Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.

Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012
"Os descendentes" ou como é comovente ver o George Clooney a fazer papel de feio...

 

Um destes dias fui ver um daqueles filmes feitos à medida dos Óscares.

Em “Os descendentes”, George Clooney faz “o papel da sua vida” como apregoam os traillers e críticas. Para mim, a maior surpresa é verificar que o grisalho do café e das urgências por quem tantas mulheres suspiram é tão bom actor que até consegue passar por homem feio (dentro do género, é claro) sem pinga de charme, totalmente desinteressante, aquele com quem jamais gostaríamos de ser vistas em público com suas calças foleiras e camisas em padrões histéricos.

Agora sem ironias nem preconceitos: o filme é irresistível.

Há muito tempo que não me acontecia chegar ao “the end” e ficar colada à cadeira, enxugando lágrimas mal disfarçadas, com toda uma plateia em silêncio.

O bom que tem “Os Descendentes” não cabe numa teoria...

Começa pela narrativa. Adoro filmes em que há uma voz off que vai acrescentando aqueles detalhes da história que ficam piegas ou exagerados quando debitados numa deixa. Por isso amo Woody Allen. Por isso me comoveu ouvir George Clooney, no papel do pai perdido que neste filme lhe coube, relatar a tragédia que se abateu sobre a sua vida quando a mulher entra em coma na sequência de um acidente grave.

O início é fabuloso quando Clooney alerta que viver no Havai não é antídoto para a dor e que as praias de areia branca lotadas de surfistas não são garante de uma existência sem problemas.

Algures na locução surge uma brilhante descrição de família: um arquipélago, um conjunto de ilhas independentes que resultaram de um único pedaço de terra.

N"os descendentes" há uma história paralela de ilhas tão dispersas e heterogéneas como os Açores, uma típica história de heranças e testamentos, com a variante americana do king size e do XL que faz com que os herdeiros se constituam como trust e dividam parcelas de ilhas como património em vez de discutirem hipotecas, serviços de loiça incompletos e time-sharings em hotéis obsoletos...

O filme é intensamente real.

As pessoas retratadas não são perfeitas, as vidas não são fantásticas, as casas não são de revista, surgindo até tão desalinhadas e desconjuntadas no mobiliário e adereços kitsch que nos remetem para as casas dos nossos pais e avós como eram quando nascemos, nos idos anos setenta, com seus bonecos de loiça, cortinados de chita e padrões psicadélicos.

O acidente da mulher leva Matt King - o personagem que Clooney desempenha - a reconsiderar a sua forma de estar como homem de família. Disposto que está a mudar, a ser um melhor marido e um pai mais presente, decidido a salvar um casamento moribundo e a gozar a sua fortuna, descobre que a esposa não tem recuperação possível. Ao mesmo tempo que se vê forçado a encarar esta morte inesperada, a comunicá-la às filhas, a informar sogros e amigos para que tenham  tempo de despedir-se antes que os últimos sinais vitais se desliguem daquele corpo inane, descobre também que a mulher por quem zela amargurado o traía.

Perante a morte e o conflito de emoções, Matt decide perdoar tudo.

A opção não é tão linear. Há um evidente conflito de interesses e de sentimentos, alguns momentos em que engole em seco, em que cala o grito antes de perder o controle.

O desconcertante do filme é precisamente esta ambivalência, a dicotomia entre o que é natural mas pode não estar certo, entre a moral e a imperfeição os papéis a que nos adaptamos, as nossas emoções e os nossos intintos.

Como seres humanos, somos muitas vezes rancorosos e mesquinhos...

É impossível não ser tocado pela honestidade deste marido incapaz de ser um cabrão, pela sensibilidade que tem este pai para aceitar a raiva e a irreverência das filhas.

Matt opta por relevar apenas e só porque deseja preservar as boas memórias que ficam da mulher enquanto mãe, esposa, amiga, filha.

Afinal, naqueles dias em que entramos na história, a senhora não é mais do que um corpo ligado a uma máquina que nas cenas finais é atirado ao mar como um mero punhado de cinzas. A insignificância daquilo em que nos tornamos quando cadáveres torna futéis as críticas, vãos os julgamentos morais, despropositadas as necessidades de vingança, de pena capital ou de folclore popular em jeito de vendeta.

