Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.

Quarta-feira, 7 de Março de 2012
Dia 8 de Março: dia do cliché

Esta tarde, para vencer o tédio de uma sala de espera para uma consulta de ginecologia, resolvi navegar pela net no Blackberry, já que na CUF não há revistas de entretenimento, nem sequer em edições fora de prazo.

Entre os banners do costume surgiu um a relembrar que amanhã é o Dia Internacional da Mulher. Ocorreu-me então, naquele ecosistema particular de mulheres em idade fértil (por casualidade não havia menopáusicas na sala) que amanhã se celebra uma data consagrada às Evas parideiras, segundo consta criadas a partir de uma costela de um homem com barbas para assegurar a reprodução da espécie, não o dia das Amazonas, das Barbies ou das Maria Madalenas.

(Só por curiosidade, na mesma janela uma notícia sobre um muçulmano, alegadamente um religioso, que foi preso em Madrid pela autoria de um vídeo em que explicava aos maridos como bater nas esposas...)

Creio que já ninguém se dá ao trabalho de comemorar esta data - a crise impõe contenção na oferta de rosas ou outras flores - e também me parece que cada vez menos feministas convictas se concedem algum tempo para se incomodar com o facto de existir no ano um dia em que se celebra a Mulher.

Os lugares-comuns e soundbytes da data evocam as discriminações sexuais, a violência doméstica, a exploração sexual e outros temas, que sendo relevantes e pertinentes, são fenómeno quotidiano, universal e histórico, não requerendo por isso de um dia de agendamento. A sociedade evolui e com esta diminuem os exemplos escandalosos, mas é tão certo que a discriminação sexual continuará a existir - por mais injusta ou infundada - como persiste a segregação baseada na cor, na raça, ou até na cor do cabelo (não posso deixar de lamentar o preconceito que grassa contra as loiras, mesmo as de raíz morena...).

Chocam-me as histéricas que ficam vermelhas uma vez por ano porque a existência de um Dia Internacional para a Mulher as humilha tanto como um apedrejamento, como me chocam também as desgraçadas que permanecem amarelas um ano inteiro a suportar agressões verbais, físicas ou qualquer outro tipo de violência. 

(Não sei se perceberam mas fiz aqui um trocadilho com a expressão

"antes uma vez na vida vermelha do que a vida toda amarela")

Choca-me tanto que para algumas mulheres a igualdade advenha de um comportamento promíscuo - o dito "comportamento à homem" que basicamente equivale a ir para a cama com todo o macho que mexa - como que para outras a independência ou emancipação das amigas seja sinónimo de comportamento desviante.

Choca-me muito que seja preciso um dia para relembrar as indiossincrasias e vicissitudes associadas à aleatoriedade de nascer com sexo feminino, mas choca-me mais o silêncio consentido de quem exerce, assiste ou compactua com qualquer tipo de atentado à dignidade humana, qualquer que seja o género, a idade ou o credo do agredido.

Esta teoria tropeça nos clichés do costume, mas o que me ocorreu enquanto esperava impaciente pelo exame médico de rotina, que presumo seja menos incómodo que um exame à próstata, não foi o simbolismo do dia Internacional da Mulher mas o que é suposto ser todos os dias para manter o estatuto - DE MULHER, SIMPLESMENTE UMA MULHER- sem associar um acaso genético à condição de mártir, meretriz, mãe, cabra, escrava, bem de luxo, lixo, troféu ou saco de porrada.

 



publicado por teoriasdacosta às 21:33
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Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011
Vamos fingir que somos crianças...

 

Toda a gente sabe que “o melhor do mundo são as criancinhas”.

Confesso que não sou daquelas mulheres que ficam histéricas quando se cruzam com um bébé e, se alguma vez houve um tic-tac no meu relógio biológico, foi há tanto tempo que arquivei o chamamento para a maternidade como uma coisa do meu passado arqueológico. Apesar de ter APENAS trinta e oito anos e de tanta gente insistir que ainda vou a tempo de experimentar a intraduzível sensação de amor que é gerar no ventre um ser humano, decidi aos trinta e qualquer coisa que não queria ser a mãe mais velha do infantário.

Esta é uma decisão meramente prática: tudo tem um tempo e uma oportunidade. Podemos prescindir de soutien se as maminhas forem copa trinta e dois, mas só até aos doze anos; não devemos ousar nos decotes se essa copa ultrapassar os trinta e quatro, qualquer que seja a idade; não podemos usar saia com tamanho micro-mini depois dos dezoito se não crescermos para lá do metro e sessenta e cinco mas só enquanto coubermos no maior dos tamanhos da secção de criança (equação muito difícil de fazer a não ser para as estúpidas das magras...).

