Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.

Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011
Vamos fingir que somos crianças...

 

Toda a gente sabe que “o melhor do mundo são as criancinhas”.

Confesso que não sou daquelas mulheres que ficam histéricas quando se cruzam com um bébé e, se alguma vez houve um tic-tac no meu relógio biológico, foi há tanto tempo que arquivei o chamamento para a maternidade como uma coisa do meu passado arqueológico. Apesar de ter APENAS trinta e oito anos e de tanta gente insistir que ainda vou a tempo de experimentar a intraduzível sensação de amor que é gerar no ventre um ser humano, decidi aos trinta e qualquer coisa que não queria ser a mãe mais velha do infantário.

Esta é uma decisão meramente prática: tudo tem um tempo e uma oportunidade. Podemos prescindir de soutien se as maminhas forem copa trinta e dois, mas só até aos doze anos; não devemos ousar nos decotes se essa copa ultrapassar os trinta e quatro, qualquer que seja a idade; não podemos usar saia com tamanho micro-mini depois dos dezoito se não crescermos para lá do metro e sessenta e cinco mas só enquanto coubermos no maior dos tamanhos da secção de criança (equação muito difícil de fazer a não ser para as estúpidas das magras...).

Mesmo não querendo ter filhos confesso que acho uma certa piada aos miúdos, principalmente em idade pré-primária. Em doses de “prato de sobremesa”, confesso, porque assim como o abuso de doces tem consequências perigosas, também o convívio excessivo com seres de um metro, mais coisa menos coisa, tem os seus efeitos nocivos, quando as crianças não são nossas, claro está!

Ouvi de bocas de miúdos ainda suficientemente imunes às Play Station e aos telemóveis, as saídas mais espontâneas e as perguntas mais deliciosas. Como quando a minha priminha de cinco anos ao perceber que o meu pacote de TV Cabo não incluía o canal Panda me comunicou pesarosa que “quem não tem Panda não pode ter filhos”, ou quando o meu vizinho de três anos e qualquer coisa perguntou com curiosidade de engenheiro de aeronáutica “como é que as moscas dão as curvas?”

Este fim-de-semana, num bucólico cenário de prados e vacas, sempre rodeados de água, hortênsias e rochas, dei por mim num passeio com um casal que procurava desesperadamente mostrar à sua filha de oito anos todas as fotográficas maravilhas ao redor de Ponta Delgada. O impossível aconteceu e, numa estrada de um sentido só, estreita demais para uma inversão de marcha, nos deparamos com um engarrafamento provocado por um carro de aluguer mal estacionado que bloqueava a passagem de um autocarro carregado de turistas da terceira idade.

O pai da menina entrou em desespero. Vociferou, bateu com as mãos no volante, praguejou, perdeu a calma numa amplitude que me pareceu despropositada, até que cinco minutos depois o condutor distraído apareceu e retirou a sua viatura da berma da estrada.

Comentei eu, que procuro sempre desanuviar o ambiente com a deixa da loira bem-disposta “pronto, já passou, ainda vamos ver as furnas antes que o Sol se esconda nas montanhas!”. Acrescentou a menina num tom solene de quem recita uma oração “vamos fingir que estes cinco minutos nunca aconteceram.”

“Fantástico!” pensei, não resistindo a agradecer tamanha sabedoria com um cúmplice piscar de olhos “ a vida é mais fácil de digerir se fingirmos que os momentos maus que nos amarguram foram apenas um sonho mau, um pensamento vago, um sopro que não deixa marca nem odor, apenas a sensação de que pairou sobre nós um espectro ou de que fomos atravessados por um fantasma.

 

O que não for suficientemente bom para ficar na memória

deve ser apagado.

 

Como dizem numa rádio que de há tempos por cá se lembrou de nos tratar a todos por tu “vale a pena pensar nisto...”

 



publicado por teoriasdacosta às 22:06
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Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011
Homens, mulheres e automóveis...

 

Fim-de-semana em grande no Porto.

A zona da Baixa ao rubro com bandas a tocar por toda a parte, um singular mercado Portobello no sábado à tarde, esplanadas apinhadas numa boémia efervescente, o Portugal Fashion com suas aves raras no Palácio do Freixo, as Galerias inundadas noite fora por um infindável mar de gente.

Uma temperatura ainda de Verono (nome fantástico que escutei para esta nova estação que se instalou depois do Verão e antes do Outono) e a conversa muito quente, por estarmos quatro mulheres de verbo fácil pródigas em tiradas sábias, satíricas, anedóticas ou eloquentes, bem acompanhadas por um tinto Syrah que nos fez grudar nas cadeiras do restaurante até sermos as últimas clientes.

