
Como já devem ter reparado, o tema sobre homens e mulheres, juntos, isolados ou ao molhe, é coisa que me fascina.
Esta semana ouvi de dois homens duas descrições incríveis.
Realmente, tenho de admitir, que eles têm uma visão muito mais prática sobre as coisas, simplificando tudo em conceitos básicos, mesmo quando são incapazes de se orientar num shopping (as mulheres apenas se esquecem onde estacionaram o carro) ou de estrelar um ovo (inaptidão que qualquer mulher toma como vantagem dado que, apesar das Bimbys e das dietas da moda, continua a ser verdade que “um homem se conquista pela boca”).
Não tenho a certeza se a expressão refere boca ou estômago mas de toda a forma a versão, tal como a escrevi, consegue ter alguma carga de erotismo já que é com a boca que se beija uma pessoa. Se tivesse de associar um orgão do corpo humano à sedução de um homem, o estômago seria certamente uma das últimas hipóteses.
Seja como for, escrevia-me um leitor que se tornou assíduo no meu blogue, um “Kurioso” que vai comentando o que publico, que as mulheres procuram num homem uma espécie de híbrido: “muito macho na estrada e muito sensível na estrada”. Ora aí está! Por isso os “jipinhos”, que eu apelido de “carros com rodas grandes” têm tanto sucesso entre as mulheres. O facto de serem mais altos do que um carro normal proporciona uma sensação de condução “à la Loubotin” na cidade e uma vertigem de perigo na auto-estrada. No fundo as mulheres procuram isso mesmo: sensualidade e perigo. Um homem que as convide para um jantar romântico, mas que entre a subida no elevador e a entrada em casa seja capaz de lhes desapertar o soutien com toques de artista. Um homem que envia uma mensagem no dia seguinte que as faz corar mas que depois desaparece durante dias provocando insónias e dores de barriga.
A outra descrição fabulosa que ouvi foi “um homem procura uma mulher que fique entre uma Vanessa e uma Benedita”. Dizia o autor da frase, pertencente a um daqueles clãs do Porto que trata todas as pessoas por você, com referência ao nome próprio e ao apelido, como se ser Bernardo, Afonso, Carlota ou Carolina, fossem apenas categorias, assim tipo detergente para a loiça, insecticida, pomada para mazelas ou iogurte, sendo preciso acrescentar-lhe a marca – como Fairy, Ezalo, Hirudoid ou Danone - para atribuir a cada uma destas coisas um significado e um sentido.
Segundo este personagem, as Beneditas são aborrecidas. Têm a mania do “que horror!”, do sexo sem ruído, da postura de “quem engoliu um garfo” e de cerrarem os lábios até que estes convertam num traço de desagrado, como permanente aviso de censura.
As Vanessas, por sua vez, são capazes de cozinhar nuas, usar lingerie de cores berrantes com uma combinação impossível de rendas e seda, chamar o namorado de “babe”, “amor” ou “fofinho”, e deixar-lhe mensagens escritas em batôn no espelho da casa-de-banho (que depois são difíceis de remover para quem não tem desmaquilhante junto à espuma da barba)
Com uma Benedita um homem pode casar-se, sabendo que este formato anódino tem as características genéticas ideais para ser a mãe dos seus filhos, que certamente nascerão loiros, de olhos azuis e só perceberão que há pessoas que se tratam por tu quando na adolescência começarem a sair com os amigos para locais mais públicos do que aqueles a que se confina o seu restrito circuito. A desvantagem, é que as Beneditas, mesmo as hippie chic com um certo ar de rebeldia, no fundo são umas chatas que não permitem que um homem se sente de boxers no sofá com os pés sobre a mesa de apoio, com uma geladinha na mão num momento purificante de zaping.
Uma Vanessa não pode ser apresentada aos amigos, porque tenderá a cumprimentar toda a gente com dois beijos, descaindo-se ao fim de uns minutos de conversa para o “tu”, será exuberante nos decotes e nos saltos altos, dará gargalhadas estridentes e contará piadas atrevidas. A vantagem é que uma Vanessa é sempre muito mais divertida, mais sexy e ousada na cama e, apesar de não ter lido os clássicos da literatura, saberá alimentar uma conversa sobre carros, restaurantes, bares da moda e até sobre futebol, enquanto que o espectro de uma Benedita se confina às fofocas do social, às reclamações em relação à empregada, à subtil extorsão monetária para que se paguem aulas de alemão ao menino e de ballet à menina, ficando o troco para uma tarde no cabeleireiro com direito a brushing e massagem, seguida de um chá com as amigas.
