Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.

Sábado, 28 de Abril de 2012
Hardware versus Software

 

A empresa onde trabalho está a patrocinar-me aulas de francês privadas.

Ontem, para exercitar os comparativos e superlativos, incitava-me a professora a comentar se as mulheres gastam ou não mais dinheiro do que os homens.

Expliquei-lhe então, no meu francês ainda desajeitado, que as mulheres gastam mais dinheiro do que os homens porque o seu horizonte é mais amplo. Sem querer, desenvolvi então uma longa teoria que a deixou maravilhada:

1. Os homens têm uma perspectiva egoísta das compras. As mulheres têm uma visão altruísta das compras.

Quando uma mulher vai ao centro comercial pensa em comprar coisas para ela, mas também estará aberta às oportunidades de compra para ele, para os filhos, para a mãe, para o pai, para os sogros, para alguém próximo ou conhecido, para a casa, para aqui, para ali, para nada. Os homens vão ao centro comercial com espírito de missão, com objectivo concreto, alvo de caça. Entram à procura de uma coisa, que raramente encontram sem assistência, olham, tocam, decidem sem experimentar e abandonam o local do crime tão rápido quanto podem, antes que o tecto desabe sobre as suas cabeças ou que a mulher que os acompanha detecte numa montra algo que as apaixone.

2. Os homens compram por necessidade. As mulheres compram por desejo.

Para um homem uma ida às compras é uma tarefa: uma actividade dispensável, delegável e incómoda. Para uma mulher uma ida às compras é hobby. Pode ser prazer, entretenimento, terapia, tratamento de choque. Seja o que for, a mulher vai às compras porque gosta. O homem detesta.

3. As mulheres compram software. Os homens dedicam-se ao hardware.

O exemplo que dei foi este: se a máquina de lavar roupa se avariar, o homem, depois de desistir de a tentar consertar, há-de assumir como dever matrimonial (ou equiparado) a escolha do novo electrodoméstico. Não porque saiba como funciona a máquina de lavar roupa, porque perceba alguma coisa sobre a amplitude dos programas de lavagem ou sequer porque pretenda nalgum momento da sua existência tomar a iniciativa de tratar da roupa suja, mas porque a máquina é um equipamento, e de mecânica percebem os homens! Por outro lado, dificilmente um homem se interessará por comprar velas, bibelots ou cortinados. Todos esses adereços são folclore, quase sempre inúteis e dispensáveis, sendo até recomendável que a mulher escolha e decida o que comprar sem consultar a parelha, pois o mais certo é que ele pergunte para que servem todas as futilidades que existem pelo IKEA, pela AREA ou pela ARBORETTO, já que para ele o fundamental é que exista uma televisão, um sofá e uma cama com colchão confortável.

 

A Senhora Professora achou tanta piada às minhas dissertações - talvez pelo meu francês macarrónico - que me apeteceu partilhar estes postulados doutrinários sobre homens, mulheres e compras.

 

Bom fim-de-semana!

 

 

 

 



publicado por teoriasdacosta às 12:57
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Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011
A depressão dói (dói)

Anda por aí um anúncio institucional com o slogan “a depressão dói”.

Sei que o assunto é sério, mas um destes dias provocou-me o mesmo sorriso travesso que não consegui esconder quando percebi que as minhas amigas que são mães ligavam para uma linha com a designação “Dói-dói... trim-trim”, sempre que queriam esclarecer dúvidas sobre cócós amarelos ou vomitados fluorescentes das suas crianças.

Todos sabemos que os portugueses andam deprimidos. Os europeus andam deprimidos. O mundo anda deprimido. Conhecendo-se os casos de vida que as televisões não se cansam de nos relatar, com famílias de licenciados no desemprego, a morar em andares com acabamentos de luxo mas hipotecados até à quinta geração, outrora conduzindo carros topos de gama e agora a pé nas filas das refeições  servidas pelas ajudas humanitárias, não me supreendem as depressões mas sim a ausência de um fenónemo explosivo de suicídios em massa.

Quando eu era criança, a depressão era coisa de que as mães falavam numa surdina de adultos. Lembro-me de a mãe de uma amiga ter ficado de baixa médica por andar deprimida e de a história ser contada de uma forma tão enredada que quase parecia que a senhora andava descontrolada, histérica, violenta, apenas dominável com recurso a medicação forte, choques eléctricos e colete de forças. Na prática, a mãe dessa amiga estava apenas triste. Apática. Incapaz de reagir. Sintomas que hoje temos como normais e que identificamos sem hesitação como uma depressão, mas que na altura conduziam a uma classificação preconceituosa das pessoas como malucas.

