
A empresa onde trabalho está a patrocinar-me aulas de francês privadas.
Ontem, para exercitar os comparativos e superlativos, incitava-me a professora a comentar se as mulheres gastam ou não mais dinheiro do que os homens.
Expliquei-lhe então, no meu francês ainda desajeitado, que as mulheres gastam mais dinheiro do que os homens porque o seu horizonte é mais amplo. Sem querer, desenvolvi então uma longa teoria que a deixou maravilhada:
1. Os homens têm uma perspectiva egoísta das compras. As mulheres têm uma visão altruísta das compras.
Quando uma mulher vai ao centro comercial pensa em comprar coisas para ela, mas também estará aberta às oportunidades de compra para ele, para os filhos, para a mãe, para o pai, para os sogros, para alguém próximo ou conhecido, para a casa, para aqui, para ali, para nada. Os homens vão ao centro comercial com espírito de missão, com objectivo concreto, alvo de caça. Entram à procura de uma coisa, que raramente encontram sem assistência, olham, tocam, decidem sem experimentar e abandonam o local do crime tão rápido quanto podem, antes que o tecto desabe sobre as suas cabeças ou que a mulher que os acompanha detecte numa montra algo que as apaixone.
2. Os homens compram por necessidade. As mulheres compram por desejo.
Para um homem uma ida às compras é uma tarefa: uma actividade dispensável, delegável e incómoda. Para uma mulher uma ida às compras é hobby. Pode ser prazer, entretenimento, terapia, tratamento de choque. Seja o que for, a mulher vai às compras porque gosta. O homem detesta.
3. As mulheres compram software. Os homens dedicam-se ao hardware.
O exemplo que dei foi este: se a máquina de lavar roupa se avariar, o homem, depois de desistir de a tentar consertar, há-de assumir como dever matrimonial (ou equiparado) a escolha do novo electrodoméstico. Não porque saiba como funciona a máquina de lavar roupa, porque perceba alguma coisa sobre a amplitude dos programas de lavagem ou sequer porque pretenda nalgum momento da sua existência tomar a iniciativa de tratar da roupa suja, mas porque a máquina é um equipamento, e de mecânica percebem os homens! Por outro lado, dificilmente um homem se interessará por comprar velas, bibelots ou cortinados. Todos esses adereços são folclore, quase sempre inúteis e dispensáveis, sendo até recomendável que a mulher escolha e decida o que comprar sem consultar a parelha, pois o mais certo é que ele pergunte para que servem todas as futilidades que existem pelo IKEA, pela AREA ou pela ARBORETTO, já que para ele o fundamental é que exista uma televisão, um sofá e uma cama com colchão confortável.
A Senhora Professora achou tanta piada às minhas dissertações - talvez pelo meu francês macarrónico - que me apeteceu partilhar estes postulados doutrinários sobre homens, mulheres e compras.
Bom fim-de-semana!

Esta tarde, para vencer o tédio de uma sala de espera para uma consulta de ginecologia, resolvi navegar pela net no Blackberry, já que na CUF não há revistas de entretenimento, nem sequer em edições fora de prazo.
Entre os banners do costume surgiu um a relembrar que amanhã é o Dia Internacional da Mulher. Ocorreu-me então, naquele ecosistema particular de mulheres em idade fértil (por casualidade não havia menopáusicas na sala) que amanhã se celebra uma data consagrada às Evas parideiras, segundo consta criadas a partir de uma costela de um homem com barbas para assegurar a reprodução da espécie, não o dia das Amazonas, das Barbies ou das Maria Madalenas.
(Só por curiosidade, na mesma janela uma notícia sobre um muçulmano, alegadamente um religioso, que foi preso em Madrid pela autoria de um vídeo em que explicava aos maridos como bater nas esposas...)
