Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.

Quarta-feira, 2 de Maio de 2012
1 de Maio: dia do consumo

 

Quando ontem me falaram da promoção do Pingo Doce - 50% de desconto directo nas compras superiores a 100€! - pensei que se tratava de uma espécie de "mentira de 1 de Abril - versão de 1 de Maio".

Só acreditei porque algumas pessoas que conheço tiveram a paciência de santo, a manha de cigano e a perícia de atleta de corta-mato para investirem  as horas de ócio do seu feriado na compra das mercearias que conseguiram arrumar no carro (depois de sacarem um qualquer veículo com rodinhas e permissão para circular em espaços fechados).

Ontem por acaso era o Dia do Trabalhador, para muitos apenas um feriado que ainda não foi sonegado.

As centrais sindicais que ainda por cá se arrastam fizeram questão de celebrar a data em separado, acto de egoísmo político inexplicável numa conjuntura que exige um espírito de mosqueteiro - o apelo ao "um por todos, todos por um" - não uma passeata com as bandeiras e cartazes do costume, uma algarviada de discursos standard e um resultado prático igual a menos que nada quando a notícia do dia acabou por ser uma muito bem esgalhada estratégia de marketing.

Esta noite, nas notícias da SIC, foi evidente a demagogia ridícula dos políticos que supostamente nos governam:

1.º Se os deputados são eleitos pelo povo, então os senhores e senhoras que se sentam no parlamento deveriam ter a noção de que ao povo interessa pagar menos pela conta do supermercado. Podemos (devemos) poupar nos supérfulos mas comer ainda é uma necessidade básica.

2.º Nenhum dos deputados entrevistados foi ao Pingo Doce para aproveitar a mega-promoção. Se uma vantagem tão evidente não tocou o coração nem o cérebro dos senhores e das senhoras do parlamento, então é provável que o seu salário ainda esteja sobrevalorizado.

3.º A ignorância ou inocência dos deputados é tanta que presumem que o grupo Jerónimo Martins cometeu dumping ao praticar um desconto de 50%. Eu, que trabalho na distribuição, tenho noção das diferenças entre preços de compra e preços de venda. Mas mesmo quem não sabe quanto custa um litro de leite ou uma palete de detergentes, nem atinge que a gestão dos supermercados não é feita com aplicação de uma margem fixa indiscriminadamente, mas sim da combinação de margens diferentes com permissão para ganhar apenas cêntimos no que se vende muito e alguns euros no que vende menos, há-de perceber que numa empresa privada que visa o lucro, onde há accionistas que esperam receber dividendos, nenhuma decisão é assumida de forma tão leviana como ocorre no Governo.

A respeito do 1 de Maio e da vitória laboral que este simboliza - a redução da jornada de trabalho de 16 para 8 horas, para quem não sabe - o que apraz dizer é que é muito bom ter direito ao feriado. Devemos pois estar gratos pela tenacidade dos manifestantes que em 1886 iniciaram o protesto que veio beneficiar toda a população empregada do mundo (mundo em sentido restrito, entenda-se, porque esta coisa do dia de trabalho compreender 8 horas tem muito que se lhe diga...).

Nos dias que correm devemos acima de tudo estar gratos por ter trabalho, do bom, do remunerado e com os descontos em dia.

Tudo o resto - contrato, efectividade, prémios e regalias - são luxos distantes da realidade possível. Não sou conformada nem subserviente, apenas sei que na vida, como nas empresas, os que resistem à mudança lideram a lista dos dispensáveis.

Haja bom senso...

 



publicado por teoriasdacosta às 20:14
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Segunda-feira, 6 de Junho de 2011
Adeus Sócrates

 

 

Sempre fui uma pessoa de extremos: amo ou odeio.

Julgava não ter meios termos nem mais ou menos, semi-frios, agri-doces, mesclados, matizados ou bejes. Descobri recentemente que afinal, entre o oito e o oitenta existe uma possibilidade.

Quem me conduziu a essa descoberta foi José Sócrates.

Com o Primeiro-Ministro que já era, descobri que é possível odiar uma pessoa e mesmo assim admirá-la. E a admiração, como descrita no dicionário Priberam, é um“sentimento agradável que se apodera do ânimo ao ver coisa extarordinária, bela ou inesperada”.

