Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.

Terça-feira, 16 de Agosto de 2011
Do branco ao beje

 

Regressada de férias com um saudável tom beje – pessoas com o meu tipo de pele só ficam castanhas com auto-bronzeador mas cor-de-laranja se abusarem do spray fantástico -, partilho neste post um bocadinho do arrepio que me vem provocando o livro que ando a ler (557 páginas em 5 dias utéis... faltam outras tantas).

O livro chama-se “2666” e é do Roberto Bolaño.

A escrita dos autores da América Latina é a que mais fascina. Pelo calor das palavras, pelo realismo que às vezes é cruel, pelas cores, sabores e cheiros que se respira em cada página, pela fantasia que se passeia ao colo de cada personagem, pelos delírios e sonhos, até pelos pesadelos e memórias ensombradas.

Neste caso, o livro é denso demais para descrever o enredo. Os trechos que com entusiasmo gostaria de partilhar são imensos.

Contudo, entre histórias que se cruzam, por vezes em choques frontais noutras em subtis insinuações, surge a de um daqueles americanos que, tendo passado de criminoso a arrependido, se dedica a palestras em igrejas, daquelas em que há canções gospel, fiés batendo palmas e irmãos de sangue gritando “Aleluia!”.

Esta personagem, que não ocupa mais do que cinco páginas, diz a certa altura no seu discurso “(...) quando falamos de estrelas é em sentido figurado. Isso chama-se metáfora. Uma pessoa diz: é uma estrela de cinema. Está a falar com uma metáfora. Uma pessoa diz: o céu está coberto de estrelas. Mais metáforas. (...) As metáforas são a nossa maneira de nos perdermos nas aparências ou de ficarmos imóveis no mar das aparências. Nesse sentido, uma metáfora é como um salva-vidas. E não devemos esquecer que há salva-vidas que flutuam e salva-vidas que vão a pique ao fundo.”

Nas férias, na praia, deliciada com esta obra, pensei em como as metáforas em que nos apoiamos quando a vida nos traz um pouco de calma, são muito mais suaves e luminosas do que aquelas a que recorremos quando saímos da toalha de praia e substituímos a pessoa descontraída que se passeia de havaianas pela personagem que vestimos nos dias em que temos de camuflar a nossa alma.

Ao longo do ano, as nossas opções são “oito ou oitenta”, os cenários são “preto ou branco”, as respostas são “sim ou não”.

Num dia de férias, com o mar a envolver-nos, deitados sobre um tapete de relva ou sentados sobre um penhasco entre quedas de água, conseguimos flutuar docemente entre metáforas menos dramáticas.

Ao despedir-me da praia, nas únicas férias com areia que vou gozar este ano, desejei que no regresso à vida real todos os meus medos, angústias e dilemas se dissolvessem sem pressas como se dispersa a espuma das ondas.

Sentei-me hoje à secretária, com quase quatrocentos mails na caixa de correio e, antes que a pressão e o pânico me dominassem, fechei os olhos, revi a imagem daquele mar de águas transparentes, recordei as noites quentes iluminadas de estrelas e defini como metáfora para a rotina que impacientemente me aguardava: “nada é branco ou negro, a vida passa do branco que é a paz do sono para o beje dourado com que podemos pintar as horas acordados, como se nas mãos tivessemos pó das estrelas, aquele de que se diz que até é mágico.”

Metáforas...

 



publicado por teoriasdacosta às 22:28
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Terça-feira, 2 de Agosto de 2011
O outro eu que anda por cá...

 

Hoje dei por mim a ouvir no carro em alto som uma música da Tina Turner com o Brian Adams: "it´s only love".

Como a estrada estava vazia lá dei uns gritos hà miss hot legs e fiz uma cara feia à Billy Idol quando entrou o solo da guitarra.

Chegada ao portão da empresa, mudei para a TSF e saí do carro com um ar absolutamente calmo.

Diz-me o meu namorado que eu sou uma espécie de tia de Cascais com sotaque nortenho.

Quem me vê no dia-a-dia, de saltos altos que às vezes se tornam impossíveis, carregada de colares e pulseiras a fazer pendant com o cinto, a mala e com aquele tom indefinível que sobressaí na minha roupa, nem sequer imagina o outro eu que tenho cá dentro.