Creio que já ninguém se dá ao trabalho de comemorar esta data - a crise impõe contenção na oferta de rosas ou outras flores - e também me parece que cada vez menos feministas convictas se concedem algum tempo para se incomodar com o facto de existir no ano um dia em que se celebra a Mulher.
Os lugares-comuns e soundbytes da data evocam as discriminações sexuais, a violência doméstica, a exploração sexual e outros temas, que sendo relevantes e pertinentes, são fenómeno quotidiano, universal e histórico, não requerendo por isso de um dia de agendamento. A sociedade evolui e com esta diminuem os exemplos escandalosos, mas é tão certo que a discriminação sexual continuará a existir - por mais injusta ou infundada - como persiste a segregação baseada na cor, na raça, ou até na cor do cabelo (não posso deixar de lamentar o preconceito que grassa contra as loiras, mesmo as de raíz morena...).
Chocam-me as histéricas que ficam vermelhas uma vez por ano porque a existência de um Dia Internacional para a Mulher as humilha tanto como um apedrejamento, como me chocam também as desgraçadas que permanecem amarelas um ano inteiro a suportar agressões verbais, físicas ou qualquer outro tipo de violência.
(Não sei se perceberam mas fiz aqui um trocadilho com a expressão
"antes uma vez na vida vermelha do que a vida toda amarela")
Choca-me tanto que para algumas mulheres a igualdade advenha de um comportamento promíscuo - o dito "comportamento à homem" que basicamente equivale a ir para a cama com todo o macho que mexa - como que para outras a independência ou emancipação das amigas seja sinónimo de comportamento desviante.
Choca-me muito que seja preciso um dia para relembrar as indiossincrasias e vicissitudes associadas à aleatoriedade de nascer com sexo feminino, mas choca-me mais o silêncio consentido de quem exerce, assiste ou compactua com qualquer tipo de atentado à dignidade humana, qualquer que seja o género, a idade ou o credo do agredido.
Esta teoria tropeça nos clichés do costume, mas o que me ocorreu enquanto esperava impaciente pelo exame médico de rotina, que presumo seja menos incómodo que um exame à próstata, não foi o simbolismo do dia Internacional da Mulher mas o que é suposto ser todos os dias para manter o estatuto - DE MULHER, SIMPLESMENTE UMA MULHER- sem associar um acaso genético à condição de mártir, meretriz, mãe, cabra, escrava, bem de luxo, lixo, troféu ou saco de porrada.

Não há nada melhor do que estar com as amigas do coração, aquelas que conheço há tantos anos – antes da menstruação e dos tampões, antes do acne e dos rapazes, quando vestíamos calças com cinta sobre o umbigo e não éramos tão loiras – que são como uma espécie de prolongamento histórico da minha vida, uma causa, um efeito e uma consequência da pessoa que sou hoje.
Somos afortunadas por conseguirmos manter uma amizade durante tantos anos, gerindo tempos e espaços de distância com tanta naturalidade que, quando nos reencontramos, parece que a última vez que falmos foi apenas ontem.
Sempre que estamos juntas fazemos autênticas “biópsias à alma”, porque só com quem é tão próximo nos podemos “virar do avesso”, revelando coração, tripas e lágrimas sem reservas nem vergonhas ou medos.
Um grande bem-haja à “Casa de Pasto da Palmeira” que nos acolheu com uma série de petiscos art nouveau sem peneiras.
Creio que todos os jantares entre mulheres gravitam em redor do tema homem, muitas vezes em abstracto, porque nos intrigam mais as relações do que as pessoas.
Chegadas a esta fase da vida divorciadas é inevitável ficarmos presas, pelo menos durante uns tempos, nesse limbo alucinado que são as relações adultas, entre veteranos recalcados, com suas tácticas beligerantes e cicatrizes de guerra.
