O fantasma do Natal que aí vem... (não, não é um post sobre a crise, que isso já não é assunto para publicar na blogosfera)
Adoro o conto de Charles Dickens em que um velho avaro e resmunguento é visitado na véspera de Natal pelos fantasmas do Natal: o do “Passado”, que lhe recorda a sua infância longínqua, uma míngua de quase tudo em que o mais generoso dos mimos fazia transbordar o seu coração de alegria; o do “Presente”, que lhe revela como será o Natal do que os rodeiam, não tão afortunado como o do velho quando era menino, em parte porque a sua sovinice e tirania comprometem a ventura dos que lhe estão próximos; o do “Futuro” que anuncia um devir de noites de consoada numa solidão fúnebre, antecipando também a maior de todas as angústias dos que partem: extinguir-se sem deixar rasto de afecto nem de saudade.
Adoro o Natal e todos os sons, odores e paladares que o acompanham!
Não concebo uma casa sem luzes intermitentes, velas cintilantes sobre arranjos com azevinho e pinhas, coloridos vibrantes de bolas e fitas, um presépio em destaque com todas as personagens e figurantes, uma toalha de linho centenária sob um extasiante desfile de doces, uma mesa comprida com o serviço que só se utiliza nesta altura do ano, os melhores talheres lá de casa e copos em cristal harmoniosamente alinhados para uma deleitosa ceia que é apenas o mais simples dos pratos do receituário da nossa gastronomia: bacalhau cozido com batatas e couves.
Recordo o “Natal Passado” como o tempo em que saía para jantar em casa de uns primos que durante anos adoptei como irmãos, antecipando em cada estrela que se deslocava a uma velocidade idêntica à do carro as luzes de um trenó puxado a renas. Ainda me emociono quando revejo a surpresa de regressar, encontrando os presentes junto à árvore, o contentamento quase febril ao perceber que o “avô inventado de barba branca” não me excluíra da sua lista, sinal de que afinal eu era uma boa menina.
Evoco um Natal mais próximo como o “Natal Presente”: eu e os meus pais, os três orgulhosamente sós como família mononuclear, sem raízes nem nós que nos prendam a outros com apelido comum e laços de consanguinidade, nos atem a um local com memórias, a uma casa com sala, lareira, traves de madeira no tecto e chão rangendo num timbre acolhedor sobre a euforia dos nossos passos. Por maior que seja o amor que nos una, um Natal assim não passa de um jantar. Regozijamo-nos por estarmos juntos, como estaríamos sempre de forma incondicional, mas falta um calor de pessoas, de risos e de vozes sobrepostas, o verdadeiro sinal de festa de consoada, o mais autêntico dos presentes que se pode desejar.
Imaginei muitas vezes um “Natal Futuro” em que me veria só, de pijama e roupão, no sofá com uma taça de cereais ao colo e o comando numa mão, esquecida no calendário do tempo do significado das datas e das comemorações. Numa versão mais optimista imaginava-me rodeada de amigos numa festa que seria mais um jantar tertúlia do que uma clonagem de qualquer tipo de ceia em família "postiça".
Mas o Natal que sempre quis é o que vou ter este ano, com uma casa a ser estreada por uma vintena de pessoas, num espírito de entreajuda e partilha. As mulheres dividirão tarefas entre os milagres da Bimby e a magia dos segredos culinários que apenas ficam registados nas imagens que gravamos no coração, como a da minha Mãe debruçada sobre o fogão embebendo fatias de pão numa espécie de poção mágica. Os homens, na sala, enchendo o ar com a estridência das suas gargalhadas, circulando pela casa sem ultrapassar o território sagrada da cozinha, como se vigiar a azafama dos preparativos fosse o equivalente a "dar uma ajudinha".
Este é o meu “Natal Futuro”, com uma mão cheia de gente à mesa, família que nem me atrevo a dizer que foi a escolhida (quando o que sempre ouvi dizer foi que “família não se escolhe”) porque se algum dia tivesse de me imaginar na noite de consoada, jamais teria ousado pedir tanto, com almas tão autênticas, sentimentos tão genuínos e, é claro, os meus pais em perfeita harmonia com estes parentes herdados por amor e por osmose transformados em irmãos, primos e sobrinhos, num desdobrar de laços de afinidade que não tem grau nem limite.
