Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.

Domingo, 13 de Maio de 2012
Os amigos de Alex
 

 

Entrei a semana passada no último ano antes dos quarenta.

A idade não me assusta. Choca-me é saber que para todos os efeitos faço parte do heterogéneo universo dos cotas, classificação que me parece tão escandalosa quanto é ofensivo dizer que a minha Mãe é uma velhota só porque já passou a barreira dos setenta.

Para além do eterno cliché “a idade está na nossa cabeça”, o que me parece é que cada um tem a idade que aparenta.

Sei que tenho quantificação etária incerta pois tanto posso dar ares de miúda nova, quando me meto a correr pela beira-rio de boné ou passeio pela baixa de jeans, como fico com ar de executiva poderosa com os meus vestidos pretos, colares de pérolas, baton e rimmel.

Não me sinto acabada, derrubada pela vida, puxada para baixo pela dita força de gravidade que, tenho de confessar, já me anda a fazer estragos no rabo.

Ainda gosto de celebrar cada aniversário. Adoro dizer que tenho trinta e nove (agora com legitimidade) ou que me falta um ano para os quarenta, e perceber o ar de perplexidade de quem me observa com lupa, luvas e fita métrica.

É inevitável que a passagem de mais um ano seja momento para acerto de contas. Pelo menos para mim é, que encontro mais sentido neste balanço a cada aniversário do que naquela comemoração oficial com passas, badaladas e champanhe.

A minha história tem sido plena em mudanças. Costumava comentar com uma amiga que as náuseas e vertigens que a vida por vezes me trazia se deviam ao facto de eu a encarar como uma espécie de montanha-russa, tão viciada na adrenalina do medo e da coragem, da superação própria e da emoção pura, que me parecia estranho caminhar por estradas planas, com horizontes largos, pistas rápidas para viagens longas e destino certo.

Como andei por muitos sítios conheci muitas pessoas.

Algumas ficaram arquivadas no memorial dos “amigos”, mesmo quando passam anos sem um contacto. Os telefonemas e mensagens que recebo no aniversário fazem-me acreditar que, por mais alheados que estejamos da vida uns dos outros, mantém-se a cumplicidade que numa parte dos nossos caminhos nos fez seguir passos idênticos.

Assim acontece num filme que marcou a vida de muita gente: “os amigos de Alex”.

No filme, o pretexto para o encontro é o suicídio do amigo Alex.

Na história que é a minha gosto de imaginar este encontro como os jantares e cafézinhos que acontecem às vezes entre um grupo e outro. Para o ano, ao comemorar os quarenta, quero acreditar que conseguirei reunir os amigos de todas as etapas, num fim-de-semana com festa cigana que nos permita rir, chorar, recordar figuras tristes, esclarecer mal-entendidos, dizer os elogios que ficaram calados, enterrar de vez as mágoas que permaneceram latentes. À despedida tenho a certeza que vamos todos confirmar num abraço que afinal é mesmo verdade aquela história da amizade como um amor que nunca morre.

A banda sonora d'”os amigos de Alex” incluí como tema principal “You can’t always get what you want”.

Aos quarenta já aprendemos que “não conseguimos ter sempre aquilo que queremos”, mas se a passagem dos anos nos brindar com alguma maturidade teremos uma certeza apaziguadora: “mesmo quando não conseguimos o que queremos, alcançamos pelo menos o que precisamos”.

O truque está em reconhecer que com essas coisas (que não são necessariamente coisas, muito menos as que estavam na wish list) somos capazes de ser felizes.

Brindemos!

  

 



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Domingo, 9 de Outubro de 2011
Teoria do protector solar

 

 

Quinta-feira, a caminho do Porto, superando o aborrecimento da auto-estrada com um ininterrupto zaping radiofónico, lá ouço falar sobre a morte de Steve Jobs com referência aquele discurso que uma vez comentei, em que este homem extraordinário classificava a morte como a maior invenção da vida.

Quando o fundador da Apple soube que padecia de cancro do pâncreas, realizou pela primeira vez que era mortal. Perante uma sentença de morte certa tornou-se mais eficaz na arte mágica de viver cada dia em pleno. Isto é: viver cada dia como se fosse o último, à espera do dia em que finalmente acertou.

