
Descobri que os quartos do hotel são locais tão inspiradores para escrever teorias como os aeroportos. Como ando entre pontes aéreas e noites de insónia em camas estranhas por questões de trabalho, ocorre-me um tema que é uma banalidade: as diferenças entre trabalhar com homens ou com mulheres.
Neste momento faço parte de um grupo de trabalho europeu constituído por homens.
Gostava que pelo menos um fosse maricas, mesmo que eventualmente encarado pelos outros como uma espécie de macho de segunda.
Como creio que já escrevi “um maricas é o melhor amigo de uma mulher”.
Porquê esta afinidade entre mulheres e gays? Gostamos ambos do mesmo, sendo que eles nos conseguem apreciar numa perspectiva de potencial concorrência - apesar de não jogarmos no mesmo campeonato e de ser certo (de forma mais ou menos rigorosa, apesar desta tendência para a bissexualidade e para o swing baralhar as estatísticas) que quem é vegetariano não come vaca nem vitela – com a vantagem de serem capazes de nos admirar ou criticar enquanto ser humano que pode interessar a um macho, sem a inveja nem a malícia com que o faz uma mulher.
Neste grupo de trabalho, quando falo, mesmo que a minha análise faça tanto sentido como os comentários do Marcelo Rebelo de Sousa ou esteja em rigor ao nível de um relatório científico da NASA, recebo sempre um sorriso condescendente ou paternalista do género “pois, pois”, sendo as minhas opiniões apenas consideradas como merecendo algum tempo de antena quando digo algo que realmente lhes agita o ego naquela zona anti-erógena que equivale à sensação de desprazer “mas porquê que não fui eu que me lembrei disto?”
Eles fingem que me consideram mas na prática vêem-me como uma loira mais do que como a responsável por uma área de negócio na empresa. Tenho como certo que só se eu não tivesse penteado mas apenas cabelo, aumentasse o meu peso em dobro e deixasse crescer pêlos no queixo, seria olhada de forma diferente. Talvez com pena, mas certamente como quem até pode falar sobre as coisas com algum conhecimento, já que o preconceito é de que só uma mulher com uma imagem de virgem de Willendorf (aquela estátua pré-histórica que representa a mulher como uma cabeça, um par de mamas até ao umbigo e um descomunal par de ancas) poderá ser efectivamente competente.
Já quando entrei na faculdade – há vinte anos, vejam só! – se dizia que as mulheres ou eram bonitas ou iam para engenharia, insinuando que, sendo este um curso de reconhecida complexidade e elevado nível de testosterona, só uma mulher com problemas hormonais (por defeito, entenda-se) escolheria tal opção universitária.
Na prática, ao contrário da maior parte das pessoas, apesar de reconhecer as vantagens de trabalhar com homens, adoro trabalhar com mulheres. Não em abstracto, mas em concreto com a minha equipa. Ou o que dela fica...
As vantagens em trabalhar com eles são evidentes: como não perdemos tempo a falar de futebol ou sobre aquelas leggings novos que prometem um rabo “à preta”, somos muito mais focados, completamente orientados para um resultado que queremos alcançar tão rápido quanto um homem espera atingir um orgasmo. A maior desvantagem é perceber que mesmo estando em maioria nas faculdades, quando ascendemos a posições equivalentes às deles, continuamos a ser subestimadas pelo simples facto de sermos "gajas".
Quando trabalhamos com elas, se as pessoas são maduras e têm bom senso, a relação funciona por osmose, como é suposto funcionar um casamento.
Para além daquele mito de que começamos todas a ter o período menstrual ao mesmo tempo, temos sensibilidade q.b. para saber quando o momento é sério, de trabalho em corta-mato, em sprint de cem metros ou a ritmo de maratona. Nestas alturas somos capazes de nos concentrar, com um grau de abstracção equivalente ao de um monge budista, dificilmente fazendo um comentário que saía fora do contexto.
Transpondo a análise para o nível das relações entre casal, os casamentos mais duradouros são aqueles em que a mulher respeita os dias em que o homem está mais sorumbático ou irritado, porque não se desliga de um problema que trouxe do trabalho ou não esquece o resultado da sua equipa no último jogo, deixando-o submergir na “caixa do nada” até que ele esteja com alguma paciência para fazer aquilo que é suposto num relacionamento: interagir com o outro. Nas relações maritais, sendo os seres tão diferentes quanto dois planetas, a gestão destes momentos pode redundar num silêncio permanente, uma espécie de hábito, passando o casamento a ser apenas um estado que se mantém por comodidade ou displicência.