Em relação a Sócrates consigo experimentar um misto destes sentimentos, não da mesmo forma como me delicio com uma redução de chef que mistura compota de frutos silvestres com mostarda, mas como me surpreendo com uma daquelas instalações que de repente surgem numa exposição no CCB ou no jardim de Serralves, que a partir de um monte de lixo edificam um conceito que dizem que é uma ponte ou uma retrete, deixando-me num estado de catatónica perplexidade.

Quem estudou gestão encontrou certamente entre os compêndios sobre estratégia, referências a um manuscrito escrito por Sun Tzu no século IV a.c. que contém uma série de instruções milimétricamente estudadas sobre a arte de vencer uma guerra com recurso à inteligência militar. Uma das recomendações estratégicas de Sun Tzu é “(...) um comandante militar deve atacar onde o inimigo está desprevenido e deve utilizar caminhos que, para o inimigo, são inesperados...”

É precisamente o que escreve Ricardo Costa numa reportagem brilhante que saiu na revista do Expresso no início de Abril quando refere que uma das mais notáveis características de Sócrates é a forma como conduzia as entrevistas e debates, manipulando os temas de forma a evitar as questões polémicas e a destacar os seus feitos relevantes. Foi mais ou menos assim que Sócrates escapou às notícias que poderiam ascender ao estatuto de escândalo do Face Oculta, do Freeport e da licenciatura dúbia baseada numa boa nota em Inglês técnico numa universidade particular.

Quando se começou a vislumbrar o falhanço do P.E.C. III, a pouco provável aprovação do P.E.C. IV e o inevitável recurso à ajuda internacional, Sócrates seguiu nova recomendação do japonês milenário: “O verdadeiro método, quando se tem homens sob as nossas ordens, consiste em utilizar o avaro e o tolo, o sábio e o corajoso, e em dar a cada um a responsabilidade adequada”.

Assim saíram para a ribalta os porta-vozes do Governo, com expoente máximo no desgraçado do Teixeira dos Santos, tentando explicar aos portugueses que apesar de estarmos em queda ainda havia uma hipótese de o pára-quedas sobresselente funcionar .

Sócrates rodeou-se de um bando de avaros, tolos, sábios e corajosos, ou talvez, de ingénuos e cobardes, cujo denominador comum era a sua incapacidade em dizer “não” ao que o “chefe” ordenava.

Quando a queda do líder se começou a desenhar como altamente provável surgiram as figuras afastadas, nem sempre em circunstâncias claras, das quais destaco Ferro Rodrigues que ontem aplaudia o discurso de despedida com uma estranha expressão que me pareceu esconder um sorriso de vingança.

Fiquei a saber no dito texto de Ricardo Costa, que Sócrates era assessorado por uma das maiores empresas de relações públicas do mundo, a Kreab, Gavin & Anderson. Este homem é pois um produto de marketing.

Como sabem também todos os que estudaram neste área, qualquer produto tem uma fase de introdução, ascensão, maturidade e queda, um ciclo de vida que raras vezes é inevitável.

Sócrates vestiu-se como bem premium. Uma espécie de produto de griffe vendido ao povo como contrafacção de plástico.

Um produto com uma resistência notável. Fez upgrades (substituição da agressividade que lhe era criticada por uma atitude de vítima da oposição), restylings (começou a aparecer de sorriso quando no passado era muito mais frequente vê-lo de “cara fechada”), oferta de extras (só lhe faltou envergar uma capa de super-herói quando no seu discurso completamente alienado defendia ainda que podia salvar Portugal).

Durante todo este tempo, Sócrates seguiu um guião. Ainda ontem me impressionou - no seu discurso em que não percebi se a gotícula ao canto do olho era suor, uma lágrima artificial que queria verter ou uma lágrima verdadeira que queria conter – que estivesse a ler no tele-ponto um texto que certamente foi previamennte ensaiado. Mesmo quando expressou os seus agradecimentos à família, aquele José, que antes de ser o personagem Primeiro-Ministro, é um homem e um pai, teve de  procurar a frase políticamente correcta, lida no tom limite entre o sentimento puro e a manipulação sentimental.

O seu discurso de derrota soou quase sempre a declaração de “não-vitória”.

A sua saída foi a de um anti-herói: o líder que se afasta com honra para permitir aos seus sucessores brilharem.

Acho que Sócrates disse que queria ser feliz.

Pergunto-me se depois de tantos anos com maquiagem, à procura do melhor ângulo para as câmaras, com cartões de tópicos meticulosamente organizados, Sócrates sabe viver neste ambiente natural que é a realidade.