Se eu sacar da minha "caderneta de cromos" revelo, como qualquer pessoa da geração abelha Maia, que usei jeans a apertar no umbigo, franja e poupa no cabelo, tudo muito bem estruturado com laca e gel da Studio line. Gostei de músicas cujo nome da banda não revelo, dancei brasileiradas, colei posters nas paredes do quarto e cantei com uma lata de desodorizante (Impulse) a fazer de microfone em frente ao espelho.

A questão é que ainda hoje, quando desço dos sapatos e enfio os pés nas havaianas, lá desato eu a dizer que gosto de cabrito, arroz de cabidela e tripas à moda do Porto, mas sem as entranhas.

Nas minhas longas viagens de carro dou por mim muitas vezes a fazer zaping radiofónico naquelas emissoras regionais que tocam slows de garagem ou batidas que há muitos anos me faziam saltar para a pista de dança. Gosto dos The National, de Elvis Costello, de David Sylvian e dos Villagers (muito à frente) mas também sou capaz de cantarolar um refrão do Quim Barreiros sem qualquer engano.

Na televisão ainda tenho pachorra para assistir aos programas da Oprah, que não é mais do que uma versão negra e com mais traquejo da "nossa" Fátima Lopes.

Confesso que de vez em quando espreito os horóscopos e me agarro à lei da atracção, que me chegou às mãos através do livro "O Segredo", nos momentos mais difíceis pois estas tretas da auto-ajuda, muitas vezes funcionam de forma muito eficaz como uma espécie de bóia.

Quem me vê de fora, acha que só como sushi e outras iguarias gourmet, que conto calorias e bebo água de griffe que custa mais do que três euros.

O eu que está cá dentro compra água da marca Continente (em garrafões para atestar garrafas de LUSO), come quase tudo o que lhe aparece pela frente e em casa até anda descalça, mesmo que fique com as plantas dos pés pretas.

A uns dias da minha partida para férias, cansada como tudo de tanto teatro disfarçado de trabalho (ou trabalho disfarçado de teatro?) lá vou eu para um Algarve de elite, com o eu que se transforma numa espécie de hippie chique, mas também com a outra pimba que tenho cá dentro.

Até breve... 

 



publicado por teoriasdacosta às 23:57
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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011
O Verão na balança...

 

Ontem, depois da surpresa de me saber outra vez nos destaques do sapo, quando agora pouco escrevo, sentei-me ao computador tentando teclar algo de inteligente. Dei por mim numa transe estupidificada a assistir ao “Peso pesado” (que andei toda a temporada a chamar de “peso certo”) com um desfile de malta que andou a mostrar as banhas e a celulite de forma desavergonhada e que, nalguns casos, chegou ao final com um visual bastante diferente.

Perante o cenário televisivo, com uma Júlia Pinheiro ao rubro, a inspiração não veio.

Seja como for, esta é mesmo a silly season, aquela em que supostamente os políticos vão a banhos (este ano parece que não se vão ver muitos pela praia dos tomates), as famílias metem as geleiras nas malas e rumam de carro para as filas de trânsito, os que podem seguem para Sul, os outros escapam-se.

Por todo o lado, para não se falar da crise e de todos os castigos que nos esperam, abordam-se questões futéis que não denunciam que são estúpidas as pessoas que os falam, mas antes que preferem divagar entre nuvens e passarinhos do que enterrar os pés na lama.

As conversas do dia lá pelo escritório andam à volta do tema "como perder dois quilos em vinte e quatro horas" e tenho ouvido tanto disparate que não me espantaria nada se entre a máquina do café e o micro-ondas alguém dissesse que não há melhor para a celulite do que rebolar sobre as pedras da calçada.

Até eu ontem, entre gente de família que tem empregos com fringe benefits, com Dr antes do nome, conversas eruditas e discursos envolventes,  comentava de forma espontânea, entre uma colher de mousse e outra, que este Verão vai ser mesmo para a desgraça.

Aí pelo mês de Maio voltei às corridinhas matinais – isto de acordar às seis da manhã para ir correr só pode ser um acto de loucura ou de fé -, às saladinhas ao almoço e ao jantar, concedendo-me um ou outro deslize ao fim-de-semana, tudo muito bem controlado, com a barriga encolhida e as pernas tonificadas.

Entretanto descobri que sou viciada na mousse da Bimby.

