
Entrei a semana passada no último ano antes dos quarenta.
A idade não me assusta. Choca-me é saber que para todos os efeitos faço parte do heterogéneo universo dos cotas, classificação que me parece tão escandalosa quanto é ofensivo dizer que a minha Mãe é uma velhota só porque já passou a barreira dos setenta.
Para além do eterno cliché “a idade está na nossa cabeça”, o que me parece é que cada um tem a idade que aparenta.
Sei que tenho quantificação etária incerta pois tanto posso dar ares de miúda nova, quando me meto a correr pela beira-rio de boné ou passeio pela baixa de jeans, como fico com ar de executiva poderosa com os meus vestidos pretos, colares de pérolas, baton e rimmel.
Não me sinto acabada, derrubada pela vida, puxada para baixo pela dita força de gravidade que, tenho de confessar, já me anda a fazer estragos no rabo.
Ainda gosto de celebrar cada aniversário. Adoro dizer que tenho trinta e nove (agora com legitimidade) ou que me falta um ano para os quarenta, e perceber o ar de perplexidade de quem me observa com lupa, luvas e fita métrica.
É inevitável que a passagem de mais um ano seja momento para acerto de contas. Pelo menos para mim é, que encontro mais sentido neste balanço a cada aniversário do que naquela comemoração oficial com passas, badaladas e champanhe.
A minha história tem sido plena em mudanças. Costumava comentar com uma amiga que as náuseas e vertigens que a vida por vezes me trazia se deviam ao facto de eu a encarar como uma espécie de montanha-russa, tão viciada na adrenalina do medo e da coragem, da superação própria e da emoção pura, que me parecia estranho caminhar por estradas planas, com horizontes largos, pistas rápidas para viagens longas e destino certo.
Como andei por muitos sítios conheci muitas pessoas.
Algumas ficaram arquivadas no memorial dos “amigos”, mesmo quando passam anos sem um contacto. Os telefonemas e mensagens que recebo no aniversário fazem-me acreditar que, por mais alheados que estejamos da vida uns dos outros, mantém-se a cumplicidade que numa parte dos nossos caminhos nos fez seguir passos idênticos.
Assim acontece num filme que marcou a vida de muita gente: “os amigos de Alex”.
No filme, o pretexto para o encontro é o suicídio do amigo Alex.
Na história que é a minha gosto de imaginar este encontro como os jantares e cafézinhos que acontecem às vezes entre um grupo e outro. Para o ano, ao comemorar os quarenta, quero acreditar que conseguirei reunir os amigos de todas as etapas, num fim-de-semana com festa cigana que nos permita rir, chorar, recordar figuras tristes, esclarecer mal-entendidos, dizer os elogios que ficaram calados, enterrar de vez as mágoas que permaneceram latentes. À despedida tenho a certeza que vamos todos confirmar num abraço que afinal é mesmo verdade aquela história da amizade como um amor que nunca morre.
A banda sonora d'”os amigos de Alex” incluí como tema principal “You can’t always get what you want”.
Aos quarenta já aprendemos que “não conseguimos ter sempre aquilo que queremos”, mas se a passagem dos anos nos brindar com alguma maturidade teremos uma certeza apaziguadora: “mesmo quando não conseguimos o que queremos, alcançamos pelo menos o que precisamos”.
O truque está em reconhecer que com essas coisas (que não são necessariamente coisas, muito menos as que estavam na wish list) somos capazes de ser felizes.
Brindemos!

Sempre fui uma pessoa de extremos: amo ou odeio.
Julgava não ter meios termos nem mais ou menos, semi-frios, agri-doces, mesclados, matizados ou bejes. Descobri recentemente que afinal, entre o oito e o oitenta existe uma possibilidade.
Quem me conduziu a essa descoberta foi José Sócrates.
Com o Primeiro-Ministro que já era, descobri que é possível odiar uma pessoa e mesmo assim admirá-la. E a admiração, como descrita no dicionário Priberam, é um“sentimento agradável que se apodera do ânimo ao ver coisa extarordinária, bela ou inesperada”.