Como ficamos?
Uma mulher quer um maricas à mesa e um jogador de râguebi na cama.
Um homem quer uma lady na mesa e uma louca na cama.
O Marco Paulo lá tinha a sua razão...

São falsos, confesso. Mas como nunca tive uns verdadeiros nas mãos, muito menos nos pés, conhecendo pouquíssimas pessoas, para não dizer nenhuma, que tenham um exemplar fabricado no famoso atelier, estou a estoirar de euforia e de vaidade com esta compra num bazar, na mais exótica das cidades que conheci até hoje.
Para que os homens que me lêem consigam perceber a razão de tão fútil felicidade, posso comparar a aquisição destes scarpins de sola vermelha, ao que será a emoção de assistir no estádio à final da taça UEFA, ir para a cama com uma mulher escultural sem ter de pagar por isso (pelo menos naquela lógica tradicional da troca de dinheiro por um serviço) ou ter em primeira mão a versão mais recente daqueles jogos de futebol em que os bonecos têm cara e nome de profissionais do esférico.
A vantagem desta preciosa aquisição, é que os meus Louboutin custaram menos do que qualquer um destes exemplos...
Li no Verão no Expresso uma entrevista a “Louboutin himself” em que o criador dizia que para uma mulher uns saltos altos eram o caminho para uma nova vida. Por um lado, por questões aerodinâmicas: o equilíbrio sobre uns esguios oito ou mais centímetros obriga a que o corpo assuma um formato de “S” com rabo arrebitado e aspecto curvilíneo. Por outro, porque a estatura se eleva permitindo à mulher olhar os outros nos olhos (sejam homens ou a concorrência) ou até ficar mais alta que a média dos que a rodeiam concedendo-lhe uma sensação de poder e de grandeza.
Qual a importância de estes sapatos serem Loubontin, mesmo que réplicas, para não dizer “de contrafação” que é uma expressão feia? Porque a sola vermelha é uma espécie de código secreto. Um sinal de estatuto. Um pormenor de sensualidade. Uma pitada de luxo fingido entre tantas outros sinais exteriores de riqueza que difícilmente proporcionarão a mesma sensação orgásmica de ser mulher, tão sexy e brilhante como a mais famosa das estrelas que se passeiam por uma passadeira (vermelha, claro!).
Porque o vermelho, mesmo não sendo Loubontin, é a cor da paixão, uma alquímia perfeita e intensa, a cor do sangue que às vezes corre ferido no nosso coração, outras ferve na antecipação de uma promessa de prazer.
Por alguma razão Eva não seduziu Adão com uma maçã amarela...

Hoje dei por mim a ouvir no carro em alto som uma música da Tina Turner com o Brian Adams: "it´s only love".
Como a estrada estava vazia lá dei uns gritos hà miss hot legs e fiz uma cara feia à Billy Idol quando entrou o solo da guitarra.
Chegada ao portão da empresa, mudei para a TSF e saí do carro com um ar absolutamente calmo.
Diz-me o meu namorado que eu sou uma espécie de tia de Cascais com sotaque nortenho.
Quem me vê no dia-a-dia, de saltos altos que às vezes se tornam impossíveis, carregada de colares e pulseiras a fazer pendant com o cinto, a mala e com aquele tom indefinível que sobressaí na minha roupa, nem sequer imagina o outro eu que tenho cá dentro.
Se eu sacar da minha "caderneta de cromos" revelo, como qualquer pessoa da geração abelha Maia, que usei jeans a apertar no umbigo, franja e poupa no cabelo, tudo muito bem estruturado com laca e gel da Studio line. Gostei de músicas cujo nome da banda não revelo, dancei brasileiradas, colei posters nas paredes do quarto e cantei com uma lata de desodorizante (Impulse) a fazer de microfone em frente ao espelho.
A questão é que ainda hoje, quando desço dos sapatos e enfio os pés nas havaianas, lá desato eu a dizer que gosto de cabrito, arroz de cabidela e tripas à moda do Porto, mas sem as entranhas.
Nas minhas longas viagens de carro dou por mim muitas vezes a fazer zaping radiofónico naquelas emissoras regionais que tocam slows de garagem ou batidas que há muitos anos me faziam saltar para a pista de dança. Gosto dos The National, de Elvis Costello, de David Sylvian e dos Villagers (muito à frente) mas também sou capaz de cantarolar um refrão do Quim Barreiros sem qualquer engano.
Na televisão ainda tenho pachorra para assistir aos programas da Oprah, que não é mais do que uma versão negra e com mais traquejo da "nossa" Fátima Lopes.