Percebo agora porquê que há pessoas que se tornam dependentes da nicotina e não conseguem deixar de fumar.

Eu, que sempre gostei de chocolate negro, percebi que aquela panela mágica que qualquer Mãe de família tem em casa, é capaz de - para além de produzir sopas em dois minutos, bacalhau com natas em três e maravilhosas caipirinhas em série - mistura este ingrediente que dizem ser afrodisíaco e anti-depressivo, numa sobremesa que me transporta para o universo daqueles que consomem cogumelos mágicos.

Andei por isso todos os fins-de-semana desde essa altura, em almoçaradas familiares que às vezes até eram de saladas, para darmos aquele ar de pessoas saudáveis, a servir-me sempre em dose dupla daquela sobremesa orgásmica.

Depois de ver nalguns zapings pelo concurso dos gordos a quantidade de coisas carregadinhas de calorias que giram à nossa volta, passei do pânico de ingerir uma torrada com manteiga, para o estado relaxado do “que se dane”. Afinal, quando em Setembro vierem os cortes e as sobre-taxas vamos todos andar a passar fome.

Nesta altura, a apenas uma semana de férias, já não há milagres no repertório de Fátima que me salvem...

Não há promessas nem mezinhas que derretam a gordura acumulada à volta do umbigo nem que revertam este plano demoníaco que nos impôs a troika.

Sem querer desanimar, quando o bronze começar a desbotar vamos notar todos menos uns euros na carteira.

Como temos de ser positivos para fazer funcionar aquela história da "lei da atracção", vamos acreditar que mesmo que ganhemos uns quilos enquanto há Sol no mapa, vai ser certo que a conjuntura nos vai permitir ser uns "reis na balança"!

 



publicado por teoriasdacosta às 22:17
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Sábado, 30 de Abril de 2011
Big Brother, Facebook, voyeurismo, fait divers e soundbytes

 

Neste caricato país, que deve deixar os homens de preto do F.M.I completamente desconcertados, temos uma actividade política tão divertida como o Big Brother (na primeira série, quando era novidade, os concorrentes não tinham noção de que a coisa se tinha transformado num fenómeno, e havia um campónio das galinhas que despertava aquele lado saloio que há em cada um de nós, nem que seja por via de um parente já muito afastado).

Somos tão dados a estas coisas de exposição da vida pública, voyeurismo, fait divers e soundbytes, que se os telejornais fossem transmitidos em formato folhetim e as notícias publicadas em revistas a cores com pouco texto e muitas fotos, os portugueses seriam sem dúvida pessoas mais informadas, interessadas e realistas em relação à verdadeira situação económica.

Temos um Presidente da República que adoptou como meio de comunicação priveligiado com os cidadãos o FaceBook - onde por acaso a minha mãezinha vai deixando uns comentários –, depois de ter concluído que andar a comer Bolo-Rei com a boca cheia para fugir às perguntas dos jornalistas, alimentar tabus num país onde assumidamente andamos todos de tanga e fazer intervenções em horário nobre (como no caso do estatuto dos Açores e das escutas telefónicas) o faziam meter tanta água como a que caiu na sexta em Lisboa, deixando tudo submerso em lodo e lama.

Até me admira que o Aníbal – acho que o podemos tratar assim depois de “amigar” no FaceBook - não ande a jogar ao FarmVille ou ao MafiaWars, com efeitos pedagógicos para perceber o quanto custa plantar fruta e criar gado, ou tácticos, para se infiltrar no submundo da corrupção, extorsão e abuso de poder que neste Portugal Siciliano são já tão frequentes que aceitamos pacificamente como moda.

Temos um político que já foi Ministro, o José Lello, que esta semana andou a escrever pelo FaceBook que o Aníbal é foleiro, coisa muito feia de se fazer, quando todos sabemos que uma das regras civilizacionais desta rede é publicar apenas nos murais das outras pessoas aquelas aplicações estúpidas que nos dão flores, corações ou coelhos de Páscoa. O mais anedótico foi a explicação do Zé que se justificou alegando que apenas trocava mensagens no Blackberry com um amigo quando de repente, as piadas e graçolas que ele ia teclando, apareceram por artes mágicas na sua página! Ainda bem que eles não estavam a combinar uma saída à noite, com meninas em top less a fazer lap dance, porque se assim fosse a publicação podia ser um escândalo hardcore à Berlusconi!