Em relação a Sócrates consigo experimentar um misto destes sentimentos, não da mesmo forma como me delicio com uma redução de chef que mistura compota de frutos silvestres com mostarda, mas como me surpreendo com uma daquelas instalações que de repente surgem numa exposição no CCB ou no jardim de Serralves, que a partir de um monte de lixo edificam um conceito que dizem que é uma ponte ou uma retrete, deixando-me num estado de catatónica perplexidade.
Quem estudou gestão encontrou certamente entre os compêndios sobre estratégia, referências a um manuscrito escrito por Sun Tzu no século IV a.c. que contém uma série de instruções milimétricamente estudadas sobre a arte de vencer uma guerra com recurso à inteligência militar. Uma das recomendações estratégicas de Sun Tzu é “(...) um comandante militar deve atacar onde o inimigo está desprevenido e deve utilizar caminhos que, para o inimigo, são inesperados...”
É precisamente o que escreve Ricardo Costa numa reportagem brilhante que saiu na revista do Expresso no início de Abril quando refere que uma das mais notáveis características de Sócrates é a forma como conduzia as entrevistas e debates, manipulando os temas de forma a evitar as questões polémicas e a destacar os seus feitos relevantes. Foi mais ou menos assim que Sócrates escapou às notícias que poderiam ascender ao estatuto de escândalo do Face Oculta, do Freeport e da licenciatura dúbia baseada numa boa nota em Inglês técnico numa universidade particular.
Quando se começou a vislumbrar o falhanço do P.E.C. III, a pouco provável aprovação do P.E.C. IV e o inevitável recurso à ajuda internacional, Sócrates seguiu nova recomendação do japonês milenário: “O verdadeiro método, quando se tem homens sob as nossas ordens, consiste em utilizar o avaro e o tolo, o sábio e o corajoso, e em dar a cada um a responsabilidade adequada”.
Assim saíram para a ribalta os porta-vozes do Governo, com expoente máximo no desgraçado do Teixeira dos Santos, tentando explicar aos portugueses que apesar de estarmos em queda ainda havia uma hipótese de o pára-quedas sobresselente funcionar .
Sócrates rodeou-se de um bando de avaros, tolos, sábios e corajosos, ou talvez, de ingénuos e cobardes, cujo denominador comum era a sua incapacidade em dizer “não” ao que o “chefe” ordenava.
Quando a queda do líder se começou a desenhar como altamente provável surgiram as figuras afastadas, nem sempre em circunstâncias claras, das quais destaco Ferro Rodrigues que ontem aplaudia o discurso de despedida com uma estranha expressão que me pareceu esconder um sorriso de vingança.
Fiquei a saber no dito texto de Ricardo Costa, que Sócrates era assessorado por uma das maiores empresas de relações públicas do mundo, a Kreab, Gavin & Anderson. Este homem é pois um produto de marketing.
Como sabem também todos os que estudaram neste área, qualquer produto tem uma fase de introdução, ascensão, maturidade e queda, um ciclo de vida que raras vezes é inevitável.
Sócrates vestiu-se como bem premium. Uma espécie de produto de griffe vendido ao povo como contrafacção de plástico.
Um produto com uma resistência notável. Fez upgrades (substituição da agressividade que lhe era criticada por uma atitude de vítima da oposição), restylings (começou a aparecer de sorriso quando no passado era muito mais frequente vê-lo de “cara fechada”), oferta de extras (só lhe faltou envergar uma capa de super-herói quando no seu discurso completamente alienado defendia ainda que podia salvar Portugal).