Mesmo não querendo ter filhos confesso que acho uma certa piada aos miúdos, principalmente em idade pré-primária. Em doses de “prato de sobremesa”, confesso, porque assim como o abuso de doces tem consequências perigosas, também o convívio excessivo com seres de um metro, mais coisa menos coisa, tem os seus efeitos nocivos, quando as crianças não são nossas, claro está!

Ouvi de bocas de miúdos ainda suficientemente imunes às Play Station e aos telemóveis, as saídas mais espontâneas e as perguntas mais deliciosas. Como quando a minha priminha de cinco anos ao perceber que o meu pacote de TV Cabo não incluía o canal Panda me comunicou pesarosa que “quem não tem Panda não pode ter filhos”, ou quando o meu vizinho de três anos e qualquer coisa perguntou com curiosidade de engenheiro de aeronáutica “como é que as moscas dão as curvas?”

Este fim-de-semana, num bucólico cenário de prados e vacas, sempre rodeados de água, hortênsias e rochas, dei por mim num passeio com um casal que procurava desesperadamente mostrar à sua filha de oito anos todas as fotográficas maravilhas ao redor de Ponta Delgada. O impossível aconteceu e, numa estrada de um sentido só, estreita demais para uma inversão de marcha, nos deparamos com um engarrafamento provocado por um carro de aluguer mal estacionado que bloqueava a passagem de um autocarro carregado de turistas da terceira idade.

O pai da menina entrou em desespero. Vociferou, bateu com as mãos no volante, praguejou, perdeu a calma numa amplitude que me pareceu despropositada, até que cinco minutos depois o condutor distraído apareceu e retirou a sua viatura da berma da estrada.

Comentei eu, que procuro sempre desanuviar o ambiente com a deixa da loira bem-disposta “pronto, já passou, ainda vamos ver as furnas antes que o Sol se esconda nas montanhas!”. Acrescentou a menina num tom solene de quem recita uma oração “vamos fingir que estes cinco minutos nunca aconteceram.”

“Fantástico!” pensei, não resistindo a agradecer tamanha sabedoria com um cúmplice piscar de olhos “ a vida é mais fácil de digerir se fingirmos que os momentos maus que nos amarguram foram apenas um sonho mau, um pensamento vago, um sopro que não deixa marca nem odor, apenas a sensação de que pairou sobre nós um espectro ou de que fomos atravessados por um fantasma.

 

O que não for suficientemente bom para ficar na memória

deve ser apagado.

 

Como dizem numa rádio que de há tempos por cá se lembrou de nos tratar a todos por tu “vale a pena pensar nisto...”

 



publicado por teoriasdacosta às 22:06
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Segunda-feira, 4 de Julho de 2011
Sinto muito

 

Quem me leu na semana passada deve ter achado que eu andava a cair para o deprimido ou coisa parecida. Nada disso. Depois daquele calor infernal de domingo descobri que as dores de cabeça e enjoos que se apoderaram de mim era os sintomas da primeira enxaqueca da minha vida!

Seja como for, apesar de não andar triste, tenho de por aqui partilhar um livro que li por estes dias e que é um estado de dor contínua.

“Sinto muito” - escrito pelo médico especialista em neuro-oncologia pediátrica Nuno Lobo Antunes - é uma compilação de textos escritos para a Lux (aqueles que pretendem dar um conteúdo menos “levezinho” a estas revistas ditas femininas). Confesso que neste tipo de impresa, nem sempre cor-de-rosa, vejo apenas as fotos e pouco mais do que isso. Jamais me interessaria por ler uma crónica, mesmo que assinada pelo Gandi, porque sempre que passo os olhos por essas prosas deparo-me com aquela conversa melancólica e piegas que pelo Brasil se apelida de “conversa para boi dormir”.

A pessoa que estava comigo no dia em que comprei o livro, que por acaso até mo sugeriu ao ver que eram crónicas (uma espécie de teorias, digamos), avisou-me logo que o médico era um parvo. Um homem frio, arrogante, provavelmente excelente como profissional, mas incompetente no contacto que exige mais de sentimento do que de rigor científico.

Comentamos ontem entre amigos, essa característica dos “médicos cientistas” que os leva tantas vezes a tratar os seres que tomam entre as mãos como objecto de estudo e não como almas com vida. Para médicos destes haverá uma tentação, provavelmente indomável, para ser o investigador que dá o nome a uma nova doença ou bactéria, o responsável pela descoberta de novos métodos para curar dores, apagar doenças ou restituir aos que têm morte datada mais alguns anos de vida.

