Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.

Terça-feira, 5 de Abril de 2011
Vidas...

 

Voltando à TEDxPorto,  e porque ainda há muito a dizer, vou referir-me agora aos dois momentos emocionais do dia. Faz parte, presumo eu, que no painel de um evento destes, para além de conhecimento e sabedoria, inovação e criatividade, se falem também de coisas tão simples como exemplos notáveis de vida.

As intervenções que fizeram a plateia ceder às lágrimas foram duas: a de Johnson Semedo, que falou todo o tempo de mãos nos bolsos e olhos no chão, intimidado por tão vasta plateia e a de Bento Amaral, que falou todo o tempo com as mãos numa imobilidade forçada já que é tretaplégico.

Johnson, que fugiu de casa aos dez anos, cansado, como revelou, de levar porrada todos os dias, relatou a sua experiência enquanto puto de rua, como uma espécie de versão dos “Capitães de Areia” em cenário de cimento e betão. Johnson referiu que pela década de oitenta alguns miúdos que com ele andavam pelas ruas como pequenos delinquentes, todos viciados em cola e com uma fome de afecto terrível, começaram a aparecer mais bem vestidos. Percebeu que esses eram os que alinhavam na rota do Parque Eduardo VII, tal como os putos da Casa Pia. Enojado com tal opção, Johnson continuou a assegurar o seu sustento com assaltos e outros delitos.

Aos dezassete esteve preso seis meses. Etapa que, como ele descreveu, lhe permitiu “profissionalizar-se”. Entrou então no crime mais organizado e experimentou a heroína.

Com as cambalhotas e piruetas pouco artísticas decorrentes de uma vida passada nas ruas agarrado às drogas, Johnson lá voltou a ser preso. Desta vez por mais tempo. Desta vez longe do mundo, impossibilitado de assistir ao funeral do pai.

A morte do pai foi um clique que levou Johnson a reflectir. Confessou que chegou a sentir saudades das tareias que levava em casa porque pelo menos, entre tabefes e bofetadas, haviam alguns momentos de carinho. Reencontrou-se com a fé. Regressou a casa para acompanhar a morte lenta da mãe, ainda agarrado à heroína.

Enterrados os pais, decidiu Johnson enterrar o marginal em que se transformara e no qual já não se revia.

Hoje reside na Cova da Moura, é membro activo da associação Moinho da Juventude, que pretende resgatar miúdos em risco, treinando orgulhoso a equipa de futebol Real Clube da Buraca.

O outro orador, Bento Amaral, viu-se remetido para uma cadeira de rodas aos vinte e cinco anos, num daqueles acidentes estúpidos, como são todos, em que apenas se divertia nas ondas a fazer carreirinhas.

Engenheiro Alimentar de formação, com o projecto de ser enólogo na Austrália, o acidente colocou este jovem com bom aspecto perante um abismo sem fim.

Como a vida é muitas vezes irónica, existe uma justiça divina que só percebemos em momentos de epifania e porque, como acreditavam os gregos, o nosso destino se cumpre, Bento Amaral lá acabou por conhecer a Austrália. Em condições que jamais imaginaria: num campeonato do mundo de vela adaptada em que se sagrou campeão. Também neste caso, entre cambalhotas e piruetas literalmente metafóricas, já que o seu corpo é efectivamente desprovido de movimento, Bento Amaral fez uma série de coisas inacreditáveis como bater o recorde do mundo de velocidade em neve e classificar-se para os Jogos Olímpicos.

A maior de todas as conquistas, contudo, foi ter-se casado com uma mulher lindíssima, que teve de enfrentar família e preconceito para assumir para todo o sempre um marido que nem sequer é capaz de se voltar na cama sem a sua ajuda.