Nas relações de trabalho entre mulheres, dado que possuem todas a mesma peculiar forma de gerir os silêncios e idêntica paciência para conversas monótonas ou cinzentas, é inevitável que ao final de algum tempo, um dos elementos do grupo pergunte a outra “essas botas são novas?”, gerando-se imediatamente um coffee break psicológico equivalente a uma ida virtual às compras que, como todos sabem, é uma terapia excelente para equilibrar humores, logo para recuperar o nível de convergência.
A desvantagem de um grupo de mulheres deriva das competições que começam pelo tamanho das calças e pela área volumétrica ocupada na cadeira; passando pela cadência de idas à casa-de-banho, ao exterior para fumar, à manicure ou ao cabeleireiro; pela profissão do cônjuge e mostruário de sinais de amor que este oferece; com remate no sucesso dos filhos na escola e desfecho em forma de “gota de água” no reconhecimento que cada uma consegue obter dentro da empresa, sendo certo que também elas desconfiam quando uma Amazonas sobe na escala, como se um triunfo profissional só fosse crível com um cruzar de pernas à Sharon Stone ou na sequência de uma troca infiel de fluidos ou de favores com quem decide.
Assim é, por muito que seja politicamente incorrecto escrevê-lo.

Ainda a propósito de se ser mais feliz quando se é velho, ou melhor dizendo, quando se envelhece, não poderia deixar de comentar esse mito urbano que é o Hugh Hefner. O homem vai-se casar outra vez, aos oitenta e quatro anos, com uma miúda com idade para ser sua neta (ela é uma fresquinha não muito bem conservada de vinte e quatro).
Podia fazer uma série de piadas fáceis sobre o tema, mas limito-me a escrever o que penso.
A primeira coisa que me ocorre é que o Viagra faz mesmo milagres! Assim sendo, com performance garantida para tantas horas como um horário de expediente, o Sr. Playboy, com a experiência que tem – reza a lenda que terão sido mulheres às resmas! – até é capaz de ser surpreendente. Isto se a noiva se abstrair do pormenor que deve ser toda aquela pele flácida que o cobre dos pés à cabeça... É que, como qualquer pessoa com mais de trinta e tais já deve ter reparado, a força de gravidade é uma coisa muito injusta mas absolutamente verdadeira. Não há liftings, nem plásticas, nem botox que mantenham tudo no lugar indefinidamente...
No caso de Hugh Hefner, para além do Viagra deve andar por aquele corpinho de rabo mirrado alguma cocaína e muitas daquelas anfetaminas em que são viciados os americanos que querem ficar vinte e quatro horas em estado de alerta. Confessa a noiva numa entrevista que enquanto ela, no aniversário, quis ir jogar Bowling, ele preferiu ir a Las Vegas e correr duas discotecas. É preciso andar a químicos para com aquela idade ainda ter espírito para programas destes...
Não podia deixar de fazer um reparo ao sex appeal do velhinho mais charmoso do planeta. O charme do Hugh Hefner não são os cabelos brancos nem o sorriso com pivots de cerâmica. As mulheres, atraídas pelo perigo como são, com uma apetência natural para relações perigosas e uma atracção inexplicável por homens que soem a problema, vêm em personagens como o fundador da Playboy uma espécie de medalha de mérito, uma condecoração com direito a ovação em pé e foto de primeira página.
Raras são as vezes em que o adjectivo “mulherengo” não vem agarrado a um homem que nos derrete. As mulheres gostam da sedução, do típico conquistador que as encosta à parede, mesmo quando as frases são todas feitas e soam a deja vu todas as cenas e deixas. Acima de tudo, as mulheres gostam de ganhar o prémio. Acreditam muitas vezes que podem ser a mulher que retira aquele homem do mercado. Às vezes até são. Durante algum tempo.
Hugh Hefner deve ser dos homens do mundo que mais mulheres teve. A acrescer a isto tem uma situação financeira confortável o que também tem a sua importância na hora de pagar a conta, de escolher o destino de férias ou quando se recebem presentes. Não há nada mais deprimente ou anti-orgámisco do que pagar a conta a meias, ter como perspectiva para o Verão uma semana num apartamento em Albufeira ou receber pelo Natal uns brincos dourados de pechibeque.