Tenho amigas que já falam comigo como se me estivessem a dar dicas para uma teoria. Outras, com medo que alguém as identifique, pedem-me que não mencione nenhuma das nossas trocas de cromos e de galhardetes.

Entre todas, tempo para desabafar e desabar em lágrimas, rir muito, encontrar respostas e colocar perguntas, como se de um brainstorming entre loiras e morenas pudesse sair poção milagrosa ou solução mágica para todos os problemas.

Não vou mencionar nenhum dos assuntos. Posso apenas dizer que entre tanto o que se divagou sobre este ser que nos fascina e que recebe a designação de “homem” tivemos alguma dificuldade em encontrar um padrão, um fio condutor, uma lógica entre acção-reacção, palavra-pensamento, suficientemente credível e cabal para enquadrar as cartas atiradas para a mesa sobre telefonemas equívocos, silêncios inexplicáveis, ausências por tempo incerto, surpresas com travo agridoce, partidas apressadas e outros peculiares comportamentos.

No final, porque três amigas trocaram recentemente de carro e isto deu que falar quando ainda estávamos na fase da ementa, ocorreu-me que homens, mulheres e automóveis serão sempre variáveis independentes.

O que uma mulher quer num carro é que seja giro, tenho volante e rodas. Depois compra um usado que até é descapotável e topo de gama full extras, mas descobre que este mete água, que o seu interior com requintes de mogno e pele branca é um engodo, que é impossível ouvir a "música da sua vida" porque qualquer som é absorvido por uma insuportável chiadeira, perdem-se molas, porcas e jantes em cada trajecto, a garantia não menciona que o veículo foi reciclado com uma série de peças não autênticas. Vai-se o charme fica o chaço…

O homem só decide que carro quer depois de dar umas voltas. Confere a cilindrada, o ano, o chassis, os acabamentos, as polegadas e as outras tretas que compõem um ficha técnica, faz um test drive, retém o carro durante um fim-de-semana à experiência, ouve umas opiniões, medita introspectivamente, e só então decide se o investimento vale a pena.

Poucas serão as mulheres com algum entendimento de mecânica, capazes de mudar um pneu, com destreza para utilizar um macaco pneumático ou uma chave de fendas. Poucas são pois as mulheres capazes de entender a engrenagem do motor que faz acelerar um homem à sua máxima potência. Não falo em sexo mas sim em elevar um macho à qualidade de homem honesto, isto é, de homem que não mente, não traí, não dissimula, não ofende nem desaparece sem rasto, uma saída pela porta dos fundos sem direito a abraço sentido nem um “adeus até ao meu regresso!”

Assim, à primeira vista, todas as mulheres acreditam que é tudo uma questão de embraiagem e de ponto-morto, fiando-se que basta que o carro nunca vá a baixo para que o motor trabalhe a vida toda. O problema é que os homens não são só mudanças, marcha-atrás, piscas e médios, nenhum traz livro de instruções e o computador de bordo não é tão intuitivo como o painel com botõezinhos da Bimby nem tão básico como um interruptor apaga-acende.

As mulheres podem ser tão complexas como mapas astrais em que se cruzam cometas, estrelas e planetas, mas os homens são blocos de apontamentos onde se desenham estradas como rectas, para mal a viagem começa se perceber que as direcções não contemplam as rotundas, as lombas, as curvas perigosas, as inversões de marcha e as saídas de emergência.

Entendido ou preciso de fazer um esquema?

 



publicado por teoriasdacosta às 21:51
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Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011
O silêncio não diz nada...

 

Numa daquelas publicações do FaceBook com frases do dia, mezinhas caseiras e pensos rápidos para a alma, surgiu num mural que visito um clássico das relações humanas “o silêncio é um texto fácil de ser lido errado”.

Em tempos conheci um psiquiatra que, por empréstimo a minha melhor amiga me permite chamar de “meu Freud”, que me disse que “o silêncio é a maior das torturas”.

Para uma pessoa tão faladora como eu o silêncio não é uma equação fácil.

Com um namorado do género calado, introspectivo, ensimesmado, ponderado, consigo apenas suportar o seu silêncio porque o leio como um segredo doce que enleva a nossa cumplicidade. Palavrosa como sou, com tendência para gesticulações efusivas e narrações dramáticas, só posso concluir que este contraste de temperamentos é uma inequívoca prova de quanto os opostos se atraem.