Mortais somos todos, mas não pensamos nisso ao acordar, enquanto lavamos os dentes,  quando conduzimos a alta velocidade ou simplesmente nos sentamos à secretária para mais um dia de trabalho com um mero vislumbre de céu e de Sol.

Imaginamos que a morte só acontece aos outros e que só daqui a muitos anos chegará um dia a nossa hora.

Mas a nossa hora pode chegar hoje.

A minha viagem ao Porto foi motivada pela morte de um amigo.

Foi-se num acidente estúpido entre dois degraus de uma escada. Sozinho. Em casa. Num desequilíbrio de um passo que lhe provocou morte instantânea.

Surpreendidos todos, numa espécie de transe anestésico que nos fazia duvidar da razão que nos reunia à porta de uma igreja num estival final de tarde, comentávamos quão absurda tinha sido esta queda.

A morte será sempre um mistério. Um disparate. Um paradoxo. Uma ironia do destino e da sorte.

Mesmo que seja a idade que nos leve depois de uma vida santa ou de uma doença prolongada.

Comentava um dos presentes que a partida deste amigo, conhecido por gostar de andar sempre em festa, tantas vezes ébrio como provavelmente estaria no momento do acidente, que esta tinha sido a sua forma de nos abanar a todos pelos ombros.

Ele, o que se foi, o homem que conhecemos descontraído, com um permanente sorriso manso, gritou nos nossos ouvidos, em jeito de zombaria, que nos levamos demasiado a sério.

Não relaxamos. Não saímos do quadrado, da caixa, do círculo, da gaiola, da jaula, da redoma que tomamos como o habitat da nossa sobrevivência.

No final acabamos numa caixa de madeira. Reduzidos a pó.

Ocorreu-me então o discurso e as imagens que enchem um vídeo que já é histórico no Youtube: “Everybody´s free (to wear sunscreen)” de Baz Luhrmann. Não sei se este texto alguma vez foi um discurso ou se é apenas um filme que este realizador produziu num momento de ócio. O que sei é que, apesar de o título soar disparatado, como estranho é o conteúdo, entre as muitas frases carregadas de humor encontram-se mensagens fantásticas que no momento do velório me iam surgindo difusas mas com redobrado sentido.

É quase uma futilidade preocuparmo-nos com o futuro.

Os problemas que vamos encontrar na realidade são sempre equações algébricas mais complicadas do que as que os nossos cérebros ingénuos e crédulos são capazes de formular.

As nossas escolhas são metade acaso, tal como as opções dos outros, pelo que não devemos congratular-nos em demasia quando a vida nos corre bem nem penalizarmo-nos em excesso se a vida nos impreca.

O conselho que pontua o discurso é “devemos sempre usar protector solar” como recado síntese de uma série de sugestões e advertências que se resumem a uma elementar lição de vida: devemos tratar-nos bem, respeitar os outros, depreciar os maus momentos e as más palavras, valorizar o assombro que é respirar, ter um coração que bate certo, vivendo com saúde, de preferência rodeados pelas pessoas que nos amam e que num ou noutro minuto do dia dizem ou fazem pequenos nadas que nos fazem felizes por uns minutos (ou menos infelizes durante umas horas...).

Tudo o resto são adereços, cenários, papéis com a sua importância para a nossa auto-estima, conta bancária ou ego, que nos ajudam a ser alguma coisa na vida mas que não devem determinar a pessoa que somos nem a forma como gozamos a nossa preciosa existência.

O tempo passa… ou como ouvi ontem num fado “o tempo fica, nós é que passamos por ele”.

 



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Domingo, 13 de Março de 2011
A geração rasca também está à rasca!

 

Sou suspeita.

Estava ainda na faculdade quando em 1994, Vicente Jorge Silva, então Director do Jornal Público, se referiu aos jovens como “geração rasca” criando assim um rótulo que ficou para sempre associado aos adolescentes daquela época.

Essa geração, a que me sinto inevitavelmente colada, ingressou na faculdade e fez o curso superior que desejava, porque mesmo não tendo média para o ensino público, multiplicavam-se as universidades privadas com réplicas dos cursos da moda – economia, gestão, direito e relações internacionais -, mas também com cursos de nomes pomposos e aplicação duvidosa, de que me ficou na memória o extraordinário curso de engenharia publicitária.