Matt King é um homem bom, um tipo decente, honesto. Despede-se da mulher com um beijo de cortar a respiração, com uma solenidade moral que lhe saí do coração sem pieguices nem peneiras.

O filme termina com pai e filhas no sofá, numa daquelas cenas que nos são familiares por serem tanto aquilo que somos num domingo à tarde, sem glamour nem produções especiais, almas boas que a vida corrompe e que como sorte se purificam pela morte. As mortes dos que nos rodeiam para começar. A nossa morte como suposto clímax.

Não sei se tenho algum problema de percepção, mas para mim a mensagem deste filme é o perdão. O acto sublime e libertador de perdoar.

Palavra difícil nos dias que correm...

 

 



publicado por teoriasdacosta às 23:14
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Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011
O fantasma do Natal que aí vem... (não, não é um post sobre a crise, que isso já não é assunto para publicar na blogosfera)

 

Adoro o conto de Charles Dickens em que um velho avaro e resmunguento é visitado na véspera de Natal pelos fantasmas do Natal: o do “Passado”, que lhe recorda a sua infância longínqua, uma míngua de quase tudo em que o mais generoso dos mimos fazia transbordar o seu coração de alegria; o do “Presente”, que lhe revela como será o Natal do que os rodeiam, não tão afortunado como o do velho quando era menino, em parte porque a sua sovinice e tirania comprometem a ventura dos que lhe estão próximos; o do “Futuro” que anuncia um devir de noites de consoada numa solidão fúnebre, antecipando também a maior de todas as angústias dos que partem: extinguir-se sem deixar rasto de afecto nem de saudade.

Adoro o Natal e todos os sons, odores e paladares que o acompanham!

Não concebo uma casa sem luzes intermitentes, velas cintilantes sobre arranjos com azevinho e pinhas, coloridos vibrantes de bolas e fitas, um presépio em destaque com todas as personagens e figurantes, uma toalha de linho centenária sob um extasiante desfile de doces, uma mesa comprida com o serviço que só se utiliza nesta altura do ano, os melhores talheres lá de casa e copos em cristal harmoniosamente alinhados para uma deleitosa ceia que é apenas o mais simples dos pratos do receituário da nossa gastronomia: bacalhau cozido com batatas e couves.

Recordo o “Natal Passado” como o tempo em que saía para jantar em casa de uns primos que durante anos adoptei como irmãos, antecipando em cada estrela que se deslocava a uma velocidade idêntica à do carro as luzes de um trenó puxado a renas. Ainda me emociono quando revejo a surpresa de regressar, encontrando os presentes junto à árvore, o contentamento quase febril ao perceber que o “avô inventado de barba branca” não me excluíra da sua lista, sinal de que afinal eu era uma boa menina.

Evoco um Natal mais próximo como o “Natal Presente”: eu e os meus pais, os três orgulhosamente sós como família mononuclear, sem raízes nem nós que nos prendam a outros com apelido comum e laços de consanguinidade, nos atem a um local com memórias, a uma casa com sala, lareira, traves de madeira no tecto e chão rangendo num timbre acolhedor sobre a euforia dos nossos passos. Por maior que seja o amor que nos una, um Natal assim não passa de um jantar. Regozijamo-nos por estarmos juntos, como estaríamos sempre de forma incondicional, mas falta um calor de pessoas, de risos e de vozes sobrepostas, o verdadeiro sinal de festa de consoada, o mais autêntico dos presentes que se pode desejar.

Imaginei muitas vezes um “Natal Futuro” em que me veria só, de pijama e roupão, no sofá com uma taça de cereais ao colo e o comando numa mão, esquecida no calendário do tempo do significado das datas e das comemorações. Numa versão mais optimista imaginava-me rodeada de amigos numa festa que seria mais um jantar tertúlia do que uma clonagem de qualquer tipo de ceia em família "postiça".