Durante todo este tempo, Sócrates seguiu um guião. Ainda ontem me impressionou - no seu discurso em que não percebi se a gotícula ao canto do olho era suor, uma lágrima artificial que queria verter ou uma lágrima verdadeira que queria conter – que estivesse a ler no tele-ponto um texto que certamente foi previamennte ensaiado. Mesmo quando expressou os seus agradecimentos à família, aquele José, que antes de ser o personagem Primeiro-Ministro, é um homem e um pai, teve de procurar a frase políticamente correcta, lida no tom limite entre o sentimento puro e a manipulação sentimental.
O seu discurso de derrota soou quase sempre a declaração de “não-vitória”.
A sua saída foi a de um anti-herói: o líder que se afasta com honra para permitir aos seus sucessores brilharem.
Acho que Sócrates disse que queria ser feliz.
Pergunto-me se depois de tantos anos com maquiagem, à procura do melhor ângulo para as câmaras, com cartões de tópicos meticulosamente organizados, Sócrates sabe viver neste ambiente natural que é a realidade.

Ontem, no mais profundo Alentejo, num alpendre com uma desafogada vista sobre uma planície que se prolongava para lá de Espanha, tive o privilégio de privar com dois homens extraordinários: um, com oitenta anos, empresário de sucesso detentor de um fenomenal império; outro, um peruano de idade impercustrável entre os cinquenta e os sessenta e muitos, com aquela aura mágica de quem nasceu no "umbigo do mundo".
Confesso que fui contrariada. Apesar da honra do convite, desagradava-me o facto de ter de abdicar de metade do meu fim-de-semana, de fazer vários quilómetros repartidos entre duas viagens de mais de duas horas, para discutir vendas e estratégias comerciais, quando sabemos todos o cenário é de crise, logo pouco auspicioso a projectos de crescimento.
Primeira lição do dia: assim que saí do carro e me deparei com a equipa que estava preparada para me receber, com a figura patronal do Comendador dirigindo-se com um sorriso doce e sincero para me dar as boas-vindas, senti-me envergonhada por pensar que estava a perder tempo. Quando muito, estaria a perder tempo aquele senhor que entre vários convites e afazeres poderia muito bem estar do outro lado do mundo a visitar um dos seus investimentos ou a almoçar com o Presidente da República e com outras individualidades discutindo assuntos pertinentes para o destino próximo de Portugal.
Quando conhecemos alguém que é efectivamente importante mas nos desarma com a sua humildade, temos noção da pequena importância que têm os nossos caprichos, esses sim grandes, fúteis e carregados de vaidade.
Segunda lição: quando se falou na caótica conjuntura em que nos encontramos e que todos auguram se agravará assim que sejam implementadas as medidas do FMI, contestou o empresário que falar em crise era um insulto para pessoas que, como ele, nasceram no tempo em que Portugal era um país de gente pobre e ignorante, sujeito a racionamentos e a imposições discricionárias, num regime político muito distante desta condescendente e irresponsável democracia em que vivemos actualmente.
“Não se vive hoje em Portugal pior do que na década de trinta” afirmou o Comendador proferindo depois uma das frases que retive na memória:
Os homens são maiores do que os seus problemas
... e serão derrotados todos aqueles que não pensarem desta forma.”
Verdade. A única vez em que caí no abismo foi precisamente quando me rendi ante os problemas que me esgamavam.
Terceira lição:
“A minha existência é a minha maior riqueza”
Esta foi uma das frases que proferiu o Professor peruano no seu descontraído discurso, surpreendido quando transcrevi a citação para um canto do meu moleskine. Contava ele a sua saga de adolescente de país pobre quando se aventurou a ir estudar para os Estados Unidos. A única coisa que possuía na altura era a sua identidade.
O peruano elogiou as características do seu povo, como nós com a pesada herança de um glorioso passado, mas ao contrário dos portugueses ainda orgulhoso por habitar num país onde tudo é místico e transcendente.
Quis o destino que esse Professor fosse um dos autores do acordo de comércio entre o Perú e os Estados Unidos, que aos poucos está a reabilitar uma economia primitiva, que durante anos foi refreada pelos desígnios de uma oligarquia onde foram frequentes os atropelos à vida humana.