 



publicado por teoriasdacosta às 23:14
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Domingo, 22 de Maio de 2011
A minha existência é a minha maior riqueza

 

Ontem, no mais profundo Alentejo, num alpendre com uma desafogada vista sobre uma planície que se prolongava para lá de Espanha, tive o privilégio de privar com dois homens extraordinários: um, com oitenta anos, empresário de sucesso detentor de um fenomenal império; outro, um peruano de idade impercustrável entre os cinquenta e os sessenta e muitos, com aquela aura mágica de quem nasceu no "umbigo do mundo".

Confesso que fui contrariada. Apesar da honra do convite, desagradava-me o facto de ter de abdicar de metade do meu fim-de-semana, de fazer vários quilómetros repartidos entre duas viagens de mais de duas horas, para discutir vendas e estratégias comerciais, quando sabemos todos o cenário é de crise, logo pouco auspicioso a projectos de crescimento.

Primeira lição do dia: assim que saí do carro e me deparei com a equipa que estava preparada para me receber, com a figura patronal do Comendador dirigindo-se com um sorriso doce e sincero para me dar as boas-vindas, senti-me envergonhada por pensar que estava a perder tempo. Quando muito, estaria a perder tempo aquele senhor que entre vários convites e afazeres poderia muito bem estar do outro lado do mundo a visitar um dos seus investimentos ou a almoçar com o Presidente da República e com outras individualidades discutindo assuntos pertinentes para o destino próximo de Portugal. 

Quando conhecemos alguém que é efectivamente importante mas nos desarma com a sua humildade, temos noção da pequena importância que têm os nossos caprichos, esses sim grandes, fúteis e carregados de vaidade.

Segunda lição: quando se falou na caótica conjuntura em que nos encontramos e que todos auguram se agravará assim que sejam implementadas as medidas do FMI, contestou o empresário que falar em crise era um insulto para pessoas que, como ele, nasceram no tempo em que Portugal era um país de gente pobre e ignorante, sujeito a racionamentos e a imposições discricionárias, num regime político muito distante desta condescendente e irresponsável democracia em que vivemos actualmente.

“Não se vive hoje em Portugal pior do que na década de trinta” afirmou o Comendador proferindo depois uma das frases que retive na memória:

Os homens são maiores do que os seus problemas

... e serão derrotados todos aqueles que não pensarem desta forma.”

Verdade. A única vez em que caí no abismo foi precisamente quando me rendi ante os problemas que me esgamavam.

Terceira lição:

“A minha existência é a minha maior riqueza”

Esta foi uma das frases que proferiu o Professor peruano no seu descontraído discurso, surpreendido quando transcrevi a citação para um canto do meu moleskine. Contava ele a sua saga de adolescente de país pobre quando se aventurou a ir estudar para os Estados Unidos. A única coisa que possuía na altura era a sua identidade.

O peruano elogiou as características do seu povo, como nós com a pesada herança de um glorioso passado, mas ao contrário dos portugueses ainda orgulhoso por habitar num país onde tudo é místico e transcendente.

Quis o destino que esse Professor fosse um dos autores do acordo de comércio entre o Perú e os Estados Unidos, que aos poucos está a reabilitar uma economia primitiva, que durante anos foi refreada pelos desígnios de uma oligarquia onde foram frequentes os atropelos à vida humana.

A moeda do país chama-se “Novo Sol” (nuevo sol), designação apenas possível num país cuja população, depois de anos de opressão e tortura, ostenta no sorriso um optimismo radiante.

A conclusão seguinte foi um daqueles linguajares do Marketing que nos diz que cada pessoa é um produto. A nuance não estava porém na receita que sugere que devemos acreditar em nós próprios, nas nossas capacidades e nas valias que somos capazes de evidenciar perante os outros. Disse o Professor, e esta foi a última lição do dia, que mesmo quando estamos bem, devemos sempre acreditar que podemos avançar mais um patamar.

Isto porque vivemos num mundo dinâmico em que quem pára fica necessariamente para trás.

A nossa mais-valia acaba assim por ser estarmos vivos. Existirmos. Podermos fazer alguma coisa enquanto por cá andamos.

As oportunidades não estão para quem deixa a vida passar mas sim para aqueles que passam pela vida deixando a sua marca, traçando uma rota com a inteligência e a flexiblidade suficientes para perceber que não é a direito que se escala uma montanha, mas sim desvendando trilhos que tantas vezes nos fazem andar às voltas, ou até descer ao sopé para novamente iniciar a cruzada que um dia nos levará ao destino mais próximo da eternidade.

