Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.

Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011
O fantasma do Natal que aí vem... (não, não é um post sobre a crise, que isso já não é assunto para publicar na blogosfera)

 

Adoro o conto de Charles Dickens em que um velho avaro e resmunguento é visitado na véspera de Natal pelos fantasmas do Natal: o do “Passado”, que lhe recorda a sua infância longínqua, uma míngua de quase tudo em que o mais generoso dos mimos fazia transbordar o seu coração de alegria; o do “Presente”, que lhe revela como será o Natal do que os rodeiam, não tão afortunado como o do velho quando era menino, em parte porque a sua sovinice e tirania comprometem a ventura dos que lhe estão próximos; o do “Futuro” que anuncia um devir de noites de consoada numa solidão fúnebre, antecipando também a maior de todas as angústias dos que partem: extinguir-se sem deixar rasto de afecto nem de saudade.

Adoro o Natal e todos os sons, odores e paladares que o acompanham!

Não concebo uma casa sem luzes intermitentes, velas cintilantes sobre arranjos com azevinho e pinhas, coloridos vibrantes de bolas e fitas, um presépio em destaque com todas as personagens e figurantes, uma toalha de linho centenária sob um extasiante desfile de doces, uma mesa comprida com o serviço que só se utiliza nesta altura do ano, os melhores talheres lá de casa e copos em cristal harmoniosamente alinhados para uma deleitosa ceia que é apenas o mais simples dos pratos do receituário da nossa gastronomia: bacalhau cozido com batatas e couves.

Recordo o “Natal Passado” como o tempo em que saía para jantar em casa de uns primos que durante anos adoptei como irmãos, antecipando em cada estrela que se deslocava a uma velocidade idêntica à do carro as luzes de um trenó puxado a renas. Ainda me emociono quando revejo a surpresa de regressar, encontrando os presentes junto à árvore, o contentamento quase febril ao perceber que o “avô inventado de barba branca” não me excluíra da sua lista, sinal de que afinal eu era uma boa menina.

Evoco um Natal mais próximo como o “Natal Presente”: eu e os meus pais, os três orgulhosamente sós como família mononuclear, sem raízes nem nós que nos prendam a outros com apelido comum e laços de consanguinidade, nos atem a um local com memórias, a uma casa com sala, lareira, traves de madeira no tecto e chão rangendo num timbre acolhedor sobre a euforia dos nossos passos. Por maior que seja o amor que nos una, um Natal assim não passa de um jantar. Regozijamo-nos por estarmos juntos, como estaríamos sempre de forma incondicional, mas falta um calor de pessoas, de risos e de vozes sobrepostas, o verdadeiro sinal de festa de consoada, o mais autêntico dos presentes que se pode desejar.

Imaginei muitas vezes um “Natal Futuro” em que me veria só, de pijama e roupão, no sofá com uma taça de cereais ao colo e o comando numa mão, esquecida no calendário do tempo do significado das datas e das comemorações. Numa versão mais optimista imaginava-me rodeada de amigos numa festa que seria mais um jantar tertúlia do que uma clonagem de qualquer tipo de ceia em família "postiça".

Mas o Natal que sempre quis é o que vou ter este ano, com uma casa a ser estreada por uma vintena de pessoas, num espírito de entreajuda e partilha. As mulheres dividirão tarefas entre os milagres da Bimby e a magia dos segredos culinários que apenas ficam registados nas imagens que gravamos no coração, como a da minha Mãe debruçada sobre o fogão embebendo fatias de pão numa espécie de poção mágica. Os homens, na sala, enchendo o ar com a estridência das suas gargalhadas, circulando pela casa sem ultrapassar o território sagrada da cozinha, como se vigiar a azafama dos preparativos fosse o equivalente a "dar uma ajudinha".

Este é o meu “Natal Futuro”, com uma mão cheia de gente à mesa, família que nem me atrevo a dizer que foi a escolhida (quando o que sempre ouvi dizer foi que “família não se escolhe”) porque se algum dia tivesse de me imaginar na noite de consoada, jamais teria ousado pedir tanto, com almas tão autênticas, sentimentos tão genuínos e, é claro, os meus pais em perfeita harmonia com estes parentes herdados por amor e por osmose transformados em irmãos, primos e sobrinhos, num desdobrar de laços de afinidade que não tem grau nem limite.