A moeda do país chama-se “Novo Sol” (nuevo sol), designação apenas possível num país cuja população, depois de anos de opressão e tortura, ostenta no sorriso um optimismo radiante.
A conclusão seguinte foi um daqueles linguajares do Marketing que nos diz que cada pessoa é um produto. A nuance não estava porém na receita que sugere que devemos acreditar em nós próprios, nas nossas capacidades e nas valias que somos capazes de evidenciar perante os outros. Disse o Professor, e esta foi a última lição do dia, que mesmo quando estamos bem, devemos sempre acreditar que podemos avançar mais um patamar.
Isto porque vivemos num mundo dinâmico em que quem pára fica necessariamente para trás.
A nossa mais-valia acaba assim por ser estarmos vivos. Existirmos. Podermos fazer alguma coisa enquanto por cá andamos.
As oportunidades não estão para quem deixa a vida passar mas sim para aqueles que passam pela vida deixando a sua marca, traçando uma rota com a inteligência e a flexiblidade suficientes para perceber que não é a direito que se escala uma montanha, mas sim desvendando trilhos que tantas vezes nos fazem andar às voltas, ou até descer ao sopé para novamente iniciar a cruzada que um dia nos levará ao destino mais próximo da eternidade.
E assim se passou uma tarde a falar sobre grandes negócios...

Voltando à TEDxPorto, e porque ainda há muito a dizer, vou referir-me agora aos dois momentos emocionais do dia. Faz parte, presumo eu, que no painel de um evento destes, para além de conhecimento e sabedoria, inovação e criatividade, se falem também de coisas tão simples como exemplos notáveis de vida.
As intervenções que fizeram a plateia ceder às lágrimas foram duas: a de Johnson Semedo, que falou todo o tempo de mãos nos bolsos e olhos no chão, intimidado por tão vasta plateia e a de Bento Amaral, que falou todo o tempo com as mãos numa imobilidade forçada já que é tretaplégico.
Johnson, que fugiu de casa aos dez anos, cansado, como revelou, de levar porrada todos os dias, relatou a sua experiência enquanto puto de rua, como uma espécie de versão dos “Capitães de Areia” em cenário de cimento e betão. Johnson referiu que pela década de oitenta alguns miúdos que com ele andavam pelas ruas como pequenos delinquentes, todos viciados em cola e com uma fome de afecto terrível, começaram a aparecer mais bem vestidos. Percebeu que esses eram os que alinhavam na rota do Parque Eduardo VII, tal como os putos da Casa Pia. Enojado com tal opção, Johnson continuou a assegurar o seu sustento com assaltos e outros delitos.
Aos dezassete esteve preso seis meses. Etapa que, como ele descreveu, lhe permitiu “profissionalizar-se”. Entrou então no crime mais organizado e experimentou a heroína.
Com as cambalhotas e piruetas pouco artísticas decorrentes de uma vida passada nas ruas agarrado às drogas, Johnson lá voltou a ser preso. Desta vez por mais tempo. Desta vez longe do mundo, impossibilitado de assistir ao funeral do pai.
A morte do pai foi um clique que levou Johnson a reflectir. Confessou que chegou a sentir saudades das tareias que levava em casa porque pelo menos, entre tabefes e bofetadas, haviam alguns momentos de carinho. Reencontrou-se com a fé. Regressou a casa para acompanhar a morte lenta da mãe, ainda agarrado à heroína.
Enterrados os pais, decidiu Johnson enterrar o marginal em que se transformara e no qual já não se revia.
Hoje reside na Cova da Moura, é membro activo da associação Moinho da Juventude, que pretende resgatar miúdos em risco, treinando orgulhoso a equipa de futebol Real Clube da Buraca.
O outro orador, Bento Amaral, viu-se remetido para uma cadeira de rodas aos vinte e cinco anos, num daqueles acidentes estúpidos, como são todos, em que apenas se divertia nas ondas a fazer carreirinhas.