A depressão existe e dói.

Quando me encontrei perdidamente triste, tão triste que tive de chorar quatro horas em frente a um Freud que fez o favor de me ouvir como amigo, assumi com vergonha que estava deprimida. Para mim tal patologia era sinónimo de fraqueza e eu sempre me vi como uma guerreira. Daquelas que são imbatíveis. Uma espécie de Lara Croft au naturel com uma infindável reserva de vidas.

Utilizava amiúde a expressão “o segundo é o primeiro dos últimos” e tinha muitas vezes uma atitude tão arrogante como tem o Mourinho no mais marcial dos seus dias. Admitir que não estava em condições de chegar à meta da corrida de obstáculos em que transformei a minha vida foi uma enxurrada de pedras de gelo, que se gostasse de malte tinha emborcado em acto continuado com muitas doses de whisky.

Precisei de medicação.

A depressão começa por ser um desiquilíbrio químico do cérebro e foi fundamental convencer-me disso para aceitar que necessitava de ajuda de fármacos tanto como a cura de uma dor de cabeça requer ácido acetil-salicílico.

A publicidade à depressão como doença que dói incorre numa banalização tão perigosa quanto a do uso da pílula do dia seguinte como método contraceptivo.

Na prática, as drogas são solução fácil para qualquer problema.

Difícil é resolver as tormentas que nos apoquentam ao ponto de transformarem os nossos dias em rios de lágrimas que não contemos mesmo quando aparentemente nos rimos.

A saída da depressão não se faz fugindo à vida real com recurso a ansiolíticos e barbitúricos.

As dores só cessam quando identificamos o que nos magoa e encontramos forças para combater os demónios que deixamos crescer debaixo de cama enquanto dormimos.

A depressão dói mas em alguns casos é apenas tão grave como um daqueles arranhões que se curam com um beijinho...

 



publicado por teoriasdacosta às 21:52
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Terça-feira, 28 de Junho de 2011
Não há melhor remédio do que as ilusões...

Sou fã do Woody Allen desde que vi na década de oitenta um filme que parodiava as longas metragens, séries, livros e afins sobre ficção científica que então era uma moda, quase uma fobia, entre as pessoas da minha geração (Juro que googlei na net à procura do nome desta película mas não encontrei...).

Reconheço que a ironia, o humor melancólico e o toque sarcástico dos primeiros filmes se perdeu.

Apesar das críticas quase sempre negativas às obras que nos últimos anos Woody Allen estreou, continuo a acreditar que os seus filmes são únicos, pela riqueza dos personagens - neuróticos, paranóicos, banais –; pela rede de histórias que fazem com que vidas paralelas se toquem e cruzem, mesmo que o sentido dos encontros e perdas só se alcance quando começa o genérico; pelos finais que nos deixam suspensos, surpresos ou simplesmente sorridentes.

Por um destes dias vi “Vais conhecer o homem dos teus sonhos”, título que não traduz com justeza a carga simbólica do nome original “You´ll meet a tall dark stranger”, frase com que muitas videntes, cartomantes ou profissionais do Tarot iniciam as suas predicções quando a resposta que procuram nas estrelas, nas palmas das mãos ou nas cartas de um baralho deriva de uma pergunta relacionada com o amor.

No fundo todos queremos encontrar a pessoa certa. Ouvir essa possibilidade, decretada como certeza do destino, da boca de alguém que assumimos como especialista nessas coisas que nos transcendem, funciona como o alívio com que descobrimos que uma determinada dor que nos atormenta pode ser aliviada com um medicamento.

Uma das frases que se ouve no início do filme e que quase funciona com eixo condutor da trama é "não há melhor remédio do que as ilusões".

As personagens deste filme têm os tiques e traços recorrentes nas aventuras do realizador.

O cabeça de cartaz é Anthony Hopkins, que vemos no início como um sessentão enxuto, mas que vai envelhecendo e minguando à medida que se aproxima o “the end”; a sua ex-mulher, com aquele inconfundível ar de senhora inglesa vestida de tons pálidos, com vestidos que evocam padrões de cortinados e rendas de naperons; a filha de ambos, casada com um escritor desinspirado que conseguiu escrever na vida apenas um livro que passou do rascunho à edição em papel; a prostituta/acompanhante, gazela de corpo escultural com Q.I. abaixo do ponto de congelação; e o dono de uma galeria de arte, representado por um discreto Antonio Banderas que quase consegue ter bom aspecto.

