
Pois é, hoje foi dia de Greve Geral e não se falou noutra coisa...
Percebo que as pessoas estejam revoltadas e que sintam necessidade de o manifestar, considero válidas grande parte das razões de descontentamento dos eleitores (mesmo dos que não votam porque as eleições calham sempre num dia em que não lhes dá jeito), sou até sensível aos ideais da solidariedade, da equidade, da justiça social, que é como quem diz “sermos todos uns pelos outros”. O que não alcanço é em quê que uma Greve Geral nos pode ajudar, ainda para mais neste momento.
Exemplifico:
- Quem quis ir trabalhar e está acostumado a utilizar os transportes públicos teve hoje de ficar em casa (num dia que será considerado uma falta injustificada, logo será descontado no ordenado, aposto!) ou recorrer ao seu automóvel, com custos adicionais de combustível, desgaste da viatura e eventualmente portagens e parqueamento.
- Quem foi trabalhar e tem filhos pequenos teve de encontrar soluções para ocupar as crianças, uma vez que grande parte das escolas públicas estiveram fechadas, o que, no caso concreto de uma pessoa que trabalha comigo, representou um custo extraordinário equivalente a um dia de salário.
- Os alunos não tiveram aulas, coisa que imagino nesta altura até fará alguma falta já que se aproxima o final do primeiro período, logo as horas em que hoje andaram pela rua à mercê dos pedófilos, se aperfeiçoaram na arte de enrolar cigarros ou estiveram num café a dizer baboseiras, são um crédito mal-parado em tempo para testes e aulas de dúvidas.
- Quem tinha consultas em hospitais ou centros de saúde foi provavelmente recambiado para casa, mesmo que tenha tido de se levantar com quatro horas de antecedência, andar de bicicleta, a pé ou a nado num triatlo competitivo contra os obstáculos dos piquetes.
- Coitadas das pessoas que tiveram uma daquelas dores agudas ou acidentes graves que desaguam nas urgências, porque imagino que as salas de espera nos hospitais públicos deviam hoje estar um caos, tranformando as regulares horas de espera numa jornada de internamento, sem direito a cama nem tenda.
- Como os aeroportos não estiveram operacionais não se fizeram viagens de trabalho mas também não se receberam turistas, que numa visita ao nosso ensolarado país, entre umas exclamações “how lovely!” e “trés jolie!”, com grande probabilidade deixariam ficar pelos restaurantes, museus e lojas de “recuerdos” alguns preciosos euros.
- Não sei se não houve recolha de lixo ou se é esta noite que não vai haver. De toda a forma, se na minha zona a “greve dos almeidas” (com todo o respeito) passou despercebida então se calhar a Câmara deveria perguntar-se até que ponto vale a pena que estes senhores andem a trabalhar todas as noites... Sempre conseguiam uma redução no orçamento...
- Imagino que os funcionários daquelas repartições bafientas onde as pastas de arquivo se amontoam pelo chão tenham aproveitado o dia para fazer gazeta, questionando também se a presença de tantas pessoas a encostar-se aos balcões ou escondidos atrás do ecrã do computador para não terem de aturar os utentes é efectivamente necessária. Parece-me escandaloso, quase pornográfico, que por causa da greve tenham fechado Centros de Emprego, já que é um insulto para os que não têm trabalho que alguém cuja missão é ajudá-los tire o dia para ir gritar pelos seus direitos.
Se existisse justiça, daquela popular como tanto gosta o português médio - o que foi trabalhar contrariado ou ficou em casa em vez de ir para a rua de cartaz em punho como é suposto fazer-se neste tipo de movimentos - os funcionários da administração pública que fizeram greve não recebiam ordenado e o proporcional dos impostos que nos são cobrados para pagar os seus vencimentos seria reembolsado com a entrega do I.R.S..