Quanto ao facto de Hugh Hefner escolher noivas que ainda há umas semanas tinham acne e usavam aparelho nos dentes, apenas confirma o facto de que homens e mulheres são seres de diferentes planetas. Elas querem amor, eles sexo. Uma mulher da idade deste senhor tem a líbido a menos que zero, uma mulher vinte anos mais nova anda em delírio com o nascimento dos netos, uma com metade da idade estará em histeria com a crise dos quarenta. A vida é injusta. As mulheres ficam maduras mais cedo mas também envelhecem mais depressa. Para um homem da minha idade é perfeitamente natural ter uma namorada que ainda seja universitária. Um reformado de oitenta anos, com ouvi há tempos na televisão, procura como companheira de fim de vida, uma jovem com sessenta.
Como sempre tive maior atracção por homens mais velhos não me afecta em nada esta discriminação etária.
Espero continuar a acreditar que os homens são mesmo como o vinho do Porto...

Os homens podem não saber o que é o amor mas percebem cada vez mais de sexo. Já é possível falar em ponto G sem que ele pense que estamos a referir-nos a uma constelação ou a qualquer problema com a embraiagem. Até já há homens que conseguem perceber onde é que ele está e tiram partido de tamanha sabedoria!
Um famoso médico americano, o equivalente à avó Sue (Johanson) mas apenas com direito a programa de rádio (há dezoito anos) – o Dr. Drew Pinsky – fez há tempos revelações fabulosas no programa da Oprah.
Intimidade ou “sexo é como uma pizza”
A primeira foi que os homens a partir dos quarenta, porque começam a produzir menos testosterona, dão mais valor à intimidade. Querem uma relação mais profunda. Para além de sexo, querem afecto, com sorte até procuram o amor! A ironia é que intimidade para os homens é um conceito indizível. Segundo o Dr. Drew, para um homem sexo é como uma pizza. Pode ter só queijo, fiambre e oregãos e eles acham boa, pode ter chourição, anchovas, azeitonas, ananás e outros pedacinhos, e o que muda é que fica melhor ainda. Portanto, querer intimidade é querer sexo na mesma, bom como deve ser, mas com queijo extra ou com ingredientes adicionais por cima...
Na prática, segundo este expert, quando um homem começa a deixar de querer “facturar” todas as mulheres que acha atraentes – sim, porque para eles a questão sexual baseia-se exclusivamente na atracção física -, o que ele quer é encontrar alguém que o atraía, claro, mas que se interesse pelas mesmas coisas que dão sentido à sua vida. Não é preciso gostar de futebol, de ir à pesca, jogar poker ou engolir de golada um copo de cerveja. Mas é importante que alinhe em programas tipo um jantar improvável numa tasca castiça, ature os amigos dele mesmo quando estão com os copos, têm conversas chatas ou andam deprimidos, não embirre com a sweat velha que ele usa em casa, não o chateie com a tampa da sanita levantada nem com os pêlos na banheira. Segundo o conceito de intimidade deles, quando a relação passa para “outro nível” o homem começa a dar mais importância ao que a parceira sente, não tanto em termos de sentimentos profundos e complicados como o amor, mas pelo menos em ter a certeza de que a excita. Ainda e sempre.
Sexo oral estimula o ego
Outra das revelações extraordinárias é que os homens gostam de sexo oral não porque é bom (mau sexo oral não existe, diz o médico, a não ser que seja com um vampira, digo eu), mas sim porque o pênis é uma espécie de prolongamento do seu ego, logo uma relação íntima com essa parte do corpo faz parte do “ser íntimo”. Um sinal de que a relação se está a tornar séria é quando a este nível “a coisa” se torna recíproca.
A monogamia é mais prática
Mais uma revelação que achei surpreendente foi que, apesar de eles acharem que a monogamia pode ser uma seca, ter um caso extra-conjugal ou andar com duas mulheres ao mesmo tempo dá tanto trabalho que os homens só cedem à tentação se o que têm em casa é uma pedra de gelo, se a relação anda pelas ruas da amargura ou se estão numa daquelas crises de idade em que precisam de dar uma queca com outra mulher para confirmarem que ainda são viris.