Para além destas peripécias no FaceBook, aconteceram ainda por estes dias, repetidas aparições de Passos Coelho com a sua esposa pela mão, em revistas de cabeleireiro e sala de espera de consultório médico (daqueles de classe média, porque nos mais chiques só há a Visão, a Sábado e muitas Holas!). Facilmente se percebe que estas reportagens em jardins bucólicos com troca de olhares cúmplices e apaixonados pretendem apresentar Passos Coelho como um ser humano, por oposição ao Primeiro-Ministro-que-o-já-não-é-mas-pode-voltar-a-ser, que apenas partilhava com o povo a sua paixão pelo jogging. Consta até – confesso que não vi – que Passos Coelho fez questão de desejar Feliz Páscoa aos portugueses, com a mulher ao lado, tipo jarra, coisa que caíu no ridículo porque nem ele é Primeiro-Ministro nem ela a segunda-dama, tão pouco terão este Jotinha mal acabado e sua esposa com pele tom de chocolate, carisma para competir em estilo e marketing com o casal Barak e Michelle (Obama).

Presumo que esta estratégia de converter a vida privada de Passos Coelho num remake do Big Brother (já agora, a sua esposa podia alinhar naquele programa dos que querem perder peso porque precisa de definir a cintura e encolher a anca) seja mais uma das tácticas kamikaze deste líder partidário. Não sei quem o anda a aconselhar, mas nada do que Passos Coelho faz ou diz nas últimas semanas o favorece nas sondagens. Assim, visto à distância, até parece que Pedro Passos Coelho afinal mudou de ideias e já não quer substituir Sócrates.

Partilhar cenas da vida íntima com tanta profusão só faria sentido se, como ouvi ontem no Governo Sombra na TSF, o voto pudesse ser feito por chamada telefónica de valor acrescentado, para decidir quem saí e quem fica na casa.

Fanáticos como são os tugas por estas coisas de gente básica, esta medida era bem capaz de inverter a propensão para a abstenção em massa, seja porque está calor e se aproveita para ir passar o domingo à praia, seja porque está frio e se fica em casa a fazer zaping.

 



publicado por teoriasdacosta às 10:38
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Sábado, 23 de Abril de 2011
Onde estavas tu no 25 de Abril?

 

Esta frase que nos habituamos a ouvir em jeito de chalaça (o autor foi Baptista Bastos, para os que o não sabem) não permite grandes respostas a pessoas na minha faixa etária, que em 1974 ainda mal andavam, pouco falavam e nada percebiam do mundo para além de que os adultos eram grandes e de que existia um grau de proporcionalidade directa entre a quantidade de mimo recebida e o tamanho.

Para a geração que anda à rasca, o 25 de Abril muito menos significa, já que a ignorância grassa nesta malta adestrada entre mudanças no estilo e no formato, programas alternativos, métodos de avaliação ambíguos, professores reinvindicativos e desmotivados, muitos deles - como os que tive o azar de apanhar no liceu, que eventualmente fizeram carreira tornando-se os professores das gerações que se seguiram à minha - uns frustrados da vida, talvez até uns falhados, que optaram pela via do ensino apenas porque a colocação em segundas e terceiras fases garantia emprego a muitos recém-licenciados sem perspectivas de uma outra profissão.

Dada a fraca qualidade do ensino público – reconheço que tive apenas uma professora com qualidade pedagógica na Escola Secundária Rodrigues de Freitas (ou liceu D. Manuel II) no Porto – não me surpreende esta falta de conhecimento, de interesse, de identidade ou simplesmente de curiosidade crítica.

O que me choca é que os portugueses da minha geração, e os das que me antecedem, se congratulem apenas pelo facto de o 25 de Abril ser um feriado, este ano por coincidência na segunda-feira a seguir ao Domingo de Páscoa, logo uma oportunidade excelente para um fim-de-semana prolongado. Só. Mais nada.

Hoje ao almoço, os meus pais e o meu namorado, nascido em 1964, teciam considerações sobre este marco histórico. Ouvi com atenção repescando na memória aquilo que aprendi em História Económica sobre as medidas implementadas por Salazar.