Sei contudo que quando o silêncio é utilizado como arma ou argumento, o vazio que fica entre as letras não soletradas é tão denso e cruel que o ar se torna irrespirável.

Sei também que nós, as mulheres, as que falam demais e as que se calam, as que amam demais e as que moderam, temos esta tendência inata para tentar explicar o óbvio, ler para lá das frases, olhar por detrás dos olhos, como se quem diz uma coisa nos quisesse transmitir uma outra mensagem, mais agradável ou menos árida, ou se como quem cala fosse apenas incapaz de conjugar certas palavras, numa prosa que nos contente ou nos conforme, num acto de misericórdia ou como golpe fatal.

Custa acreditar que o silêncio quer dizer apenas que não há mais nada. Nada a dizer.

Fica apenas o lado de lá da cama...

Os homens são peritos nessa técnica surpreendente que é o “desaparecer no mapa”. Para eles sumir é a melhor forma de expressarem a sua vontade de mudança.

Nós as mulheres queremos um atestado, um testamento, um tratado, uma confissão de culpa, uma promessa forjada.

É difícil enterrar um morto sem corpo. Um caixão vazio traz sempre a esperança de uma morte adiada.

O final devia ser sempre dito e escrito, selado com honra, suor e lágrimas.

Quem cala entende que o silêncio diz tudo.

Quem não suporta esse eco em surdina jamais entenderá o seu significado.

 



publicado por teoriasdacosta às 21:00
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Domingo, 9 de Outubro de 2011
Teoria do protector solar

 

 

Quinta-feira, a caminho do Porto, superando o aborrecimento da auto-estrada com um ininterrupto zaping radiofónico, lá ouço falar sobre a morte de Steve Jobs com referência aquele discurso que uma vez comentei, em que este homem extraordinário classificava a morte como a maior invenção da vida.

Quando o fundador da Apple soube que padecia de cancro do pâncreas, realizou pela primeira vez que era mortal. Perante uma sentença de morte certa tornou-se mais eficaz na arte mágica de viver cada dia em pleno. Isto é: viver cada dia como se fosse o último, à espera do dia em que finalmente acertou.

Mortais somos todos, mas não pensamos nisso ao acordar, enquanto lavamos os dentes,  quando conduzimos a alta velocidade ou simplesmente nos sentamos à secretária para mais um dia de trabalho com um mero vislumbre de céu e de Sol.

Imaginamos que a morte só acontece aos outros e que só daqui a muitos anos chegará um dia a nossa hora.

Mas a nossa hora pode chegar hoje.

A minha viagem ao Porto foi motivada pela morte de um amigo.

Foi-se num acidente estúpido entre dois degraus de uma escada. Sozinho. Em casa. Num desequilíbrio de um passo que lhe provocou morte instantânea.

Surpreendidos todos, numa espécie de transe anestésico que nos fazia duvidar da razão que nos reunia à porta de uma igreja num estival final de tarde, comentávamos quão absurda tinha sido esta queda.

A morte será sempre um mistério. Um disparate. Um paradoxo. Uma ironia do destino e da sorte.

Mesmo que seja a idade que nos leve depois de uma vida santa ou de uma doença prolongada.

Comentava um dos presentes que a partida deste amigo, conhecido por gostar de andar sempre em festa, tantas vezes ébrio como provavelmente estaria no momento do acidente, que esta tinha sido a sua forma de nos abanar a todos pelos ombros.

Ele, o que se foi, o homem que conhecemos descontraído, com um permanente sorriso manso, gritou nos nossos ouvidos, em jeito de zombaria, que nos levamos demasiado a sério.

Não relaxamos. Não saímos do quadrado, da caixa, do círculo, da gaiola, da jaula, da redoma que tomamos como o habitat da nossa sobrevivência.

No final acabamos numa caixa de madeira. Reduzidos a pó.

Ocorreu-me então o discurso e as imagens que enchem um vídeo que já é histórico no Youtube: “Everybody´s free (to wear sunscreen)” de Baz Luhrmann. Não sei se este texto alguma vez foi um discurso ou se é apenas um filme que este realizador produziu num momento de ócio. O que sei é que, apesar de o título soar disparatado, como estranho é o conteúdo, entre as muitas frases carregadas de humor encontram-se mensagens fantásticas que no momento do velório me iam surgindo difusas mas com redobrado sentido.

É quase uma futilidade preocuparmo-nos com o futuro.

Os problemas que vamos encontrar na realidade são sempre equações algébricas mais complicadas do que as que os nossos cérebros ingénuos e crédulos são capazes de formular.