Lê-se na contra-capa que “há no médico o desejo de ser santo, de ser maior. Mas na sua memória transporta, como um fardo, olhares, sons, cheiros e tudo o que o lembra se ser menor e imperfeito”.

Neste livro, Nuno Lobo Antunes assume em muitos textos um mea culpa pelas vezes em que teve de comunicar aos pais diagnósticos improváveis, interpretados como impossíveis. Escreve o médico que me descreveram como insensível, que para os pais, principalmente para as mães, perante o choque que anuncia um sonho de paternidade que não será cumprido quando um filho nasce imperfeito, com danos quase sempre irreversíveis,  torna-se verdadeira a premissa de que o amor tudo cura. Neste contexto, o “desafio amassado de zanga e raiva” que normalmente é lançado com o olhar ao mensageiro da má notícia, é uma antecipação de uma tragédia maior que é pesar sobre a mulher que em si gerou uma vida, a culpa de não ter sido capaz de amar o seu filho o bastante para evitar que o diagnóstico se confirme.

“Sinto muito” como interpreta António Damásio no prefácio do livro, está para além do “lamento”. “Esta última é uma expressão formal de lástima, a primeira acentua um sentimento devastador de perda”.

São imensas as frases que tenho vontade de partilhar. Mas para que este texto não se transforme numa longa agonia, termino com um resumo da crónica em que Lobo Antunes explica porque se especializou em neuro-oncologia pediátrica, com dias seguidos de vitórias, em que as derrotas sequer podem ser celebradas por pairar sobre estas a probabilidade quase certa de uma recidiva. Escreve o autor que nesta especialidade conhece a cada dia a humanidade no seu melhor: “na Coragem, mas sobretudo, no Amor”.

Eu, que passei no ano passado pelo IPO, acompanhando uma amiga não muito próxima, reconheço nestes argumentos a coragem para manter sorrisos, olhares e sonhos, entre sessões de quimioterapia; o amor que desperta sabe-se lá de onde e que faz com que mãos se toquem, corpos estranhos caíam em braços que desconhecem, lágrimas rolem pela face da pessoa que encostou ao nosso o seu rosto num acto espontâneo de humanidade que dá um outro sentido aos nossos dias.

 



publicado por teoriasdacosta às 22:09
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Domingo, 1 de Maio de 2011
O dia da Mãe

 

Hoje lá se celebrou mais um Dia da Mãe.

Não sou grande fã destas celebrações por decreto, nem de clichés como “o dia da Mãe é todos os dias” e “o Natal é quando um homem quer”.

É claro que fui ao Porto almoçar com a minha Mãe, a melhor do mundo, como não poderia deixar de ser.

Para ela, antiga como é e educada como foi rodeada de freiras, beatas e benfazejas, o dia da Mãe celebra-se 365 dias no ano, mas festeja-se a 8 de Dezembro, o dia da Imaculada Conceição, aquele que representa o primeiro instante da existência de Virgem Maria.

Para mim, tão importante como estar com a minha Mãe no primeiro domingo de Maio e em todos os dias em que consigo, é abraçá-la com força no dia 8 de Dezembro.

Isto porque há dois anos, estando eu a passar uma das piores fases da minha vida, fomos almoçar as duas, numa das muitas ausências do meu Pai em trabalho. Foi um almoço de lágrimas, como foram tantos outros que aconteceram naquele final de ano e no início do ano seguinte, mas marcou o momento em que finalmente percebi quão extenso, profundo e inquebrantável é esse sentimento místico que se designa por “amor de mãe.”

Palavras definitivas como “incondicional”, são adjectivos fortes que até podemos verbalizar com displicência mas que dificilmente conseguimos manter na vida como compromissos discricionários. A minha história pessoal está pejada de exemplos em que os “nuncas” se converteram em “talvez”, as “oportunidades únicas” passaram a “possibilidades transitórias”, os “sim” foram mentiras e os “não” meias verdades.

No dia 8 de Dezembro de 2009 percebi o verdadeiro poder do amor da minha mãe. Uma força capaz de destruir montanhas, voar sobre precipícios, lutar contra inimigos, espantar fantasmas, curar dores com um beijo e fazer desaparecer os medos com o mais seguro dos abraços.

O amor de mãe é mesmo incondicional, infinito, intenso, nobre, acima de qualquer razão, nem sempre lúcido mas de uma veemência extraordinária.