Na altura existiam planos. A dez anos, coisa impraticável nos dias que correm dada a velocidade a que o mundo se move. Mas existia uma direcção. Nos últimos anos existiram vaidades, lobbies, promessas mentirosas, o culto da dívida como motor do progresso, inaugurações e ostentação.

Salazar foi um ditador. Tirano e prepotente como qualquer outro líder nessa circunstância. Mas na época em que Salazar mandou neste rectângulo, a ditadura era o sistema ditatorial que dominava por toda a Europa, da mesma forma que depois se disseminou a social-democracia e o socialismo e mais recentemente se adivinha a ameaça de uma viragem à direita extrema e radical, fundamentada em ódios rácicos e na intolerância.

Históricamente, depois de proclamada a República, em 1910, Portugal conheceu dezasseis golpes. Em dez anos a dívida externa cresceu até 53,3% do Orçamento de Estado, fugiram capitais e condenaram-se à miséria milhares de famílias graças a uma inflação galopante. Nos anos vinte do século passado o país estaria por certo pior do que está no século actual.

Na ausência de um Fundo Monetário Internacional, Salazar tomou um país fortemente endividado e traçou um plano de recuperação económica implementando medidas altamente restritivas de impacto pouco mediático e questionavelmente democrático.

Instituiu-se assim um Estado Novo Corporativo, que nos isolou do mundo, numa espécie de tubo de ensaio, no pressuposto de que cidadãos ignorantes seriam mais subservientes. Daí o descontentamento crescente daqueles que em finais da década de sessenta se apercebiam  que toda a Europa vibrava ao som rebelde de uma excitante ebulição cultural.

Os erros de Salazar foram muitos. O maior de todos foi não ter saído no tempo certo, como sucede com todos os déspotas, tal como Sócrates nos dias que correm.

Os militares de Abril perpetraram um golpe de Estado que se transformou numa Revolução tal era a vontade que o povo tinha de mudar. O povo, a tal população ignorante e sem formação, saiu para a rua num apoio inequívoco e pacífico ao movimento militar.

O povo que somos hoje, menos ignorante e mais instruído em teoria, estende-se numa toalha à procura de uns raios de Sol, come uns petiscos à beira-mar ou refugia-se no interior do seu imaginário numa reprodução cenográfica da vida rural. Perante o descalabro que é a vida pública retratada dia-a-dia na televisão, noticiada sem cortes nem censura, com total liberdade para comentários que deixam este Governo pelo chão, os eleitores que revelam as sondagens ainda se interrogam se hão-de votar naquele domingo de Junho, em que provavelmente até vai estar um bom dia de praia, ou se, na dúvida, votam no mesmo, numa atitude displicente e inconsciente que é absolutamente chocante.

Sei pouco do que era a vida antes do 25 de Abril, da P.I.D.E., da falta de liberdade, da pobreza, da fome, do fascismo, da incoerência da política colonialista, que se arrastava há cinco séculos, (desde a conquista de Ceuta pelo Infante D. Henrique) e do morticínio da guerra além-mar, que para além de estúpida, como todas as guerras, absorvia quase metade do Orçamento de Estado (à época).

Mas sei alguma coisa da conjuntura em que se faz a festa da democracia neste ano da graça de 2011. Sei o suficiente para me sentir indignada e envergonhada com a apatia que permanece mesmo depois de concretizada a pior de todas as hipóteses: a necessidade de recorrer à ajuda internacional.

As palavras de ordem do 25 de Abril foram descolonizar, democratizar e desenvolver.

Em retrospectiva, apenas a primeira foi uma mudança irreversível. A democracia teve um arranque lento e o desenvolvimento andou em progressão aritmética decrescente até se afundar em taxas abaixo do limiar da dignidade patriótica.

 



publicado por teoriasdacosta às 21:16
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Segunda-feira, 11 de Abril de 2011
Dêem-me um Santo!

 

 

Até à chegada da Primavera tínhamos um Primeiro-Ministro que nos assegurava, no tom arrogante e seco que nos habituamos a suportar, que a coisa não era tão grave como a comunicação social e toda a oposição faziam crer.

Entretanto os dias ficaram mais longos, chegaram as andorinhas, nasceram flores por todo o lado, a temperatura subiu para níveis inesperados e despropositados para a época e o país entrou numa crise política próxima da histeria. Apesar do bom tempo, das excelentes praias e do mar imenso, subitamente Portugal tornou-se um lixo.