Mas o Natal que sempre quis é o que vou ter este ano, com uma casa a ser estreada por uma vintena de pessoas, num espírito de entreajuda e partilha. As mulheres dividirão tarefas entre os milagres da Bimby e a magia dos segredos culinários que apenas ficam registados nas imagens que gravamos no coração, como a da minha Mãe debruçada sobre o fogão embebendo fatias de pão numa espécie de poção mágica. Os homens, na sala, enchendo o ar com a estridência das suas gargalhadas, circulando pela casa sem ultrapassar o território sagrada da cozinha, como se vigiar a azafama dos preparativos fosse o equivalente a "dar uma ajudinha".

Este é o meu “Natal Futuro”, com uma mão cheia de gente à mesa, família que nem me atrevo a dizer que foi a escolhida (quando o que sempre ouvi dizer foi que “família não se escolhe”) porque se algum dia tivesse de me imaginar na noite de consoada, jamais teria ousado pedir tanto, com almas tão autênticas, sentimentos tão genuínos e, é claro, os meus pais em perfeita harmonia com estes parentes herdados por amor e por osmose transformados em irmãos, primos e sobrinhos, num desdobrar de laços de afinidade que não tem grau nem limite.

 



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Domingo, 9 de Outubro de 2011
Teoria do protector solar

 

 

Quinta-feira, a caminho do Porto, superando o aborrecimento da auto-estrada com um ininterrupto zaping radiofónico, lá ouço falar sobre a morte de Steve Jobs com referência aquele discurso que uma vez comentei, em que este homem extraordinário classificava a morte como a maior invenção da vida.

Quando o fundador da Apple soube que padecia de cancro do pâncreas, realizou pela primeira vez que era mortal. Perante uma sentença de morte certa tornou-se mais eficaz na arte mágica de viver cada dia em pleno. Isto é: viver cada dia como se fosse o último, à espera do dia em que finalmente acertou.

Mortais somos todos, mas não pensamos nisso ao acordar, enquanto lavamos os dentes,  quando conduzimos a alta velocidade ou simplesmente nos sentamos à secretária para mais um dia de trabalho com um mero vislumbre de céu e de Sol.

Imaginamos que a morte só acontece aos outros e que só daqui a muitos anos chegará um dia a nossa hora.

Mas a nossa hora pode chegar hoje.

A minha viagem ao Porto foi motivada pela morte de um amigo.

Foi-se num acidente estúpido entre dois degraus de uma escada. Sozinho. Em casa. Num desequilíbrio de um passo que lhe provocou morte instantânea.

Surpreendidos todos, numa espécie de transe anestésico que nos fazia duvidar da razão que nos reunia à porta de uma igreja num estival final de tarde, comentávamos quão absurda tinha sido esta queda.

A morte será sempre um mistério. Um disparate. Um paradoxo. Uma ironia do destino e da sorte.

Mesmo que seja a idade que nos leve depois de uma vida santa ou de uma doença prolongada.

Comentava um dos presentes que a partida deste amigo, conhecido por gostar de andar sempre em festa, tantas vezes ébrio como provavelmente estaria no momento do acidente, que esta tinha sido a sua forma de nos abanar a todos pelos ombros.

Ele, o que se foi, o homem que conhecemos descontraído, com um permanente sorriso manso, gritou nos nossos ouvidos, em jeito de zombaria, que nos levamos demasiado a sério.

Não relaxamos. Não saímos do quadrado, da caixa, do círculo, da gaiola, da jaula, da redoma que tomamos como o habitat da nossa sobrevivência.

No final acabamos numa caixa de madeira. Reduzidos a pó.

Ocorreu-me então o discurso e as imagens que enchem um vídeo que já é histórico no Youtube: “Everybody´s free (to wear sunscreen)” de Baz Luhrmann. Não sei se este texto alguma vez foi um discurso ou se é apenas um filme que este realizador produziu num momento de ócio. O que sei é que, apesar de o título soar disparatado, como estranho é o conteúdo, entre as muitas frases carregadas de humor encontram-se mensagens fantásticas que no momento do velório me iam surgindo difusas mas com redobrado sentido.

É quase uma futilidade preocuparmo-nos com o futuro.

