Teses, teorias, teoremas, simples comentários... sobre a forma como vejo esta bola redonda e pálida que é o mundo.

Quarta-feira, 30 de Março de 2011
Cronobiologia da melancolia

 

Um dos oradores presentes na TED foi João Marques Teixeira, psiquiatra e psicoterapeuta, que se apresentou como um neurocientista que investiga a cronobiologia da melancolia.

Só o título da intervenção suscita um “uau!” Mas o que este Professor Doutor foi explicar, numa linguagem que a partir do terceiro slide se transformou num dialecto feito de gráficos com linhas ondulantes, é que o culpado pelos nossos estados de alma é o planeta!

Como a terra gira sobre si própria e gravita em torno do Sol, estamos sujeitos, ao longo do dia e durante o ano, a oscilações entre claridade e obscuridade que determinam a forma como nos sentimos.

Como o mais comum dos mortais é capaz de confirmar, no Inverno, quando acordamos de noite, a claridade se esfuma antes da pausa para o lanche e há muitos dias em que nem sequer vemos o Sol, sentimo-nos naturalmente mais melancólicos.

Melancólicos, não necessariamente deprimidos.

Mario Quintana, um autor que eu adoro, dizia que a “melancolia é uma forma romântica de ficar triste”.

Freud descrevia a melancolia como “a ausência que dói”, um inexplicável sentimento de vazio e tristeza, que eu ilustro com recurso à imagem daquela pessoa que caminha pelos dias com um displicente arrastar de pés.

Os dias cinzentos transportam-nos para uma zona cinzenta, nem branca nem negra, uma espécie de aguinha com açucar que se bebe quando as pernas nos traem o corpo.

O Sol como imagem de alegria não é apenas uma metáfora alegórica.

Qualquer criança quando faz um desenho incluí num qualquer canto da folha uma bola amarela se pretende retratar uma circunstância feliz.

Grande parte dos adultos escolhe como imagem de perfil no FaceBook uma fotografia que tirou no pico Verão quando estava mais bronzeado, mais sorridente, com ar mais saudável, ou pelo menos com o rosto iluminado por um delicioso Sol, mesmo que de Inverno, para disfarçar o ar pálido e olheirento que o Inverno nos implanta na cara como injecção de botox.

Hoje quando saí do escritório e constactei que ainda era dia senti-me automaticamente energizada por esta luz que já cheira a Primavera. Pelo caminho vi pessoas a passear cães, a caminhar pela margem do rio, a correr, a andar de bicicleta, a brincar com crianças nos recantos com relva e quase me pareceu estar a assistir a um video com a música do Louis Armstrong, “what a wonderfull world”.

Este efeito que o Sol induz no nosso grau de melancolia tem a ver com o nosso relógio biológico. Não aquele que deixa algumas trintonas doidas quando se sentem em contagem decrescente para a possibilidade de serem mães, mas o relógio que controla a nossa temperatura corporal, o batimento cardíaco, o apetite e, mais importante do que qualquer outra coisa, os afectos.

O relógio biológico não é um mito urbano mas sim um mecanismo regulador do nosso organismo localizado no hipotálamo, que determina o ciclo metabólico.

Segundo a cronobiologia, que “estuda os ritmos e os fenómenos físicos e bioquímicos periódicos que ocorrem nos seres vivos (in Wikipedia)”, os movimentos de rotação e translação desta terra que nos alberga têm impacto directo sobre a forma como nos sentimos.

Concordo que de facto somos uma espécie com tendência a funcionar a “energia solar”, mas também defendo que muitas vezes o Sol é um mero estado de alma – pode ser um sorriso num dia de chuva -, sendo que muitas pessoas permanecem num letárgico estado melancólico simplesmente porque andam com uma nuvem negra permanentemente sobre a cabeça.

 



publicado por teoriasdacosta às 19:47
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Domingo, 27 de Fevereiro de 2011
O cisne negro... ou o lado negro de todos nós

 

Este fim-de-semana fui ver o filme sobre o qual já tinha ouvido o comentário: ou se ama ou se odeia.

Confesso que amei.