Anda pela rádio uma música a que é impossível ficar indiferente.
Falo de “someone like you” da Adele.
Sempre que ouço esta mulher cantar uma relação falhada de uma forma tão sofrida quase me arrepio.
Ouvi dizer que se trata de uma declaração auto-biográfica. Googlei o assunto e lá descubro na Wikipedia que de facto esta música constituí um acto de expiação sobre uma relação que terminou ao final de dois anos. Todo o álbum é o produto de um doloroso exorcismo de amargura e de rancor. Confessa a brilhante "autora -intérprete" que ele, o tal, continua a ser uma das pessoas mais importantes da sua vida.
O que sucedeu é um clássico: a relação era de sonho e acabou. Acabou mal como terminam todas as relações em que a decisão é unilateral. Meses depois Adele descobre que ele se cai casar com outra pessoa.
A canção fala da incógita que fica quando alguém por quem estávamos apaixonados saí da nossa vida: será que algum dia vou encontrar alguém como tu?
A canção aflora também do medo que é reencontrar essa pessoa, feliz, de mão dada com outra, provavelmente com filhos, a viver uma vida de “anúncio a detergente Skip” numa casa com jardim, roupa esvoaçando ao vento, um cão de pêlo sedoso e uma família que se abraça e ri numa perfeita harmonia que é só marketing.
Confesso que sempre arrumei muito bem as minhas relações.
Não é coisa de que me orgulhe particularmente. Existem até pessoas que me criticam por ser assim.
No final de cada relação volto a página.
Arquivo as memórias numa gaveta que não pretendo voltar a abrir, apago o número de telemóvel e o endereço de e-mail, faço por evitar os mesmos circuitos, sou mesmo capaz de fugir a um contacto visual se nos cruzarmos num local público, remeto a conversa para os “diálogos de elevador” se um frente-a-frente é inevitável.
É claro que choro.
Choramos sempre quando algo nos dói.
Dói sempre perder alguém. Dói sempre perder a continuidade de um sonho que se previa eterno. Dói o vazio e o silêncio. Dói o coração e a alma, o corpo, o peito... Doem os olhos de tanto chorar.
Até que as lágrimas cessam. E depois desse dia sequer considero a hipótese de um recomeçar, com aquela pessoa, em idênticas circunstâncias ou num novo cenário.
Cada pessoa que entra e saí da minha vida tem o seu papel e o seu tempo. Sou incapaz de esquecer os maus momentos. Nunca perdoo as traições. Quem vai não volta porque se perdeu a base de qualquer relação: a confiança.
Confiança como sinónimo de acreditar que aqueles braços não nos largam e aqueles olhos não nos perdem.
A primeira vez que o final de uma relação, que afinal nem sequer o era, me deixou descontrolada, tive como reacção da minha melhor amiga, de quem eu esperava um ombro largo e um colo meigo: “afinal és humana!”
Foi essa mesma amiga que um dia vaticinou "um dia vais chorar a tua vida toda." Assim foi.
Ao ouvir a música da Adele há uma coisa qualquer que me toca sem que eu saiba porque se aperta desta forma o meu coração que presumo esculpido em pedra.
Não penso nos homens que tive e no que fazem eles com as suas mulheres.
Se calhar penso no homem que tenho e nas vidas que com as nossas se cruzaram até ao ponto do caminho em que nos encontramos.
Deixamos ambos algo para trás. Do meu lado ficou um nada a que me acostumo facilmente porque me sinto bem nesta pele de filha única habituada a falar com paredes e profundamente feliz com hobbies de anacoreta: ler ou escrever.
Incapaz de sofrer com os males que enterro em vala comum sem cerimónia nem zelo, fico emocionada com as dores que cantam os outros...
Numa das milhentas publicações que me aparecem nos feeds do FaceBook, encontrei uma que achei genial.