Explicou Bento Amaral que na primeira noite, não aquela em que dormiu com a mulher – o seu sentido de humor era incrível – mas naquela em que tomou consciência de que o seu corpo não se mexia, lhe passaram pelos olhos imagens como a que coloquei a ilustrar esta teoria. Peguntou-se ele, movido por uma fé que o eleva e me sensibiliza: “Estarei eu acima deste sofrimento? Quem sou eu para achar que mereço sofrer menos do que estas pessoas?”

Bento Amaral aceitou o que o destino lhe entregou no segundo em que bateu com a cabeça num banco de areia. São priveligiadas as pessoas que conseguem aceitar com tamanha paz e grandeza fatalidades tão absurdas e desprovidas de sentido.

Concluíu ele que o nosso futuro nunca é o que pensavamos, que estamos constantemente a colocar a nossa felicidade nas coisas que não temos. Afirmou este homem com uma convicção que não soou a mentira, que se pudesse voltar à tarde do acidente provavelmente não escolheria apagar aqueles segundos que mudaram o resto da sua vida. Porquê? Porque o que a vida lhe trouxe depois foi provavelmente mais intenso e rico do que teria tido se os seus planos se tivessem concretizado tal como ele previa. As suas palavras foram “amo a minha vida”, declaração que poucos serão capazes de fazer com certeza tão absoluta.

Ao ouvir os relatos do Johnson e do Bento Amaral é impossível não ficar esmagada pela profundidade das suas palavras e pela forma inspiradora como eles souberam aceitar a felicidade possível, assumindo com uma grandeza de alma que me transcende os fardos, provas e maldades que o destino lhes colocou no caminho. Como fardo, karma ou desafio...

 

* Por acaso, este fim-de-semana aconteceu-me uma coisa inédita: queria ir ver o filme “Homens de negócios” mas o seu sotaque nortenho deve ter soado tão estranho que o rapaz da bilheteira vendeu-me entradas para “Os agentes do destino”. Só percebi a troca quando comecei a achar que o trailler estava a ser demasiado comprido por isso conformei-me, com um sorriso de loira, a ficar até ao fim da película. O filme é levezinho, tem o Matt Damon que já foi um rapaz giro e uma história original cujo argumento é a existência de planos definidos para cada ser humano, sugerindo que pouco do que acontece na nossa vida é casual ou resulta do nosso livre-arbítrio. É a eterna questão do “tudo o que nos acontece tem um sentido”.



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Domingo, 3 de Abril de 2011
Teoria da acefalia

 

À semelhança do que sucedeu no ano passado, Nilton esteve presente na TEDxOPorto para nos brindar com “o humor mais inteligente que se faz em Portugal”, segundo o organizador Manuel Forjaz.

No final das intervenções da manhã, Nilton surgiu com uma teoria em que defendia que muitos seres humanos são acéfalos. A plateia riu. Presumo que a maior parte da audiência desconhecesse que o que Nilton queria dizer é que “a maior parte das pessoas não têm cérebro”, logo são estúpidas.

Como considero que a capacidade de rir de si próprio é um sinal de inteligência não de idiotice, diverti-me imenso com as explicações deste humorista.

Um exemplo da acefalia humana é, segundo Nilton, a teoria da torradeira. Sendo eu fã de teorias passo a explicar que um dos exemplos óbvios de como nos comportamos como pessoas sem neurónios (ou como loiras de um neurónio só, que ou está on ou está off) é a forma como sistematicamente tentamos colocar na torradeira fatias de pão que são mais largas ou mais compridas do que o que a ranhura do electrodoméstico permite. À lei da força, que é como quem diz, aplicando o “truque da pancadinha” que faz funcionar plasmas, monitores, automóveis e mulheres com dores de cabeça, lá conseguimos introduzir a fatia de pão na ranhura. O problema é que nem tudo o que é introduzido à força saí com facilidade (ocorre-me aquele célebre mito da garrafa de Coca-Cola quando ganha vácuo). O mais natural é o pão ficar preso, logo começar a queimar e, o ensonado ser humano que anseia por uma torradinha com manteiga ao acordar, ter uma compulsão incontrolável para tentar sacar o pão com o bico da faca, correndo o risco de uma electrocução.