 



publicado por teoriasdacosta às 23:28
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Quinta-feira, 12 de Maio de 2011
... e pronto, lá se passou mais um aniversário...

 

... e pronto, lá se passou mais um aniversário...

Trinta e oito anos! Continuo naquela fase em que tenho um orgulho imenso em dizer a minha idade porque sei que não a aparento.

Ainda ontem, o arrumador que andou à volta do meu carro com a típica sinalética de quem nem sequer tem carta, me disse - nós os tripeiros temos mesmo esta mania de dar duas de treta entre manobras e trocas de moedas de euro - que não me dava mais de vinte e sete. Descontando-se o facto de ele estar em ressaca e ser toxicodependente, posso com segurança acreditar que não aparento ainda mais do que trinta e cinco.

Custa a acreditar que falta tão pouco para os quarenta... Até a minha Mãe, que nunca se lembra da idade que tem, ficou surpresa quanto comentei quantos anos eu fazia... Só quando o meu aniversário chega é que pelas contas de cabeça ela se apercebe quão depressa passa por nós a vida.

O meu dia de aniversário é sempre feliz, desde que eu esteja feliz.

Ontem foi maravilhoso!

Lá fiz a viagem de trezentos quilómetros para ir almoçar com a minha Mãe, uma tradição mais pertinente do que a ceia de Natal já que nasci ao meio dia e vinte. E lá regressei até Lisboa, sempre com o telemóvel entre uma mão e outra, chamadas em espera e mensagens a cair.

O bom de fazer anos é mesmo isto. As mensagens inesperadas, os telefonemas que nos emocionam, as centenas de posts no FaceBook, muitos de pessoas que me conhecem apenas pelo que escrevo.

Na minha família não há tradição de festa de aniversário. Em boa verdade, não há uma tradição de família. Para todos os momentos e circunstâncias, as pessoas que contam são mesmo o meu Pai e a minha Mãe. Por isso são tão importantes para mim os amigos. Por isso dou tanto valor quando me sinto acolhida no seio de uma família que não é a minha.

Entre tanta gente que trago no coração, tenho irmãs postiças, pedaços de alma, tias inventadas e avós substitutas!

Os amigos, os bons, mesmo aqueles com quem não falamos há meses, são aqueles que não se esquecem de um telefonema nesta data simbólica. Quando os amigos são mesmo amigos, a conversa fluí como se ainda ontem tivéssemos tomado um cafézinho. As ausências, os silêncios, os momentos em que nos afastamos porque precisavamos de espaço ou porque minguava o tempo disponível, são detalhes que passados os minutos iniciais são automaticamente esquecidos.

Fiquei sensibilizada com muitos dos votos de felicidades que recebi.

Mas hoje fiquei em lágrimas quando no escritório me surpreenderam com um bolo de aniversário e uma prenda criteriosamente escolhida. Eu, que cultivo uma certa distância nesta bolha de oxigénio a que chamamos esfera profissional, comento por vezes com o ar de dondoca a que me elevo quando calço uns saltos altos, que dava tudo por um dia de SPA. E foi mesmo isso que os colegas me ofereceram, com um postal carregado de mensagens que me deixaram sem palavras.

O bom de fazer anos é mesmo isto... Descobrir entre as pessoas que gravitam na nossa órbita que há uns poucos que nos amam, muitos que gostam de nós e tantos que nos apreciam.



publicado por teoriasdacosta às 21:32
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Sábado, 23 de Abril de 2011
Onde estavas tu no 25 de Abril?

 

Esta frase que nos habituamos a ouvir em jeito de chalaça (o autor foi Baptista Bastos, para os que o não sabem) não permite grandes respostas a pessoas na minha faixa etária, que em 1974 ainda mal andavam, pouco falavam e nada percebiam do mundo para além de que os adultos eram grandes e de que existia um grau de proporcionalidade directa entre a quantidade de mimo recebida e o tamanho.

