
Se era verdade que o cinto se vinha apertando e caminhavamos com uma cinzenta nuvem sobre a cabeça na iminência de o céu desabar, agora é mesmo um facto: estamos pobres, somos pobres e já não fica mal a ninguém levar o almoço para o emprego, andar com o carro cheio de pó, deixar mercearias na caixa do supermercado, regatear preços onde é possível, colocar aquele vestido lindo de morrer no cabide antes de ceder à tentação de sair com ele da loja.
Ainda este sábado, no tal jantar de amigas, escolhemos um dos muitos restaurantes super fashion que vão abrindo pela baixa do Porto. Estamos todas apreensivas com a nossa situação económica, já mudamos o sítio onde arranjamos as unhas, fazemos a depilação e arranjamos o cabelo só para pouparmos meia dúzia de euros, mas para um jantar em que queríamos carpir, dar as mãos e dizer umas graçolas, impunha-se escolher um cenário bonito onde pudessemos brincar às divas ao estilo do “Sexo e a cidade”. Afinal, até agora, andamos a escalar a pirâmide de Maslow em passo de corrida, logo continuamos acima da necessidade básica de comer o menu do dia, queremos mimo, hedonismo e vaidade.
Quando o empregado nos perguntou o que queríamos beber perguntamos se tinha sangria.
“Temos apenas sangria de Moet & Chandon” respondeu ele como se descrevesse uma mistela com vinho da casa e Sumol.
“E quanto custa?” perguntei eu sem pudor.
“Onze euros e meio o copo” informa ele.
Nesta altura nenhuma de nós conseguiu conter o riso. Sugerir que se pague pelo um copo de álcool mais do que por um prato de comida (não naquele sítio, entenda-se) é verdadeiramente escandaloso.
Como agora não temos vergonha de assumir que fazemos poupanças e contas de cabeça pedi-lhe que trouxesse a lista de vinhos dizendo em gracejo:
“Sabe, nós temos este ar sofisticado, mas no fundo somos um bocadinho pobres...”
O futuro próximo vai ser mesmo assim. Como tão bem descreveu Bruno Nogueira no “tubo de ensaio” de segunda-feira na TSF este Orçamento de Estado canibal pode ser comparado a uma “falta de apetite inesperada provocada por uma falta de comida que tem de ser compensada com mais dieta”.
No sector público cortam dois meses de salário e eu imagino que muitos patrões do privado sigam a mesma retórica. Não é que a malta esteja a contar com o subsídio de Natal para comprar prendas na Fashion Clinic ou com o subsídio de férias para ir às Maldivas, mas mesmo retirando da lista os “amigos mais ou menos” e os parentes afastados, correndo tudo a prendas de três euros comprados numa loja do chinês em saldos, mesmo fazendo férias na praia mais perto de casa nem que esta seja uma nesga de areia banhada por uma água de rio onde já não sobrevivem peixes nem plantas, estes dois ordenados extra davam imenso jeito para o seguro do carro, para o IMI e para outras despesas extraordinárias.
Segundo ouvi vamos ter de trabalhar mais meia hora.
Isto sinceramente não me diz nada. Entro todos os dias às oito e meia e para mim sair cedo é chegar a casa antes das notícias das nove. Ainda não percebi se isto é para os funcionários públicos ou é para toda a gente, muito menos percebo em que pode isto ajudar a tapar os buracos que este Governo descobre sempre que alguém se move.
O genial Bruno Nogueira (e o João Quadros que com ele escreve os textos) dizia com humor que esta medida nos vai converter na China da Europa. Até Francisco Van Zeller, reputado empresário, Presidente da Associação Empresarial de Portugal, questionava a utilidade da extensão do horário de trabalho.
Eu fico pelo escritório dez a doze horas porque quero e posso (confesso que sou um bocadinho obcecada pelo trabalho e por esta quimera da carreira e da realização profissional). Mas com uma equipa de mulheres que equivale a oito crianças entre os três e os dez anos, não tenho coragem de pedir a ninguém que fique na empresa para lá do horário em que as escolas e os ATL´s aceitam manter as crianças, a não ser em casos de extrema necessidade.