O que tem isto a ver com o que quer que seja?

Nada.

Ou tudo.

Esta teoria do Nilton remete-me para um pensamento mais amplo que tem a ver com a nossa irremediável atracção pelo perigo. É certo, sabido e científicamente comprovado. Por mais que nos digam que não devemos fazer determinada coisa ou seguir por determinado caminho, lá metemos nós os dedos na tomada ou entramos em contra-mão numa via rápida. Somos assim na vida, em tudo, para sempre, como maldição inerente à condição humana.

O que a maturidade nos traz é a capacidade para antecipar que certas situações são potencialmente perigosas. A experiência quase nos permite aventar graus de probabilidade. Mas na prática, por muito sábios e sabidos, gostamos de aprender com os erros próprios, como se tirar conclusões a partir das experiências dos outros seja coisa de gente pouco original.

Afirmou Nilton, com recurso a uma série de chalaças, que avançamos distraídos pela vida como quem entra num avião convicto de que se algo correr mal há sempre a hipótese de nos salvarmos porque existe um colete salva-vidas debaixo do assento.

A primeira questão é quantas pessoas estão efectivamente atentas à coreografia da hospedeira ou ao filme que explica como proceder se o capitão avisar no seu tom monocórdico em português “peço desculpa senhores passageiros, mas esta turbulência súbita não é temporária, vamos mesmo despencar-nos!", traduzindo depois a mesma frase, com a mesma tranquilidade, para um “inglês estrangeiro arrastado” imperceptível para nativos de qualquer outro país. 

Questiona Nilton com imensa piada: “porque razão têm os aviões colete salva-vidas e não pára-quedas? Existe algum estudo que confirme que se um avião cair será sempre sobre o mar? Se a queda for em terra, o colete salva-vidas coloca-se debaixo do rabinho?”

Isto dá para rir, mas também dá para pensar.

Nós na vida somos mesmo assim, avançamos para as coisas na convicção de que nada de mal há-de acontecer, que na pior das hipóteses está tudo controlado, e que se eventualmente a coisa der para o torto alguém há-de lembrar-se de alguma coisa, sacar de um canivete suiço do bolso ou fazer de uma porta uma jangada, como nos inspirava o MacGyver, que de certeza era aparentado com algum transmontano, pois esta é sem dúvida a maior característica do povo português: “a capacidade de desenrascanço”.

Este último parágrafo é mesmo meu, não foi coisa de que ouvi falar.

O comentário que se segue também corresponde à minha forma de pensar: porquê que esta geração do Facebook e do Youtube, com i-phone´s e i-pad´s, tem este orgulho imbecil em auto-intitular-se “à rasca”, em vez de enveredar pela via que cria heróis e casos de sucessos e que é a “solução do desenrasca?”

 



publicado por teoriasdacosta às 18:46
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Quarta-feira, 30 de Março de 2011
Cronobiologia da melancolia

 

Um dos oradores presentes na TED foi João Marques Teixeira, psiquiatra e psicoterapeuta, que se apresentou como um neurocientista que investiga a cronobiologia da melancolia.

Só o título da intervenção suscita um “uau!” Mas o que este Professor Doutor foi explicar, numa linguagem que a partir do terceiro slide se transformou num dialecto feito de gráficos com linhas ondulantes, é que o culpado pelos nossos estados de alma é o planeta!

Como a terra gira sobre si própria e gravita em torno do Sol, estamos sujeitos, ao longo do dia e durante o ano, a oscilações entre claridade e obscuridade que determinam a forma como nos sentimos.

Como o mais comum dos mortais é capaz de confirmar, no Inverno, quando acordamos de noite, a claridade se esfuma antes da pausa para o lanche e há muitos dias em que nem sequer vemos o Sol, sentimo-nos naturalmente mais melancólicos.