Para a geração que anda à rasca, o 25 de Abril muito menos significa, já que a ignorância grassa nesta malta adestrada entre mudanças no estilo e no formato, programas alternativos, métodos de avaliação ambíguos, professores reinvindicativos e desmotivados, muitos deles - como os que tive o azar de apanhar no liceu, que eventualmente fizeram carreira tornando-se os professores das gerações que se seguiram à minha - uns frustrados da vida, talvez até uns falhados, que optaram pela via do ensino apenas porque a colocação em segundas e terceiras fases garantia emprego a muitos recém-licenciados sem perspectivas de uma outra profissão.

Dada a fraca qualidade do ensino público – reconheço que tive apenas uma professora com qualidade pedagógica na Escola Secundária Rodrigues de Freitas (ou liceu D. Manuel II) no Porto – não me surpreende esta falta de conhecimento, de interesse, de identidade ou simplesmente de curiosidade crítica.

O que me choca é que os portugueses da minha geração, e os das que me antecedem, se congratulem apenas pelo facto de o 25 de Abril ser um feriado, este ano por coincidência na segunda-feira a seguir ao Domingo de Páscoa, logo uma oportunidade excelente para um fim-de-semana prolongado. Só. Mais nada.

Hoje ao almoço, os meus pais e o meu namorado, nascido em 1964, teciam considerações sobre este marco histórico. Ouvi com atenção repescando na memória aquilo que aprendi em História Económica sobre as medidas implementadas por Salazar.

Na altura existiam planos. A dez anos, coisa impraticável nos dias que correm dada a velocidade a que o mundo se move. Mas existia uma direcção. Nos últimos anos existiram vaidades, lobbies, promessas mentirosas, o culto da dívida como motor do progresso, inaugurações e ostentação.

Salazar foi um ditador. Tirano e prepotente como qualquer outro líder nessa circunstância. Mas na época em que Salazar mandou neste rectângulo, a ditadura era o sistema ditatorial que dominava por toda a Europa, da mesma forma que depois se disseminou a social-democracia e o socialismo e mais recentemente se adivinha a ameaça de uma viragem à direita extrema e radical, fundamentada em ódios rácicos e na intolerância.

Históricamente, depois de proclamada a República, em 1910, Portugal conheceu dezasseis golpes. Em dez anos a dívida externa cresceu até 53,3% do Orçamento de Estado, fugiram capitais e condenaram-se à miséria milhares de famílias graças a uma inflação galopante. Nos anos vinte do século passado o país estaria por certo pior do que está no século actual.

Na ausência de um Fundo Monetário Internacional, Salazar tomou um país fortemente endividado e traçou um plano de recuperação económica implementando medidas altamente restritivas de impacto pouco mediático e questionavelmente democrático.

Instituiu-se assim um Estado Novo Corporativo, que nos isolou do mundo, numa espécie de tubo de ensaio, no pressuposto de que cidadãos ignorantes seriam mais subservientes. Daí o descontentamento crescente daqueles que em finais da década de sessenta se apercebiam  que toda a Europa vibrava ao som rebelde de uma excitante ebulição cultural.

Os erros de Salazar foram muitos. O maior de todos foi não ter saído no tempo certo, como sucede com todos os déspotas, tal como Sócrates nos dias que correm.

Os militares de Abril perpetraram um golpe de Estado que se transformou numa Revolução tal era a vontade que o povo tinha de mudar. O povo, a tal população ignorante e sem formação, saiu para a rua num apoio inequívoco e pacífico ao movimento militar.

O povo que somos hoje, menos ignorante e mais instruído em teoria, estende-se numa toalha à procura de uns raios de Sol, come uns petiscos à beira-mar ou refugia-se no interior do seu imaginário numa reprodução cenográfica da vida rural. Perante o descalabro que é a vida pública retratada dia-a-dia na televisão, noticiada sem cortes nem censura, com total liberdade para comentários que deixam este Governo pelo chão, os eleitores que revelam as sondagens ainda se interrogam se hão-de votar naquele domingo de Junho, em que provavelmente até vai estar um bom dia de praia, ou se, na dúvida, votam no mesmo, numa atitude displicente e inconsciente que é absolutamente chocante.