Ainda não sei o que procuram os homens, mas em relação às mulheres tenho como certo que procuram todas receber o Prémio Nobel pela descoberta da alma gémea. Mesmo as que ficam sós durante tanto tempo que a certa altura bradam com cartazes quão realizadas são com a sua independência, acabam por ficar tão vulneráveis quanto uma adolescente se um dia tropeçam num espécimen que por mais errado que seja ou pareça, tem potencial quanto baste para ocupar o lugar certo.
É claro que temos medo. Com o tempo ganhamos uma estranha imunidade que nos faz antever que qualquer relação está condenada ao insucesso, preparadas para que todo o candidato a residente se revele um parvo carregado de defeitos, incapazes de reagir em conformidade se afinal a pessoa a quem vamos abrindo a nossa porta até é um homem decente e bem-intencionado, apesar de ser esse o nosso inconfessável desejo.
O normal no mundo dos adultos é vogar entre relações plásticas, neste imenso bazar de amor contrafeito, à procura de sexo, de uma companhia para jantar ou para o cinema, de uns momentos de humanidade que nos suguem da nossa rotina de problemas no trabalho, contas para pagar e trânsito louco. Fazemos o que ontem ouvi designar como “zaping emocional”.
Na nossa essência, quando dissemos “sim” em frente a um altar carregado de flores, acreditavamos na lenda do “casamento para sempre”. Não concebo que alguém se case pensando no divórcio como solução para qualquer problema. Admito sim que recorremos mais a essa opção como se fosse uma “saída de emergência”, apenas e só porque desde miúdas aprendemos não sei onde que fomos programadas para ser felizes. Como não existem parâmetros que certifiquem o nosso grau de felicidade, como aqueles que são utilizados nas análises clínicas, quando começamos a agonizar ante o pressentimento de que não somos tão felizes quando poderíamos optamos por esta “fuga para a frente” que aumenta todos os problemas e discussões de um casamento naufrago quando se começa a equacionar a hipoteca da casa e as partilhas.
Gostavamos de pertencer aquela casta dos “cisnes”, os casais que permanecem juntos até à morte num amor cúmplice que é amizade tatuada na carne, caminhando de mãos dadas, com o ombro do outro ao nosso lado, porque assim se caminha num passo sincronizado e porque aí se procura aconchego quando a estrada que seguimos nos falha.
Em vez disso, a realidade revela-se um filme diferente do que tínhamos realizado como sequência lógica casamento–filhos, e acabamos por desempenhar papéis inspiradas no “Sexo & a Cidade”, que por sua vez se inspira em mulheres como nós, saltando de festa em festa, de desilusão em desilusão, de borboletas na barriga para socos no estômago.
O ideal é que esta fase de zaping seja apenas um treino de resistência, força e endurance, necessário para sermos melhores mulheres para um homem, também ele aperfeiçoado na arte mágica de gerir afectos, impulsos, maus feitios e conflitos de personalidade.
Assim seja!

Descobri que os quartos do hotel são locais tão inspiradores para escrever teorias como os aeroportos. Como ando entre pontes aéreas e noites de insónia em camas estranhas por questões de trabalho, ocorre-me um tema que é uma banalidade: as diferenças entre trabalhar com homens ou com mulheres.
Neste momento faço parte de um grupo de trabalho europeu constituído por homens.
Gostava que pelo menos um fosse maricas, mesmo que eventualmente encarado pelos outros como uma espécie de macho de segunda.
Como creio que já escrevi “um maricas é o melhor amigo de uma mulher”.
Porquê esta afinidade entre mulheres e gays? Gostamos ambos do mesmo, sendo que eles nos conseguem apreciar numa perspectiva de potencial concorrência - apesar de não jogarmos no mesmo campeonato e de ser certo (de forma mais ou menos rigorosa, apesar desta tendência para a bissexualidade e para o swing baralhar as estatísticas) que quem é vegetariano não come vaca nem vitela – com a vantagem de serem capazes de nos admirar ou criticar enquanto ser humano que pode interessar a um macho, sem a inveja nem a malícia com que o faz uma mulher.