O filme é perturbador, muitas vezes violento, chocante, sanguinário, bárbaro.

Em linguagem de crítica cinematográfica classifica-se como thriller. Neste caso um thriller psicológico intenso cuja interpretação fica muito para lá do enredo que sustenta a história: uma bailarina obcecada pela perfeição na expectativa de conseguir um papel principal.

Nina, brilhantemente interpretada por Natalie Portman, é uma personagem tímida e insegura, que tem como sonho destacar-se do corpo de bailado e ascender ao estatuto de prima-ballerina.

Intuímos que Nina sofre de alguns distúrbios que, dada a sua actividade profissional, quase consideramos naturais, como a anorexia e a bulímia. Percebemos mais tarde uma estranha compulsão para a automutilação. Torna-se também claro que tais condutas ocorrem ante a cumplicidade e atenção opressiva da mãe, uma ex-bailarina frustrada, que aparentemente teve de abdicar de uma carreira devido à gravidez, projectando na filha a sua própria obsessão.

Nina tem sonhos. É normal.

Mas a partir de certo ponto do filme, os sonhos de Nina transformam-se em delírios, em visões, numa sucessão de cenas alucinantes em que dificilmente distinguimos a vida real que está a ser retratada do mundo demoníaco para o qual, com cada vez maior frequência, a personagem principal é transportada.

Tinha ouvido dizer do filme que se tratava de uma viagem ao mundo negro e cruel da fama. Depois de o ver, concluo que é muito mais do que isso, é uma viagem ao lado negro e cruel que temos em nós. Sim, porque acredito que em situações extremas, facilmente podemos perder esta noção de realidade com que somos confundidos com a dinâmica que ganha a história projectada no ecrã.

O maior indício de que Nina sofre de um distúrbio é, como já referi, a automutilação. Ao googlar um pouco sobre o tema descubro que este comportamento está associado a uma transtorno de personalidade limítrofe (TPL), ou borderline, que define a Wikipedia como “um grave transtorno de personalidade caracterizado por desregulação emocional, raciocínio extremista e relações caóticas”. As pessoas que sofrem deste transtorno debatem-se com problemas de identidade, sensações de irrealidade e despersonalização. É precisamente isto que sucede com Nina, que pelo perfil dócil e virginal seria a bailarina ideal para desempenhar o cisne branco, mas que o director da companhia decide que vai ter o privilégio de desempenhar o papel de “Rainha dos Cisnes”, tendo por isso de ser ambivalente o suficente para desempenhar ambos os papéis, encarnando em simultâneo o bem e o mal.

Nina trabalha arduamente para estar à altura do papel. Mas o “cisne negro”, sedutor e pérfido, não surge espontaneamente nos seus gestos apesar da sua irrepreensível técnica e determinação.

A pressão é tanta que Nina começa a experimentar uma transformação metafísica. A partir daí a linha entre o real e o delírio torna-se tão ténue, que se adivinha que Nina está no limite da sua sanidade mental.

O tema é tão fascinante que ao pesquisar ainda mais sobre este inquientante universo dos distúrbios de personalidade, descubro uma alusão ao projecto MONARCH, alegadamente desenvolvido pela CIA com o intuito de provocar a dissociação mental, uma espécie de fragmentação de personalidade num indívíduo com o objectivo de desumanilizá-lo, e consequentemente torná-lo capaz de actos brutais sem traço de culpa ou remorso.

No fundo, a exigência que é feita a Nina, a de representar em simultâneo a inocência e a perversidade, desenvolvendo um alter-ego agressivo e sexual, não é mais do que uma manipulação de personalidade, que dada a fragilidade do seu carácter se revela letal.

Numa tirada que me ficou como metafórica, o director da companhia grita irado, impaciente com a incapacidade de Nina para dançar com a lascívia adequada o personagem negro do bailado “a perfeição não está no controle!”. Este aviso serve a tantas pessoas que conheço que acreditam que as rotinas, os comportamentos comedidos, as vozes controladas e a vida num quadrado são garantias de equilíbrio e estabilidade emocional.