Engenheiro Alimentar de formação, com o projecto de ser enólogo na Austrália, o acidente colocou este jovem com bom aspecto perante um abismo sem fim.
Como a vida é muitas vezes irónica, existe uma justiça divina que só percebemos em momentos de epifania e porque, como acreditavam os gregos, o nosso destino se cumpre, Bento Amaral lá acabou por conhecer a Austrália. Em condições que jamais imaginaria: num campeonato do mundo de vela adaptada em que se sagrou campeão. Também neste caso, entre cambalhotas e piruetas literalmente metafóricas, já que o seu corpo é efectivamente desprovido de movimento, Bento Amaral fez uma série de coisas inacreditáveis como bater o recorde do mundo de velocidade em neve e classificar-se para os Jogos Olímpicos.
A maior de todas as conquistas, contudo, foi ter-se casado com uma mulher lindíssima, que teve de enfrentar família e preconceito para assumir para todo o sempre um marido que nem sequer é capaz de se voltar na cama sem a sua ajuda.
Explicou Bento Amaral que na primeira noite, não aquela em que dormiu com a mulher – o seu sentido de humor era incrível – mas naquela em que tomou consciência de que o seu corpo não se mexia, lhe passaram pelos olhos imagens como a que coloquei a ilustrar esta teoria. Peguntou-se ele, movido por uma fé que o eleva e me sensibiliza: “Estarei eu acima deste sofrimento? Quem sou eu para achar que mereço sofrer menos do que estas pessoas?”
Bento Amaral aceitou o que o destino lhe entregou no segundo em que bateu com a cabeça num banco de areia. São priveligiadas as pessoas que conseguem aceitar com tamanha paz e grandeza fatalidades tão absurdas e desprovidas de sentido.
Concluíu ele que o nosso futuro nunca é o que pensavamos, que estamos constantemente a colocar a nossa felicidade nas coisas que não temos. Afirmou este homem com uma convicção que não soou a mentira, que se pudesse voltar à tarde do acidente provavelmente não escolheria apagar aqueles segundos que mudaram o resto da sua vida. Porquê? Porque o que a vida lhe trouxe depois foi provavelmente mais intenso e rico do que teria tido se os seus planos se tivessem concretizado tal como ele previa. As suas palavras foram “amo a minha vida”, declaração que poucos serão capazes de fazer com certeza tão absoluta.
Ao ouvir os relatos do Johnson e do Bento Amaral é impossível não ficar esmagada pela profundidade das suas palavras e pela forma inspiradora como eles souberam aceitar a felicidade possível, assumindo com uma grandeza de alma que me transcende os fardos, provas e maldades que o destino lhes colocou no caminho. Como fardo, karma ou desafio...
* Por acaso, este fim-de-semana aconteceu-me uma coisa inédita: queria ir ver o filme “Homens de negócios” mas o seu sotaque nortenho deve ter soado tão estranho que o rapaz da bilheteira vendeu-me entradas para “Os agentes do destino”. Só percebi a troca quando comecei a achar que o trailler estava a ser demasiado comprido por isso conformei-me, com um sorriso de loira, a ficar até ao fim da película. O filme é levezinho, tem o Matt Damon que já foi um rapaz giro e uma história original cujo argumento é a existência de planos definidos para cada ser humano, sugerindo que pouco do que acontece na nossa vida é casual ou resulta do nosso livre-arbítrio. É a eterna questão do “tudo o que nos acontece tem um sentido”.

Hoje, feriado de Carnaval, também é o Dia Internacional da Mulher. Recebi até uma flor por causa disso!
Como não me identifico com o estilo que queima soutiens e entende que é sinal de emancipação ter pêlos nas axilas, não me choca nem me ofende que exista um Dia Internacional que me celebra enquanto género. Esta data não me submete nem me inferioriza. É tão natural como o Dia da Árvore ou da Osteoperose ou da Àgua ou das Víndimas.