Hoje os sortudos dos funcionários públicos já receberam o ordenado (quem está no privado há-de receber para a semana ou, com o feriado na quinta-feira, só a 5 de Dezembro) percebendo em números a magnitude desta crise maldita sobre as suas prestações e sobre a sua despensa. Mesmo assim, porque ao final do dia tive de ir a um hipermercado que fica num shopping, fiquei estupefacta com a quantidade de carros no parque de estacionamento, mais surpresa ainda com as filas nas caixas e com todo o espírito natalício no interior das lojas onde se ouvia a banda sonora dos terminais multibanco.
A ceia de Natal é precisamente de hoje a um mês e quase que me pareceu que em dia de greve muitas famílias resolveram antecipar a festa.

Agora que as decisões da troika são públicas, com o “Primeiro-Ministro que já foi” (Sócrates) a dizer que afinal as medidas a que nos vamos submeter são as previstas no PEC IV e o “Primeiro-Ministro que talvez não seja” (Passos Coelho) a mandar recados através das cartas de Catroga, parece-me que o sentimento geral é de alívio.
É como se estivéssemos na eminência de uma condenação a prisão perpétua e, de repente, a sentença fosse de apenas cinquenta anos, o que traduzido em justiça portuguesa pode dar apenas cinco anos de cadeia.
Vamos receber um empréstimo, com uma taxa de juro que é ainda uma incógnita e, habituados como estamos a pagar despesas com créditos, lá vamos todos marcar férias!
Uma coisa é certa, se o PSD for Governo, à luz do que afirma o Fiscalista Diogo Leite Campos, vice-presidente de Passos Coelho, logo membro da Comissão Política Nacional, com responsabilidades na elaboração da proposta que um destes dias este partido há-de apresentar como argumentário de apelo ao voto, vamos todos ter aumentos!
No vídeo que partilho, Leite Campos explica num tom muito pedagógico como é difícil viver com dez mil euros por mês num país como o nosso (não em Monte Carlo, no Dubai ou em Nova Iorque, caso julguem que ele se refere a outra cidade neste planeta ou quem sabe noutro universo planetário).
Segundo este Doutor (talvez até Professor), se considerarmos que o I.R.S. sobre rendimentos desta importância é de 42%, o valor líquido que sobra no final mal chega para pagar as despesas com casa, roupa lavada, comida, instrução dos filhos, doença e tudo e tudo e tudo...
Quanto às despesas da casa há realmente prestações sobre empréstimos que estão no patamar da loucura, mas se este senhor é mesmo Fiscalista e percebe alguma coisa sobre a sua área, terá concerteza negociado um óptimo spread e um confortável prazo para amortização da dívida.
Olhando para a sua figura, não me parece que Leite Campos vista Armani nem Prada, ou que envie as roupas para uma lavandaria em Xangai, por isso não percebo como lhe fica tão caro lavar a roupa. Se calhar anda a usar o programa de lavagem errado... Ou então a roupa que veste é do estilo descartável, de usar e deitar fora, pelo que para cada dia tem de comprar uma camisa, um fato e uma gravata, uns sapatos, umas peúgas e umas cuecas. Tudo básicos da H&M ou da Zara porque 5.000 euros não dá para compras na Avenida da Liberdade!
Em relação à comida, fazer compras no El Corte Inglês Gourmet não é de certeza uma opção económica, mas entre os excelentes detergentes e produtos lácteos do Lidl, os frescos do Pingo Doce, as pechinchas do Minipreço e as oferta do Continente, é possível fazer cinco refeições por dia sem ter de dividir uma sardinha por três, como me contam os meus pais acontecia nos tempos em que eles eram crianças.
A educação é cara, concordo, e são escandalosos os valores que se pagam nos colégios privados. Mas o ensino público, apesar da desmotivação generalizada dos professores e da sua formação nem sempre adequada, é uma alternativa que não prejudica o acesso dos miúdos à universidade.
Quanto às doenças, cada um sabe dos seus problemas. Eu por acaso tenho um seguro de saúde que não me fica assim tão caro e me permite usufruir do excelente atendimento e delicadeza que predomina na medicina privada. Em relação a centros de saúde e hospitais sou uma crítica pois parece-me que só com sorte se consegue ser atendida por um médico que nos fixa pelo menos uma vez nos olhos, e faz mais do que medir a tensão, auscultar-nos e despachar-nos para casa com uma receita de antibiótico.