Irónico como é, pessimista como o imagino, Allen derruba a tese de que os sonhos se realizam se acreditarmos o suficiente neles, demostrando que não há ilusão que não se desvaneça nem sonho que não termine abruptamente com o toque do despertador, ou pior ainda, se transforme num pesadelo.

Não há remédios sem efeitos secundários.

Recordando a estrada por onde venho e as pessoas que tenho encontrado pelo caminho, reconheço que as ilusões são meros paleativos.

Ser derrotista é insuportável, mas não ter a noção do ridículo em que se transformam os sonhos que queremos prolongar no tempo, pode revelar quão ingénuos ou estúpidos somos na condição de meros seres humanos e não de deuses fabricados nas estrelas...

 

 

 



publicado por teoriasdacosta às 22:41
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Quarta-feira, 18 de Maio de 2011
10 falhas fatais para o Sexo Masculino

 

A história dos homens com a camisa dentro das calças deu o mote para uma girltalk entre posts no FaceBook, telefonemas e troca de piadas na pausa para o cafézinho.

Chego assim a um elenco de coisas que deixam as mulheres (contemporâneas) em estado de pré-histeria:

1. Pêlos nos ombros

Ughhhh! A depilação masculina não é coisa de travestis, drag queens ou maricas. Se as mulheres sofrem a tirar pêlos nas virilhas e nas axilas (ai que dor!), se até conseguem ter filhos, então não vejo razão alguma para que um homem que chega à idade adulta com corpo de urso – não necessariamente daqueles fofinhos - não se submeta a um restauro com bandas de cera fria. Idem para pêlos que saem das orelhas e dos ouvidos. Há tesourinhas e pinças para tratar desses pintelhos (cito Catroga) mais atrevidos. 

2. Camisas de manga curta

Nunca, jamais em tempo algum! Principalmente quando se veste fato.

3. Meia branca

Acho que já não há homens com "pé de gesso", pois não?

4. Carecas não assumidas

Mais vale uma cabeça luzidia, assim tipo bola de bilhar, do que uma madeixa de cabelo que cresce acima da orelha esquerda e se cola com brilhantina à orelha direita ou outros truques  muito mal feitos para disfarçar a careca. Perucas e capachinhos são pelagens de animais mortos absolutamente proibidas.

5. Calções abaixo dos joelhos ou calças acima dos tornozelos

Fica ridículo. Um homem com calções compridos ou calças curtas parece sempre mais baixo e gordo do que efectivamente é. A coisa agrava-se se a dita peça de roupa for em ganga ou se vier apetrechada de bolsos, fechos e tachinhas como um carro em versão tunning.

6. Unhas roídas

Não sei se está científicamente comprovado ou se é facto que intuo por amostragem entre amigas, mas uma das coisas em que uma mulher repara logo no primeiro encontro é nas mãos que vêm apensas a determinada figura masculina. Unhas roídas é mau, denotam falta de auto-controle e de nervosismo. Unhas arranjadas com vestígios de verniz (daqueles endurecedores que supostamente são transparentes mas deixam sempre um certo brilho) também não são coisa normal, por mais metrosexual que seja o rapazinho.

7. Gravatas com nós gordos

Enfiadas naquelas camisas com colarinhos super engomados que se vendem numa loja que começa em S e acaba em OOR, que fazem com que os pescoços minguem e percam mobilidade, tornando o homem que o veste uma espécie de Robocop. A imagem fere a vista se a gravata vier com padrões ou em tons garridos...

8. Arrotos e outros sinais sonoros

Mesmo quando a relação avança para a intimidade, se partilha cama, casa-de-banho e lista de compras, há que manter um certo pudor nas manifestações corporais que se deixam escapar para o exterior.

9. Odor corporal

Há aquela teoria das feromonas e de como homens e mulheres são atraídos pelo cheiro, como dois animais se encontram em plena selva numa noite escura, mas o cheiro do corpo au naturel nem sempre é um aroma agradável. Para isso existe uma tão activa indústria de perfumes (e se investe tanto em anúncios fabulosos como o do AXE).