Melancólicos, não necessariamente deprimidos.

Mario Quintana, um autor que eu adoro, dizia que a “melancolia é uma forma romântica de ficar triste”.

Freud descrevia a melancolia como “a ausência que dói”, um inexplicável sentimento de vazio e tristeza, que eu ilustro com recurso à imagem daquela pessoa que caminha pelos dias com um displicente arrastar de pés.

Os dias cinzentos transportam-nos para uma zona cinzenta, nem branca nem negra, uma espécie de aguinha com açucar que se bebe quando as pernas nos traem o corpo.

O Sol como imagem de alegria não é apenas uma metáfora alegórica.

Qualquer criança quando faz um desenho incluí num qualquer canto da folha uma bola amarela se pretende retratar uma circunstância feliz.

Grande parte dos adultos escolhe como imagem de perfil no FaceBook uma fotografia que tirou no pico Verão quando estava mais bronzeado, mais sorridente, com ar mais saudável, ou pelo menos com o rosto iluminado por um delicioso Sol, mesmo que de Inverno, para disfarçar o ar pálido e olheirento que o Inverno nos implanta na cara como injecção de botox.

Hoje quando saí do escritório e constactei que ainda era dia senti-me automaticamente energizada por esta luz que já cheira a Primavera. Pelo caminho vi pessoas a passear cães, a caminhar pela margem do rio, a correr, a andar de bicicleta, a brincar com crianças nos recantos com relva e quase me pareceu estar a assistir a um video com a música do Louis Armstrong, “what a wonderfull world”.

Este efeito que o Sol induz no nosso grau de melancolia tem a ver com o nosso relógio biológico. Não aquele que deixa algumas trintonas doidas quando se sentem em contagem decrescente para a possibilidade de serem mães, mas o relógio que controla a nossa temperatura corporal, o batimento cardíaco, o apetite e, mais importante do que qualquer outra coisa, os afectos.

O relógio biológico não é um mito urbano mas sim um mecanismo regulador do nosso organismo localizado no hipotálamo, que determina o ciclo metabólico.

Segundo a cronobiologia, que “estuda os ritmos e os fenómenos físicos e bioquímicos periódicos que ocorrem nos seres vivos (in Wikipedia)”, os movimentos de rotação e translação desta terra que nos alberga têm impacto directo sobre a forma como nos sentimos.

Concordo que de facto somos uma espécie com tendência a funcionar a “energia solar”, mas também defendo que muitas vezes o Sol é um mero estado de alma – pode ser um sorriso num dia de chuva -, sendo que muitas pessoas permanecem num letárgico estado melancólico simplesmente porque andam com uma nuvem negra permanentemente sobre a cabeça.

 



publicado por teoriasdacosta às 19:47
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Domingo, 27 de Março de 2011
Felicidade paradoxal: o Bangladesh como case study...

 

Tive imensa dificuldade em encontrar um título para esta teoria.

O tema é a felicidade, mas uma felicidade que surge de uma forma tão dura e cruel, como um exemplo irónico do quanto a vida pode ser cínica, que utilizar esse rótulo para identificar o contéudo pareceu-me excessivo.

Este texto fala sobre a intervenção que fez um fotógrafo de renome na TED, identificada como “Survivors”, ou seja “Sobreviventes”.

 

GMB Akash começou por falar sobre o país do qual é originário – o Bangladesh – onde a maior parte da população consegue sobreviver com menos de $2 USD por dia. Mesmo assim, um estudo recente que este fotógrafo citou, e que eu própria googlei para confirmar de tão incrédula fiquei com a conclusão revelada, indica que oito em cada dez pessoas no Bangladesh se consideram felizes.

A teoria que sustenta os resultados desta pesquisa levada a cabo por investigadores da Universidade de Bath, em Inglaterra, explica que quando vivemos num país onde o cidadão comum não tem legitimidade para aspirar a praticamente nada, ter uma família com saúde é motivo mais do que suficiente para ser feliz. Ser amado compensa todas as agruras que são na vida desta gente uma constante.

