céu.
E por falar em universo particular, uma das músicas que me embala em momentos como este...
Eis o melhor e o pior de mim O meu termômetro, o meu quilate Vem, cara, me retrate Não é impossível Eu não sou difícil de ler Faça sua parte Eu sou daqui, eu não sou de Marte Vem, cara, me repara Não vê, tá na cara, sou porta bandeira de mim Só não se perca ao entrar No meu infinito particular Em alguns instantes Sou pequenina e também gigante Vem, cara, se declara O mundo é portátil Pra quem não tem nada a esconder Olha minha cara É só mistério, não tem segredo Vem cá, não tenha medo A água é potável Daqui você pode beber Só não se perca ao entrar No meu infinito particular