Os pais da geração rasca - que em regra se viram afastados do ensino superior por questões financeiras, que concluíram os estudos numa árdua epopeia de trabalhador-estudante ou ainda, no caso dos adolescentes mais novos, se safaram sem saber como depois da rebaldaria em que se converteu o ensino no pós 25 de Abril - fizeram todos questão de proporcionar aos filhos um curso universitário. As propinas nas universidades privadas eram caras, mas ficavam mais ou menos ao nível do valor que era cobrado em muitos colégios pelo ensino pré-primário.

Tornamo-nos pois todos doutores e engenheiros. Nos prósperos anos noventa, em que Portugal vivia insuflado a subsídios comunitários, arranjamos todos empregos com relativa facilidade.

Muitos dos meus colegas estão hoje desempregados. Ou então a trabalhar em condições precárias, o que quer dizer a recibos verdes ou com sucessivos contratos a prazo, com ordenados tão miseráveis que em alguns casos os obrigaram a devolver a casa ao Banco e a voltar humildemente para a casa dos pais.

A geração rasca também está à rasca!

Somos trintões a caminhar assustadoramente para a idade em que começamos a ficar velhos para o mercado de trabalho.

Os nossos pais também estão à rasca!

Os pensionistas coitados, até aqueles das reformas tão baixas que equivalem ao que somos capazes de gastar num jantar com noite de copos, vêm-se confrontados com mais cortes numa série de benefícios que provavelmente os vão colocar perante a difícil decisão de comprar os comprimidos para a artrose ou as batatas para a sopa.  

Sou suspeita porque não gosto dos Deolinda e porque, entre espíritos revolucionários, prefiro os do Bloco de Esquerda com as suas teorias intelectuais às paródias do povo do megafone. Correndo o risco de ser tomada como uma arrogante cidadã de classe média burguesa, acredito estar um bocadinho acima do patamar  d´“a malta” e d´“a gente”, principalmente daquela que se expressa em calão e termina as frases com pá.

Compreendo a frustação daqueles que chegam ao final de uma etapa carregados de expectativas para perceberem que afinal não há no mercado um posto de trabalho onde possam aplicar aquilo que julgam que sabem.

Retiro alguma legitimidade às lamúrias daqueles que optaram por cursos que, há três ou cinco anos atrás, se sabia já serem um cartão de livre passe para o desemprego, como Filosofia, História, Relações Públicas ou Belas Artes. É óptimo podermos fazer o que gostamos mas a vida real é mesmo passada a simular sorrisos e a engolir sapos.

Aplaudo que finalmente se tenha feito alguma coisa para manifestar o descontentamento perante o conjunto de restrições e medidas de austeridade que se abatem sobre nós como uma espécie de maldição incontornável. Temos sido um povo a tender para a abstenção como expressão clara de uma certa prostração apática, mas este é definitivamente o momento em que temos de nos descolar dos nossos míticos costumes brandos.

Pelo que consta os cortejos de ontem realizaram-se de forma ordeira e apartidária, como se frisou desde o primeiro momento, quando quatro jovens a partir de uma conversa num café decidiram utilizar o FaceBook como instrumento de intervenção democrática.

As manifestações que ocorreram um pouco por todo o país reuniram jovens, adultos no activo, desempregados, reformados e crianças que não tinham onde ficar num sábado à tarde. No fundo, não há português que não se sinta enrascado (excepto a minoria que nos Governa e os empresários que gravitam na sua órbita).

Sou suspeita porque o meu posicionamento a tender para a direita, mesmo que não no extremo do “então vá” e do sapatinho de berloque, não se identifica com o espírito reaccionário. A iniciativa é de louvar, mas o que me parece hoje, que estamos no day after, é que esta manif foi apenas um corso ao estilo flower power, que junto da classe política fica como um evento que não belisca nem mancha, e que na comunicação social teve uma cobertura dúbia entre a crítica destrutiva e a eloquência demagógica.