Quanto ao resto, posso imaginar as muitas (ou poucas) coisas em que facilmente gastaria os míseros cinco mil euros de que se queixa Leite Castro, mas acho verdadeiramente insultuoso que este senhor apregoe que quem ganha dez mil euros é classe média e quem ganha mil euros é pobre!
Imagino que Leite Castro não saiba, que muita gente paga casa, roupa lavada, comida, instrução e doença com quinhentos euros brutos, e que há pensionistas que sobrevivem nem eu sei como com pensões com um valor que a Leite Castro não chega sequer para pagar uma refeição! Das económicas!
Há coisas incríveis.
Uma mulher loira, linda, imagino eu uma daquelas jornalistas destemidas, com sede de notícias sensacionais, não sensacionalistas, que aparecem com o cabelo num desalinho chique entre multidões em tumulto, bombas a explodir e rajadas de balas, vai ao Egipto cobrir o tal evento histórico que foi a revolução via Facebook.
Essa mulher, de nome Lara Logan está a cobrir as manifestações no Cairo e de repente é separada da sua equipa e violada. Assim, no meio da multidão em delírio. Em público. De forma continuada. Por vários homens.
Salvaram-na outras mulheres e um grupo de soldados. Não googlei à procura dos detalhes sórdidos porque estes crimes metem-me nojo. Tanto, que depois de ler a notícia não consigo evitar esta detonação de raiva.
Infelizmente este crime sucedeu no Egipto, com uma figura pública, numa situação inusitada. Há uma semana ou duas passou na SIC uma reportagem sobre os constantes abusos sexuais de meninas na Àfrica do Sul. A situação é tão dramática que faz quase parte da cultura popular desta nação mesclada, de negros e brancos com raíz selvagem. Acredita-se por lá que ter relações com uma virgem é cura para o HIV. Dá para acreditar?
Há tempos ouvi também na rádio que o tristemente célebre “violador de Telheiras” enviou vales-postais às mulheres que agrediu, infiro eu para as tratar como prostitutas, pagando-lhes com um cheque dos correios pelos serviços prestados.
Pergunto-me que animal é este que habita alguns homens que os faz serem capazes de violentar uma mulher.
Há a violação que começa numa saída para um copo, que poderá não ser inocente para nenhuma das partes, mas que só acaba em sexo adulto se for consensual. Sucede porém que é nestas circunstâncias que acontecem muitas violações nas sociedades contemporâneas ditas civilizadas. E o pior é que muitas mulheres se assumem como parcialmente culpadas por entenderem que até provocaram o agressor – porque a saia era curta ou o decote ousado – não tendo por isso a coragem de ir denunciar o caso à esquadra mais próxima.
A violação acontece também no seio de um casamento, como mais um dos exemplos demoníacos do que é a violência conjugal.
Descreve a psicóloga Maria Francisca Rebocho Lopes que “o violador português é branco, tem cerca de 30 anos, baixa escolaridade e não revela arrependimento pelo crime”. Concluí também esta psicóloga no seu estudo, que a maior parte destes indivíduos são pessoas absolutamente normais, isto é, têm uma vivência familiar saudável, uma socialização fácil e adaptada, até têm emprego e uma rotina de vida aparentemente normal. O que ocorrerá pois na cabeça destes monstros sinistros que os faz usar da força física para conseguirem uma relação sexual? Que prazer poderão ter num orgasmo com uma mulher aos gritos que não são de prazer, que não colabora, não retribuí, se debate por se ver livre daquelas mãos rudes que a seguram e que, se puder, os insulta e lhes cospe na cara?
Pelos vistos, faz parte do perfil psicológico do violador não perceber que a mulher abusada é uma vítima. Muitos não reconhecem que inflingiram dor ou sofrimento, muito menos traumas ou sequelas.