E assim se passou uma tarde a falar sobre grandes negócios...

 



publicado por teoriasdacosta às 20:26
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Sábado, 30 de Abril de 2011
Big Brother, Facebook, voyeurismo, fait divers e soundbytes

 

Neste caricato país, que deve deixar os homens de preto do F.M.I completamente desconcertados, temos uma actividade política tão divertida como o Big Brother (na primeira série, quando era novidade, os concorrentes não tinham noção de que a coisa se tinha transformado num fenómeno, e havia um campónio das galinhas que despertava aquele lado saloio que há em cada um de nós, nem que seja por via de um parente já muito afastado).

Somos tão dados a estas coisas de exposição da vida pública, voyeurismo, fait divers e soundbytes, que se os telejornais fossem transmitidos em formato folhetim e as notícias publicadas em revistas a cores com pouco texto e muitas fotos, os portugueses seriam sem dúvida pessoas mais informadas, interessadas e realistas em relação à verdadeira situação económica.

Temos um Presidente da República que adoptou como meio de comunicação priveligiado com os cidadãos o FaceBook - onde por acaso a minha mãezinha vai deixando uns comentários –, depois de ter concluído que andar a comer Bolo-Rei com a boca cheia para fugir às perguntas dos jornalistas, alimentar tabus num país onde assumidamente andamos todos de tanga e fazer intervenções em horário nobre (como no caso do estatuto dos Açores e das escutas telefónicas) o faziam meter tanta água como a que caiu na sexta em Lisboa, deixando tudo submerso em lodo e lama.

Até me admira que o Aníbal – acho que o podemos tratar assim depois de “amigar” no FaceBook - não ande a jogar ao FarmVille ou ao MafiaWars, com efeitos pedagógicos para perceber o quanto custa plantar fruta e criar gado, ou tácticos, para se infiltrar no submundo da corrupção, extorsão e abuso de poder que neste Portugal Siciliano são já tão frequentes que aceitamos pacificamente como moda.

Temos um político que já foi Ministro, o José Lello, que esta semana andou a escrever pelo FaceBook que o Aníbal é foleiro, coisa muito feia de se fazer, quando todos sabemos que uma das regras civilizacionais desta rede é publicar apenas nos murais das outras pessoas aquelas aplicações estúpidas que nos dão flores, corações ou coelhos de Páscoa. O mais anedótico foi a explicação do Zé que se justificou alegando que apenas trocava mensagens no Blackberry com um amigo quando de repente, as piadas e graçolas que ele ia teclando, apareceram por artes mágicas na sua página! Ainda bem que eles não estavam a combinar uma saída à noite, com meninas em top less a fazer lap dance, porque se assim fosse a publicação podia ser um escândalo hardcore à Berlusconi!

Para além destas peripécias no FaceBook, aconteceram ainda por estes dias, repetidas aparições de Passos Coelho com a sua esposa pela mão, em revistas de cabeleireiro e sala de espera de consultório médico (daqueles de classe média, porque nos mais chiques só há a Visão, a Sábado e muitas Holas!). Facilmente se percebe que estas reportagens em jardins bucólicos com troca de olhares cúmplices e apaixonados pretendem apresentar Passos Coelho como um ser humano, por oposição ao Primeiro-Ministro-que-o-já-não-é-mas-pode-voltar-a-ser, que apenas partilhava com o povo a sua paixão pelo jogging. Consta até – confesso que não vi – que Passos Coelho fez questão de desejar Feliz Páscoa aos portugueses, com a mulher ao lado, tipo jarra, coisa que caíu no ridículo porque nem ele é Primeiro-Ministro nem ela a segunda-dama, tão pouco terão este Jotinha mal acabado e sua esposa com pele tom de chocolate, carisma para competir em estilo e marketing com o casal Barak e Michelle (Obama).

Presumo que esta estratégia de converter a vida privada de Passos Coelho num remake do Big Brother (já agora, a sua esposa podia alinhar naquele programa dos que querem perder peso porque precisa de definir a cintura e encolher a anca) seja mais uma das tácticas kamikaze deste líder partidário. Não sei quem o anda a aconselhar, mas nada do que Passos Coelho faz ou diz nas últimas semanas o favorece nas sondagens. Assim, visto à distância, até parece que Pedro Passos Coelho afinal mudou de ideias e já não quer substituir Sócrates.