Não sei quanto mais poderemos cortar e quanto mais poderá o Estado exigir de nós.
A angústia que fica é a de ter a noção de que os efectivos donos do capital continuarão a fugir aos impostos, a declarar salários mínimos apesar de conduzirem jipes Porsche e possuirem casas na Quinta do Lago.
Ficamos nós, os trabalhadores por conta de outrém, a carregar com as dívidas da Madeira, do BPN e do despesismo megalómano de Sócrates, tendo de prescindir dos pequenos luxos que davam algum glamour aos nossos dias nos tempos áureos em que eramos classe média com uma vida boa e não novos pobres.

Esta frase que nos habituamos a ouvir em jeito de chalaça (o autor foi Baptista Bastos, para os que o não sabem) não permite grandes respostas a pessoas na minha faixa etária, que em 1974 ainda mal andavam, pouco falavam e nada percebiam do mundo para além de que os adultos eram grandes e de que existia um grau de proporcionalidade directa entre a quantidade de mimo recebida e o tamanho.
Para a geração que anda à rasca, o 25 de Abril muito menos significa, já que a ignorância grassa nesta malta adestrada entre mudanças no estilo e no formato, programas alternativos, métodos de avaliação ambíguos, professores reinvindicativos e desmotivados, muitos deles - como os que tive o azar de apanhar no liceu, que eventualmente fizeram carreira tornando-se os professores das gerações que se seguiram à minha - uns frustrados da vida, talvez até uns falhados, que optaram pela via do ensino apenas porque a colocação em segundas e terceiras fases garantia emprego a muitos recém-licenciados sem perspectivas de uma outra profissão.
Dada a fraca qualidade do ensino público – reconheço que tive apenas uma professora com qualidade pedagógica na Escola Secundária Rodrigues de Freitas (ou liceu D. Manuel II) no Porto – não me surpreende esta falta de conhecimento, de interesse, de identidade ou simplesmente de curiosidade crítica.
O que me choca é que os portugueses da minha geração, e os das que me antecedem, se congratulem apenas pelo facto de o 25 de Abril ser um feriado, este ano por coincidência na segunda-feira a seguir ao Domingo de Páscoa, logo uma oportunidade excelente para um fim-de-semana prolongado. Só. Mais nada.
Hoje ao almoço, os meus pais e o meu namorado, nascido em 1964, teciam considerações sobre este marco histórico. Ouvi com atenção repescando na memória aquilo que aprendi em História Económica sobre as medidas implementadas por Salazar.
Na altura existiam planos. A dez anos, coisa impraticável nos dias que correm dada a velocidade a que o mundo se move. Mas existia uma direcção. Nos últimos anos existiram vaidades, lobbies, promessas mentirosas, o culto da dívida como motor do progresso, inaugurações e ostentação.
Salazar foi um ditador. Tirano e prepotente como qualquer outro líder nessa circunstância. Mas na época em que Salazar mandou neste rectângulo, a ditadura era o sistema ditatorial que dominava por toda a Europa, da mesma forma que depois se disseminou a social-democracia e o socialismo e mais recentemente se adivinha a ameaça de uma viragem à direita extrema e radical, fundamentada em ódios rácicos e na intolerância.
Históricamente, depois de proclamada a República, em 1910, Portugal conheceu dezasseis golpes. Em dez anos a dívida externa cresceu até 53,3% do Orçamento de Estado, fugiram capitais e condenaram-se à miséria milhares de famílias graças a uma inflação galopante. Nos anos vinte do século passado o país estaria por certo pior do que está no século actual.
Na ausência de um Fundo Monetário Internacional, Salazar tomou um país fortemente endividado e traçou um plano de recuperação económica implementando medidas altamente restritivas de impacto pouco mediático e questionavelmente democrático.
Instituiu-se assim um Estado Novo Corporativo, que nos isolou do mundo, numa espécie de tubo de ensaio, no pressuposto de que cidadãos ignorantes seriam mais subservientes. Daí o descontentamento crescente daqueles que em finais da década de sessenta se apercebiam que toda a Europa vibrava ao som rebelde de uma excitante ebulição cultural.