O filme que partilho enquadra-se numa série intitulada “Tales of mere existence” - não traduzível para português numa expressão que soe tão poética- que contém sketches com um toque de humor, ironia e oportunidade que valem por muitas das minhas singelas teorias.
O filme que partilho chama-se “Como perder uma rapariga em 64 etapas”, fenómeno que me parece digno de recorde no Guiness já que a maior dos homens que conheço acabam com a namorada que uma mulher julga que é num acto único: eclipsam-se.
Mas o filme não é exactamente um manual para uma saída airosa. É mais o relato do que são as relações ditas adultas nos nossos dias.
Para não plagiar o original, aqui vai a minha reinterpretação do filme:
Fase 1: a construção.
Corresponde àquela coisa gira de fazer crescer uma relação, identificando com orgulho os pequenos detalhes que fazem com que duas pessoas se tornem íntimas: irem juntos ao supermercado, acabarem as frases um do outro, rirem das mesmas piadas, perderem a vergonha de fazer cócó quando o outro está na divisão contígua.
Nesta fase as mulheres começam a acreditar que a relação é para toda a vida. Os homens começam a entrar em pânico perante essa perspectiva.
À medida que as relações amadurecem há coisas que mudam. Não há tanta inspiração para sms românticas ou atrevidas, as conversas são mais curtas, o sexo passa de diário a de três em três dias, depois a actividade de fim-de-semana até se tornar uma coisa de férias e de dias festivos.
Elas começam a sair com as amigas para desabafar, eles aproveitam os jantares de gajos para se divertirem à brava com os amigos.
Os desentendimentos aumentam e a relação acaba.
Fase dois: a segunda infância
Depois de uma relação sufocante é normal sentirmo-nos aliviados. Somos invadidos por uma eléctrica sensação de liberdade, e que atire a primeira pedra quem nunca passou ou conhece alguém que tenha passado por esta sensação de euforia, em que depois do fim de um namoro se volta a sair à noite como rotina, se muda o visual, se conhecem pessoas novas e se dão umas quecas sem compromisso.
Até que um dia se volta a tropeçar na/o ex.
Depois de um olhar e de um sorriso concluí-se que afinal aquela pessoa é a tal e que foi uma loucura deixá-lo/a fugir.
Fase três: a reconciliação
Os reencontros de namorados descambam quase sempre num abraço ansioso, com ela a tirar-lhe as calças pelo pescoço e ele a encostá-la contra à parede numa performance digna de filme.
É nesta fase que as duas pessoas que correram o mundo concluem que afinal durante todo esse tempo andaram com o coração vazio.
As reconciliações são sempre momentos de felicidade extrema. As pessoas convencem-se que a separação as fez amadurecer, que finalmente percebem aquilo que efectivamente querem para a sua vida. Admitem que sentiram imensas saudades e que são incapazes de viver uma sem a outra nem que seja só por um dia.
Apesar de eu ser das cépticas que acredita mais na teoria do “it´s never as good as the first time” – nunca é tão bom como da primeira vez – conta o filme que a sensação que duas pessoas têm quando se voltam a juntar é que a relação fica muito melhor do que era. Sou capaz de conceder que em muitos casos que conheço é mesmo esse o espírito.
A relação é reconstruída, remodelada, mudam-se as loiças da casa-de-banho, compra-se uma cozinha IKEA em tom beringela e acrescenta-se uma marquise. Feita a bricolage, volta tudo ao mesmo: o sexo passa de regular a transitivo, recomeçam as discussões, primeiro futéis, aos poucos com direito a amuo de um dia, depois estridentes e finalmente com recurso a artilharia (que em linguagem de casal significa a utilização de golpes baixos como o arremesso de episódios do passado que são cobradas com juros sem perdão de dívida).
A relação chega a um ponto em que os dois já nem sabem porque discutem. É altura de acabar novamente.
Fase quatro: a terceira infância
Esta fase é idêntica à segunda mas com menos pedalada. Também aqui acho que qualquer um já viveu a experiência de sair à noite e não encontrar ninguém com quem se identifique, não se sentir bem em canto algum, mesmo correndo todos os bares e ruas que compoem o animado quarteirão das galerias (no Porto) ou do Bairro Alto (em Lisboa), de não saber o que fazer nem para onde levar o corpo cansado e a precisar de mimo.