Neste grupo de trabalho, quando falo, mesmo que a minha análise faça tanto sentido como os comentários do Marcelo Rebelo de Sousa ou esteja em rigor ao nível de um relatório científico da NASA, recebo sempre um sorriso condescendente ou paternalista do género “pois, pois”, sendo as minhas opiniões apenas consideradas como merecendo algum tempo de antena quando digo algo que realmente lhes agita o ego naquela zona anti-erógena que equivale à sensação de desprazer “mas porquê que não fui eu que me lembrei disto?”
Eles fingem que me consideram mas na prática vêem-me como uma loira mais do que como a responsável por uma área de negócio na empresa. Tenho como certo que só se eu não tivesse penteado mas apenas cabelo, aumentasse o meu peso em dobro e deixasse crescer pêlos no queixo, seria olhada de forma diferente. Talvez com pena, mas certamente como quem até pode falar sobre as coisas com algum conhecimento, já que o preconceito é de que só uma mulher com uma imagem de virgem de Willendorf (aquela estátua pré-histórica que representa a mulher como uma cabeça, um par de mamas até ao umbigo e um descomunal par de ancas) poderá ser efectivamente competente.
Já quando entrei na faculdade – há vinte anos, vejam só! – se dizia que as mulheres ou eram bonitas ou iam para engenharia, insinuando que, sendo este um curso de reconhecida complexidade e elevado nível de testosterona, só uma mulher com problemas hormonais (por defeito, entenda-se) escolheria tal opção universitária.
Na prática, ao contrário da maior parte das pessoas, apesar de reconhecer as vantagens de trabalhar com homens, adoro trabalhar com mulheres. Não em abstracto, mas em concreto com a minha equipa. Ou o que dela fica...
As vantagens em trabalhar com eles são evidentes: como não perdemos tempo a falar de futebol ou sobre aquelas leggings novos que prometem um rabo “à preta”, somos muito mais focados, completamente orientados para um resultado que queremos alcançar tão rápido quanto um homem espera atingir um orgasmo. A maior desvantagem é perceber que mesmo estando em maioria nas faculdades, quando ascendemos a posições equivalentes às deles, continuamos a ser subestimadas pelo simples facto de sermos "gajas".
Quando trabalhamos com elas, se as pessoas são maduras e têm bom senso, a relação funciona por osmose, como é suposto funcionar um casamento.
Para além daquele mito de que começamos todas a ter o período menstrual ao mesmo tempo, temos sensibilidade q.b. para saber quando o momento é sério, de trabalho em corta-mato, em sprint de cem metros ou a ritmo de maratona. Nestas alturas somos capazes de nos concentrar, com um grau de abstracção equivalente ao de um monge budista, dificilmente fazendo um comentário que saía fora do contexto.
Transpondo a análise para o nível das relações entre casal, os casamentos mais duradouros são aqueles em que a mulher respeita os dias em que o homem está mais sorumbático ou irritado, porque não se desliga de um problema que trouxe do trabalho ou não esquece o resultado da sua equipa no último jogo, deixando-o submergir na “caixa do nada” até que ele esteja com alguma paciência para fazer aquilo que é suposto num relacionamento: interagir com o outro. Nas relações maritais, sendo os seres tão diferentes quanto dois planetas, a gestão destes momentos pode redundar num silêncio permanente, uma espécie de hábito, passando o casamento a ser apenas um estado que se mantém por comodidade ou displicência.
Nas relações de trabalho entre mulheres, dado que possuem todas a mesma peculiar forma de gerir os silêncios e idêntica paciência para conversas monótonas ou cinzentas, é inevitável que ao final de algum tempo, um dos elementos do grupo pergunte a outra “essas botas são novas?”, gerando-se imediatamente um coffee break psicológico equivalente a uma ida virtual às compras que, como todos sabem, é uma terapia excelente para equilibrar humores, logo para recuperar o nível de convergência.