 



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Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011
Solitários entre paredes de betão

 

Tenho a certeza de que ninguém ficou indiferente à notícia da senhora que esteve morta em casa durante nove anos.

Chocou-me nesta história o isolamento e a indiferença com que se encarceram os bichos que somos entre paredes de betão.

No Verão de há dois anos, uma família inteira que morava no meu prédio morreu soterrada no desmoronamento de uma falésia no Algarve e eu só dei pela falta destas quatro pessoas no ano seguinte, quando confrontada por uma vizinha mais sénior. Só então realizei a falta do senhor calvo que saía todas as noites para passear o cão e fumar e a ausência do carro das filhas, com um inconfundível volante em peluche rosa da Hello Kitty, estacionado sempre ao alcance da vista entre tantos outros veículos de presença habitual. É assustador que eu interaja mais com amigos do FaceBook do que com os vizinhos do quarto andar...

No caso concreto da senhora que morreu lá para os lados de Sintra, não houve esse alheamento- Pelo contrário, existiram até vários avisos. Mas o que sucedeu foi que entre a displicência e a burocracia não foi possível arrombar a porta para confirmar a morte pressentida por pessoas que, pela idade e cuidados de gente antiga, a sociedade não trata com seriedade.

Escreveu Jorge Luís Borges que “a velhice poderia ser a suprema solidão, não fosse a morte uma solidão ainda maior”.

O eco desta frase e o turbilhão de pensamentos que me assaltaram no rescaldo da notícia escabrosa que abriu telejornais até ao fim-de-semana,  fizeram-me reflectir sobre esta coisa que nós os adultos chamamos de independência: o viver só, ainda que não na solidão, entre ligações e relações que se gerem e alimentam no perímetro imenso que fica para lá da nossa casa.

Comentava uma amiga este fim-de-semana, que as pessoas depois dos quarenta se atiram com mais facilidade para a opção da partilha de espaço porque lhes faz falta a companhia de fim de tarde.

Tenho um tio na casa dos setenta, que ficou viúvo em Outubro do ano passado, e que tem vivido o seu novo estado civil com tão profícua actividade amorosa que me começo a questionar se esta urgência para acabar os dias com alguém deitado ao nosso lado não será mais uma das nossas necessidades básicas.

Enquanto adultos vivemos obcecados com a ideia de trepar ao cume da pirâmide de Maslow onde pontificam as necessidades sociais, de auto-estima e de auto-realização porque condicionamos os nossos dias e as nossas opções de vida em função de uma imagem social, da vaidade que depende do aspecto físico e de uns tantos bens materiais, de um egocentrismo feito de títulos, tribos e estratificações sociais.

Mas no final, despida a farda, quando trazemos a nossa carreira profissional num caixote e nos preparamos para as imensas horas que ganha um dia quando passamos a viver de uma reforma, se calhar o que queremos mesmo é ter alguém com quem conversar.

Conta esse tio que julga ter encontrado o amor num corredor do Pingo Doce. Imagino que o desblqueador de conversa possa ter sido estarem ambos a cantarolar a festivaleira canção d´“o preço é baixo o ano inteiro”.  Viúvo como está, triste como anda, mal entabulou conversa com a senhora convidou-a logo para um chá. Na própria semana ela acompanhava-o a uma consulta no hospital e ele descrevia como acto romântico o facto de ela ter ido pagar a taxa moderadora enquanto ele era visto pelo médico. Tudo muito rápido, tudo muito simples, porque estão ambos sózinhos, sem a muleta de um emprego nem o escudo de um cargo ou posição social. São apenas um homem e uma mulher cientes de que caminham a passos largos para o final da vida, apesar do reumatismo e da ciática, e de todas as dores e maus humores que lhes atrasam o passo.

O meu tio não procura uma mulher mais nova, com uma imagem tipo a das senhoras que anunciam as fraldas da LINDOR ou os cremes da TOKALON (cremes de beleza que usavam as mulheres da sua geração). Aceita rugas e gorduras localizadas desde que a candidata a namorada queira ser a sua companhia de todas as horas nos dias que passam lentos, submersos no silêncio de uma casa que chora de saudade.