Nesta altura nem sempre a pessoa que se deixou está particularmente receptiva. Nem sempre acreditamos que vale a pena nova tentativa.
Nesta fase em que tudo nos aborrece é difícil encontrar alguém que nos cative.
Entra-se assim num estado moderadamente depressivo.
Fase cinco: a recuperação
Até que um dia, porque está Sol, porque as hormonas se agitam, porque nos cansamos de termos pena de nós próprios, entramos na fase da recuperação.
Inicialmente, a solidão, o não ter companhia é coisa para provocar urticárias, pesadelos e gastroenterites. Semanas ou meses depois habituamo-nos a estar sózinhos, a dormir no meio da cama, a deixar amontoar loiça suja na cozinha.
Quando já nos adaptamos a nós próprios, quando convivemos bem com a pessoa que somos, nos reconciliamos com os nossos defeitos e aceitamos que há coisas em que somos fraquinhos, estamos precisamente no ponto de mergulhar de cabeça numa relação e voltar a repetir o ciclo do início.
Síndrome da “filha-única-que-vive-sózinha-há-muito tempo"
Esta semana tenho andado com sintomas da síndrome da “filha-única-que-vive-sózinha-há-muito tempo”.
Hoje, sexta-feira, decidi que queria vir para casa, vestir o pijama, esticar-me no sofá - ocupando toooooodo o sofá - comer o jantar em regime de piquenique com o prato no colo, escrevinhar qualquer coisita, manter a televisão como som de fundo num nível suficientemente moderado para me deixar absorver por aquela suavidade que é o silêncio, que sabe tão bem quando é desejado, não se transformando em momento algum no zumbido mudo que nos deixa tontos quando somos engolidos pela solidão.
Passo o dia todo a lidar com pessoas – como todos aqueles que não trabalham em jardins zoológicos, circos ou parques aquáticos – e às vezes preciso mesmo de me isolar, de me refugiar neste canto que é a minha casa, de me afundar entre as almofadas num estado de apatia que nem sequer é de reflexão, sentindo o corpo cair naquele torpor que é o cansaço a que raramente cedo, fechando os olhos como quem chama aquele sono bom em que flutuamos sobre o próprio corpo, ouvindo ao longe os sons da televisão.
A síndrome da “filha-única” já é perigosa. Habituei-me durante tantos anos a brincar sozinha, falando com amigos imaginários e personagens inventados que coabitavam o mesmo espaço e se sentavam ao meu lado na mesa para jantar que, confesso, por vezes estranho as pessoas reais, as refeições em que os diálogos se sobrepõem, o drama que pode ser escolher um prato ou a gestão de consensos que é necessário invocar para eleger o vinho que há-de acompanhar a refeição, principalmente se uns escolheram peixe e outros carne.
Quando à síndrome da “filha-única” se acrescenta o “viver-sózinha-há-muito-tempo” a coisa complica porque o espaço que ocupa a nossa vida tende a ser maior do que o espaço que ocupam as outras pessoas que fazem parte da nossa vida.
Quando era miúda tinha um “quarto de brincar”, um quarto ao lado do meu, onde tinha as bonecas, tachos e comidas de plástico, sendo que, como filha única, tinha ainda direito a ocupar uma parte da sala com os Lego, porque quando anoitecia tinha medo de ficar sozinha a brincar num quarto à distância de um corredor sem janelas que me parecia um imenso túnel assombrado. Hoje tenho um quarto onde durmo e guardo as roupas da estação, um quarto que faço de escritório onde estão as malas e as roupas ditas “de festa” e outro quarto com a roupa da outra estação e todas as caixas de sapatos cujo conteúdo está orgulhosamente identificado a marcador preto com descrições do género “sandálias pretas com tira”; “sapatos clássicos com fivela”; “botas esquimó”, “botas pretas salto agulha”…
O primeiro instinto que tive quando o meu primeiro marido saiu de casa foi correr para o quarto e confirmar que as coisas dele tinham desaparecido como por magia. “Isto agora é TUDO meu!” juro que pensei com um suspiro de alívio que foi quase um sorriso…
A noção do meu, de propriedade, de território, de espaço, de tempo são os sintomas mais acutilantes de quem sofre da mesma síndrome que eu e que, chegada a determinado limite, que poderá ser de horas, dias, semanas, ou até meses, começa a sufocar, a sentir-se invadida, acorrentada, angustiada, com suores frios, calores e comichões, tudo porque há uma área que não lhe pertence em exclusivo, um ar que partilha, um momento em que tem de dar, falar, ceder espaço, comunicar… O pior é que a síndrome não se cura com o isolamento. O antídoto é muitas vezes um veneno. Deseja-se tanto este silêncio único para depois se perceber que até o silêncio quando é partilhado pode ter um sabor especial.