Concluíram os académicos que todo o conceito de pobreza tem de ser revisto. A felicidade não tem a ver com dinheiro – frase que citamos como cliché sem estarmos de todos convencidos – mas sim com o bem-estar, com a integração do indivíduo na comunidade em que reside.

GMB Akash, um nativo, esclarece que no seu país ser um sobrevivente é o único motivo para estar feliz.

 

 

Existem no Bangladesh cerca de sete milhões de crianças a trabalhar. Quando falo em crianças estou a referir-me a um grupo etário que começa nos cinco e acaba nos quinze anos, idade a partir do qual se é adulto no Bengali. A razão é simples: as famílias são pobres demais para se permitirem ter uma boca para sustentar que não traga para casa algum rendimento, os empregadores têm nesta mão-de-obra barata e subserviente (pelo medo da coacção física acrescente-se) uma forma fácil de aumentar a rentabilidade das suas empresas. Um adulto aufere uma remuneração média de $80 USD por mês enquanto que a uma criança são pagos apenas $10 USD.

 

Ilustro esta teoria com as imagens que Akash foi mostrando na sua intervenção abstendo-me de qualquer comentário adicional, porque se me embarga a voz se verbalizo o horror que esta situação me provoca e me soam redundantes quaisquer palavras que possa escrever para transmitir o que sinto.

Quando este fotógrafo começou a revelar ao mundo as suas fotos, muitas das pessoas no seu país insurgiram-se contra ele, alegando que estava a passar uma imagem errada do seu próprio povo. Quando começou a ganhar prémios pelo seu trabalho Akash decidiu financiar os estudos ao maior número possível de crianças, mas a resposta que obteve de pais, filhos e governantes foi “mas estes miúdos não sabem fazer outra coisa para além de trabalhar...”

Aparentemente, muitos dos miúdos que trabalham para além das suas capacidades humanas sonham em ser médicos ou professores, mas a verdade é que muitos deles não sabem o que é uma escola nem saberiam estar sentados um dia inteiro a uma mesa com cadernos e lápis.

No fundo, os rapazes são até mais afortunados do que as raparigas.

 

O Bangladesh é também um paraíso para a prostituição infantil. A zona de Kandaportte Potitalow é uma espécie de gueto habitado por mil e quinhentas prostitutas e respectivas famílias, sem contacto algum com o “mundo do outro lado”, para além dos clientes que são obrigadas a atender diáriamente, numa média de dezoito por dia. Muitas destas meninas são vendidas ou “alugadas” pelas famílias, engordadas com as mesmas hormonas com que se alimenta o gado para acelerar o seu crescimento, e mantidas num cativeiro repugnante até que ficam velhas (aos trinta) e gordas demais para que alguém pague pelos seus serviços.

 

 

Akash disse muito mais do que isto, descreveu outras cenas horripilantes, revelou outras verdades incómodas. Sendo as suas imagens tão fortes não acrescento qualquer outra frase das que registei à medida que o ia ouvindo.

 

 

A título pessoal, depois de rever algumas fotografias, pergunto-me como pode a felicidade ser tão paradoxal.

Compreendo que possa existir uma adaptação genética às limitações do meio envolvente. Os nossos pais eram felizes com muito menos coisas do que as que são tidas como fundamentais para garantir um sorriso nos lábios dos netos.

 

Mesmo assim, admitir que se pode ser feliz pela mera circunstância de estar vivo quando na verdade meramente se sobrevive - uns graus abaixo dos limites da dignidade e da decência - é uma constactação que não consigo assumir como verdade mesmo que comprovada científicamente.

 



publicado por teoriasdacosta às 18:08
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Quarta-feira, 23 de Março de 2011
Portugal blues ou blue?