10. Silêncios e hum-huns

Mais uma verdade empírica, que por certo já foi estudada: as mulheres adoram homens que as fazem rir. Não com cócigas, porque isso é coisa de meninos, mas com aquele humor que pode ser americano, para as que gostam de piadas evidentes, ou very british, para as que gostam de raciocínios elaborados, teoremas e enigmas. Passada a fase da conquista onde as piadas têm um certo sex appeal é importante que um homem saiba manter um diálogo sobre qualquer tema, desde política ao vestido ridículo com que apareceu a prima gorda numa festa de família. Assim sendo, nada pior do que um homem que se enfia na já por aqui referida “caixa do nada”, não discute, não opina nem contraria, limitando-se a emitir uns sinais vitais para que tenhamos a certeza de que ainda não está a dormir.

 

PROMETO QUE ESCREVO IDÊNTICO TEXTO COM OS GRANDES "NÃOS" PARA AS MENINAS...

 



publicado por teoriasdacosta às 21:43
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Domingo, 3 de Abril de 2011
Teoria da acefalia

 

À semelhança do que sucedeu no ano passado, Nilton esteve presente na TEDxOPorto para nos brindar com “o humor mais inteligente que se faz em Portugal”, segundo o organizador Manuel Forjaz.

No final das intervenções da manhã, Nilton surgiu com uma teoria em que defendia que muitos seres humanos são acéfalos. A plateia riu. Presumo que a maior parte da audiência desconhecesse que o que Nilton queria dizer é que “a maior parte das pessoas não têm cérebro”, logo são estúpidas.

Como considero que a capacidade de rir de si próprio é um sinal de inteligência não de idiotice, diverti-me imenso com as explicações deste humorista.

Um exemplo da acefalia humana é, segundo Nilton, a teoria da torradeira. Sendo eu fã de teorias passo a explicar que um dos exemplos óbvios de como nos comportamos como pessoas sem neurónios (ou como loiras de um neurónio só, que ou está on ou está off) é a forma como sistematicamente tentamos colocar na torradeira fatias de pão que são mais largas ou mais compridas do que o que a ranhura do electrodoméstico permite. À lei da força, que é como quem diz, aplicando o “truque da pancadinha” que faz funcionar plasmas, monitores, automóveis e mulheres com dores de cabeça, lá conseguimos introduzir a fatia de pão na ranhura. O problema é que nem tudo o que é introduzido à força saí com facilidade (ocorre-me aquele célebre mito da garrafa de Coca-Cola quando ganha vácuo). O mais natural é o pão ficar preso, logo começar a queimar e, o ensonado ser humano que anseia por uma torradinha com manteiga ao acordar, ter uma compulsão incontrolável para tentar sacar o pão com o bico da faca, correndo o risco de uma electrocução.

O que tem isto a ver com o que quer que seja?

Nada.

Ou tudo.

Esta teoria do Nilton remete-me para um pensamento mais amplo que tem a ver com a nossa irremediável atracção pelo perigo. É certo, sabido e científicamente comprovado. Por mais que nos digam que não devemos fazer determinada coisa ou seguir por determinado caminho, lá metemos nós os dedos na tomada ou entramos em contra-mão numa via rápida. Somos assim na vida, em tudo, para sempre, como maldição inerente à condição humana.

O que a maturidade nos traz é a capacidade para antecipar que certas situações são potencialmente perigosas. A experiência quase nos permite aventar graus de probabilidade. Mas na prática, por muito sábios e sabidos, gostamos de aprender com os erros próprios, como se tirar conclusões a partir das experiências dos outros seja coisa de gente pouco original.

Afirmou Nilton, com recurso a uma série de chalaças, que avançamos distraídos pela vida como quem entra num avião convicto de que se algo correr mal há sempre a hipótese de nos salvarmos porque existe um colete salva-vidas debaixo do assento.

A primeira questão é quantas pessoas estão efectivamente atentas à coreografia da hospedeira ou ao filme que explica como proceder se o capitão avisar no seu tom monocórdico em português “peço desculpa senhores passageiros, mas esta turbulência súbita não é temporária, vamos mesmo despencar-nos!", traduzindo depois a mesma frase, com a mesma tranquilidade, para um “inglês estrangeiro arrastado” imperceptível para nativos de qualquer outro país. 

Questiona Nilton com imensa piada: “porque razão têm os aviões colete salva-vidas e não pára-quedas? Existe algum estudo que confirme que se um avião cair será sempre sobre o mar? Se a queda for em terra, o colete salva-vidas coloca-se debaixo do rabinho?”

Isto dá para rir, mas também dá para pensar.