A doença não tem cura. Tem altos e baixos, oscilações, retrocessos, avanços e remissões.
Depois de cada crise a ressaca é terrível. Uma dor não localizada com epicentro no coração. Um vazio que entra pelo corpo dentro e se apodera da alma, equiparando a nossa existência à de um espectro, um fantasma com uma vontade imensa de ser notado, tocado e integrado num corpo, que, por ser humano, é necessariamente um ser social.
A crise passará quando eu conseguir colocar alguma ordem nestes cosmos que é o meu universo particular e que, depois do Big Ben que fez explodir a minha vida tal como eu a conhecia até há uns tempos, permanece agora num caos de poeira e fragmentos de estrelas onde me sinto à deriva. Preciso de encontrar os meus pontos cardeais. Tenho um Sol que são os meus pais, a Lua que reservo para o Amor e para os humores, os planetas, constelações e estrelas-Maiores que balizam o meu trajecto e tenho-me a mim, como um ponto minúsculo, quase insignificante, nesta tela imensa de luzes cintilantes que ora me esmagam ora me embiagram, ora me oprimem como um tecto preste a esmagar-me ora me fascinam como à criança que ainda acredita em fadas, princesas e outros seres com auras brancas que viajam num baile harmonioso por este imenso pedaço de céu.
E por falar em universo particular, uma das músicas que me embala em momentos como este...
Eis o melhor e o pior de mim O meu termômetro, o meu quilate Vem, cara, me retrate Não é impossível Eu não sou difícil de ler Faça sua parte Eu sou daqui, eu não sou de Marte Vem, cara, me repara Não vê, tá na cara, sou porta bandeira de mim Só não se perca ao entrar No meu infinito particular Em alguns instantes Sou pequenina e também gigante Vem, cara, se declara O mundo é portátil Pra quem não tem nada a esconder Olha minha cara É só mistério, não tem segredo Vem cá, não tenha medo A água é potável Daqui você pode beber Só não se perca ao entrar No meu infinito particular
Já tinha lido críticas e ouvido comentários, nenhum minimamente próximo do impacto que este filme teve em mim. Devo confessar que me apeteceu sacar do Moleskine só para tomar notas, tão denso é o material que encontrei para desenvolver uma teoria.
A imagem que escolhi para ilustrar o texto corresponde ao dia-a-dia do personagem principal desempenhado por George Clooney, Ryan Bingham, mas corresponde também a uma metáfora do que nos acontece em certos momentos da vida, quando pressentimos que terminou uma etapa da viagem e sabemos que está na altura de tomar um novo rumo, mas nos sentimos atordoados entre salas imensas e passadeiras rolantes de aeroporto, indecisos, perdidos, atrasados ou adiantados, entre voos de ligação.
Ryan Bingham é um “conselheiro de transição de carreiras”, chamemos-lhe assim para aligeirar a crueza da sua profissão - despedir pessoas em empresas com processos difíceis de downsizing (redução de efectivos) - apresentando o pacote da indeminização e oferecendo os serviços de aconselhamento e acompanhamento na procura de novo emprego da consultora para quem trabalha. Infelizmente, também por cá já vão existindo estes consultores cuja missão é substituir-se à figura do chefe no momento de dispensar um colaborador, retirando toda a carga emocional a uma situação altamente stressante e constrangedora.