Partilhar cenas da vida íntima com tanta profusão só faria sentido se, como ouvi ontem no Governo Sombra na TSF, o voto pudesse ser feito por chamada telefónica de valor acrescentado, para decidir quem saí e quem fica na casa.

Fanáticos como são os tugas por estas coisas de gente básica, esta medida era bem capaz de inverter a propensão para a abstenção em massa, seja porque está calor e se aproveita para ir passar o domingo à praia, seja porque está frio e se fica em casa a fazer zaping.

 



publicado por teoriasdacosta às 10:38
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Domingo, 13 de Março de 2011
A geração rasca também está à rasca!

 

Sou suspeita.

Estava ainda na faculdade quando em 1994, Vicente Jorge Silva, então Director do Jornal Público, se referiu aos jovens como “geração rasca” criando assim um rótulo que ficou para sempre associado aos adolescentes daquela época.

Essa geração, a que me sinto inevitavelmente colada, ingressou na faculdade e fez o curso superior que desejava, porque mesmo não tendo média para o ensino público, multiplicavam-se as universidades privadas com réplicas dos cursos da moda – economia, gestão, direito e relações internacionais -, mas também com cursos de nomes pomposos e aplicação duvidosa, de que me ficou na memória o extraordinário curso de engenharia publicitária.

Os pais da geração rasca - que em regra se viram afastados do ensino superior por questões financeiras, que concluíram os estudos numa árdua epopeia de trabalhador-estudante ou ainda, no caso dos adolescentes mais novos, se safaram sem saber como depois da rebaldaria em que se converteu o ensino no pós 25 de Abril - fizeram todos questão de proporcionar aos filhos um curso universitário. As propinas nas universidades privadas eram caras, mas ficavam mais ou menos ao nível do valor que era cobrado em muitos colégios pelo ensino pré-primário.

Tornamo-nos pois todos doutores e engenheiros. Nos prósperos anos noventa, em que Portugal vivia insuflado a subsídios comunitários, arranjamos todos empregos com relativa facilidade.

Muitos dos meus colegas estão hoje desempregados. Ou então a trabalhar em condições precárias, o que quer dizer a recibos verdes ou com sucessivos contratos a prazo, com ordenados tão miseráveis que em alguns casos os obrigaram a devolver a casa ao Banco e a voltar humildemente para a casa dos pais.

A geração rasca também está à rasca!

Somos trintões a caminhar assustadoramente para a idade em que começamos a ficar velhos para o mercado de trabalho.

Os nossos pais também estão à rasca!

Os pensionistas coitados, até aqueles das reformas tão baixas que equivalem ao que somos capazes de gastar num jantar com noite de copos, vêm-se confrontados com mais cortes numa série de benefícios que provavelmente os vão colocar perante a difícil decisão de comprar os comprimidos para a artrose ou as batatas para a sopa.  

Sou suspeita porque não gosto dos Deolinda e porque, entre espíritos revolucionários, prefiro os do Bloco de Esquerda com as suas teorias intelectuais às paródias do povo do megafone. Correndo o risco de ser tomada como uma arrogante cidadã de classe média burguesa, acredito estar um bocadinho acima do patamar  d´“a malta” e d´“a gente”, principalmente daquela que se expressa em calão e termina as frases com pá.

Compreendo a frustação daqueles que chegam ao final de uma etapa carregados de expectativas para perceberem que afinal não há no mercado um posto de trabalho onde possam aplicar aquilo que julgam que sabem.

Retiro alguma legitimidade às lamúrias daqueles que optaram por cursos que, há três ou cinco anos atrás, se sabia já serem um cartão de livre passe para o desemprego, como Filosofia, História, Relações Públicas ou Belas Artes. É óptimo podermos fazer o que gostamos mas a vida real é mesmo passada a simular sorrisos e a engolir sapos.

Aplaudo que finalmente se tenha feito alguma coisa para manifestar o descontentamento perante o conjunto de restrições e medidas de austeridade que se abatem sobre nós como uma espécie de maldição incontornável. Temos sido um povo a tender para a abstenção como expressão clara de uma certa prostração apática, mas este é definitivamente o momento em que temos de nos descolar dos nossos míticos costumes brandos.

Pelo que consta os cortejos de ontem realizaram-se de forma ordeira e apartidária, como se frisou desde o primeiro momento, quando quatro jovens a partir de uma conversa num café decidiram utilizar o FaceBook como instrumento de intervenção democrática.