Aos trinta e oito anos considero que passou o prazo de me candidatar à maternidade. Sinceramente não o lamento porque me assusta a responsabilidade e o sofrimento que pressupõe tal relação umbilical, que não se corta no momento do parto, mas antes se desenvolve e solidifica no tempo e no espaço.

Ser Mãe pode ser uma benção, mas pode também ser um karma, no sentido esotérico do termo que corresponde a um “conjunto de deméritos acumulados”.

Não tive uma relação fácil com a minha Mãe na adolescência porque nos separavam barreiras que com o passar dos anos se foram agudizando. Demoramos largos anos a encontrar-nos e foi preciso eu passar por uma situação de gravidez para finalmente nos aproximarmos.

Na altura, com uma observação fugaz do meu corpo ao espelho percebi que já não estava grávida. E o meu coração, que ainda mal se habituara à ideia de que no meu ventre se gerava um feto, ficou imediatamente reduzido para metade.

Percebo pois o que é ser Mãe no coração. E é com o coração que mães e filhas estabelecem os seus próprios códigos de linguagem.

Para tudo o resto, não há palavras...

 



publicado por teoriasdacosta às 22:27
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Terça-feira, 8 de Março de 2011
Dia Internacional da Mulher... uma data no calendário, sem ofensa...

 

Hoje, feriado de Carnaval, também é o Dia Internacional da Mulher. Recebi até uma flor por causa disso!

Como não me identifico com o estilo que queima soutiens e entende que é sinal de emancipação ter pêlos nas axilas, não me choca nem me ofende que exista um Dia Internacional que me celebra enquanto género. Esta data não me submete nem me inferioriza. É tão natural como o Dia da Árvore ou da Osteoperose ou da Àgua ou das Víndimas.

Há um ressabiado discurso feminista que se revolta contra o paradigma patriarcal e sexista implícito na celebração da mulher numa data comemorativa. Normalmente estas reaccionárias evocam os tempos da Inquisição em que eram perseguidas as mulheres por se decretar que as insubmissas com opinião eram bruxas ou estavam possuídas. Nos discursos mais inflamados recua-se ao machismo implícito no Gênesis que faz surgir Eva a partir de uma costela de Adão em vez de cinzelada em mármore por um Deus com talento de DaVinci ou nascida de um nenúfar qual fada ou ser místico.

Não ignoro nem subestimo que existiram na história mulheres notáveis, cuja perseverança, coragem e audácia, permitiram que o sexo tido como fraco se emancipasse e conquistasse direitos exclusivos dos homens, tendo algumas granjeado essas vitórias com a perda da própria vida.

Não suporto é a demagogia a tender para o lamechas que defende que as mulheres são seres para lá do extraordinário porque conseguem ser mães, companheiras, ter carreiras profissionais, ir às compras no intervalo de almoço, cozinhar numa hora seis refeições para três dias, ser brilhantes em reuniões de direcção, frequentar o ginásio pelo menos duas vezes por semana e estarem sempre com bom aspecto, mesmo depois de dez horas em saltos altos com uma saia justa.

Para mim ser capaz de fazer tudo isto é normal. É suposto quando se tem objectivos amplos de vida.

Para mim, para as mulheres da minha geração, para a minha Mãe e para as suas amigas, ter nascido mulher não é incompatível com ter uma carreira, uma identidade para além do papel social de mulher e de mãe. Não é depreciativo passar uma tarde na cozinha de avental a fazer bolos nem sinónimo de futilidade fugir por umas horas até ao SPA para fazer uma massagem e ter como rotina semanal arranjar o cabelo e as unhas.

Não estou alheada do que se passa para lá do meu mundo urbano ocidental onde há ainda mulheres que caminham cabisbaixas atrás do homem que as violenta física e psíquicamente, sobrevivendo na condição de servas sem sequer terem o direito de olhar nos olhos quem as maltrata e agride. Também não ignoro que algures na minha rua é provável que exista uma mulher que leva porrada do marido, outra que já foi violada e outra que tenha de se defender todos os dias do assédio do seu chefe no local de trabalho.