Apesar das reacções dos colaboradores dispensados – que vão da incredulidade à violência, do choro à apatia, passando pelo desenrolar dos seus dramas familares, dos seus problemas com auto-estima ou da frustação pela sensação de ingratidão por parte da empresa – é função de Bingham apresentar o despedimento como uma coisa positiva: uma oportunidade de mudança.
Dada a filosofia de vida deste consultor, quase que acreditamos que a perda de uma das âncoras fundamentais de qualquer adulto que não seja político ou herdeiro de uma colossal fortuna, pode mesmo ser uma vantagem, uma luz ao fundo do túnel, uma ocasião única, irrepetível e não menosprezável para tomar uma rota diferente e alterar rotinas.
Quando não está a despedir pessoas, Bingham é orador convidado naquelas palestras sobre motivação e desenvolvimento pessoal que proliferam nos E.U.A., uma espécie de homilias para gente que perdeu a fé na vida e que precisa de ver à sua frente alguém com um discurso mobilizador, dentição perfeita de um branco imaculado e exemplos práticos de como é possível passar de estafeta a dono de um império de pizzas, de produtos químicos ou de esquisitices internáuticas, provando que, afinal, o american dream ainda existe.
O tema das palestras de Bingham é a “teoria da mochila”. A abordagem ou é feita numa perspectiva material ou numa perspectiva relacional.
De acordo com a primeira versão, se imaginássemos que tínhamos de colocar todo o conteúdo de nossa vida numa mochila, quais seriam as coisas a carregar? Bingham sugere que comecemos pelos pequenos items, aqueles que temos em prateleiras ou sobre os móveis, como os livros de que mais gostamos ou o espremedor de sumos Phillipe Starck que foi prenda de casamento; depois as coisas guardadas em caixas, como as fotografias ou a rosa seca que acompanhou o primeiro jantar com o grande amor da nossa vida; seguidamente as peças maiores, como a nossa cama fofa ou o sofá que tem desenhada a forma do nosso corpo; depois, como se fosse possível, os bens patrimonias, como o carro e a casa, com todas as tralhices que cabem lá dentro, desde a cozinha em tom beringela comprada no IKEA, à hipoteca e às prestações que nos vão perseguir até ao final da vida.
Na segunda versão, a lógica de encher a mochila é seleccionar as pessoas que são importantes para nós, começando pelos conhecidos, tipo os que constituem a nossa rede no FaceBook, depois os amigos da borga, depois a família afastada, depois os amigos do peito, e por último a família que está presente no nosso dia-a-dia.
No final do discurso de “encher a mochila” o orador pergunta “Sentem o peso da mochila nas vossas costas? Agora tentem caminhar com esse peso sobre os ombros. Difícil não é? Quanto menor for a carga que suportamos mais depressa nos movemos. Quanto mais lentamente avançarmos mais depressa morremos.”
A plateia faz ahhhhhhh!, aplaude e Bingham sorri triunfante, retomando com a sua mochila onde tem metódicamente compactados os items absolutamente essenciais para manter o seu ar clean e profissional de executivo, a sua vida feita de viagens constantes de avião, tantas, que atinge os dez milhões de milhas no seu cartão de Frequent Flyer.
Bingham tem juma casa inócua onde passa meia dúzia de dias por ano, duas irmãs com quem raramente se encontra, vive só entre a multidão que se amontoa entre terminais de aeroporto, interagindo apenas com os forasteiros que com ele se cruzam em bares de hotel e com aqueles que tem como missão despedir.
Depois de explicada a teoria que enquadra o personagem principal, eis a minha visão particular das mensagens transmitidas por este filme:
1.Andamos mesmo com excesso de “tralha” às costas
Ao longo da vida, vamos acumulando coisas e amparando pessoas, que carregamos às costas e que, efectivamente, nos atrasam o passo, nos fazem perder oportunidades e por vezes nos desviam do nosso caminho. A filosofia de Binghman, que consegue meter toda a sua existência numa mala de cabine, não é de todo perfeita, como se vem a perceber no filme quando ele conhece alguém com quem lhe apetece acordar e não despachar do quarto depois do sexo, como recomenda a ética que gere as relações fortuitas. Mas entre o excesso de carga e o vazio, há um meio termo que devemos ser capazes de definir, de forma a mantermos a velocidade-cruzeiro a que pretendemos percorrer o nosso caminho.