As manifestações que ocorreram um pouco por todo o país reuniram jovens, adultos no activo, desempregados, reformados e crianças que não tinham onde ficar num sábado à tarde. No fundo, não há português que não se sinta enrascado (excepto a minoria que nos Governa e os empresários que gravitam na sua órbita).

Sou suspeita porque o meu posicionamento a tender para a direita, mesmo que não no extremo do “então vá” e do sapatinho de berloque, não se identifica com o espírito reaccionário. A iniciativa é de louvar, mas o que me parece hoje, que estamos no day after, é que esta manif foi apenas um corso ao estilo flower power, que junto da classe política fica como um evento que não belisca nem mancha, e que na comunicação social teve uma cobertura dúbia entre a crítica destrutiva e a eloquência demagógica.

 



publicado por teoriasdacosta às 21:46
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Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011
14 de Fevereiro... dia da disfunção eréctil

Aposto que, romântica e lamechas como ando, todos me imaginavam a escrever mais um texto sentimentalóide sobre o amor e a felicidade.

Sucede porém que abomino o amor com data certa e hora marcada.

Acontece também que para a maior parte dos homens o Dia 14 de Fevereiro só é o Dia dos Namorados porque têm uma companheira que os chateia nos dias anteriores com a exigência de um jantar romântico – pelo menos com uma mesa que tenha velas – e porque, entre publicidade, decorações de shopping e spots de rádio, é impossível esquecer o S. Valentim.

Com o conhecimento que vou tendo sobre a espécie, não me parece que os homens ajam com dolo ou má fé quando se esquecem de datas com significado. A maior parte não consegue sequer verbalizar o que comeu ao almoço, quanto mais guardar na memória em que dia ocorreu o primeiro beijo, que roupa trazia ela vestida, onde se encontravam e como tudo aconteceu.

Assim sendo, creio que será mais fácil que um homem se recorde que no dia 14 de Fevereiro se celebra uma data relacionada com um prolongamento da sua identidade: o dia da disfunção eréctil.

Esta expressão, que deve arrepiar muita gente, significa “incapacidade de manter uma erecção do pênis para uma satisfatória relação sexual “(in Wikipedia)”. Creio que muitos homens pensam que isto só lhes vai acontecer quando forem tão velhinhos que já só precisam do pênis para escoar urina, eventualmente usando fraldas. Outros temem que isto lhes possa acontecer num dia extraordinário, assim quando apanharem um miúda de vinte anos pela frente carregada de energia e de electricidade estática, ou num momento de maior nervosismo, stress e cansaço, eventualmente numa noite de copos com muitas misturas, entre cerveja, vinho e bebidas brancas.

De acordo com o que vou lendo por aí, este pesadelo que a ciência chamava anteriormente de “impotência” mas que entretanto amenizou com o termo mais ligeiro “disfunção”, não é apenas um acontecimento excepcional ou coisa de velhos a cair para o lado.

Os homens enquanto são jovens, aí a partir dos treze – quinze anos, conseguem facilmente manter-se num “estado pinóquio” e, segundo a famosa Sue Johanson, são capazes de fazer sexo dez vezes por dia sem qualquer problema (o problema maior será arranjar com quem, digo eu).

Razões psicológicas, numa primeira fase, e fisiológicas, à medida que a idade avança, podem trazer algumas dificuldades aos nossos Tarzans. Mas o problema maior não é a falta de erecção, uma vez sem exemplo ou consecutivamente, por fases, por ciclos ou por parceiras sexuais.

Um homem que tem um momento mau começa a questionar a virilidade do seu pênis (não a sua, entenda-se). Quanto mais desconfia que aquele companheiro de uma vida o pode trair, mais ansioso fica e, consequentemente, maiores as probabilidades de voltar a falhar. O fenómeno torna-se numa espécie de profecia “if you don´t use it, you lose it” como tantas vezes ouvi Sue Johanson repetir.

Diz-se que o Viagra e outros medicamentos sucedâneos são um sucesso de vendas. Muitos utilizados como profilaxia, outros como antídoto (para precaver um azar) outros como marketing (para impressionar a mulher que se convidou para jantar).

Diz a avó Sue, e eu como romântica que sou tenho de subscrever, que a performance sexual é proporcional ao nível de intimidade que um homem tem com uma mulher. Assim sendo, para o dia 14 de Fevereiro, e para os restantes dias em cada mês, não façam sexo façam amor!

 



publicado por teoriasdacosta às 21:39
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