Na cama os homens são pilotos de aviões
Outra das perguntas que nos fazemos é “o que pensam eles quando estão com uma mulher na cama?” Responde o Dr. Drew que para um homem o acto sexual é como aterrar um Boeing topo de gama carregado de alminhas. Não pensam em nada. Apenas em sentir a vibração das rodas a tocarem na pista, travar em segurança e ouvir os aplausos da classe média que se senta nas últimas filas.
A única preocupação de um homem é conseguir perceber se a mulher o está a achar suficientemente bom. Não propriamente se ela está a gostar ou se está a sentir prazer, mas se a performance dele faz com que ela vá contar as amigas no dia seguinte que esteve na cama com um garanhão. Sim, porque as mulheres partilham estas inconfidências com as amigas, a não ser que estejam muito apaixonadas, situação em que preferem manter os detalhes íntimos como um tesouro só para si. Eles não falam tanto. Podem comentar conquistas rápidas mas também são reservados em relação à mulher que lhes toca o ponto G do coração, se calhar com receio de atiçar a cobiça.
Mulheres com iniciativa é bom... até ao dia seguinte
Os homens não se sentem intimidados quando uma mulher toma a iniciativa. Até podem gostar no momento porque isso poupa-lhes tempo e conversa. A única questão é que no dia seguinte podem acordar a pensar “mas será que ela faz isto com todos os gajos?” e a partir daí perdem a vontade de andar de mão dada com uma mulher de quem desconfiam.
O maior medo do homem: demonstrar sentimentos porque isso faz dele um marica
Outra revelação apocalíptica: o maior receio de um homem é que uma mulher se aperceba do poder que exerce sobre ele. Para eles as mulheres são seres misteriosos, de sentimentos profundos, de manuseamento complicado e humores tão instáveis como o anti-ciclone dos Açores.
Os homens não gostam de falar sobre emoções nem sentimentos, se calhar porque não perdem muito tempo a pensar nisso, mas acima de tudo porque são educados segundo a regra de que a vulnerabilidade associada à expressão do que sentimos, dos medos, das aspirações, dos traumas, dos desejos mais ocultos, não é coisa de macho, pelo que os únicos homens que falam sobre estas coisas são mesmo os maricas. Os homens têm dificuldade em revelar-se da mesma forma despudorada com que uma mulher desaba em lágrimas em frente às suas amigas porque isso os faz sentirem-se fracos. Segundo o código genético que transportam, os homens têm de ser fortes, andar à caça, lutar pelo território, defender a mulher e a família, pelo que uma lágrima no canto do olho, uma hesitação, uma dúvida é uma falha na sua masculinidade que não se devem permitir.
Na prática, para entender um homem é preciso saber ouvir os silêncios, medir as distâncias, interpretar os sinais que nos dizem que ele quer ficar lá por casa ou está só à espera de uma deixa para sair.

Esta semana, uma das minhas amigas do Facebook publicou um texto que suscitou logo meia dúzia de comentários.
Com o título “os homens não sabem o que é o amor”, o referido texto, de Michel Houellebecq, in 'As Partículas Elementares', começa assim “De forma geral, os homens não sabem o que é amor, é um sentimento que lhes é totalmente estranho. Conhecem o desejo, o desejo sexual em estado bruto e a competição entre machos”.
Apesar de ter tido a sorte de ter encontrado homens que me amaram, daqueles que são românticos, fazem surpresas, dizem as palavras que queremos ouvir, nos abraçam de uma forma que transforma o seu colo no nosso ninho, confesso que concordo em parte com o que este autor diz. Sim, há homens que amam mulheres. Mas muitas são as mulheres que andam com homens que não as amam, não apenas porque a lei da oferta as não favorece, mas porque os homens só são capazes de amar verdadeiramente uma ou duas mulheres durante toda a sua vida. Em relação às outras, os seus sentimentos podem variar entre o “gosto” e o “tolero”. Quando entram na fase do “não suporto” já têm outra presa na mira.
Como já por aqui escrevi, para os homens sexo é mais fundamental do que para as mulheres. Nós passamos a infância a sonhar com príncipes, contos de fada, vestidos de noiva e histórias com final feliz. Eles passam da fase do jogar à bola (ou Playstation) para a fase da explosão de testosterona que os faz comprar revistas com mulheres nuas. Para os rapazes, a relação homem-mulher é uma mera questão física, um acerto hormonal, uma descarga de adrenalina. Para elas, a mesma relação tem de ser magia.