A desvantagem de um grupo de mulheres deriva das competições que começam pelo tamanho das calças e pela área volumétrica ocupada na cadeira; passando pela cadência de idas à casa-de-banho, ao exterior para fumar, à manicure ou ao cabeleireiro; pela profissão do cônjuge e mostruário de sinais de amor que este oferece; com remate no sucesso dos filhos na escola e desfecho em forma de “gota de água” no reconhecimento que cada uma consegue obter dentro da empresa, sendo certo que também elas desconfiam quando uma Amazonas sobe na escala, como se um triunfo profissional só fosse crível com um cruzar de pernas à Sharon Stone ou na sequência de uma troca infiel de fluidos ou de favores com quem decide.
Assim é, por muito que seja politicamente incorrecto escrevê-lo.

Outra vez em modo zaping radiofónico, lá me entra outra vez pelos ouvidos dentro a voz do Quintino Aires. Apanhei a intervenção a meio mas o tema era “será que as mulheres têm menos líbido do que os homens?”.
Já li alguma coisas sobre o assunto e de facto teoriza-se muito sobre isto, com base em estudos científicos e pesquisas laboratoriais que levam anos a produzir conclusões, com muitos inquéritos, sessões de grupo e um acompanhamento exaustivo do dia-a-dia da população da amostra. Tudo se acaba por resumir numa evidência pouco lisonjeira: as mulheres perdem a líbido mais cedo do que os homens.
Sei que já escrevi sobre o tema, comentando que verificava isso entre amigas tão próximas quanto eu dos quarenta, que depois de serem mães e se rotinarem com as papas, cocós, colégios, festas de aniversário e com o canal Panda, adoptam na vida familiar uma postura de quem anda a “brincar às casinhas”, entretidas nas lides domésticas e no cuidar das crianças, sem tempo nem pachorra para outro tipo de marotices.
Hoje ouvi o professor Quintino Aires afirmar com convicção que esta história de as mulheres perderem a líbido é mais um mito urbano. Mesmo que as hormonas possam destrambelhar uma pessoa e que o corpo comece a ressacar por falta de estrogénio, a culpa de as mulheres perderem interesse sexual está todas nos homens! Depois de ouvir os argumentos concordo em pleno com este especialista.
A questão é simples: enquanto que as mulheres vão envelhecendo com algum cuidado, mesmo as que alargam dois tamanhos e se esquecem de pintar com regularidade os cabelos brancos, os homens envelhecem mil vezes pior do que elas. Eles não colocam cremes anti-rugas no rosto, hidratantes no corpo, não tratam os dentes, deixam pêlos crescerem para fora do nariz, penduram a barriga por fora do cinto e acham que um abraço amigo de vez em quando é quanto basta para manter o romance num casamento.
Todas sabemos que as mulheres têm um motor de arranque mais lento – apesar de o dos homens também perder velocidade – e que elas começam a fazer amor com a cabeça, ainda vestidas, a sair do trabalho, numa fila de trânsito ou no corredor do arroz e das massas na hora de ponta do Continente. Se o que encontram quando chegam a casa é um homem estirado no sofá que julga que um piscar de olhos e um “anda cá que eu não te aleijo” é um preliminar suficiente, é natural que percam a vontade, se refugiem na cozinha a depenar um pato ou procurem nos filhos os mimos que já não recebem do companheiro.
Há uma frase qualquer que diz uma coisa do género “não há sexo mau, há é pessoas sem jeito”. Assim sendo, vai muito da competência dos homens garantir que há líbido para a sobremesa… (ou sobre a mesa?)

Fim-de-semana em grande no Porto.
A zona da Baixa ao rubro com bandas a tocar por toda a parte, um singular mercado Portobello no sábado à tarde, esplanadas apinhadas numa boémia efervescente, o Portugal Fashion com suas aves raras no Palácio do Freixo, as Galerias inundadas noite fora por um infindável mar de gente.