Sei pouco do que era a vida antes do 25 de Abril, da P.I.D.E., da falta de liberdade, da pobreza, da fome, do fascismo, da incoerência da política colonialista, que se arrastava há cinco séculos, (desde a conquista de Ceuta pelo Infante D. Henrique) e do morticínio da guerra além-mar, que para além de estúpida, como todas as guerras, absorvia quase metade do Orçamento de Estado (à época).

Mas sei alguma coisa da conjuntura em que se faz a festa da democracia neste ano da graça de 2011. Sei o suficiente para me sentir indignada e envergonhada com a apatia que permanece mesmo depois de concretizada a pior de todas as hipóteses: a necessidade de recorrer à ajuda internacional.

As palavras de ordem do 25 de Abril foram descolonizar, democratizar e desenvolver.

Em retrospectiva, apenas a primeira foi uma mudança irreversível. A democracia teve um arranque lento e o desenvolvimento andou em progressão aritmética decrescente até se afundar em taxas abaixo do limiar da dignidade patriótica.

 



publicado por teoriasdacosta às 21:16
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Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011
Felicidade: essa coisa tão banal...

 

 

Ocorreu-me um destes dias, depois de uma conversa casual, sem pretensões nem raciocínios elaborados, que afinal esta coisa da felicidade que todos temos como quimera, é afinal uma futilidade.

 

 

Dizia-me o meu interlocutor, homem, está claro - nestes assuntos tenho que admitir que os homens com alguma inteligência facilmente passam de básicos a pragmáticos -, que quando se é casado décadas com uma pessoa, a namorada de longa data, a mulher ao lado de quem se cresceu, amadureceu, escalou até à posição de pai de família respeitável e doutor-não-sei-das-quantas, não se questiona de forma tão leviana, neste registo de aliança no dedo, contas conjuntas, mães, pais, avós e outra família alargada, qual o coeficiente de felicidade.

Explicava-me ele que quando se faz amor durante tantos anos com a mesma pessoa, se toma aquele cheiro como certo, o sabor como familiar, as posições como confortáveis, não se estranha o silêncio, as rotinas feitas de horários possíveis e dias de semana prováveis. É claro que o sexo oposto desperta curiosidade. Haverá uma fase entre a crise dos trinta e a dos quarenta, entre o estar farto das festas dos miúdos aos fins-de-semana, da logísticas das compras e dos almoços de família, a calvície à espreita e os primeiros cabelos brancos, em que se tem efectivamente vontade de conhecer o lado do lá.

Há muitos que vão (e não estou a falar de homosexualidade mas de “facadinhas no matrimónio”), mas quase todos voltam. E não é só porque com uma pensão de alimentos se torna difícil pagar uma outra casa e financiar a vida colorida de homem divorciado. É porque na prática, depois do deslumbramento do sexo em sítios inusitados, da lingerie ousada, das posições acrobáticas e dos orgasmos em stereo com dolby surround, as relações convergem e estabilizam naquele destino macio e confortável que é um sofá onde há um sítio que é o nosso, um sábado à noite tranquilo e um domingo com almoço prolongado.

A felicidade está afinal num património que é um lugar comum, um sentimento de pertença, naquela sensação quentinha que é a familiaridade. 

A felicidade é como a camisola velha ou como as pantufas fofas que enfiamos com prazer sempre que nos encontramos em casa.

A infeliciade deriva da incerteza, do não sabermos como estamos amanhã.

Nunca seremos donos absolutos do nosso destino e a vida está repleta de variáveis incontroláveis, mas no mínimo, dá-nos alguma segurança voar em trapézios com rede, sabermos em que cama vamos dormir, se acordamos sós e satisfeitos ou sózinhos e amargurados.

Pelos vistos, os sentimentos que nos enevoam os dias e induzem ataques de pânico, ultrapassam-se, minimizam-se, relativizam-se com um colo conhecido, um abraço seguro, um gesto de mimo desinteressado, um corpo que recebe o nosso mesmo que o sexo não seja cinematográfico. 

A ausência de felicidade é apenas uma dúvida. A dúvida. Um conjunto de dúvidas metódicas.