Confesso que de vez em quando espreito os horóscopos e me agarro à lei da atracção, que me chegou às mãos através do livro "O Segredo", nos momentos mais difíceis pois estas tretas da auto-ajuda, muitas vezes funcionam de forma muito eficaz como uma espécie de bóia.
Quem me vê de fora, acha que só como sushi e outras iguarias gourmet, que conto calorias e bebo água de griffe que custa mais do que três euros.
O eu que está cá dentro compra água da marca Continente (em garrafões para atestar garrafas de LUSO), come quase tudo o que lhe aparece pela frente e em casa até anda descalça, mesmo que fique com as plantas dos pés pretas.
A uns dias da minha partida para férias, cansada como tudo de tanto teatro disfarçado de trabalho (ou trabalho disfarçado de teatro?) lá vou eu para um Algarve de elite, com o eu que se transforma numa espécie de hippie chique, mas também com a outra pimba que tenho cá dentro.
Até breve...

... e pronto, lá se passou mais um aniversário...
Trinta e oito anos! Continuo naquela fase em que tenho um orgulho imenso em dizer a minha idade porque sei que não a aparento.
Ainda ontem, o arrumador que andou à volta do meu carro com a típica sinalética de quem nem sequer tem carta, me disse - nós os tripeiros temos mesmo esta mania de dar duas de treta entre manobras e trocas de moedas de euro - que não me dava mais de vinte e sete. Descontando-se o facto de ele estar em ressaca e ser toxicodependente, posso com segurança acreditar que não aparento ainda mais do que trinta e cinco.
Custa a acreditar que falta tão pouco para os quarenta... Até a minha Mãe, que nunca se lembra da idade que tem, ficou surpresa quanto comentei quantos anos eu fazia... Só quando o meu aniversário chega é que pelas contas de cabeça ela se apercebe quão depressa passa por nós a vida.
O meu dia de aniversário é sempre feliz, desde que eu esteja feliz.
Ontem foi maravilhoso!
Lá fiz a viagem de trezentos quilómetros para ir almoçar com a minha Mãe, uma tradição mais pertinente do que a ceia de Natal já que nasci ao meio dia e vinte. E lá regressei até Lisboa, sempre com o telemóvel entre uma mão e outra, chamadas em espera e mensagens a cair.
O bom de fazer anos é mesmo isto. As mensagens inesperadas, os telefonemas que nos emocionam, as centenas de posts no FaceBook, muitos de pessoas que me conhecem apenas pelo que escrevo.
Na minha família não há tradição de festa de aniversário. Em boa verdade, não há uma tradição de família. Para todos os momentos e circunstâncias, as pessoas que contam são mesmo o meu Pai e a minha Mãe. Por isso são tão importantes para mim os amigos. Por isso dou tanto valor quando me sinto acolhida no seio de uma família que não é a minha.
Entre tanta gente que trago no coração, tenho irmãs postiças, pedaços de alma, tias inventadas e avós substitutas!
Os amigos, os bons, mesmo aqueles com quem não falamos há meses, são aqueles que não se esquecem de um telefonema nesta data simbólica. Quando os amigos são mesmo amigos, a conversa fluí como se ainda ontem tivéssemos tomado um cafézinho. As ausências, os silêncios, os momentos em que nos afastamos porque precisavamos de espaço ou porque minguava o tempo disponível, são detalhes que passados os minutos iniciais são automaticamente esquecidos.
Fiquei sensibilizada com muitos dos votos de felicidades que recebi.
Mas hoje fiquei em lágrimas quando no escritório me surpreenderam com um bolo de aniversário e uma prenda criteriosamente escolhida. Eu, que cultivo uma certa distância nesta bolha de oxigénio a que chamamos esfera profissional, comento por vezes com o ar de dondoca a que me elevo quando calço uns saltos altos, que dava tudo por um dia de SPA. E foi mesmo isso que os colegas me ofereceram, com um postal carregado de mensagens que me deixaram sem palavras.
O bom de fazer anos é mesmo isto... Descobrir entre as pessoas que gravitam na nossa órbita que há uns poucos que nos amam, muitos que gostam de nós e tantos que nos apreciam.

Hoje, feriado de Carnaval, também é o Dia Internacional da Mulher. Recebi até uma flor por causa disso!
Como não me identifico com o estilo que queima soutiens e entende que é sinal de emancipação ter pêlos nas axilas, não me choca nem me ofende que exista um Dia Internacional que me celebra enquanto género. Esta data não me submete nem me inferioriza. É tão natural como o Dia da Árvore ou da Osteoperose ou da Àgua ou das Víndimas.