Sou uma descrente na justiça pelo que me parece que muitos destes crimes não são julgados, quando o são os violadores saem impunes graças a artimanhas legais como a inimputabilidade ou as burocracias processuais, e quando são presos nunca ficam detidos o tempo suficiente.
Diz a psicóloga que quando na cadeia estes criminosos são estigmatizados, censurados e punidos pelos outros reclusos e pelos guardas prisionais. Em minha opinião, pegando nas cenas hediondas do “Prision break” e outras que tais, estes tipos nojentos deviam ser todos sodomizados e tratados como escravos sexuais, de preferêcia por presidiários negros com gigantismo genital.

Fã como sou de Barak Obama li com interesse a entrevista publicada pelo Expresso neste fim-de-semana.
Obama caiu em desgraça. Como tantas vezes acontece na vida, cíclicamente, tão certo como continuarmos vivos, de forma constante enquanto estivermos activos. Passamos sucessivamente de bestiais a bestas, de bestas a bestiais, de felizes a nem por isso, da infelicidade negra à euforia psicadélica.
Admite Obama que se enganou. Nas palavras que o artigo cita, aprendeu algumas “lições tácticas”. Errar é humano, ou como estava gravado a canivete na mesa onde me sentava nas aulas de educação visual no 9.º ano “Herrar he umano”. A nossa humanidade, carregada de orgulho, preconceito e vaidade, nem sempre nos permite admitir os enganos.
Em vez de optar pela atitude arrogante, de uma cegueira insane como a do Primeiro-Ministro que dá a cara pelo país falido em que se transformou Portugal, Obama decidiu fazer um mea culpa.
É claro que este assumir de culpas vem embrulhado num papel dourado com um grande laçarote. Nas palavras do Presidente do mundo – sim, porque os E.U.A. continuam a ser “A Potência” , apesar da assustadora ascendência da China e do seu avanço hegemónico por territórios de Àfrica (onde o G7 não vê para além de poços de petróleo) – “há um certo orgulho perverso em fazer as coisas como devem ser feitas, ainda que a curto prazo sejam impopulares”.
Obama quer colocar-se como o homem bom, aquele que queria fazer tudo certo mas que, depois de castigado pela opinião pública, admite que quem quer permanecer na Casa Branca tem de seguir as regras de Washington. Durão Barroso e Che Guevara sabem bem que dos rebeldes reza-se na história, somente quando estes estão mortos. Os revolucionários podem ter seguidores, clubes de fãs, tropas, milícias e grupos organizados na sua órbita, mas raramente chegam ao poder se não cedem às regras pelas quais se guia a maioria da sociedade.
A vida é assim. Não sei se justa se injusta, se gloriosa ou ingloria. Na prática, quem quer ascender, manter-se à tona, sobreviver, tem de alinhar pelo status quo, navegar com as marés, aproveitar a força das ondas na esperança que uma dessas seja o tal super-tubo, que nos permite fazer uma surfada que acelera o corpo e eleva a alma, daquelas que contamos aos netos e que uma foto recorda para a história.
Quer isto dizer que devemos deixar de correr atrás daqueles ideais transcendentes, benfazejos para o espírito, nobres para a sociedade, dignos de lápides, estátuas, nomes de rua, ou simplesmente de um abraço carregado de gratidão sincera, de um “obrigada” em forma de sorriso? Claro que não. São os ideais, tantas vezes as utopias, que fazem com que o mundo avance como bola colorida nas mãos de uma criança, como se cantava na época em que o país inteiro vivia inebriado com as promessas do 25 de Abril.
A vida apenas nos ensina a ser menos apaixonados e provocadores.
Num momento de inspiração, em que as nossas ambições se concretizam, somos bestiais. Quando os dados do jogo se alteram, se vira o tabuleiro, nos saí consecutivamente o vermelho depois de uma aposta firme no preto, então mais vale estar preparado para enfiar as “orelhas de burro” e ultrapassar com a dignidade possível os tempos que se seguem, em que é garantido que seremos vistos como “bestas”.