Muitas vezes, nem que seja apenas por momentos, estas dúvidas dissipam-se quando o nosso ser frágil e cansado de aventuras se encaixa no corpo onde tatuamos aos poucos a nossa identidade.

 

 



publicado por teoriasdacosta às 21:47
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Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010
Hoje é o dia da minha Mãe

 

Hoje, 27 de Outubro, é o Dia da Mulher. A minha Mãe faz anos.

Se eu soubesse escrever poesia declamava o mais belo dos textos elogiando este ser extraordinário que fez o favor de me trazer ao mundo.

Como ao nível da escrita me fico pelas teorias, por esta peculiar forma de prosa e de expressão, não posso deixar passar esta data sem escrever da melhor forma que sei o que esta mulher, que é a minha Mãe e também a minha melhor amiga, significa para mim.

Acho fantástico que exista um dia mundial para celebrar a Mulher (8 de Março) e, ao contrário das feministas que consideram essa consagração um ultraje, uma forma de humilhação ou subvalorização do sexo feminino, tenho a perfeita noção de que reconhecer-se uma data que nos homenageia é exactamente o oposto do que crêem quem a critica.

Quanto à minha Mãe, a primeira recordação que guardo, uma memória que ainda hoje habita em mim, é a do cheiro da sua pele quando me aconchegava no seu colo, o calor do seu peito, a ternura com que me envolvia nos seus braços. A primeira recordação é de amor.

De um amor profundo, infinito, inabalável. Umbilical como descreve ela. Seria eu ainda uma bebé que apenas tagarelava e quando ouvia o som da sua voz ou pressentia a sua presença em casa todo o meu ser se iluminava. Como se eu fosse incompleta sem aquele colo, aqueles beijos, os seus abraços apertadinhos, os gestos incontáveis de mimo.

As minhas mãos só faziam sentido quando entrelaçada nas suas.

Tenho viva uma recordação, que contada soa a anedótica. No dia em que o Sá Carneiro morreu suspenderam a emissão na televisão. A minha Mãe tinha consulta no dentista e o meu Pai foi o primeiro a chegar a casa. Vinha transtornado, a explicar-me que um político tinha morrido, que o seu avião se despenhara, e eu pressenti no seu semblante que algo de muito mau se passava. Assustada por um medo sem explicação fechei-me no quarto e ajoelhei-me aos pés da cama. O meu medo era tanto que me lembro de ter começado a chorar. Pedi a Deus com a fé mais fervorosa que consegui invocar, que fizesse com que a minha Mãe regressasse depressa a casa porque se um homem tão importante tinha morrido então o pequeno mundo que terminava ao fundo da minha rua podia todo ele desabar.

A sensação de poder perder a minha Mãe foi nesse momento esmagadora. Se a minha Mãe morresse preferia morrer com ela.

Entretanto fui crescendo e esqueci-me de como temia ficar um dia sem a sua presença. Era um dado adquirido. Ela estava lá, sempre, mesmo quando a enxotava. Estava lá e amava-me.

Como qualquer adolescente, tornei-me uma filha tirana.

A vida só nos reaproximou quando depois de eu estar casada começou a fazer sentido a hipótese de eu ser mãe.

A partir de certa altura foram tão incontáveis, inquantificáveis e imensuráveis as provas de amor com que me salvou das trevas, sarou as dores e curou as feridas, que jamais, em tempo algum, nesta vida, neste tempo, neste espaço, neste universo, neste cosmos carregado de estrelas poderei retribuir esta generosidade feita da bondade que é a caracterítica que mais sobressaí na doçura da minha Mãe.

Por mais que eu ame a minha Mãe, o meu sentimento será sempre pequeno ante a grandeza da mulher que ela é.

Hoje tenho tanto medo que um dia ela me falte que me assalta a mesma angústia de miúda se penso que um dia ela pode não chegar a casa. Se a minha Mãe morrer prefiro ir-me com ela, porque não serei a mesma mulher no dia em que me faltar esta alma pura que me eleva.

 



publicado por teoriasdacosta às 00:02
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Sábado, 8 de Maio de 2010
Quem quer morrer?

 

Esta sexta-feira, por terras que não são de Sua Majestade mas sim de um grupo de senhores feudais, com tiques burgueses e assombros de caciquismo, assisti na Comuna a uma peça de teatro da autoria de Eugène Ionesco: “O Rei está a morrer”.