Uma temperatura ainda de Verono (nome fantástico que escutei para esta nova estação que se instalou depois do Verão e antes do Outono) e a conversa muito quente, por estarmos quatro mulheres de verbo fácil pródigas em tiradas sábias, satíricas, anedóticas ou eloquentes, bem acompanhadas por um tinto Syrah que nos fez grudar nas cadeiras do restaurante até sermos as últimas clientes.
Tenho amigas que já falam comigo como se me estivessem a dar dicas para uma teoria. Outras, com medo que alguém as identifique, pedem-me que não mencione nenhuma das nossas trocas de cromos e de galhardetes.
Entre todas, tempo para desabafar e desabar em lágrimas, rir muito, encontrar respostas e colocar perguntas, como se de um brainstorming entre loiras e morenas pudesse sair poção milagrosa ou solução mágica para todos os problemas.
Não vou mencionar nenhum dos assuntos. Posso apenas dizer que entre tanto o que se divagou sobre este ser que nos fascina e que recebe a designação de “homem” tivemos alguma dificuldade em encontrar um padrão, um fio condutor, uma lógica entre acção-reacção, palavra-pensamento, suficientemente credível e cabal para enquadrar as cartas atiradas para a mesa sobre telefonemas equívocos, silêncios inexplicáveis, ausências por tempo incerto, surpresas com travo agridoce, partidas apressadas e outros peculiares comportamentos.
No final, porque três amigas trocaram recentemente de carro e isto deu que falar quando ainda estávamos na fase da ementa, ocorreu-me que homens, mulheres e automóveis serão sempre variáveis independentes.
O que uma mulher quer num carro é que seja giro, tenho volante e rodas. Depois compra um usado que até é descapotável e topo de gama full extras, mas descobre que este mete água, que o seu interior com requintes de mogno e pele branca é um engodo, que é impossível ouvir a "música da sua vida" porque qualquer som é absorvido por uma insuportável chiadeira, perdem-se molas, porcas e jantes em cada trajecto, a garantia não menciona que o veículo foi reciclado com uma série de peças não autênticas. Vai-se o charme fica o chaço…
O homem só decide que carro quer depois de dar umas voltas. Confere a cilindrada, o ano, o chassis, os acabamentos, as polegadas e as outras tretas que compõem um ficha técnica, faz um test drive, retém o carro durante um fim-de-semana à experiência, ouve umas opiniões, medita introspectivamente, e só então decide se o investimento vale a pena.
Poucas serão as mulheres com algum entendimento de mecânica, capazes de mudar um pneu, com destreza para utilizar um macaco pneumático ou uma chave de fendas. Poucas são pois as mulheres capazes de entender a engrenagem do motor que faz acelerar um homem à sua máxima potência. Não falo em sexo mas sim em elevar um macho à qualidade de homem honesto, isto é, de homem que não mente, não traí, não dissimula, não ofende nem desaparece sem rasto, uma saída pela porta dos fundos sem direito a abraço sentido nem um “adeus até ao meu regresso!”
Assim, à primeira vista, todas as mulheres acreditam que é tudo uma questão de embraiagem e de ponto-morto, fiando-se que basta que o carro nunca vá a baixo para que o motor trabalhe a vida toda. O problema é que os homens não são só mudanças, marcha-atrás, piscas e médios, nenhum traz livro de instruções e o computador de bordo não é tão intuitivo como o painel com botõezinhos da Bimby nem tão básico como um interruptor apaga-acende.
As mulheres podem ser tão complexas como mapas astrais em que se cruzam cometas, estrelas e planetas, mas os homens são blocos de apontamentos onde se desenham estradas como rectas, para mal a viagem começa se perceber que as direcções não contemplam as rotundas, as lombas, as curvas perigosas, as inversões de marcha e as saídas de emergência.
Entendido ou preciso de fazer um esquema?
Teorias dos outros
cantinhodacasa.blogs.sapo.pt