Claro que há os adoslescentes que se apaixonam e que reagem como “romeuzinhos”, mas a maior parte entra na faculdade sem nunca ter tido uma miúda que tiveram a coragem de assumir como namorada, com a preocupação única de não acabarem o ensino secundário virgens.
Há competição entre machos, claro, mas se calhar a competição é muito maior entre fêmeas. Até entre eles e elas, a começar na pré-primária e a atingir o auge quando se ingressa na vida activa.
Continua o texto, a propósito de como os filhos varões herdavam dos pais o mesmo tipo de comportamento, considerando todas as mulheres como objecto de desejo à excepção da mãe dos seus filhos, “Hoje, nada disso existe. As pessoas são assalariadas, locatárias, não têm nada para deixar aos filhos. Não têm nada para lhes ensinar, nem sequer sabem o que eles poderão vir a fazer; as regras que conheceram não serão de todo aplicáveis a eles, porque eles viverão num mundo completamente diferente. Aceitar a ideologia da mudança permanente significa aceitar que a vida de um homem está reduzida estritamente à sua existência individual e que as gerações passadas e futuras não têm, aos seus olhos, nenhuma importância.”
Apesar da visão pessimista, conheço cada vez mais pessoas que questionam até que ponto vale a pena terem um filho se o presente é tão instável e o futuro tão incerto, com o orçamento familiar a ser curto para férias, infantário, actividades extra-curriculares, pacote completo da TV Cabo, uma visita mensal ao cabeleireiro e uma ida anual ao dentista.
Concluí Michel Houellebecq, escritor francês conhecido pelo seu cinismo polémico, “ter um filho, hoje, para um homem, já não faz qualquer sentido. O caso das mulheres é diferente, porque elas continuam a sentir a necessidade de terem um ser que amem – o que não é, nem nunca foi, o caso dos homens. É um disparate acreditar que os homens também têm necessidade de acarinhar e de brincar com os filhos, de lhes fazer festinhas.”
Aqui, admito que tenho alguma dificuldade em concordar. É demasiado cruel pensar os homens como seres tão tiranos, muito embora seja verosímel este tipo de atitude austera nos homens de outros tempos, os tais que tinham uma mulher em casa em quem mal tocavam, mas que recorriam amiúde a mulheres de fama duvidosa para poderem “fazer porcarias” e assim libertar-se do tal desejo animal que os transforma em seres quase primitivos.
Grande parte dos homens que conheço, mesmo quando divorciados, mantém uma forte ligação emocional aos filhos. Sofrem com a distância, muitas vezes até aguentam relações que já só são logística familiar porque não suportam a ideia de não lhes dar um beijo de “boa noite” todos os dias. Infelizmente conheço também muitos casos em que os casais se separam e o homem segue uma nova vida, volta a ser solteiro, livre e descomprometido, ignora os filhos ou passa a tratá-los como amiguinhos com quem faz programas de umas horas, mas que depois “despeja” na casa da mãe para pode ir ter com as amigas.
Os homens não sabem o que é o amor? Talvez. Se calhar não precisam. Se calhar por não saberem têm uma capacidade superior às mulheres para serem felizes. Ou pelo menos, conformados, que é aquela atitude inócua que permite a qualquer ser humano moderado nas ambições e nos desejos sobreviver sem sobressaltos ao correr dos dias. Não estão à espera de mais nada do que acordar, ir para o trabalho, contar umas anedotas aos colegas, olhar para o rabo da secretária do departamento, tomar uma cerveja antes de ir para casa, chegarem ao fim-de-semana para poderem passar dois dias sem desfazer a barba, contentes se o clube ganha, desalentados se continua a perder pontos e a afastar-se do líder.
As mulheres precisam dos olhares, dos mimos, das palavras, de um pouco de sonho, de cenário, de vida cor-de-rosa para se abstraírem do branco e negro em que tão facilmente se transforma a rotina que asfixia a vida. Por isso andam sempre à procura de amor, nos homens ou nos filhos, tantas vezes humilhando-se, sujeitando-se, fingindo-se de burras...
Homens e mulheres, seres tão diferentes que quase diria incompatíveis...