Há um ressabiado discurso feminista que se revolta contra o paradigma patriarcal e sexista implícito na celebração da mulher numa data comemorativa. Normalmente estas reaccionárias evocam os tempos da Inquisição em que eram perseguidas as mulheres por se decretar que as insubmissas com opinião eram bruxas ou estavam possuídas. Nos discursos mais inflamados recua-se ao machismo implícito no Gênesis que faz surgir Eva a partir de uma costela de Adão em vez de cinzelada em mármore por um Deus com talento de DaVinci ou nascida de um nenúfar qual fada ou ser místico.
Não ignoro nem subestimo que existiram na história mulheres notáveis, cuja perseverança, coragem e audácia, permitiram que o sexo tido como fraco se emancipasse e conquistasse direitos exclusivos dos homens, tendo algumas granjeado essas vitórias com a perda da própria vida.
Não suporto é a demagogia a tender para o lamechas que defende que as mulheres são seres para lá do extraordinário porque conseguem ser mães, companheiras, ter carreiras profissionais, ir às compras no intervalo de almoço, cozinhar numa hora seis refeições para três dias, ser brilhantes em reuniões de direcção, frequentar o ginásio pelo menos duas vezes por semana e estarem sempre com bom aspecto, mesmo depois de dez horas em saltos altos com uma saia justa.
Para mim ser capaz de fazer tudo isto é normal. É suposto quando se tem objectivos amplos de vida.
Para mim, para as mulheres da minha geração, para a minha Mãe e para as suas amigas, ter nascido mulher não é incompatível com ter uma carreira, uma identidade para além do papel social de mulher e de mãe. Não é depreciativo passar uma tarde na cozinha de avental a fazer bolos nem sinónimo de futilidade fugir por umas horas até ao SPA para fazer uma massagem e ter como rotina semanal arranjar o cabelo e as unhas.
Não estou alheada do que se passa para lá do meu mundo urbano ocidental onde há ainda mulheres que caminham cabisbaixas atrás do homem que as violenta física e psíquicamente, sobrevivendo na condição de servas sem sequer terem o direito de olhar nos olhos quem as maltrata e agride. Também não ignoro que algures na minha rua é provável que exista uma mulher que leva porrada do marido, outra que já foi violada e outra que tenha de se defender todos os dias do assédio do seu chefe no local de trabalho.
Eu, que andei em escolas públicas mistas, frequentei a catequese e entrei para a faculdade, sem que em momento algum me tenha surgido qualquer dúvida de que meninos e meninas eram iguais, excluíndo-se a parte fisionómica do pênis e da vagina, constactei mal entrei no mercado de trabalho que no processo de selecção uma pergunta quase certa nas entrevistas era saber se eu era casada, e se tinha ou queria ter filhos (questão tão improvável para colocar a um candidato homem como perguntar-lhe se ele é gay e se tem hobbies fetichistas). Concluí rapidamente que os homens ganham mais para iguais funções e que uma mulher que queira subir na carreira tem de ter apetência para desportos radicais porque a ascensão faz-se sempre numa escarpa íngreme com acentuado declive. Verifico ainda, que quando os filhos ficam doentes ou caem na escola e abrem a cabeça, é suposto que seja a mãe a largar tudo para prestar assistência, porque é assim que está convencionado ou dá mais jeito ou está inscrito na nossa carga genética.
Sem querer ser machista, muito menos feminista, cínica ou hirónica, a inteligência humana está em sermos capazes de ultrapassar a lógica invisível da definição de papéis, medição de forças ou ponderação de traços de carácter. Homens e mulheres são efectivamente diferentes para além dos orgãos genitais, mas essas diferenças não determinam que elas sejam menos capazes do que eles – mais fracas em termos físicos talvez, e mais sensíveis sim, sem qualquer sombra de dúvida – ou que não agradeçam quando eles, num sinal de boa educação que caí sempre com imenso charme, lhes dão passagem ou cedem a vez numa fila.
Proclamar que há igualdade de direitos entre homens e mulheres – porque há mulheres a conduzir autocarros ou homens a seguirem a vocação de educadores de infância - é pura demagogia. Mas insistir em enfatizar nas mulheres apenas o seu sofrimento de vítimas é ser parcial e desvalorizar a grandeza das mulheres que nos inspiram.
A celebração de um dia que é Internacional e é da Mulher, é apenas mais uma data de calendário não é uma piada ofensiva.

Antes de mais deixem-me esclarecer que o único homem que entra lá em casa é aquele que me adormece nos seus braços, me guarda os sonhos e me desperta com um suave beijo na face.