A culpa não é de Sócrates, nem do Governo, mas sim da oposição, que não aprovou mais um P.E.C., e já agora de todos os portugueses, que consumiram, contraíram créditos, compraram casa, trocaram de carro e ainda foram fazer férias às Caraíbas!

Numa semana a ajuda externa era hipótese remota, na outra era inevitável. O mundo realmente muda a alta velocidade. Desde que a terra tremeu no Japão toda a ordem universal que tínhamos como certa ruiu.

Hoje, o Portugalex (rubrica que passa na Antena 3) foi hilariante. O autor dos textos (ou pelo menos aquele que os lê) imitava na perfeição um Cavaco Silva que num discurso à Nação asseverava que o Governo em funções, ainda que demissionário, tinha poderes para requerer toda a ajuda externa possível, mesmo que para isso fosse necessário falar com Deus. Respondia a este comunicado um igualmente bem imitado José Sócrates, que jamais requesitaria a ajuda de Deus porque o pagamento de tamanha dívida obrigaria todos os portugueses a deslocarem-se semanalmente a Fátima, de joelhos, e não se sentia no direito, no seu recém assumido papel de protector do povo, de exigir mais sacrifícios aos que ainda se dão ao trabalho de ouvir tanta intervenção e declaração ao país, entre anúncios ao Continente e as notícias.

Impressionada pelo tom melodramático com que interpretou o comunicado de Sócrates o jornalista que fazia o directo para a SIC, acreditei que o dia 6 de Abril ficaria para a história como um momento trágico, daqueles que mudariam incontornavelmente o curso das nossas vidas.

No day after, as pessoas ainda estavam um pouco anestesiadas. Os noticiários, debates, reportagens, análises, opiniões, retrospectivas, futurologias, teorias e dissertações que todas as estações de televisão e de rádio, se dedicaram a transmitir foram um autêntico incentivo à depressão colectiva.

Mas na sexta, regressada ao Porto para matar saudades, lá fui ao mítico Capa Negra dos rissóis king size e das francesinhas e o restaurante estava à pinha. No sábado fui retocar o loiro e o cabeleireiro estava concorrido como há muito o não via; passei pelo NorteShopping e não notei o mínimo espectro da crise; à noite saí para jantar num sítio que não é propriamente económico, e mais uma vez, mesa só com reserva, e os que chegavam para jantar às dez faziam fila à espera que saíssem os que jantam com as galinhas.

Comentou comigo a minha cabeleireira, mulher inteligente e instruída que foge completamente ao estereotipo da platinada com decote siliconado que só abre a boca para falar de brushings e mascar chiclet, que já ninguém quer saber da crise. Como a morte é certa e afinal já não é assim tão vergonhoso recorrer ao banco alimentar, as pessoas querem é aproveitar enquanto há crédito para gozar em pleno os últimos dias que restam até que a bomba que anda a destruir a vida a tanta gente faça impludir as suas famílias.

Já todos nos habituamos a beber água da torneira e a fazer algumas concessões, pelo que entre promoções, preços baixos, cantigas, talões de desconto e cartões de cliente continuamos a acreditar que somos classe média ainda que com poder de compra reduzido.

Confesso que estou apreensiva.

Imagino que lá para Setembro, quando os passarinhos se forem embora e a noite chegar por volta das cinco, com o novo Governo no activo e as medidas ainda mais austeras que o compromisso da ajuda externa nos vai inflingir, terei de ganhar o hábito de apurar preços no Lidl, no Minipreço e no Pingo Doce antes de decidir a compra de um quilo de kiwis.

Se for reler a minha última teoria deveria era estar grata: estou viva, tenho saúde, emprego, família que me pode ajudar, sinto-me realizada com o que faço, completa com quem me ama e, olhando em retrospectiva, estou sem dúvida muito melhor do que estava por esta altura no ano passado.

Mesmo assim, porque a gratidão espontânea carece de uma dose adicional de fé, que eu reconheço que neste momento me falta porque me pesa o saldo do VISA, já que o mote do texto foi a intervenção divina, solicito a quem de direito, a nomeação de um santo padroeiro para a crise, a quem eu possa rezar todas as noites e acender de vez em quando umas velinhas.

Amen.

 



publicado por teoriasdacosta às 22:48
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