Ela, por sua vez, não quer um galã de cinema do género dos que faziam cartaz nos filmes a preto e branco.  Aceita as dores e queixas que são nele uma patologia desde que ele a trate bem e seja educado.

No final, nenhum dos dois quer morrer à fome no chão frio de uma cozinha porque não ter ninguém que o ajude a levantar-se...

 

 



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Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011
Quanto mais velhos mais felizes...

Lembro-me de ver em miúda num livro da Mafalda uma tira em que a personagem com quem eu tanto me identificava lê “a vida começa aos quarenta”. O seu comentário desesperado é “mas porque raio nos mandam vir com tanta antecedência?”

Recentemente, o The Economist publicou um estudo segundo o qual só começamos a ser verdadeiramente felizes após os sessenta, o que me leva a questionar “o que raio andamos cá a fazer durante tanto tempo?”

O texto começa com uma citação formidável de Maurice Chevalier que eu traduzo da seguinte forma “envelhecer não é assim tão mau quando se considera a alternativa”. Para quem não percebeu, é melhor ser velho do que estar morto!

Apesar das desvantagens que todos tememos com o avançar dos anos – não conseguir ler a ementa dos restaurantes sem ter de esticar a carta até interferirmos na conversa que corre na mesa ao lado, ter medo de rir muito e de não conseguir reter as gotas de urina que nos deixam humilhantemente desconfortáveis, não apanhar as moedas de euro que caiem ao chão porque dobrar os joelhos e vergar as costas se pode revelar uma manobra acrobática – este artigo vem revelar que afinal, envelhecer é chegar ao U-bend, ao nirvana da meia-idade que converte cinquentões maníaco-depressivos em reformados estarolas.

Segundo o estudo citado, depois de ultrapassada aquela fase da faculdade, das bebedeiras, da boémia e da inconsciência, chegados à vida adulta cheios de adrenalina e de garra, cedo percebemos que o dia-a-dia de quem faz carreira e quer ter família, ou descobre que tem de abdicar de uma destas, é uma crueldade sem graça. Entramos pelos vinte e tais a levar com sucessivos baldes de água fria, tantos, que mais valia mergulhar num lago em estado de congelação e ficar lá hibernado até à idade que os investigadores afirmam que a vida vale a pena.

Curiosamente este estudo partiu de economistas que quiseram aprofundar esse subjectivo conceito de felicidade para além do bem-estar que, por formação, associam ao indicador objectivo que todos conhecemos como “dinheiro no bolso”. As conclusões preliminares são que o sexo, não quantidade ou qualidade mas sim o género, podem condicionar esta coisa da felicidade.

Ao contrário do que pensava eu, que vivo rodeada de colegas viciadas em Xanax, cafeína e nicotina, as mulheres têm maior capacidade para serem felizes do que os homens. Esta apetência pelas tristezas clínicamente atestadas revela apenas que as mulheres experimentam com maior facilidade estados emocionais extremos, enquanto que os homens se mantém indefinidamente naquele estado neutro de um electrodoméstico em stand by.

As pessoas neuróticas, por serem pessimistas e dominadas por sentimentos negativos, revelam um menor índice de inteligência emocional, o que, no geral, nas relações humanas, mesmo nas de trabalho, lhes complica a vida, tornando a sua existência miserável. Por outro lado, as pessoas extrovertidas, com maior apetência para trabalho em equipa e actividades sociais, têm maior propensão para encontrar a felicidade.

As circunstâncias – como a educação, a saúde, o rendimento – também influem no nosso grau de felicidade. Pelos vistos, o estado civil, se implicar que não se está só nem mal acompanhado, também pode contribuir para tornar mais sincero e consistente o sorriso que carregamos nos lábios.

Segundo o The Economist, o estudo levado a cabo em setenta e dois países concluíu que em geral, as pessoas, qualquer que seja o sexo e as circunstâncias, atingem o pico da infelicidade aos quarente e seis anos. Até lá vivemos sob stress, submersos em preocupações, vítimas de incontroláveis ataques de raiva e de ansiedade. Aos quarenta e tais, quando profissionalmente já não vamos mais longe, temos os filhos criados e pesadelos com hipotecas em vez de sonhos eróticos, lá deve haver um dia em que, por bom senso ou num acesso de loucura, resolvemos começar a “aliviar a mochila”

A literatura fala de uma “crise da meia-idade” para classifcar aquela fase em que questionamos todas as tralhas que fomos acumulando e que, já sem saber porquê, continuamos a carregar às costas. É então que nos separamos ou começamos a amar fervorosamente a pessoa que temos ao lado, e passamos a trabalhar com aquele espírito de prisioneiro que conta os dias para que as portas da cela se abram.