A boa notícia é que “não há mal que sempre dure” e quando se bate com os pés no fundo é certinho que regressamos à superfície mais depressa.

Hoje o Brasil vai a votos.
As eleições têm sido um pagode ao estilo da melhor novela do horário da tarde, que têm todas retoques da mais kitch produção venezuelana. Paródias à parte, tenho de admitir que há muitas coisas que admiro no povo brasileiro. Naquele povo que não vive numa grande cidade como S. Paulo, cuja população padece dos mesmos vícios e tiques de qualquer americano de Nova Iorque, mas no povo da “rocinha”, das praias do nordeste, dos bairros mixurucas, do bonde, do trem, do chinelo no dedo e da geladinha.
Uma das coisas que aprecio nessa tal malta que é um misto de alentejano com hippie, é a capacidade de viver um dia de cada vez. Direi mais, cada minuto a seu tempo, com a preocupação de ter apenas uma rede para dormir, a roupa suficiente para não andar nu, dinheiro no bolso para se alimentar e para fazer rodar a baiana.
Desde sempre conhecemos os brasileiros, como malta alegre e bem-disposta, com uma cantiga nos lábios, um samba no corpo e paz no coração, muito antes deste país se ter transformado no case study de crescimento económico que agora é. Isto, num contexto de violência mais cruel do que a que retratam as séries do FOX Crime, de pobreza que fica em tantos casos abaixo dos limites do aceitável, de injustiça social terceiro mundista, de falta de emprego qualificado e de tantos períodos de inflação com taxas de 20 a 30% ao mês!
Disse Lula da Silva, o operário de vocabulário limitado que já foi capa da Time como homem mais influente do mundo, que acreditava que o país “estava andando rumo ao ponto certo.” Pasmem-se agora com a revelação – e isto é absolutamente verdade, foi mesmo dito e reproduzido na sexta-feira numa reportagem da TSF – “andando com muita solidez para encontrarmos a possibilidade ou o chamado ponto G”.
G de Gigante interpretou o jornalista Nuno Amaral no seu brilhante trabalho.
G de Geopolítica para um país de riquezas imensas que esteve mais de vinte e cinco anos estagnado com a conivência dos políticos corruptos que superintendiam este império.
Os factos demonstram-no. Com Lula da Silva o Brasil renasceu, afirmou-se no mundo. Esta afirmação do país elevou a auto-estima de um povo que até então era associado a morenas de bunda grande que desfilavam sambando nos seus corpos curvilíneos suados. Nós por cá, também tivemos um brasileiro que de repente nos fez ter um orgulho enorme em manter a bandeira nacional hasteada nas janelas e nas antenas dos carros... Nós por cá, assistimos hoje incrédulos a uma multiplicação de histórias de corrupção, favorecimento e enriquecimento ilícito... O Brasil ascendeu a potência mundial, nós descemos ao nível do Brasil no tempo de Collor de Melo, apesar de nenhum dos nossos governantes ter o cabelo empastado com brilhantina.
Lula da Silva foi um analfabeto que chegou ao poder com ideias malucas como fome zero, bolsa-família e bolsa-escola, que tanto aperta a mão a Barak Obama como a Hugo Chavez, não porque é inocente ou lerdo, mas porque estar do lado do homem que manda no mundo e do homem que se senta sobre tanto petróleo lhe interessa, e esta política de “dar-se bem com Deus e com o Diabo” até tem sido positiva num país fervorosamente católico mas que acredita em macumbas e é viciado no jogo do bicho.
Lula tornou-se um mito. Não é de esquerda nem de direita, é um líder popular, uma espécie de Rei da escola de samba. A sua política económica foi conservadora mas orientada para o social. Ambivalente, paradoxal. Podia ter sido um desastre económico mas foi um sucesso.
O american dream em versão brasileira que permitiu que um sindicalista que não pertencia à classe política dominante ascendesse ao Palácio do Planalto.