Há um ressabiado discurso feminista que se revolta contra o paradigma patriarcal e sexista implícito na celebração da mulher numa data comemorativa. Normalmente estas reaccionárias evocam os tempos da Inquisição em que eram perseguidas as mulheres por se decretar que as insubmissas com opinião eram bruxas ou estavam possuídas. Nos discursos mais inflamados recua-se ao machismo implícito no Gênesis que faz surgir Eva a partir de uma costela de Adão em vez de cinzelada em mármore por um Deus com talento de DaVinci ou nascida de um nenúfar qual fada ou ser místico.
Não ignoro nem subestimo que existiram na história mulheres notáveis, cuja perseverança, coragem e audácia, permitiram que o sexo tido como fraco se emancipasse e conquistasse direitos exclusivos dos homens, tendo algumas granjeado essas vitórias com a perda da própria vida.
Não suporto é a demagogia a tender para o lamechas que defende que as mulheres são seres para lá do extraordinário porque conseguem ser mães, companheiras, ter carreiras profissionais, ir às compras no intervalo de almoço, cozinhar numa hora seis refeições para três dias, ser brilhantes em reuniões de direcção, frequentar o ginásio pelo menos duas vezes por semana e estarem sempre com bom aspecto, mesmo depois de dez horas em saltos altos com uma saia justa.
Para mim ser capaz de fazer tudo isto é normal. É suposto quando se tem objectivos amplos de vida.
Para mim, para as mulheres da minha geração, para a minha Mãe e para as suas amigas, ter nascido mulher não é incompatível com ter uma carreira, uma identidade para além do papel social de mulher e de mãe. Não é depreciativo passar uma tarde na cozinha de avental a fazer bolos nem sinónimo de futilidade fugir por umas horas até ao SPA para fazer uma massagem e ter como rotina semanal arranjar o cabelo e as unhas.
Não estou alheada do que se passa para lá do meu mundo urbano ocidental onde há ainda mulheres que caminham cabisbaixas atrás do homem que as violenta física e psíquicamente, sobrevivendo na condição de servas sem sequer terem o direito de olhar nos olhos quem as maltrata e agride. Também não ignoro que algures na minha rua é provável que exista uma mulher que leva porrada do marido, outra que já foi violada e outra que tenha de se defender todos os dias do assédio do seu chefe no local de trabalho.
Eu, que andei em escolas públicas mistas, frequentei a catequese e entrei para a faculdade, sem que em momento algum me tenha surgido qualquer dúvida de que meninos e meninas eram iguais, excluíndo-se a parte fisionómica do pênis e da vagina, constactei mal entrei no mercado de trabalho que no processo de selecção uma pergunta quase certa nas entrevistas era saber se eu era casada, e se tinha ou queria ter filhos (questão tão improvável para colocar a um candidato homem como perguntar-lhe se ele é gay e se tem hobbies fetichistas). Concluí rapidamente que os homens ganham mais para iguais funções e que uma mulher que queira subir na carreira tem de ter apetência para desportos radicais porque a ascensão faz-se sempre numa escarpa íngreme com acentuado declive. Verifico ainda, que quando os filhos ficam doentes ou caem na escola e abrem a cabeça, é suposto que seja a mãe a largar tudo para prestar assistência, porque é assim que está convencionado ou dá mais jeito ou está inscrito na nossa carga genética.
Sem querer ser machista, muito menos feminista, cínica ou hirónica, a inteligência humana está em sermos capazes de ultrapassar a lógica invisível da definição de papéis, medição de forças ou ponderação de traços de carácter. Homens e mulheres são efectivamente diferentes para além dos orgãos genitais, mas essas diferenças não determinam que elas sejam menos capazes do que eles – mais fracas em termos físicos talvez, e mais sensíveis sim, sem qualquer sombra de dúvida – ou que não agradeçam quando eles, num sinal de boa educação que caí sempre com imenso charme, lhes dão passagem ou cedem a vez numa fila.