2.É possível e desejável reciclar alguma da “tralha” que carregamos
Isto posso atestar eu que, tendo mudado três vezes de casa em três anos, fui deixando ficar em contentores as coisas que já não cabiam em caixotes e que, no fundo, tinham um valor sentimental mais relativo do que eu imaginava e uma utilidade para lá do fútil. De facto, quanto menos caixas ocupar a nossa vida maior a facilidade com que admitimos mudar, sendo que a mudança é, muitas vez, uma coisa positiva.
3.Ficamos reféns dos nossos planos se não admitirmos que sem cedências não os conseguimos realizar
Aqui tenho de falar de um diálogo entre Bingham e a sua amiga colorida, ambos executivos com carreira consolidada e idade próxima ou para lá dos quarenta, e a recém-licenciada de nariz empinado, colega de trabalho de Bingham, que o acompanha numa das suas digressões de despedimentos em banda. Revejo-me na miúda, tal como eu era aos vinte e três, cheia de planos e ideias fixas, com timmings e prazos para casar, para ter filhos, para comprar a casa dos meus sonhos, para chegar a directora e para acabar os meus dias com uma reforma idílica. Mas também me revejo na amiga colorida, tal como estou hoje, não porque embarque neste tipo de relações, mas pelas respostas que esta mulher adulta dá às questões filosóficas da mulher em fase embrionária. A conversa entre os três resume-se ao facto que aceitam como verdade todas as pessoas realistas: se na vida não fizermos concessões, se não alterarmos a ponderação atribuída aos items da nossa checklist, se não assumirmos que podemos nunca realizar os projectos que estabelecemos como metas, jamais seremos felizes. Diz a mulher que depois de certa idade continuamos a interessar-nos pelos “homens que não interessam a ninguém”, porque são mesmo os que mais nos cativam, mas esse interesse passa a meramente científico. Naturalmente continuaremos a sonhar, se calhar menos e sem tantos efeitos especiais polvilhados de fantasia, pois o que queremos é ter uma vida real que não seja uma prova de esforço permanente e caminhar ao lado de um homem que nos respeite e trate bem, independentemente da sua aparência física ou da tralha que este traz acoplada (tipo ex-mulher, filhos e cão). Passamos a valorizar o dormir abraçado mais do que a pose de casal para a fotografia, o compromisso e a cumplicidade mais do que a aliança e a partilha de dívidas.
4.Nunca temos o que queremos, mas também nem sempre sabemos o que queremos
Passamos tanto tempo da nossa existência, naqueles anos fundamentais em que estamos a formar a nossa personalidade e a definir um propósito para a nossa vida, agarrados a estereótipos, do que queremos ser ou do que nunca queremos ser, que quando a realidade se revela diferente do que tomamos como condição necessária para que as nossas ambições se concretizem, entramos em pânico, bloqueamos, adoptamos uma atitude de rejeição ou de revolta, ficamos incapazes de elaborar um plano B, adoptar medidas de contingência ou rever objectivos. É muito difícil identificar o que queremos, até porque o que queremos muda ao longo do tempo, mas também não é suficiente afirmar com um orgulho bacoco que, no mínimo, sabemos o que não queremos. O importante é que o que desejamos tenha um sentido, sirva para alguma coisa, para o nosso bem, para o bem-estar dos que nos rodeiam, para algo tão grandioso como o reconhecimento público ou tão íntimo como estarmos em paz com a nossa consciência.
Quando o filme acaba é inevitável ficarmos a pensar na ironia da vida, que nem sempre nos dá o que queremos quando precisamos, que tantas vezes nos faz ficar “sem chão debaixo dos pés”, que noutros momentos nos surpreende com presentes tão inesperados e momentos tão felizes que só podem ser divinos. Ficamos também a pensar na ambiguidade do que desejamos, entre ser independente e voar pelos céus, ou criar raízes e constituir família, entre viver para o trabalho ou trabalhar apenas o suficiente para viver condignamente. No limite a mensagem deste filme vem desaguar numa outra passada durante a TEDxOPorto pelos psicólogos de serviço: “a felicidade pessoal é paradoxal”: por um lado, é mais fácil caminhar sózinho, sem nada nem ninguém que nos condicione, por outro a felicidade tece-se nas relações e das relações que construímos.