Os erros de Salazar foram muitos. O maior de todos foi não ter saído no tempo certo, como sucede com todos os déspotas, tal como Sócrates nos dias que correm.
Os militares de Abril perpetraram um golpe de Estado que se transformou numa Revolução tal era a vontade que o povo tinha de mudar. O povo, a tal população ignorante e sem formação, saiu para a rua num apoio inequívoco e pacífico ao movimento militar.
O povo que somos hoje, menos ignorante e mais instruído em teoria, estende-se numa toalha à procura de uns raios de Sol, come uns petiscos à beira-mar ou refugia-se no interior do seu imaginário numa reprodução cenográfica da vida rural. Perante o descalabro que é a vida pública retratada dia-a-dia na televisão, noticiada sem cortes nem censura, com total liberdade para comentários que deixam este Governo pelo chão, os eleitores que revelam as sondagens ainda se interrogam se hão-de votar naquele domingo de Junho, em que provavelmente até vai estar um bom dia de praia, ou se, na dúvida, votam no mesmo, numa atitude displicente e inconsciente que é absolutamente chocante.
Sei pouco do que era a vida antes do 25 de Abril, da P.I.D.E., da falta de liberdade, da pobreza, da fome, do fascismo, da incoerência da política colonialista, que se arrastava há cinco séculos, (desde a conquista de Ceuta pelo Infante D. Henrique) e do morticínio da guerra além-mar, que para além de estúpida, como todas as guerras, absorvia quase metade do Orçamento de Estado (à época).
Mas sei alguma coisa da conjuntura em que se faz a festa da democracia neste ano da graça de 2011. Sei o suficiente para me sentir indignada e envergonhada com a apatia que permanece mesmo depois de concretizada a pior de todas as hipóteses: a necessidade de recorrer à ajuda internacional.
As palavras de ordem do 25 de Abril foram descolonizar, democratizar e desenvolver.
Em retrospectiva, apenas a primeira foi uma mudança irreversível. A democracia teve um arranque lento e o desenvolvimento andou em progressão aritmética decrescente até se afundar em taxas abaixo do limiar da dignidade patriótica.

Até à chegada da Primavera tínhamos um Primeiro-Ministro que nos assegurava, no tom arrogante e seco que nos habituamos a suportar, que a coisa não era tão grave como a comunicação social e toda a oposição faziam crer.
Entretanto os dias ficaram mais longos, chegaram as andorinhas, nasceram flores por todo o lado, a temperatura subiu para níveis inesperados e despropositados para a época e o país entrou numa crise política próxima da histeria. Apesar do bom tempo, das excelentes praias e do mar imenso, subitamente Portugal tornou-se um lixo.
A culpa não é de Sócrates, nem do Governo, mas sim da oposição, que não aprovou mais um P.E.C., e já agora de todos os portugueses, que consumiram, contraíram créditos, compraram casa, trocaram de carro e ainda foram fazer férias às Caraíbas!
Numa semana a ajuda externa era hipótese remota, na outra era inevitável. O mundo realmente muda a alta velocidade. Desde que a terra tremeu no Japão toda a ordem universal que tínhamos como certa ruiu.
Hoje, o Portugalex (rubrica que passa na Antena 3) foi hilariante. O autor dos textos (ou pelo menos aquele que os lê) imitava na perfeição um Cavaco Silva que num discurso à Nação asseverava que o Governo em funções, ainda que demissionário, tinha poderes para requerer toda a ajuda externa possível, mesmo que para isso fosse necessário falar com Deus. Respondia a este comunicado um igualmente bem imitado José Sócrates, que jamais requesitaria a ajuda de Deus porque o pagamento de tamanha dívida obrigaria todos os portugueses a deslocarem-se semanalmente a Fátima, de joelhos, e não se sentia no direito, no seu recém assumido papel de protector do povo, de exigir mais sacrifícios aos que ainda se dão ao trabalho de ouvir tanta intervenção e declaração ao país, entre anúncios ao Continente e as notícias.