Os problemas que vamos encontrar na realidade são sempre equações algébricas mais complicadas do que as que os nossos cérebros ingénuos e crédulos são capazes de formular.

As nossas escolhas são metade acaso, tal como as opções dos outros, pelo que não devemos congratular-nos em demasia quando a vida nos corre bem nem penalizarmo-nos em excesso se a vida nos impreca.

O conselho que pontua o discurso é “devemos sempre usar protector solar” como recado síntese de uma série de sugestões e advertências que se resumem a uma elementar lição de vida: devemos tratar-nos bem, respeitar os outros, depreciar os maus momentos e as más palavras, valorizar o assombro que é respirar, ter um coração que bate certo, vivendo com saúde, de preferência rodeados pelas pessoas que nos amam e que num ou noutro minuto do dia dizem ou fazem pequenos nadas que nos fazem felizes por uns minutos (ou menos infelizes durante umas horas...).

Tudo o resto são adereços, cenários, papéis com a sua importância para a nossa auto-estima, conta bancária ou ego, que nos ajudam a ser alguma coisa na vida mas que não devem determinar a pessoa que somos nem a forma como gozamos a nossa preciosa existência.

O tempo passa… ou como ouvi ontem num fado “o tempo fica, nós é que passamos por ele”.

 



publicado por teoriasdacosta às 20:56
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Domingo, 2 de Outubro de 2011
Eu nasci para voar...

 

A empresa em que trabalho fechou o ano na sexta-feira.

Isto não quer dizer que andamos as últimas três semanas naquela "onda da festa e da amizade” que muda a atitude e o humor das pessoas assim que se instala o espírito de Natal, mas sim que passamos estes dias sem ver o Sol, com a sensação de irmos a casa apenas o tempo bastante para tomar banho e mudar de roupa tão curta a distância entre o apagar das luzes e o regresso ao escritório.

Este fim-de-semana, perante a minha dificuldade em arranjar seis horas para ir ao Porto (contando o tempo da ida, da vinda e das paragens para café, xixi e gasóleo) os meus pais vieram visitar-me.

Como sempre sucede à mesa, nas refeições em que se senta uma família – neste caso a minha e a que me abraçou como adoptada - com três gerações em animado diálogo, falou-se de quão complicada se vem tornando a vida, com os filhos que somos nós a fugir para a frente numa procura incerta de estabilidade, e com os filhos da geração que se segue preparando-se para que o seu local de trabalho seja o mundo, na certeza de que o sítio onde conseguirão ter um emprego que lhes pague um ordenado digno, capaz de financiar alguns caprichos e sustentar uma casa, só com muito sorte ficará a apenas trezentos quilómetros de casa.

Confessava a minha Mãe que quando eu vim para Lisboa pela primeira vez, em 2004, padeceu imenso com as dores da distância.
Quando regressei no ano passado, o sofrimento não foi tão atroz porque me viu pelo Porto numa situação de precaridade que jamais foi hipótese nos seus planos.

Os pais que educam os filhos como príncipes pressupoem que o seu futuro terá a magia e os tons com que se pincela um conto de fadas. E nós, esses filhos aburguesados, quando ainda somos demasiado ingénuos para duvidar, ao sair da faculdade com atitude guerreira, ao descer do altar num transe de felicidade ou naquele domingo preguiçoso em que acordamos ao lado da pessoa que queremos amar até à morte, imaginamos que a nossa vida seguirá milimetricamente o rumo que entre o primeiro emprego, o primeiro casamento e o primeiro filho, tão convictamente traçamos.

Poucas são as pessoas que concebem que alguns anos (ou meses) depois do dia do “sim” vão estar separadas, a viver numa casa mais pequena, despojadas das prendas comuns e das memórias fotográficas, a acordar com as vozes dos filhos de outra pessoa ou a adormecer na solidão confusa de quem se restabelece de um jet lag.

Suspirava a minha Mãe “como é difícil deixar os filhos voar”.

A alternativa ideal, suponho eu, seria mantê-los em gaiola dourada protegidos de qualquer mal.

Duvido que qualquer adulto em gestação aceitasse permanecer em incubadora depois da maioridade.