Como escreveu um dia alguém “a felicidade só é real quando compartilhada”, e eu acrescento, a “mochila” torna-se mais leve se forem duas pessoas a carregá-la...
Dissertação sobre o beijo I - quando não significa nada
Uma noite, depois de uma peregrinação pela zona das galerias, parados numa esquina, de mãos entrelaçadas, surpreendeste-me com um beijo. Eu que falava eloquentemente como se dissertasse uma das minhas teorias, com os meus olhos a fugirem dos teus, que olhavam insistentemente para os meus lábios, perguntei: "O que foi isto?" E tu, com o teu sorriso travesso, seguraste o meu rosto corado entre as tuas mãos e deste-me mais um beijo. Mais longo. Mais intenso.
Acho que disse "Pára, não faças isto" ou "Pára, isto está errado", mas quando abri a boca e senti a tua língua o beijo tornou-se mais denso. Demorado. Entre lábios que se mordiam e se tocavam.
Beijamo-nos. Uma, outra e outra vez. Ignorando os comentários dos transeuntes, sem ter noção do que fazíamos às descaradas. Ali, na rua, em plena baixa, a altas horas da madrugada.
Acompanhaste-me a casa e os beijos continuaram. Quando chegamos à porta agarraste-me com uma violência feita de fome e beijaste-me como se aquela força com que puxaste o meu corpo fosse já a impudicícia com que desejavas entrar em mim.
"Não te vou dizer para subir" sussurrei. Tu paraste. "Tudo isto foi inesperado" justifiquei "Preciso de digerir..."
Mais um beijo e outro beijo. Mais beijos, toques e carícias. Parecia que as nossas bocas se devoravam, alimentando assim com uma sofreguidão exagerada a solidão triste que nos atormentava.
Mantive a decisão, mas foi difícil fazer-te partir, deixar-te ir embora, entrar em casa sozinha, deitar-me na cama fria.
No dia seguinte, cada um no seu canto, eu depois do Guronsan, tu depois do primeiro cigarro, demos conta do tremendo engano, do erro que foram os beijos que, não sendo um prenúncio de amor, podem estragar uma amizade. Não te liguei. Tu não me ligaste. Engolimos em seco e juramos segredo sem sequer trocar uma palavra.
Podia ter sido assim, mas por medo, descontrolo, esperança, ilusão, inércia, vontade de acreditar numa possibilidade tão distante, optamos por manter o erro, por alimentar o engano.
Eu a crer que te queria, tu com medo que eu te quisesse ao ponto de estar apaixonada.
Tu a forçares o teu coração a abrir-se, eu à procura de uma paixão que enchesse o vazio do meu coração desabitado.
Eu a querer vibrar com fantasias, tu a deixares-te envolver pelos filmes que eu levava horas do dia a realizar.
Tu a viveres da minha energia, a absorveres cada sorriso como um raio de Sol, eu cada vez mais cansada e vazia, farta de me esforçar tanto por animar as cenas que, depois do "corta" e dos holofotes desligados, eram cenários sem graça, um monte de tralhas sem nexo atravancando um espaço repleto de nada.
Mantivemos o erro, alimentamos o engano, mais do que dois adultos o devem fazer, mais do que aguenta os limites amplos da mais sólida das amizades.
Alguns beijos mais tarde, do “NÓS - os bons amigos que discutiam as suas teorias até altas horas da madrugada” já não havia nada.
Perdeu-se o EU que sorria sempre. Perdeu-se o TU que me encantava.
Foi um equívoco. Um erro. Um engano. Um dano irreversível numa amizade que começou de forma tão desinteressada.
Um beijo pode significar um mundo numa noite e à luz do dia não significar absolutamente nada...
Sem ressentimentos, mas sem vontade de recuperar a amizade.