Impressionada pelo tom melodramático com que interpretou o comunicado de Sócrates o jornalista que fazia o directo para a SIC, acreditei que o dia 6 de Abril ficaria para a história como um momento trágico, daqueles que mudariam incontornavelmente o curso das nossas vidas.
No day after, as pessoas ainda estavam um pouco anestesiadas. Os noticiários, debates, reportagens, análises, opiniões, retrospectivas, futurologias, teorias e dissertações que todas as estações de televisão e de rádio, se dedicaram a transmitir foram um autêntico incentivo à depressão colectiva.
Mas na sexta, regressada ao Porto para matar saudades, lá fui ao mítico Capa Negra dos rissóis king size e das francesinhas e o restaurante estava à pinha. No sábado fui retocar o loiro e o cabeleireiro estava concorrido como há muito o não via; passei pelo NorteShopping e não notei o mínimo espectro da crise; à noite saí para jantar num sítio que não é propriamente económico, e mais uma vez, mesa só com reserva, e os que chegavam para jantar às dez faziam fila à espera que saíssem os que jantam com as galinhas.
Comentou comigo a minha cabeleireira, mulher inteligente e instruída que foge completamente ao estereotipo da platinada com decote siliconado que só abre a boca para falar de brushings e mascar chiclet, que já ninguém quer saber da crise. Como a morte é certa e afinal já não é assim tão vergonhoso recorrer ao banco alimentar, as pessoas querem é aproveitar enquanto há crédito para gozar em pleno os últimos dias que restam até que a bomba que anda a destruir a vida a tanta gente faça impludir as suas famílias.
Já todos nos habituamos a beber água da torneira e a fazer algumas concessões, pelo que entre promoções, preços baixos, cantigas, talões de desconto e cartões de cliente continuamos a acreditar que somos classe média ainda que com poder de compra reduzido.
Confesso que estou apreensiva.
Imagino que lá para Setembro, quando os passarinhos se forem embora e a noite chegar por volta das cinco, com o novo Governo no activo e as medidas ainda mais austeras que o compromisso da ajuda externa nos vai inflingir, terei de ganhar o hábito de apurar preços no Lidl, no Minipreço e no Pingo Doce antes de decidir a compra de um quilo de kiwis.
Se for reler a minha última teoria deveria era estar grata: estou viva, tenho saúde, emprego, família que me pode ajudar, sinto-me realizada com o que faço, completa com quem me ama e, olhando em retrospectiva, estou sem dúvida muito melhor do que estava por esta altura no ano passado.
Mesmo assim, porque a gratidão espontânea carece de uma dose adicional de fé, que eu reconheço que neste momento me falta porque me pesa o saldo do VISA, já que o mote do texto foi a intervenção divina, solicito a quem de direito, a nomeação de um santo padroeiro para a crise, a quem eu possa rezar todas as noites e acender de vez em quando umas velinhas.
Amen.

O país está uma autêntica novela. Desta vez não é mexicana, é um misto de ditadura disfarçada de paródia como as que se encenam na Venezuela, com merchandising colorido a menos de cinco euros como o que faz parte do maravilhoso mundo made in China.
No meio disto, de tanta notícia, facto, boato, bater de portas, encontros secretos, segredos de alcova, diz-que-disse, amuos, arrufos e bandalheiras, ando eu entre o Porto e Lisboa, a tratar de tretas que entre sotaques e Juntas de Freguesia não se podem resolver nem por mail nem por telefone, porque neste país em que tanto se apregoa o simplex e a desburocratização do sistema, é mais fácil abrir um negócio e falir uma empresa do que ter gás canalizado em casa.
Há imensa coisa que me apetece dizer sobre este triste episódio que tem sido a aprovação do Orçamento de Estado. Sim, porque no fundo, todos sabemos que o Orçamento vai ser aprovado!
Comentava o meu Pai no fim-de-semana passado - ele que é um Cavaquista ferrenho com instintos Salazaristas em termos de percepção da boa governância - que o melhor que Pedro Passos Coelho tinha a fazer era uma birra do género “Ai vocês querem implementar estas medidas suicidas? Ai querem? Então ponham lá este plano a funcionar e se a austeridade não der resultado cá estou eu para vos cobrar!”