Um dos oradores que passou pela TEDxOPorto foi Filipe Santos, Director do departamento de empreendedorismo social no prestigiadíssimo INSEAD, um economista com Ph.D de Standford, o tipo de português que nos enche de orgulho, apesar de exercer as múltiplas capacidades que lhe permitiram construir tão brilhante carreira fora de Portugal, como sucede com tantos outros cérebros que exportamos a título gratuito.

A intervenção deste orador tinha como título “Portugal: blues or blue?”

O fado de que ontem falava faz parte da nossa herança cultural e lá vou ouvindo algumas coisitas com gosto, mas na verdade, para ser sincera, a música que faz parte da minha banda sonora é mesmo os blues, estilo musical com origem nos espirituais e cânticos afro-americanos, com músicos negros a arrancarem tons melancólicos à guitarra com tal envolvimento metabólico que transpiram nas suas interpretações como se estivessem a fazer atletismo.

Quando Filipe Santos se interroga se Portugal está em fase de blues pergunta simplesmente se o nosso estado de espírito se aproxima dos sentimentos de angústa e tristeza que cantavam os escravos nas plantações do delta do Mississipi.

Sim, estamos.

No preciso momento em que escrevo, assisto às declarações amarguradas de um Sócrates que salta deste barco que se afunda, com a sua aborrecida atitude de Calimero, incapaz, como sempre foi, de assumir com humildade as responsabilidades pelo estado caótico em que se encontra a nossa economia.

Curiosamente a sua gravata é azul.

Irónico? Simbólico? Metafórico?

Poderá Portugal ficar azul? Azul no sentido positivo do termo, associado à paz e à harmonia? (não no sentido negativo que se cola a conceitos como frieza e melancolia)

Disse Filipe Santos, que está fora de Portugal desde 1999, que nota neste país - que visita de vez em quando para fazer umas palestras, comer bem e estar com a família - melhorias significativas. Presumo que a sua ida à TED não tenha tido o patrocínio desta tentacular máquina de propaganda de que descaradamente se servia o Governo que hoje fina. Qualquer uma das mudanças positivas elogiadas por este orador pode ser fácilmente refutada por aqueles que nestes últimos doze anos só saíram de Portugal para férias nas Canárias ou nas Caraíbas.

Portugal é o terceiro país com a menor taxa de crescimento do mundo! Tendo à sua frente o Haiti, que como se recordam ficou devastado por um terramoto, e Itália, que é liderada pelo Berlusconi, um velho viciado em plásticas, viagra e meninas marroquinas. Contrapõe o doutorado que temos uma taxa surpreendente de empreendedorismo baseado na inovação. Sabemos todos que muitos destes projectos são produto do desespero de quem ficou desempregado e viu nos incentivos da Segurança Social uma saída honrosa para criar um posto de trabalho digno.

Portugal está com a taxa de desemprego mais alta de sempre! Não serve de nada portanto, que como enalteceu Filipe Santos, se registem melhorias significativas no ensino, da pré-primária às universidades de ondem saem os “à rasca” que andam por aí a fazer tanto estrilho.

Portugal tem um elevado déficit energético que está a tentar contornar, com sucesso frisou Filipe Santos, através do recurso às energias alternativas. Os montes com ventoínhas eólicas até ficam bem na nossa paisagem bucólica e acredito que sejam rentáveis já que há tantos interesses privados a tirar partido das nortadas e ventanias. Sucede porém, que o maior problema de Portugal não é o déficit energético mas sim a dívida pública, aquela que tem obrigado a medidas de uma rigidez e austeridade de que não há memória, com impacto directo, visível e doloroso nas despesas em que tropeçamos no dia a dia.