Explicava-lhe pois que hoje em dia temos de ir voando por uma questão de sobrevivência, saltidando entre ninhos temporários em troncos de árvore ou beirais alugados, sempre predispostos a mudar de continente como se a nossa vida fosse uma sequência de ciclos migratórios.

Esquece-se a minha Mãe que também ela um dia bateu as asas. A grande diferença está no facto de ela ter transformado o seu ninho num lar, com carácter perene e consistência sólida, mesmo assim distante da terra onde nasceram os seus pais.

Eu, os outros, os pais da minha idade e os seus filhos adolescentes ou universitários, vamos vivendo por temporadas, como nas séries dos canais por cabo, com personagens que entram e saiem, algumas alterações nos cenários, reviravoltas surpreendentes no enredo e no desenrolar da história. 

Um voo entre destinos que são meros locais de passagem.

Parar é morrer... Até lá, vamos simplesmente voando...

 

 



publicado por teoriasdacosta às 18:56
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Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011
Sobre um caminho de pedras... mas de saltos altos!

 

Diz-se por aí que há cada vez mais portugueses deprimidos.

Até hà bem pouco tempo essa coisa da depressão era uma fraqueza das mulheres. Seres frágeis. Pouco corajosas. Sem tenacidade. Blá, blá, blá...

Hoje, homens e mulheres de qualquer cor, credo ou idade, vivem sob a ameaça de não chegarem à reforma sem antes passar por uma situação de desemprego. E rezamos todos, aos deuses e bibelots em que quando nos convém acreditamos, que a reforma que nos vai calhar seja suficiente para pagar os medicamentos, sem que seja necessário passar pelas filas da ajuda humanitária, que correm o risco de tornar-se organizações multinacionais onde os directores conduzem BMW´s os administradores recebem ordenados que são um escândalo.

Outra das ideias feitas em relação às depressões era a de que estas se associavam à tristeza. À incapacidade em ultrapassar um qualquer desgosto que se colava à pele como uma espécie de lepra. 

De repente qualquer momento menos bom da vida passou a ser classificado como um trauma, fosse o dia em que o pai nos obrigou a ficar três horas à mesa até acabarmos de comer a sopa, a tarde em que um primo nos fez mergulhar num mar gelado e experimentamos o nosso primeiro momento de pânico, a perda do cão que era nosso desde os dez anos, a morte de um ente querido, uma paixão com final melodramático, uma separação contra a nossa vontade, um ponto final num projecto de vida com a assinatura dos papéis do divórcio.

Parece-me porém, que o que agora deprime os portugueses não são as recordações arquivadas num passado que com a maturidade reconhecemos que afinal não é tão trágico como nos dias, semanas e meses seguintes o recordamos. As pessoas andam tristes porque reféns de um passado que era muito mais cinematográfico e auspicioso do que a realidade que se escancara no extracto bancário e despudoramente obriga a cortes inesperados no orçamento.

Somos todos invadidos nos sonhos ou surpreendidos num momento de distracção entre dois segundos de zaping por memórias de tempos diferentes. Mais felizes. Mais bonitos e perfeitos. Agora, vistos à distância, como uma fotografia digna de partilha no Facebook, ainda que na altura fossem vividos com entusiasmo q.b., uma certa displicência snob, comentados com uma vaidade escondida como meramente razoáveis ou apenas assim-assim.

Os autores que escrevem teorias sobre a felicidade, defendem que só somos felizes quando aceitamos aquilo que temos. Acrescento eu, que me vejo hoje como uma pessoa tão diferente daquela que fui, que ser feliz pressupõe aceitar a pessoa em que nos tornamos.

A única questão que me coloco é se aceitar não é ceder...

Os grandes momentos da História foram produzidos por personagens audazes que num acto de criação ou de bravura, que os outros interpretaram como de loucura, questionaram o status quo revelando que a realidade não é o branco nem o beje, tão pouco o amarelo do sol ou a penumbra de um buraco negro, mas sim uma mescla de coisas que não imaginávamos, uma combinação de invenções e de descobertas, de mergulhos no desconhecido, voos planados e superação de metas para lá da lógica e das possibilidades, do que era tido como objectivo e correcto.