Em vez disso, Passos Coelho, que afinal não dança o tango como Sócrates tanto ansiava, decidiu enviar uma comitiva para negociar, assim como faziam índios e cowboys (os boys são os do P.S., está claro!), para ver se persuadia o Governo a ceder uns milímetros e assim não ter de pedir desculpa ao país por se ver na obrigação de viabilizar o maldito documento. Quando a ronda negocial começou, ouvi vários comentadores políticos anunciarem que com esta atitude de “chover no molhado” ou como se diz pelas ruas do Porto profundo “não pinar nem sair de cima” (pinar é soft core, como devem imaginar), Pedro Passos Coelho se preparava para ser o ex-futuro-Primeiro-Ministro.
Mas eis que a meio da semana a surpresa chegou! Até nisto, neste revés, nesta situação inesperada, esta coisa que é a forma como se faz política no nosso país se assemelha a uma telenovela. As negociações foram suspensas. É como quando afinal a menina bonita não casa com o rico herdeiro, como quando o pai da heroína da história não é o “cara simpático” com quem ela vive mas sim um “cavageste mau carácter” que joga no bicho e foi condenado por violência doméstica... Ouvi dizer que a discórdia fica entre 0,1% e 0,3% do P.I.B.. Isto em trocados deve dar menos um carro blindado, menos uma visita de Estado à Patagónia com comitiva de quinhentos empresários e respectivas acompanhantes... Seja como for, é o suficiente para que aqueles adultos inteligentes e super-peritos em Economia voltem as costas e abandonem a mesa das negociações sem um aperto de mãos e um abraço diplomático.
Enquanto isto, os juros da dívida pública, coisa que até agora nos era desconhecida e nos últimos tempos faz tão parte das conversas de café e na fila do supermercado, como os segredos da casa da Júlia e os euros que cada um estima perder no ordenado, continuam a subir. Sobe também a popularidade do P.S.D. que com esta jogada surgiu hoje nas sondagens com forte possibilidade de atingir a maioria nas próximas eleições.
Se este avanço e recuo da equipa de Passos Coelho foi uma cena orquestrada com o intuito de elevar a popularidade de um líder que tombava a olhos vivos em termos de popularidade, então os nossos políticos, que vivem muito melhor do que qualquer português médio e ainda reclamam porque a cantina da Assembleia não serve jantares e há quem tenha medo de morrer à fome, andam mesmo a gozar com o povo, aquele que de repente vai começar a pagar mais juros pelo crédito que pediu para comprar casa, aquele que vai ver o rendimento mensal reduzido por todos os lados – menos dinheiro para gastar, custo médio de vida mais elevado -, aquele que um dia sonhou com uma vida mais confortável, assim mais próxima da média europeia, e que agora percebe que com esta brincadeira que fazem as pessoas que elegeu com as finanças do Estado, Portugal se financia a um custo cada vez mais alto e que se alguém com maior sentido de responsabilidade não der um murro na mesa para impor um pouco de ordem naquela sala de aula desgovernada, vamos acabar todos na bancarrota, com um clima que não é lá muito dado a caipirinhas nem a havaianas...

Não consigo evitá-lo: penso. Penso muito. A julgar pelo que dizia Decartes a minha existência é tão certa como o mais exacto teorema matemático (para os que não sabem Descartes, que adorei estudar pela forma pragmática como desenvolveu um método filosófico para defender a sua concepção unitária do saber e, a partir daí, do indivíduo, foi também responsável por contribuições matemáticas fundamentais para a geometria analítica).
Como penso reflicto, raciocino, crio opiniões e, para gaudio de muitos e afronta de outros, escrevo-as sobre a forma de teorias.
Perante o estado actual do país, depois do balde de água fria que nos foi vertido sobre a cabeça pelo Sócrates e pelo Teixeira dos Santos, assim uma mangueirada de alta pressão a tender para o congelado, com lascas de gelo cortante e sem anestesia, não páro de pensar, de reflectir e de teclar.