Proclamar que há igualdade de direitos entre homens e mulheres – porque há mulheres a conduzir autocarros ou homens a seguirem a vocação de educadores de infância - é pura demagogia. Mas insistir em enfatizar nas mulheres apenas o seu sofrimento de vítimas é ser parcial e desvalorizar a grandeza das mulheres que nos inspiram.
A celebração de um dia que é Internacional e é da Mulher, é apenas mais uma data de calendário não é uma piada ofensiva.
The sky is the limit!
Esta frase, que em inglês soa a grito épico, típico num daqueles filmes que contam a história de vida de uma pessoa comum, que de repente se transforma em estrela de cinema, cantor famoso ou capa da Playboy, é um daqueles ditos bacocos que na prática quer dizer muito pouco.
Será?
Em tempos que provaram que o american way of life é mesmo um mito, depois do colapso financeiro na terra onde todos encontravam sem grande dificuldade um ideal de vida – no caos de Nova Iorque, nas praias da Califórnia, no country pacóvio do Texas, num hospital carregado de médicos giros – é cada vez mais difícil acreditar que não existe um limite para aquilo que queremos. Mesmo assim, os americanos continuam predominantemente optimistas.
Nós por cá, por osmose, por genética, pela inércia melancólica que trazemos nos ouvidos e na alma sob a forma de fado, deixamo-nos ficar por onde estamos, sem grandes expectativas nem ambições, acomodados, conformados, chorosos ou se calhar nem isso.
Fixamos sempre o limite a um nível baixo, atingível, assim próximo da estatura média do português emblemático, de bigode e perna curta.
Mas se assim é, se realmente damos como certo que mais de metade das coisas são inacessíveis, impossíveis, quimeras, lirismos, se assumimos que a probabilidade de chegarmos mais longe do que o sítio onde estamos é um disparate, então que sentido faz estarmos por cá parados, quietos, à espera, no pressuposto de que nada vai acontecer, de que os nossos pés se vão manter firmes, colados à estrada, enquanto o mundo a que pertencemos se move, rola e transforma?
A curiosidade faz parte da natureza humana. Somos assim desde pequeninos.
Mas depois entramos na escola e percebemos que há meninos que são diferentes, que não temos todos as mesmas capacidades, a mesma destreza, os mesmos bens materiais e o mesmo património emocional. Avançamos na idade com compaixão ou indiferença pelos que têm menos, com ambição ou inveja em relação aos que têm mais, em competição ou cumplicidade com os que percebemos iguais ou parecidos.
A idade, o passar dos anos, o bater de portas, os sonhos arquivados ou deitados fora, fazem-nos perder resistência e força anímica. Há fases em que somos capazes de correr atrás de um momento inspirador, de uma epifania, do Eureka! como se querer muito, com toda a nossa vontade, fosse o suficiente e o bastante para dar o tal salto até ao limite que imaginamos muito distante, num ponto quase invisível.
Há outras fases, que se prolongam e generalizam à medida que avançamos no tempo, em que o que queremos é ter dinheiro para pagar as contas, manter um emprego que não nos realiza, para ao final do dia chegar a uma casa que em certo momento começou a mingar e que já nos asfixia, mas onde, para consolo, temos um sofá que funciona como um ninho secreto, criando a ilusão simplória de que basta estar sentado em frente ao plasma, num conforto aparente, para que o resto se relativize e seja possível conviver pacificamente com esta coisa monocromática em que tão facilmente se pode converter a nossa vida.
Se calhar mudar o mundo é muito radical, mas pelo menos não podemos perder a capacidade de nos mudarmos, de nos reinventarmos, de renascer, recomeçar, reconstruir, voltar, correr, seguir estrada fora inspirados por uma frase popular que é nossa e bem antiga “para a frente é que é o caminho!” (mesmo que o céu não seja o limite...)
Teorias dos outros
cantinhodacasa.blogs.sapo.pt