Há uns anitos, um americano de nome John Gray publicou um livro que ficou na história “Os homens são de Marte, as mulheres são de Vénus”. A metáfora que representa o título sugere que homens e mulheres são tão diferentes que nem sequer se podem considerar seres do mesmo planeta.
Apesar de ter quase vinte anos, a teoria de Gray ainda merece ser lida. Retomo-a para um tema que me foi sugerido por um adolescente que me lê e que criou um canal no Youtube que é uma delícia (ver link abaixo).
Um dos corolários de Gray é a diferença na forma como homens e mulheres valorizam, ou melhor, contabilizam, as formas de demonstração de amor. Os homens atribuem grande importância aos actos de amor que consideram como grandiosos, tipo oferecer flores, não se esquecer da data de aniversário de namoro, comprar o anel de noivado como manda a praxe e pedi-la formalmente em casamento. Elas contabilizam cada milionésima de cada acto que possa ser interpretado como um indicador, ainda que microscópico, de amor, tipo quando ele coloca a sua mão sobre a dela numa esplanada, quando ele a apresenta como namorada e não como uma amiga, quando ele a beija inesperadamente só porque gostou do seu sorriso. Quer isto dizer que enquanto para um homem é suficiente que ele pratique um grande acto de amor uma única vez na vida (sexo é que convém que seja todos os dias para garantir que se mantém viril), para uma mulher é necessário, fundamental, imprescindível que os pequenos actos de amor se repitam sucessivamente, todos os dias (mesmo que o sexo aconteça só quando ela não tem dores de cabeça).
Outra das teses de Gray tem a ver com a forma como os homens reagem aos problemas. Eles, como já por aqui escrevi, adoram refugiar-se na “caixa do nada”, na expectativa de que, entre uma sessão de zaping, duas goladas de cerveja e uma sesta com direito a ronco e baba a escorrer pelo queixo, a solução para o seu problema se revele de forma milagrosa. Elas, como nós sabemos, gostam de discutir os problemas. Mesmo que falar sobre eles, analisá-los, auscultar a opinião das amigas, da manicure, da cabeleireira, da caixa do supermercado, da senhora da farmácia ou da médica de família, não ajude em nada a resolvê-lo. É desta necessidade de silêncio dos homens versus esta incontinência verbal das mulheres que surgem as maiores discussões entre um casal. Elas não se calam, eles não reagem, elas enervam-se com a sua apatia, eles explodem após tanta ladainha, elas encolhem-se e choram, eles gritam e batem com a porta.
Mais recentemente, Gray desenvolveu uma nova teoria com o título “Venus on fire, Mars on ice” (Venus a arder, Marte a congelar, segundo a minha própria tradução) de acordo com a qual, a pressão a que as mulheres estão actualmente sujeitas – ser magras, atraentes, sexy, boas na cama, mães de família, esposas com dotes culinários, profissionais implacáveis, ter sentido de humor, fazer pilates e andar em saltos altos – coloca-as em risco de combustão iminente. Melhor dizendo, uma mulher moderna é hoje uma atmosfera explosiva.
Os nossos homens, tal como os seus pais, chegam a casa e querem sofá. Alguns ainda vão às compras, metem o jantar no micro-ondas e lavam pratos, mas no fundo, o seu maior desejo é o momento em que se afundam na almofada com o o comando na mão. Uma mulher que vem esgotada de um intenso dia de trabalho, tem de pensar no jantar do dia seguinte, na roupa que vai usar, nos adereços e sapatos, nos argumentos para a reunião, no desmaquilhante, no sérum anti-rugas e no anti-celulítico, detona imediatamente assim que o marido põe a aquecer a powerbox.
Por sua vez, os homens modernos, que se vêm obrigados a desempenhar tarefas que não estão na sua natureza – como não esquecer de colocar sementes de sésamo no molho para temperar a salada, mudar fraldas ou percorrer o corredor do supermercado à procura de pensos higiénicos para fluxo normal com alas – tornaram-se mais frios. Já não chegam a casa com aquele ímpeto sexual que os fazia passar a noite a apalpar o rabo da mulher até conseguirem por a dormir as crianças. Também eles amuam e fazem greve de sexo. E isso não faz de um homem macho um maricas!