Em primeiro lugar, uma das questões com que a minha querida Mãe muitas vezes se intriga, tem a ver com a forma como cheguei a este nível de pensar quase hiperactivo com esta necessidade de debitar em textos todas as matérias sobre as quais reflicto. A acreditar que somos um produto do meio em que crescemos, mais uma série de factores exógenos e endógenos que condicionam o nosso perfil, determinando os nossos traços de personalidade e características, então sou obrigada a recuar para os meus tempos mais remotos de infância para perceber as minhas orientações políticas.
Como já referi, no tempo em que eu era pré-escolar, era perfeitamente risível que uma família de classe média como a minha tivesse empregada interna. Quando cheguei aos seis anos, por uma série de factores que não importa detalhar, deixamos de ter a dita empregada, eu saí do colégio de freiras que detestava frequentar, pelo que passei para uma escola pública. As aulas decorriam de manhã e à tarde ficava na casa da minha vizinha. A minha companhia era uma empregada interna de idade indefinida, mas que para mim era uma espécie de avózinha, que cozinhava maravilhosamente, era obcecada com a poupança ao ponto de só me permitir descarregar a água do autoclismo uma única vez durante o dia, e tinha um interesse fora do comum por política, com um fanatismo próximo da paixão delirante e da devoção pagã por Sá Carneiro (a dita senhora, a Linda, de Deolinda, tinha no seu quarto uma fotografia do político sobre a mesa de cabeceira, ao lado do terço, da estatueta fluorescente da Nossa Senhora de Fátima e da Bíblia).
Cresci portanto a receber como doutrina que os comunistas comiam criancinhas ao pequeno-almoço (e nessa altura nem se falava em pedofília!), que o Sá Carneiro era um deus na terra convertido em mártir depois do seu assassinato, que todos os políticos que não se posicionassem no vasto universo da aliança democrática eram demoníacos.
No Verão de 1991, quando Cavaco disputou uma reeleição depois da dissolução do Governo, apesar de eu só ter catorze anos (ou se calhar porque só tinha essa idade) andei empenhadíssima a percorrer o litoral norte (entre Vila do Conde e a Póvoa de Varzim) no autocarro dos Jotinhas, de t-shirt laranja, cartaz em punho e voz afinada para as canções da campanha, para os vivas e para os slogans que um líder de grupo nos fazia repetir de comício em comício.
Já na faculdade, como dirigente associativa, fui convidada para o congresso em que o C.D.S. se transformou em P.P., divertindo-me imenso a passear entre betinhos de risco ao lado e sapatos com berloquinhos, tendo chegado à conclusão que aquele meio de gente com sede de palco e muita demagogia não era o meu ambiente natural.
O meu interesse na área passou-se então para a esfera teórica, onde na cadeira de “política económica internacional”, brilhantemente leccionada pelo Professor Rui Nunes, aprendi que a diferença entre esquerda e direita está, na sua essência, nos ideias entre o pensamento Marxista e o Keynesiano, muitos deles tão impraticáveis que tendem para a filosofia, mas que a vida real, a necessidade de viabilizar a vida em sociedade de acordo com os princípios da democracia, criou uma zona de consenso entre a esquerda menos radical e a direita menos elitista para a qual todos os Governos convergem, quer o partido em maioria seja de inspiração socialista quer seja de inspiração social democrata.
Nos últimos dias, o que se discute em Portugal, com o pretexto de viabilizar um Orçamento de Estado sem ter de recorrer à estratégia do "finge que estás morto e na hora da votação não levantes o bracinho", são as vaidades e arrogâncias de dois líderes partidários que muito gostam de se ouvir a eles próprios, mas que, entre discursos inflamados se esqueceram completamente que é suposto que cada um, pela oposição que ocupa e pelas responsabilidades que consequentemente assumiu, zele pelos interesses de Portugal, pela qualidade de vida dos portugueses e pelo futuro dos nossos filhos.