Há aqui uma ressalva a fazer: as pessoas infelizes vivem menos tempo. Assim sendo, as pessoas que ultrapassam a crise de meia idade experimentando um crescendo de harmonia e boa disposição são aquelas que já tinham em si esta capacidade para serem felizes.

Outra ressalva é a existência de filhos adolescentes quando se atravessa o deserto dos quarenta para os cinquenta. É que os miúdos tendem a ser agressivos, sádicos e sarcásticos, características que abalam a auto-estima de qualquer adulto que subitamente se vê com rugas, pele flácida e cabelos brancos.

Na prática, com a idade as pessoas tornam-se mais sábias. Gerem melhor os conflitos, controlam com mais eficácia as emoções, aceitam melhor as contrariedades da vida, são menos exigentes consigo próprias e consequentemente mais tolerantes com os outros.

Uma professora de Psicologia da Stanford University desenvolveu uma teoria fantástica segundo a qual, à medida que o ser humano envelhece torna-se consciente da sua mortalidade, o que lhe confere uma visão mais realista dos horizontes. Por outras palavras, o pressentimento de que o fim está próximo torna-nos mais eficazes na gestão do presente.

“A vida é agora!” dizem as frases feitas que usamos com paleativos. O problema é que vivemos o dia de hoje a achar que tudo é para ontem...

 



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Quarta-feira, 16 de Junho de 2010
O "Sexo e a Cidade" - teoria dos parêntesis

 

Segunda-feira fui ver o “Sexo e a Cidade”.

Filme banal, como gritou estridentemente toda a crítica. Argumento fraquinho, representações sofríveis, enredo levezinho, pá-tá-ti, pá-tá-tá e todas as críticas intelectualóides que ficam bem tecer em relação a um filme que, como toda a gente sabe, funciona apenas como série, já que as historietas das queridas amigas não têm conteúdo suficiente para manter o nível de atenção durante mais do que meia hora.

Mas o “Sexo e a Cidade” não é um filme que se vai ver pelo enriquecimento cultural, pelo drama, pelos actores que arrecadam Óscares com prestações que nos comovem, nos estremecem, nos fazem sentir pequenas, com vontade de enfiar a cabeça num balde de pipocas, ou então, seres superiores, supremos e divinos por termos o privilégio de assistir e de, note-se bem, perceber, o alcance, a extensão e a profundidade da mais densa das personagens e da mais complexa  das histórias.

O “Sexo e a Cidade” é um filme que se vai ver porque é um “programa de gaja”, já que homem algum tem pachorra para tanto cliché, grito histérico, suspiro fútil e lugar comum – a não ser que seja gay – e porque tem um guarda-roupa que faz doer o coração, apesar dos exageros na indumentária escolhida, principalmente para a Samantha, que aparece quase sempre carregada de lantejoulas, decotes, mini-saias e outras peças sem explicação, tão parolinha que fica ao nível do mais pitoresco baile de emigrantes de Trás-os-Montes, assim do género mãe e irmãs do Cristiano Ronaldo…

Como gosto de ver um filme e retirar daquelas horitas sentada, sem teclar e sem falar, alguma inspiração para as minas teorias, aqui vão alguns parêntesis à fantochada rodada em Abu Dabi:

Parêntesis 1: Não se falha um compromisso com as amigas

As amigas do “Sexo e a cidade”vão para uma espécie de férias, assumindo que, depois dos casamentos, piruetas e cambalhotas que a vida de cada uma tem dado e que comprometem a regularidade dos almoços, jantares, tertúlias e cosmopolitans, vão passar os sete dias daquela semana juntas. Na noite em que a Carrie e a Samantha quebram a regra a coisa descamba do chique das Arábias para o brega das americanas em crise de meia-idade.