A ambivalência que nos assalta, entre o querer mais ou o rendermo-nos sem luta a ter menos, será talvez a causa principal para as lágrimas que nos embaciam os olhos e para as noites passadas a deambular entre a sala e o quarto, numa peregrinação sem fé que nos mantém insones num desalento.

Não é solução carpir o que se perdeu, nem aceitar com submissão tudo o que a vida nos entrega. Pode-se acreditar no destino, na sorte ou nas coincidências, mas se o destino é uma estrada que se percorre, o medo ou a desilusão não nos podem atrasar o passo nem fazer sentar na berma.

Entre frases feitas, mezinhas e slogans de auto-ajuda, que o caminho se faça caminhando... sem deixar de acreditar que será com as pedras em que tropeçamos que construiremos um dia o nosso castelo. 

E já agora em relação às mulheres, as tais que tantos ainda pensam que são o sexo fraco, que essa caminhada se faça com estilo sobre uns glamorosos saltos altos...

 



publicado por teoriasdacosta às 21:20
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Domingo, 24 de Julho de 2011
Sete vidas

 

“Nasci de novo” disse-me esta semana uma amiga após duas noites insones no hospital, com um filho ainda nas “observações”.

Neste caso, a amiga referia-se ao nascer de novo após aqueles segundos, que terão sido micro, imensos, intermináveis, em que temeu que o seu filho tivesse morrido ou que ficasse tetraplégico. Tudo correu pelo melhor e, à medida que se estabilizavam os sinais de vida, se superava cada etapa da bateria de exames e se concluía que, apesar do aparato, o rapaz tinha apenas algumas costelas partidas, a mãe foi ressuscitando.

Nascemos de novo sempre que a nossa vida faz um reset.

Nascemos de novo sempre que nos deparamos com o fim de uma coisa que tomávamos como eterna, perante uma curva em que o despiste é inevitável, quando a realidade faz sumir o chão sobre o qual caminhávamos.

Nascemos de novo quando a vida nos surpreende. Mas também nascemos de novo quando queremos.

Dou o exemplo de um colega que andava há anos em carreira internacional, de país em país, sem critério nem objectivo prático, e que me dizia com um sorriso misterioso que “o bom da mudança era que em cada novo sítio podia ser uma nova personagem”.

Passei por essas mudanças de personagem na minha vida.

Quando entrei na faculdade. Quando casei. Quando me divorciei. Quando abri a minha loja.

Houve mudanças que me tornaram mais altiva e distante das pessoas, outras mais doce e frágil.

Em cada mudança, em cada nova vida, tive na minha órbita diferentes personagens.

Curioso que algumas se tenham afastado permanentemente, perdidas num buraco negro, sem despedida nem rasto.

Outras, poucas, mantiveram-se próximas, agarradas, mesmo quando os telefonemas eram espaçados e os encontros escassos. Com alguns amigos, bastam cinco minutos de um reencontro para que a conversa flua como se ainda ontem tivessemos jantado. Com outros fica um silêncio, mantém-se uma distância, perde-se cumplicidade, soltam-se as amarras, as afinidades. Ao final dos ditos cinco minutos, há apenas memórias de um passado que imaginamos mais longínquo do que é, um espanto perante a pessoa que revemos e que subitamente nos parece um estranho.

A vida é um jogo de entradas e de saídas.

A vida é um jogo de mortes súbitas e de despertares.

Como acredito que nada acontece por acaso, encaro este turbilhão de personagens, cenas e episódios com naturalidade.

As pessoas que me entraram na vida nos últimos anos desempenharam todas um papel. Algumas foram até muito importantes.

Como a amiga sonhadora que pintava a minha existência numa tela de cores berrantes.

Admito agora, depois de tantos momentos em que enalteci  a amizade como “um amor que nunca morre”, que subvalorizei a amplitude desta frase.

Para a amiga que renasceu de novo, ficou-me o aviso da ausência em momentos chave.

A vida dela recomeçou na semana passada. Espero que neste novo ciclo ainda exista espaço para o renascimento da nossa amizade...



publicado por teoriasdacosta às 22:11
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