O Brasil não avança ao som de um samba de uma nota só. Lula da Silva teve a habilidade de gerar consensos, fazendo cedências à estrutura de poder tradicional, às elites que, por tradição, sempre ocuparam a governação, mas cedendo direitos a uma enorme massa eleitoral, ao povo que se fica pelas favelas, pela carne seca e pelo feijão.
8 anos de governo Lula da Silva. 80% de taxa de popularidade para um presidente que não brilha pela fotogenia nem pela retórica. 8.ª potência económica mundial. 8% de taxa de crescimento este ano.
No Brasil diz-se de Lula que é “o pai dos pobres e a mãe dos banqueiros.” Lula seguiu a economia capitalista porque no mundo em que vivemos não há alternativa. Encostou-se a uma outra economia com taxas de crescimento de dois dígitos – a chinesa - em vez de continuar refém do amigo americano e do irmão europeu. Contudo, seguiu à risca as medidas de política económica e financeiras determinadas pelo Banco Central, por definição, apartidário.
No Brasil, graças aos programas de combate à pobreza, redistribuição do rendimento e estímulo à mobilidade social, há efectivamente uma classe média emergente e uma classe baixa que vive hoje um pouco melhor. Há também o Movimento dos Sem Terra que funciona no interior como uma espécie de reforma agrária, mas não há fábula que não tenha bruxas, momentos idílios e momentos maus.
Estamos a falar de uma nação com 192 milhões de habitantes. É um milagre que em 8 anos tenha sido possível mudar a vida a tanta gente.
Alegam os críticos que as medidas introduzidas serão apenas eficazes num horizonte temporal de curto prazo. No geral, nesse dito curto prazo, e porque o povo brasileiro é mesmo assim, todos estão gratos e satisfeitos porque hoje, no presente, a esta hora, se vive melhor.
O programa bandeira do Governo de Lula da Silva, o combate à desigualdade social, apesar de padecer dos mesmos vícios que tem por cá a política do rendimento mínimo de inserção, retirou muitos brasileiros do limiar da pobreza absoluta. Pergunto-me até que ponto uma revisão constitucional reflectida, assente numa melhoria efectiva do chamado Estado social, não poderia ter evitado que chegássemos hoje, no nosso país de apenas dez milhões (em S. Paulo moram mais pessoas do que em Portugal!!!!), a uma situação de crise tão grave que só com cortes que penalizam directamente os cidadãos podemos acalentar a esperança de nos manter à tona da recessão.

Peço desculpa mas não consigo parar de falar no caso Casa Pia.
No rescaldo do julgamento, das conferências de imprensa, das entrevistas, do debate e das publicações que fez Carlos Cruz na internet ficam poucas certezas, mantêm-se muitas dúvidas.
Em primeiro lugar, não há hesitação alguma em relação aos factos provados: existem vítimas e existem culpados. A questão é “quem são os culpados”?
Por muito que a opinião pública e que a justiça popular se congratule com o facto de que na sexta-feira foram condenados os arguidos que deram a cara no processo, é indubitável que existem outros nomes, outros clientes, outros abusadores continuados ou pontuais dos miúdos da Casa Pia.
Quem investigou o caso garante que a Casa Pia se começou a transformar numa espécie de paraíso pedófilo nos anos sessenta. Durante tantos anos, muitos foram os crimes, quer dos homens que efectivamente abusaram daquelas crianças, quer dos funcionários, professores, provedores e políticos, que tendo conhecimento do que se passava, fingiram não saber, calaram o que sabiam, foram coniventes com essas práticas, solidários com os criminosos e indiferentes em relação às vítimas.
A juíza Ana Peres lá fez a sua reprimenda à instituição, com referências ao lar, à família e blá, blá, blá, mas é inadmissível que quem tutelou, dirigiu, trabalhou na Casa Pia não tenha sido também arguido. No mínimo foram cúmplices. E a cumplicidade é crime.