Parêntesis 2: Não se metem as amigas dentro das relações nem as relações dentro das amigas

Isto quer dizer que, por muito que as mulheres tenham esta necessidade incontrolável de partilhar a sua vida toda com as amigas, toda mesmo, desde a enxaqueca pré-menstrual aos detalhes mais embaraçosos da vida sexual, quando uma relação com um homem é especial deve ser preservada. Os palpites de quem está de fora são muitas vezes perigosos, porque, como dizia o Freud, as mulheres normalmente pensam o contrário do que dizem, logo se uma mulher manifesta dúvidas em relação ao homem com quem dorme – situação em que as amigas, solidárias, lhe darão três ou quatro conselhos para o enxotar de vez da cama – está na prática a revelar indícios de que está profundamente apaixonada. Para alguém menos experiente esta dicotomia entre o que se diz e o que se sente pode estar próxima da esquizofrenia, sendo que esta inconsistência pode provocar o final de muitas amizades e o mau-estar de muitas relações conjugais.

Parêntesis 3: É muito cruel envelhecer em Hollywood

Quando saímos do cinema, fizemos algumas contas de cabeça para concluir que a idade da Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) está muito próxima da nossa. Se com tanta produção, iluminação e retoques ela aparece com aquela carinha de múmia, uma espécie de assombração pendurada num cabide, nem consigo imaginar como esta miúda, que conhecemos na Annie, tão fresca e fofa, estará na vida real. O mesmo se aplica às outras meninas. Da Liza Minelli, que faz uma aparição no início do filme nem se fala, parece que saiu directamente de um coma e que anda pendurada em arames. Notam-se imenso os retoques, botoxes e outros estratagemas para enganar a idade, que na prática fazem com que todas as amigas apareçam com aspecto deplorável, do género “o que é isto!?!?!” Se ficar velha no grande ecrã é assim então prefiro de longe a lei da gravidade do meu bairro, que me faz ganhar rugas, estrias e banhas com mais dignidade.

Parêntesis 4: Não se deixa sair do nosso sofá o homem que nos quer no sofá ao lado dele

A história da Carrie e do Mr. Big já todas sabemos e conhecemos: ela, apesar de tão experiente e poderosa, torna-se naif de tão apaixonada, sem qualquer força de vontade para lhe resistir; ele, filho-da-mãe, engatatão-tipo, sedutor nato, falha consecutivamente os compromissos, desaparece sem aviso prévio, anda episódios com aquela atitude típica de macho em fuga, à traição. Entretanto, a Carrie e o Big casam-se e eis que encontramos um casal típico – dentro do género, para quem tem sofás de griffe e janta comida trazida do take away, envergando um vestido vintage do Valentino -, que começam a trocar cada vez mais os flashes dos fotógrafos das revistas cor-de-rosa pelo sofá. Depois de o Big se transformar num “manso”, no homem domesticado em que todas as mulheres querem converter as feras que as encantam, eis que a Carrie se começa a aborrecer… Tantas noites em que ela nem sequer conseguia que ele ficasse para além dos cinco minutos protocolares depois da queca, e agora a rapariga carregada de rugas e peles penduradas morre de tédio por cada cinco minutos que passa aninhada nos braços daquele quarentão cansado, sem mais nada para fazer a não ser olhar para a televisão…

A maturidade traz-nos alguma serenidade e equidistância em relação a certas coisas. Saltitar de festa em festa, de programa em programa, de personagem em personagem, tem um inquestionável toque de glamour, mas quando repetido como padrão de vida é só mais uma sucessão de rotinas e farsas que cansam. Se calhar por isso as meninas de Manhattan estão tão gastas… Mais vale ser de uma cidade tão de província como Porto, com um cantinho tão chique como Tribeca, andar de saltos nas horas de expediente e sempre que a ocasião social o impõe, mas depois chegar a uma casa que é o nosso ninho, vestir a roupa confortável que nos retira uma década à cara e aconchegarmo-nos no sofá que já tem o formato do nosso corpo, adormecendo, se tivermos sorte, nos braços do homem que nos ama.

Brindo a isso… com a minha caneca de chá!



publicado por teoriasdacosta às 20:55
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