Eu, que andei em escolas públicas mistas, frequentei a catequese e entrei para a faculdade, sem que em momento algum me tenha surgido qualquer dúvida de que meninos e meninas eram iguais, excluíndo-se a parte fisionómica do pênis e da vagina, constactei mal entrei no mercado de trabalho que no processo de selecção uma pergunta quase certa nas entrevistas era saber se eu era casada, e se tinha ou queria ter filhos (questão tão improvável para colocar a um candidato homem como perguntar-lhe se ele é gay e se tem hobbies fetichistas). Concluí rapidamente que os homens ganham mais para iguais funções e que uma mulher que queira subir na carreira tem de ter apetência para desportos radicais porque a ascensão faz-se sempre numa escarpa íngreme com acentuado declive. Verifico ainda, que quando os filhos ficam doentes ou caem na escola e abrem a cabeça, é suposto que seja a mãe a largar tudo para prestar assistência, porque é assim que está convencionado ou dá mais jeito ou está inscrito na nossa carga genética.

Sem querer ser machista, muito menos feminista, cínica ou hirónica, a inteligência humana está em sermos capazes de ultrapassar a lógica invisível da definição de papéis, medição de forças ou ponderação de traços de carácter. Homens e mulheres são efectivamente diferentes para além dos orgãos genitais, mas essas diferenças não determinam que elas sejam menos capazes do que eles – mais fracas em termos físicos talvez, e mais sensíveis sim, sem qualquer sombra de dúvida – ou que não agradeçam quando eles, num sinal de boa educação que caí sempre com imenso charme, lhes dão passagem ou cedem a vez numa fila.

Proclamar que há igualdade de direitos entre homens e mulheres – porque há mulheres a conduzir autocarros ou homens a seguirem a vocação de educadores de infância - é pura demagogia. Mas insistir em enfatizar nas mulheres apenas o seu sofrimento de vítimas é ser parcial e desvalorizar a grandeza das mulheres que nos inspiram.

A celebração de um dia que é Internacional e é da Mulher, é apenas mais uma data de calendário não é uma piada ofensiva.

 



publicado por teoriasdacosta às 21:26
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Sábado, 11 de Dezembro de 2010
Ansiedade pré-Natal: o antídoto

 

Andava eu nesta angustia ingrata de quem tem tantas pessoas que a querem bem, queixando-me de não ter tempo para cinco minutos com cada alma que completa a minha, quando a minha Mãe, na sua imensa sabedoria, com aquele truque simples que descobri no momento em que me anestesiou a dor com um beijo, me aliviou de todos os dramas.

Quinta à noite, chegada ao Porto de uma viagem de trabalho, cansada e sem jantar, eis que encontro na minha sala uma belíssima árvore de Natal. Senti-me como em criança quando entrava em casa vinda da ceia na casa de uns tios, e descobria num êxtase próximo do delírio que o Pai Natal tinha mesmo conseguido entrar pela janela da sala (inquietava-me que não tivessemos lareira e que fosse demasiado estreita para uma figura tão volumosa a saída do exaustor) deixando presentes com o meu nome debaixo da árvore, que naquele tempo era um pinheiro natural. É engraçado que se mergulhar nas recordações mais remotas, dos tempos em que eu acreditava mesmo no senhor de barbas, nem sequer me recordo de escrever uma carta ao Pai Natal. O que eu queria era prendas. Surpresas. Papel de embrulho para rasgar.

Ao entrar em casa e ver a majestosa árvore, o meu coração transbordou com essa felicidade que não tem nome, nem marca, nem gigabytes e que é precisamente a de sermos surpreendidos por uma dádiva, uma coisa que é tão simples como discretos são todos os pequenos sinais de amor.

Ocorreu-me que o Natal é isto. É estar, dar, partilhar. Estarmos presentes, darmos um abraço, partilharmos tempo, o que é nosso - o tal que eu me lamentava de não conseguir esticar - e o que é dos outros - sim, porque os outros também abdicam de outra coisa qualquer para passarem uns minutos ou horas ao nosso lado.

O antídoto para tanta correria, disparate, pressa, atropelo, é simplesmente amor.

Nos próximos dias a minha prioridade vai ser estar com as pessoas a quem eu quero mais do que mandar a sms standard, daquelas que até vêm com luzinhas e bonequinhos, piadas, graçolas ou frases feitas densas no significado, que se enviam por defeito para todos os nomes da lista de contactos. O tempo há-de ser suficiente. Entre viagens, no bairro, na cidade ou pela auto-estrada, hei-de conseguir chegar a todo o lado com um presente cuidadosamente escolhido e não com uma solução instantânea desencantada na loja de uma bomba de gasolina ou na primeira montra natalícia que me surgiu à frente assim que entrei no shopping.

Quando chegar ao dia 24 lá estarei sentada à mesa, na sala onde os meus pais tiveram o cuidado e paciência de decorarem a árvore.

Até lá...

 



publicado por teoriasdacosta às 20:34
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