Em segundo lugar, causa-me estranheza a posição dos intervenientes no processo. Como é possível que, tendo havido tantos actos de pedofilia, tão continuados e com tantos perpetradores, as vítimas se congratulem com o facto de serem condenados os únicos pretensos pedófilos que foram os arguidos? Então e os outros? Então e as tais personalidades ilustres e importantes que escapam impunes? Como é que as vítimas ficam sossegadas sabendo que os homens que os abusaram continuam por aí, provavelmente a servir-se de outros miúdos? Porque não são citados outros nomes? Porque não se provam outros crimes?
Quando o PS recebeu em braços, em plena Assembleia da República, numa triste cena de novela mexicana, o deputado Paulo Pedroso depois de este ter sido despronunciado no âmbito do processo Casa Pia, cometeu o erro crasso de trazer este processo judicial para a órbita da política. A partir daí tornou-se flagrante a politização de um caso de justiça e desde então, com os sucessivos casos nebulosos que foram fazendo notícia – como o Freeport e o Face Oculta – é impossível não pensar que há uma enorme promiscuidade entre o poder político e as burocráticas possibilidades do nosso sistema jurídico, que transformam os julgamentos em jogadas administrativas, expedientes, requerimentos e certidões, atulhando de processos sem sentença os nossos tribunais.
Como cidadãos e eleitores temos todos legitimidade para questionar a justiça que se faz em Portugal e especular que o nosso brando país é um covil de mafiosos mais insidiosos e falazes do que os que existem na Sicília.
Em terceiro lugar, sou obrigada a conceder que fazer justiça tanto é condenar como absolver e que a possibilidade de recurso é um dos garantes do nosso sistema jurídico. Choca-me contudo que, perante a lentidão de um processo que é evidente que nem advogados, nem juízes nem o Ministério Público estavam preparados para gerir, se coloque a eventualidade de prescrição destes crimes. Chocam-me também as tranquilas declarações da Dr.ª Catalina Pestana ao afirmar que para as vítimas o processo terminou na sexta-feira. Então o suficiente era que o seu estatuto de vítima fosse reconhecido? Para que tal acontecesse não bastavam as perícias médicas e as confissões de Bibi? Como podem os abusados ficar tranquilos sabendo que tantos homens que os sodomizaram e sujeitaram a outras práticas sexuais podem um dia cruzar-se no seu caminho?
Há neste processo uma nuvem muito mais densa do que a que paira sobre a cabeça do Carlos Queiróz (até parece mal fazer esta analogia) e que tem a ver com a identidade dos muitos criminosos que se serviram dos rapazes e raparigas da Casa Pia para satisfazer as suas depravadas fantasias. Com isto só posso mesmo suspeitar que existe um imenso interesse corporativo que protege os seus membros e ameaça de tal forma os delatores que jamais permitirá que os afiliados sejam julgados pelos seus crimes. Sejam de pedofilia, de corrupção, de branqueamento de capitais, de tráfego de influências ou de qualquer outra das práticas ilícitas que enchem as páginas dos jornais com revelações que mais parecem de ficção científica.
Por último, um comentário à comunicação social. Não há dúvida alguma de que o jornalismo de investigação foi mais longe, mais rápido e com mais eficácia do que a Polícia Judiciária. Ainda bem que este caso foi notícia! O que se passou depois é que já é de um mercantilismo chocante. Os diferentes órgãos de comunicação social foram servindo as notícias sobre o processo como uma espécie de prato do dia: num dia pescada cozida com todos noutro rojões à moda do Minho, num canal a favor das vítimas noutro a tender para os arguidos. A grande final, no dia do julgamento, tornou-se num circo mediático à semelhança dos que sabemos existir nos Estados Unidos, com o caso a transformar-se numa competição jornalística que chegou aos limites do fastidioso e descabido.
Muito mais se falará sobre este processo, mas o que era realmente relevante esquadrinhar são as causas que mantêm ocultos os nomes das pessoas que cometeram os crimes que ao longo de décadas se passaram na Casa Pia.
Teorias dos outros
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