O homem que eu tenho no armário não é um amante nem o rapaz das quatro e meia (o da Coca Cola Light, lembram-se ou sou só eu que sou antiga?) mas sim dois ou três fatos escuros, outros tantos blazers e calças com vinco que de vez em quando uso para impor respeito.
Eu sei que essa coisa dos fatos da Massimo Dutti e das camisas com colarinhos cheios de goma da Saccoor (passo a publicidade apesar de não ter patrocínio) até está um bocadinho démodé, mas a verdade é que são muitas as mulheres que quando querem competir em igualdade de circunstâncias com os colegas do sexo oposto têm de optar por este tipo de farda que esconde as mamas e disfarça as curvas, prendendo o cabelo e camuflando o rosto sob uns óculos de armação em massa escura, como forma única de ter os seus interlocutores interessados nas suas palavras e não no conteúdo do seu decote.
Um estudo efectuado na Grã-Bretanha indica que os ingleses com algum nível de responsabilidade (ou pelo menos ambição para isso), aquele género que NÃO vem fazer figuras tristes para o Algarve, adoptaram os tons branco e negro como farda. Segundo o estudo, esta opção tem inspiração na mensagem que passa Quentin Tarantino, de acordo com a qual as pessoas poderosas e fortes vestem fatos pretos altamente estruturados, assim daquele tipo tão hirto que parece que foi imerso em goma e tão estreito como os que passou a vestir Karl Lagerfeld depois de ter miraculosamente passado de quase obeso mórbido a modelo anoréctico tipo Kate Moss em versão com pénis, a caminho da terceira idade.
Dados curiosos que sustentam esta tese: a cadeia de hotéis Travelodge, supostamente utilizada por executivos, faz todos os anos um inventário das coisas que os clientes deixam ficar esquecidas nos quartos. Para além de todas as coisas que imagino como suficientemente estranhas e embaraçosas para que o seu proprietário não tenha a coragem de as reclamar - tipo bonecas insufláveis vestidas à Pocahontas com boca em forma de “O” - em relação ao vestuário, 60% das camisas esquecidas no ano de 2009 eram brancas, 80% dos 1.005 fatos esquecidos eram pretos (como é possível esquecer um fato?) e 40% das gravatas esquecidas também eram pretas. Isto é notável num país onde muitos homens compram fatos com padrões, nomeadamente xadrez, em tons que podem variar entre o cinzento e o bege, passando por aberrações como o azul petróleo ou o verde musgo, camisas em tom lilás, rosa, azul cueca ou verde pálido, e gravatas com cornucópias, desenhos animados e formas geométricas muito em voga nos alucinogénicos anos sessenta.
Foram entrevistados 5.000 britânicos para fazer desta análise da forma de vestir no trabalho um estudo quase científico. O resultado revelou que 8 em cada 10 inquiridos utilizam a camisa branca e o fato preto quando querem “dress to impress” (desculpem mas a expressão original soa melhor do que a traduzida).
Uma reputada psicóloga britânica de nome Corrine Sweet interpreta os resultados deste estudo como uma consequência da degradada conjuntura económica, que coloca qualquer pessoa na iminência de um despedimento – por corte de despesas ou por fecho de portas -, o que tem transformado o mercado de trabalho numa espécie de selva urbana altamente competitiva. Tons como o preto e o branco são cores sólidas e poderosas que transmitem visualmente uma noção de autoridade, seriedade e profissionalismo. Por outro lado, são suficientemente neutras para que o interlocutor não se distraía com o padrão absurdo da gravata ou fique com uma conjuntivite só de olhar para o choque de cores entre a camisa e o casaco, concentrando-se exclusivamente naquilo que o “homem de preto” tem a dizer.
Transpondo isto para o universo feminino, o que se verifica é que grande parte das mulheres quando querem impressionar se veste “à homem”.
Amanhã, no meu último dia de qualquer coisa, provavelmente o primeiro de outra coisa qualquer - não do resto da minha vida porque essas frases épicas ficam para as canções do Sérgio Godinho – lá irei com a minha camisa de smoking, casaco preto com flor branca para dar uns ares de Carrie Bradshaw na fotografia que fez o cartaz da primeira série do Sexo & a Cidade, cabelo preso, ar duro e implacável, pronta para dar uma cabeçada na testa do primeiro gajo que resolver desafiar-me. Depois de atirar o adversário ao chão, e porque até sou uma mulher com uma certa classe, passo-lhe por cima com os meus stilletos de sola vermelha que custaram mais do que a renda da minha próxima casa. “À mulher!”
Teorias dos outros
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