As nossas escolhas são metade acaso, tal como as opções dos outros, pelo que não devemos congratular-nos em demasia quando a vida nos corre bem nem penalizarmo-nos em excesso se a vida nos impreca.

O conselho que pontua o discurso é “devemos sempre usar protector solar” como recado síntese de uma série de sugestões e advertências que se resumem a uma elementar lição de vida: devemos tratar-nos bem, respeitar os outros, depreciar os maus momentos e as más palavras, valorizar o assombro que é respirar, ter um coração que bate certo, vivendo com saúde, de preferência rodeados pelas pessoas que nos amam e que num ou noutro minuto do dia dizem ou fazem pequenos nadas que nos fazem felizes por uns minutos (ou menos infelizes durante umas horas...).

Tudo o resto são adereços, cenários, papéis com a sua importância para a nossa auto-estima, conta bancária ou ego, que nos ajudam a ser alguma coisa na vida mas que não devem determinar a pessoa que somos nem a forma como gozamos a nossa preciosa existência.

O tempo passa… ou como ouvi ontem num fado “o tempo fica, nós é que passamos por ele”.

 



publicado por teoriasdacosta às 20:56
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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011
O Verão na balança...

 

Ontem, depois da surpresa de me saber outra vez nos destaques do sapo, quando agora pouco escrevo, sentei-me ao computador tentando teclar algo de inteligente. Dei por mim numa transe estupidificada a assistir ao “Peso pesado” (que andei toda a temporada a chamar de “peso certo”) com um desfile de malta que andou a mostrar as banhas e a celulite de forma desavergonhada e que, nalguns casos, chegou ao final com um visual bastante diferente.

Perante o cenário televisivo, com uma Júlia Pinheiro ao rubro, a inspiração não veio.

Seja como for, esta é mesmo a silly season, aquela em que supostamente os políticos vão a banhos (este ano parece que não se vão ver muitos pela praia dos tomates), as famílias metem as geleiras nas malas e rumam de carro para as filas de trânsito, os que podem seguem para Sul, os outros escapam-se.

Por todo o lado, para não se falar da crise e de todos os castigos que nos esperam, abordam-se questões futéis que não denunciam que são estúpidas as pessoas que os falam, mas antes que preferem divagar entre nuvens e passarinhos do que enterrar os pés na lama.

As conversas do dia lá pelo escritório andam à volta do tema "como perder dois quilos em vinte e quatro horas" e tenho ouvido tanto disparate que não me espantaria nada se entre a máquina do café e o micro-ondas alguém dissesse que não há melhor para a celulite do que rebolar sobre as pedras da calçada.

Até eu ontem, entre gente de família que tem empregos com fringe benefits, com Dr antes do nome, conversas eruditas e discursos envolventes,  comentava de forma espontânea, entre uma colher de mousse e outra, que este Verão vai ser mesmo para a desgraça.

Aí pelo mês de Maio voltei às corridinhas matinais – isto de acordar às seis da manhã para ir correr só pode ser um acto de loucura ou de fé -, às saladinhas ao almoço e ao jantar, concedendo-me um ou outro deslize ao fim-de-semana, tudo muito bem controlado, com a barriga encolhida e as pernas tonificadas.

Entretanto descobri que sou viciada na mousse da Bimby.

Percebo agora porquê que há pessoas que se tornam dependentes da nicotina e não conseguem deixar de fumar.

Eu, que sempre gostei de chocolate negro, percebi que aquela panela mágica que qualquer Mãe de família tem em casa, é capaz de - para além de produzir sopas em dois minutos, bacalhau com natas em três e maravilhosas caipirinhas em série - mistura este ingrediente que dizem ser afrodisíaco e anti-depressivo, numa sobremesa que me transporta para o universo daqueles que consomem cogumelos mágicos.

Andei por isso todos os fins-de-semana desde essa altura, em almoçaradas familiares que às vezes até eram de saladas, para darmos aquele ar de pessoas saudáveis, a servir-me sempre em dose dupla daquela sobremesa orgásmica.

Depois de ver nalguns zapings pelo concurso dos gordos a quantidade de coisas carregadinhas de calorias que giram à nossa volta, passei do pânico de ingerir uma torrada com manteiga, para o estado relaxado do “que se dane”. Afinal, quando em Setembro vierem os cortes e as sobre-taxas vamos todos andar a passar fome.

Nesta altura, a apenas uma semana de férias, já não há milagres no repertório de Fátima que me salvem...

Não há promessas nem mezinhas que derretam a gordura acumulada à volta do umbigo nem que revertam este plano demoníaco que nos impôs a troika.