Portugal continua dominado por interesses corporativos, provavelmente de uma forma tão escandalosamente evidente que se aproxima da pornografia. Mesmo assim, Filipe Santos, quando medita sobre o país que é a sua pátria, sentado no seu gabinete no INSEAD com vista para um esplendoroso jardim, acredita que fomos capazes de mudar em dez anos o paradigma empresarial, que estamos capazes de atrair capital humano e que vivemos num Estado exemplar em termos de modernização administrativa só porque é possível criar uma empresa na hora, apesar de andarmos com cartões de cidadão que não comportam número de eleitor criando nas mesas de voto problemas terceiro-mundistas.

Portugal poderá ser azul porque vem aí o Verão e temos pela frente muito mar e muitos dias de céu sem nuvens. Mas com esta crise política que surge sem surpresa dois dias depois da Primavera, os portugueses ainda vão ter muito que penar, forçados a pagar pela política do betão e das inaugurações cenográficas, onde ainda se tem a coragem de defender o TGV à custa do congelamento das reformas dos pensionistas mais desfavorecidos.



publicado por teoriasdacosta às 21:51
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Terça-feira, 22 de Março de 2011
TEDxOPorto 2011

 

Ontem lá estive eu na TEDxOPorto.

Estava ansiosa, confesso. No ano passado, com oradores que frisaram o quanto o erro é importante para acertarmos o passo e para descobrirmos o trilho certo para a nossa vida, a TED foi para mim uma epifania. Na altura foi um lenitivo ouvir pessoas tão notáveis e bem sucedidas admitirem que erraram muitas vezes, fracassaram, bateram no fundo, desesperaram, quase desistiram para começar a assumir sem preconceito que eu, como ser humano com a ambição de ser um dia notável e bem sucedida, tinha atingido o limite que permite justificar um erro como criatividade corajosa  e não como uma estúpida teimosia.

Este ano, para um tema genérico que era o azul, que prometia falar de mar, céu e música, com oradores tão cabeça de cartaz como Peter Joseph ou Mark Boyle (falo sobre eles em detalhe nos próximos dias), confesso que a TED ficou aquém das minhas expectativas.

Se calhar sou eu que estou numa fase de maior riqueza interior, não necessitando por isso de me amparar nos braços dos outros para me manter erguida.

Seja como for, um evento com a magnitude, a diversidade e a audácia como uma TED com organização independente (daí o x) é uma oportunidade única para “sair da caixa”, abrir os horizontes, testar a elasticidade do nosso cérebro e a grandeza do nosso coração.

A mensagem principal que retiro do evento sobre o qual falarei nas próximas teorias - à semelhança do que fiz no ano passado com tanta fé e empenho como se transmitir as mensagens que absorvi na TED fosse uma espécie de missão evangelista – é a de que esta coisa do “estar à rasca”, por muito verdadeira que seja, não é uma maldição do destino.

 

Depois de ter elogiado a iniciativa da manifestação como demonstração cívica de descontentamento, tenho agora de comentar que muitos dos que bradam palavras de ordem e se lamentam pelas televisões em directos e diferidos, são pessoas que enfiam a casca de ovo do Calimero assumindo que é mais fácil a lamúria do que a iniciativa.

Passaram pela TEDxOPorto exemplos vivos, reais, em cadeiras de rodas ou em pé, de olhos no chão com a vergonha de falar para tão vasto público, de que quando a vida nos puxa o tapete que julgamos ter sob os pés, há que procurar com maior afinco e empenho outras alternativas.

Nem todos têm sorte, nem todos conseguem identificar oportunidades, nem todos arriscam. Mas também há aqueles que não se sujeitam às regras do jogo quando percebem que os dados estão viciados ou que jogar com regras diferentes é muito mais difícil.

Disse Dirk Niepoort, um homem com porte de agricultor e linguajar típico do norte apesar do nome esquisito, que

“quanto mais uma pessoa se consegue adaptar ao mercado

mais livre é de fazer aquilo que lhe apetece.”

Assim seja, para quem vê no mercado apenas um fado lusitano com enredo melodramático e final muito triste.

 



publicado por teoriasdacosta às 21:39
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