Dizem de Ionesco que é um dos principais nomes do “teatro do absurdo”, ao que o autor contrapõe “o que me interessa não é o absurdo mas o insólito”.

A situação absurda e insólita que esta peça nos apresenta é a morte. Não a morte que se resume a um simples ponto final, uma sequência natural nesta escala de tempo que é a vida, o derradeiro momento em que o nosso destino, heróico ou banal, se cumpre. Esta peça desperta a nossa consciência para a morte como o desfecho que ninguém quer nem deseja, para si ou para os seus: o fim de uma existência feliz.

A morte é o fim de uma existência que é feliz, mesmo quando não o percebemos, mesmo quando amaldiçoamos as horas e os dias, mesmo quando não nos permitimos sorver com prazer e deslumbre cada batida do nosso coração, que hoje é forte, garantidamente, como verdade que nos parece absoluta, mas que amanhã, daqui a umas horas, no próximo segundo, se pode tornar frágil, um facto que dito assim, à primeira vista, até parece absurdo.

Pergunta o Rei, quando confrontado com a sua mortalidade “mas para que nascemos se não é para sempre?

Escreve Pedro Mexia que o tema de base desta obra não é tão só a “transitoriedade humana, da qual a morte é etapa definitiva” mas, acima de tudo, sobre “o mundo que acaba quando nós acabamos”.

Enquanto se debate com a morte que o quer tomar, o Rei Bérenger hesita entre o desejo de que o resto do mundo se acabe com ele, para que nada mais permaneça para além da sua existência, e o desejo de que o mundo permaneça, prevaleça e se prolongue, perpetuando a  sua memória de defunto no tempo, concedendo às ruas e às pontes o seu nome, construíndo estátuas e obras em sua homenagem.

O Rei, que se julga acima de um fenómeno tão humano como a morte - sem assumir contudo uma postura arrogante que nos faça desejar que se cale, para sempre - ao tomar consciência da sua mortalidade, ao perceber que afinal é apenas um ser humano, tão simples como qualquer outro dos súbditos que fazem parte do seu reino, impotente perante as leis do Universo, reage violentamente. Esta personagem não nos inspira raiva, pelo seu ego desproporcionado, pela forma delirante como chama a si todos os feitos da História, pela forma mimada como reclama amor incondicional e infinito de quem a ele se declara, pela falta de lucidez, pela sua soberba ou vaidade. Pelo contrário, creio que facilmente qualquer mortal se identifica com esta incredulidade que é quase ingénua e infantil perante um fenómeno que a sociedade e a maturidade nos dizem que devemos encarar como natural, mas que no fundo, no nosso gene mais primitivo, nos há-de soar sempre como anormal e atroz.

O Rei, personagem brilhantemente desempenhado por Carlos Paulo, resiste, debate-se, rende-se.

Percebemos que o que sobra do seu Reino não é mais do que uma mera recordação de glória e automaticamente somos transportados para inevitáveis análises comparativas entre aquela pátria sem Sol, abandonada, deserta, caótica, engolida nas suas próprias fronteiras, e este país que somos hoje, endividado e deprimido, com uma Primavera que se confunde com o Outono, submerso no caos político e moral.

Percebemos que entre os que assistem o Rei na sua morte, há os que desejam que aquela vida se apague urgentemente, os que ainda acalentam que a chama se mantenha acesa, mesmo que ténue, os que hesitam entre o ódio e o amor, num misto de emoções, de expressões, discursos inflamados, palavras duras, silêncios ternos, um reflexo satírico de como somos todos nas nossas vidas, hesitantes entre o querer e o desejar, temerosos, audazes, corajosos, cobardes...

A peça está classificada como cómica, talvez pelo seu humor negro e irónico. Apercebi-me das gargalhadas, que me soaram a forçadas, do público que normalmente gosta de fazer-se ouvir para se integrar no espectáculo. Eu não fui capaz de um sorriso, sequer.... porque a morte me assusta tanto como soou absurda àquele Rei imaginário...

 

 



publicado por teoriasdacosta às 23:57
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