Jogam-se na mesa cartadas que prevêm poucas medidas para conter o escandaloso despesismo do Estado e estão carregadas de iniciativas com resultados a curto prazo mas que se podem revelar catastróficas ainda antes de se começarem a debater as contas públicas para o próximo ano. Como penso, irritam-me estes debates com discursos redondos, entrecortados por “é uma vergonha!” ou “apoiado!”, como se retórica, apupos, vaias e salvas de palmas fossem as únicas coisas que aqueles senhores que se passeiam pela Assembleia sabem fazer... Nos últimos dias, trabalha-se ao fim-de-semana, fazem-se horas extra, sentam-se uma série de rabos gordos ou mirradinhos a uma mesa que podia ser de poker mas que não é mais do que um sarau recreativo em que se brinca ao Jogo da Glória, com o P.S. a querer sair como quem acabou de fazer um lifting para que os que brevemente deixarão de ser boys possam ocupar cargos internacionais, e o P.S.D. a tentar arranjar um pretexto para deixar passar um Orçamento numa circunstância em que serão dramáticas as consequências de o chumbar, mas com o Passos Coelho a querer promover-se como um herói, estilo o bombeiro que apagou umas fogueiritas no quintal enquanto deixava arder o resto da freguesia.

Hoje, quando ia no carro, lembrei-me desta canção.
Lembrei-me do “Yellow Submarine” porque minutos antes ouvira na rádio que os submarinos que Paulo Portas alegadamente decidiu comprar numa altura em que era Ministro da Defesa - como se Portugal precisasse de segurança nas profundezas da sua riquíssima zona costeira onde proliferam, entre rochas, algas e peixe miúdo, poços de petróleo com potencial para abastecer meio mundo -, representam 2% do deficit orçamental.
Lembrei-me do filme que os Beattles fizeram com este título, porque de repente, entre tanta loucura que se tem ouvido por estes dias, parece-me que este país se chama Pepperland e está a ser governado por um bando de Blue meanies, personagens saídas de umas trips de ácido, que fazem da vida e das coisas práticas uma utopia carregada de fantasias. O nosso país converteu-se numa espécie de caos psicadélico que infelizmente não vai desaparecer quando se acabar o efeito da pastilha…
Entre tanta malta passada da cabeça - famílias que perdem abono, desempregados sem subsídio, pobres que efectivamente não têm como se sustentar a perderem o direito ao rendimento mínimo, reformados com pensões congeladas, funcionários públicos com cortes salariais superiores ao aumento que o P.S. enquanto Governo lhes atirou em campanha, como se mandam amendoins aos macacos, neste caso para conseguir votos não para os ver fazer umas habilidades, empresários a desistirem de fazer o que quer que seja minimamente honesto porque quem passa facturas e declara o I.V.A. é certinho como a morte que já não se safa – antevejo que a próxima lei que o Presidente da República vai promulgar é a da liberalização da cannabis.
O P.S.D., desvairado como está, nem vai conseguir levantar os braços quando for a aprovação do orçamento. Vamos ter assim um pacote de medidas alucinadas a estragarem-nos o resto do ano e a converterem a débil classe média, onde a maioria dos portugueses ainda se encaixa, numa espécie de casta de novos pobres que já nem sequer se safam a fazer compras no Lidl.
Nos E.U.A. Obama decidiu superar a crise estimulando a economia. Acho que conseguiu alguma coisinha...
Em Portugal, depois de um P.E.C. I e de um P.E.C. II que impuseram restrições e não incentivos, com o Governo a gastar dinheiro sabe-se lá em quê (seria na ganza?) sem conseguir conter a derrapagem orçamental como assegurou Sócrates ser possível até há uns dias, já nem com Viagra o português comum se anima.
Em Julho apresentou-se um P.E.C. II que já era duro e que não teve qualquer efeito positivo. Em Setembro, a saga continua com o P.E.C. III como se faz com os filmes. A questão é que os filmes normalmente vão perdendo qualidade quando se tenta prolongar a história para além do limite do risível.
Os Beattles abusavam dos ácidos mas tiveram mais discernimento ao ficarem-se por uma única edição do “Yellow Submarine”.
Teorias dos outros
cantinhodacasa.blogs.sapo.pt