Nós na vida somos mesmo assim, avançamos para as coisas na convicção de que nada de mal há-de acontecer, que na pior das hipóteses está tudo controlado, e que se eventualmente a coisa der para o torto alguém há-de lembrar-se de alguma coisa, sacar de um canivete suiço do bolso ou fazer de uma porta uma jangada, como nos inspirava o MacGyver, que de certeza era aparentado com algum transmontano, pois esta é sem dúvida a maior característica do povo português: “a capacidade de desenrascanço”.

Este último parágrafo é mesmo meu, não foi coisa de que ouvi falar.

O comentário que se segue também corresponde à minha forma de pensar: porquê que esta geração do Facebook e do Youtube, com i-phone´s e i-pad´s, tem este orgulho imbecil em auto-intitular-se “à rasca”, em vez de enveredar pela via que cria heróis e casos de sucessos e que é a “solução do desenrasca?”

 



publicado por teoriasdacosta às 18:46
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Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010
As coisas de que eu gosto...

 

Há uma miúda que me lê e comenta assiduamente (não sei porquê mas imagino-a como uma miúda) que tem um blogue com o nome “eugostode”. Escreveu-me ela, a Ana, um destes dias, entre as trocas de palavras que sempre fazemos a propósito das minhas teorias, que tinha criado aquele espaço para se “obrigar” a não esquecer as coisas boas da vida.

Acho a ideia genial! Digna de uma daqueles best sellers com dicas para o bem-estar instantâneo que se vendem nas saídas de caixa do supermercado. Realmente, a nossa capacidade para sermos felizes radica precisamente nessa capacidade para contrariarmos o cinzentismo com que despertamos no Inverno, saíndo da cama sem vontade, quando ainda está tão escuro que nem percebemos de que cor vai estar o dia, sobrevivendo a oxigénio e a soro a testes de nervos quotidianos, como o que provoca um dia diluviano como o de hoje. Há dias destes, muitos, em que definir um “gosto” sem ser com os polegares para cima do Facebook pode ser um desafio.

Trata-se de uma espécie de exercício matinal, uma postura reflexiva - não flexiva a tender para o acrobático – tão simples como fechar os olhos naqueles dois minutos que levamos a preparar o nosso corpo para saltar do aconchego dos lençóis, e dizer a frase. A frase do dia. A que nos vai dispor bem. A que nos vai fazer sentir felizes pelo simples facto de estarmos vivos.

É a possibilidade de batermos a porta de casa com um sorriso nos lábios, o sorriso de quem derrete na boca um caramelo adocicado, e não com aquela expressão amarga de quem anda a chupar um limão.

É esta a filosofia que canta uma música que foi banda sonora num filme que invariavelmente há-de passar por estes dias de Festas: “Música no coração”

De forma prática poderia elencar as coisas simples de que gosto: as romãs e as esplanadas de que fala a Ana no seu blogue, as lareiras, o Sol de Inverno, o cheiro a café de saco, passeios na praia, adormecer abraçado...

Mas a tal música, da qual publico uma versão contemporânea, serve-nos estas pequenas coisas boas da vida de forma mais poética.

Aqui vai a minha tradução livre (muito livre):

 

Gotícolas de chuva sobre pétalas de rosas,

gatos fofinhos com seus imensos bigodes

chaleiras e panelas brilhantes em cobre

luvas sem dedos, quentes como pode?

 

Embrulhos de papel atados com cordas,

estar de férias sem pressas nem horas,

Branco, preto ou cores garridas

Estas são algumas das minhas coisas preferidas

 

Póneis meiguinhos e struddles estaladiços,

campaínhas de porta e trenós com guizos,

bife com massa, bacalhau com batatas,

gansos que voam sobre a lua com suas enormes asas

são outras tantas coisas de que até acho que gosto

 

Vestidos brancos com fitas de cetim azulado,

básicos da H&M e saldos da Zara

flocos de neve sobre o nariz e as pestanas

cenários com neve de um branco prateado

botas com pêlo, sandálias e havaianas 

são outras das minhas coisas preferidas

 

Dias de praia em tons dourados

Estar só em casa sem ser abandonado

Amigos com os copos

Cheliques de tias

são outras das coisas que podem ser escolhidas

 

Quando o cão morde

quando a abelha pica

quando as unhas se partem

e as lágrimas caem

basta recordar a lista das minhas coisas preferidas

e logo as nuvens desmaiam...

  



publicado por teoriasdacosta às 21:46
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