Para Gray, à semelhança de muitos cientistas americanos, a resolução de todos os problemas da vida resolve-se com terapia hormonal. Diz ele que assim que a hormona do amor é produzida – a oxitacina – a do stress é reduzida – cortisol – logo um abraço, um beijo, um pequeno gesto de carinho podem fazer maravilhas para combater os incêndios em Vénus e reanimar os corpos enregelados dos habitantes de Marte. A boa notícia para ambos, é que se os níveis de oxictocina delas se elevam, os de testosterona deles respondem.
Os homens e as mulheres são diferentes. Sim é verdade! Ainda bem, acrescento eu.

Um dos meus leitores assíduos, o “João rapaz”, do blogue “asimplesvidadejoãorapaz”, escreveu a propósito da teoria “Dar uma queca vs fazer amor”, “já fui homem de costeletas agora sou mais de pescada cozida”. Achei a frase uma delícia! Não porque, por acaso, aprecie ambos os pratos, mas porque este comentário é uma chalaça à sua vida íntima.
Dado que o tema em debate era a sexualidade, no caso concreto os orgasmos fotografados da pouco fotogénica Clara Pinto Correia, presumo que o João rapaz estivesse a falar dos tempos em que vivia naquele êxtase masculino carregado de testosterona em que todas as mulheres são carne para abate, logo convertidas em costeletas, por oposição à sua vida actual, mais pacata, casado com uma filha, em que a cama não é um matadouro mas sim um pacífico aquário. O prato do dia já não é carne vermelha mas sim uma saudável dieta.
O que me fez o clique nesta frase foi que tudo na nossa vida se pode resumir a este tipo de dicotomias. Sim ou não. Branco ou preto. Verdade ou consequência.
Detesto zonas cinzentas, os mais ou menos, os assim-assim, mas também me custa imenso que tantas decisões tão importantes na nossa vida tenham de ser vistas nesta perspectiva do oito ou oitenta.
Ou somos adultos saudáveis com tendência para excesso de peso, ou passamos para as carnes brancas e verduras, caminhamondo para um aspecto infeliz e doente. Se comemos de tudo os mais novos olham para nós como se fossemos selvagens. Se comemos com consciência os mais velhos olham para nós com desconfiança.
Quando temos dinheiro comemos caviar, que por acaso não é nada de especial. Se esgotamos o plafond do cartão de crédito vivemos a latas de atum e bebemos Coca-Cola de contrafacção em vez de champanhe verdadeiro.
Porquê que tudo tem de ser tão de extremos?
Porquê que tantas decisões, tantas questões, tantas dúvidas, tantas encruzilhadas se têm de atravessar no nosso caminho? Porquê que não podemos ter o melhor de dois mundos? Umas sandálias Manolo Blahnik para ir às festas, umas havaianas com desenhos para dar um salto à praia sem ter de atravessar uma estrada de cimento. Um todo-o-terreno para voar pelas dunas, um utilitário com cores garridas para furar os engarrafamentos. Uma casa espaçosa com ar condicionado e aquecimento central, uma cabana de uma só divisão junto ao mar com uma rede king size e room service discreto.
Na vida deveria ser possível montar kits, construir o destino de forma modular sem ter de optar entre a postura do “executivo de fato e gravata” ou do “tipo das calças de ganga que podia ter ido longe mas se ficou pela classe média”; entre a figura da “cabra que subiu na vida na horizontal” e a “dona-de-casa e esposa dedicada que aumenta em centímetros cúbicos por cada ano de casamento”.
É que com tanto estereótipo, formatação, escolha múltipla, preconceito, ficamos reféns do figurino que escolhemos vestir, da personagem que queremos viver e, à medida que o tempo passa, torna-se cada vez mais difícil sair do quadrado. Quase sempre, seguir às regras óbvias, o status quo, é a solução mais fácil. É mais seguro. É como ser actor de um filme que já se sabe como acaba.
Não saímos da zona de conforto, agimos by the book, a vida passa, a sucessão de dias transforma a nossa existência numa rotina inócua, higiénica, sem grandes motivos para euforia, escapando sem perder a pose a todos os picos inexplicáveis de tristeza. Agarramo-nos a uma vidinha e quando morrermos vamos todos para o céu.
Será que não é mais divertido ir para o Inferno?
Eu quero uma vida com calor, cor, sal, sabor e cheiro! Costeletas, tapas, tinto e tainadas… e pescada cozida para as ressacas!
Teorias dos outros
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