Sem querer desanimar, quando o bronze começar a desbotar vamos notar todos menos uns euros na carteira.

Como temos de ser positivos para fazer funcionar aquela história da "lei da atracção", vamos acreditar que mesmo que ganhemos uns quilos enquanto há Sol no mapa, vai ser certo que a conjuntura nos vai permitir ser uns "reis na balança"!

 



publicado por teoriasdacosta às 22:17
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Segunda-feira, 4 de Julho de 2011
Sinto muito

 

Quem me leu na semana passada deve ter achado que eu andava a cair para o deprimido ou coisa parecida. Nada disso. Depois daquele calor infernal de domingo descobri que as dores de cabeça e enjoos que se apoderaram de mim era os sintomas da primeira enxaqueca da minha vida!

Seja como for, apesar de não andar triste, tenho de por aqui partilhar um livro que li por estes dias e que é um estado de dor contínua.

“Sinto muito” - escrito pelo médico especialista em neuro-oncologia pediátrica Nuno Lobo Antunes - é uma compilação de textos escritos para a Lux (aqueles que pretendem dar um conteúdo menos “levezinho” a estas revistas ditas femininas). Confesso que neste tipo de impresa, nem sempre cor-de-rosa, vejo apenas as fotos e pouco mais do que isso. Jamais me interessaria por ler uma crónica, mesmo que assinada pelo Gandi, porque sempre que passo os olhos por essas prosas deparo-me com aquela conversa melancólica e piegas que pelo Brasil se apelida de “conversa para boi dormir”.

A pessoa que estava comigo no dia em que comprei o livro, que por acaso até mo sugeriu ao ver que eram crónicas (uma espécie de teorias, digamos), avisou-me logo que o médico era um parvo. Um homem frio, arrogante, provavelmente excelente como profissional, mas incompetente no contacto que exige mais de sentimento do que de rigor científico.

Comentamos ontem entre amigos, essa característica dos “médicos cientistas” que os leva tantas vezes a tratar os seres que tomam entre as mãos como objecto de estudo e não como almas com vida. Para médicos destes haverá uma tentação, provavelmente indomável, para ser o investigador que dá o nome a uma nova doença ou bactéria, o responsável pela descoberta de novos métodos para curar dores, apagar doenças ou restituir aos que têm morte datada mais alguns anos de vida.

Lê-se na contra-capa que “há no médico o desejo de ser santo, de ser maior. Mas na sua memória transporta, como um fardo, olhares, sons, cheiros e tudo o que o lembra se ser menor e imperfeito”.

Neste livro, Nuno Lobo Antunes assume em muitos textos um mea culpa pelas vezes em que teve de comunicar aos pais diagnósticos improváveis, interpretados como impossíveis. Escreve o médico que me descreveram como insensível, que para os pais, principalmente para as mães, perante o choque que anuncia um sonho de paternidade que não será cumprido quando um filho nasce imperfeito, com danos quase sempre irreversíveis,  torna-se verdadeira a premissa de que o amor tudo cura. Neste contexto, o “desafio amassado de zanga e raiva” que normalmente é lançado com o olhar ao mensageiro da má notícia, é uma antecipação de uma tragédia maior que é pesar sobre a mulher que em si gerou uma vida, a culpa de não ter sido capaz de amar o seu filho o bastante para evitar que o diagnóstico se confirme.

“Sinto muito” como interpreta António Damásio no prefácio do livro, está para além do “lamento”. “Esta última é uma expressão formal de lástima, a primeira acentua um sentimento devastador de perda”.

São imensas as frases que tenho vontade de partilhar. Mas para que este texto não se transforme numa longa agonia, termino com um resumo da crónica em que Lobo Antunes explica porque se especializou em neuro-oncologia pediátrica, com dias seguidos de vitórias, em que as derrotas sequer podem ser celebradas por pairar sobre estas a probabilidade quase certa de uma recidiva. Escreve o autor que nesta especialidade conhece a cada dia a humanidade no seu melhor: “na Coragem, mas sobretudo, no Amor”.

Eu, que passei no ano passado pelo IPO, acompanhando uma amiga não muito próxima, reconheço nestes argumentos a coragem para manter sorrisos, olhares e sonhos, entre sessões de quimioterapia; o amor que desperta sabe-se lá de onde e que faz com que mãos se toquem, corpos estranhos caíam em braços que desconhecem, lágrimas rolem pela face da pessoa que encostou ao nosso o seu rosto num acto espontâneo de humanidade que dá um outro sentido aos nossos dias.

 



publicado por teoriasdacosta às 22:09
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