As alucinações vão aumentando à medida que Nina consegue avançar etapas na sua interpretação. Há vários exemplos de que as mentes tortuosas são as mais criativas e Nina vai efectivamente melhorando às custas de um afastamento que é uma vertigem do padrão que poderia ser considerado normal.

A data da estreia aproxima-se e torna-se evidente, até para a sua mãe, que existe em Nina uma outra entidade completamente autónoma e independente, que age para além do seu controle.

Na sua actuação Nina é brilhante e leva a plateia ao rubro. As interpretações intensas de qualquer artista são sempre as que mais impressionam as audiências, as que as conseguem tocar no seu ponto mais primário e visceral.

Nina consegue atingir a combinação alquímica perfeita de dualidade, de uma forma que, como descobrimos no desfecho surpreendente da história, é absolutamente trágica e brutal.

 



publicado por teoriasdacosta às 17:20
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Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011
14 de Fevereiro... dia da disfunção eréctil

Aposto que, romântica e lamechas como ando, todos me imaginavam a escrever mais um texto sentimentalóide sobre o amor e a felicidade.

Sucede porém que abomino o amor com data certa e hora marcada.

Acontece também que para a maior parte dos homens o Dia 14 de Fevereiro só é o Dia dos Namorados porque têm uma companheira que os chateia nos dias anteriores com a exigência de um jantar romântico – pelo menos com uma mesa que tenha velas – e porque, entre publicidade, decorações de shopping e spots de rádio, é impossível esquecer o S. Valentim.

Com o conhecimento que vou tendo sobre a espécie, não me parece que os homens ajam com dolo ou má fé quando se esquecem de datas com significado. A maior parte não consegue sequer verbalizar o que comeu ao almoço, quanto mais guardar na memória em que dia ocorreu o primeiro beijo, que roupa trazia ela vestida, onde se encontravam e como tudo aconteceu.

Assim sendo, creio que será mais fácil que um homem se recorde que no dia 14 de Fevereiro se celebra uma data relacionada com um prolongamento da sua identidade: o dia da disfunção eréctil.

Esta expressão, que deve arrepiar muita gente, significa “incapacidade de manter uma erecção do pênis para uma satisfatória relação sexual “(in Wikipedia)”. Creio que muitos homens pensam que isto só lhes vai acontecer quando forem tão velhinhos que já só precisam do pênis para escoar urina, eventualmente usando fraldas. Outros temem que isto lhes possa acontecer num dia extraordinário, assim quando apanharem um miúda de vinte anos pela frente carregada de energia e de electricidade estática, ou num momento de maior nervosismo, stress e cansaço, eventualmente numa noite de copos com muitas misturas, entre cerveja, vinho e bebidas brancas.

De acordo com o que vou lendo por aí, este pesadelo que a ciência chamava anteriormente de “impotência” mas que entretanto amenizou com o termo mais ligeiro “disfunção”, não é apenas um acontecimento excepcional ou coisa de velhos a cair para o lado.

Os homens enquanto são jovens, aí a partir dos treze – quinze anos, conseguem facilmente manter-se num “estado pinóquio” e, segundo a famosa Sue Johanson, são capazes de fazer sexo dez vezes por dia sem qualquer problema (o problema maior será arranjar com quem, digo eu).

Razões psicológicas, numa primeira fase, e fisiológicas, à medida que a idade avança, podem trazer algumas dificuldades aos nossos Tarzans. Mas o problema maior não é a falta de erecção, uma vez sem exemplo ou consecutivamente, por fases, por ciclos ou por parceiras sexuais.

Um homem que tem um momento mau começa a questionar a virilidade do seu pênis (não a sua, entenda-se). Quanto mais desconfia que aquele companheiro de uma vida o pode trair, mais ansioso fica e, consequentemente, maiores as probabilidades de voltar a falhar. O fenómeno torna-se numa espécie de profecia “if you don´t use it, you lose it” como tantas vezes ouvi Sue Johanson repetir.

Diz-se que o Viagra e outros medicamentos sucedâneos são um sucesso de vendas. Muitos utilizados como profilaxia, outros como antídoto (para precaver um azar) outros como marketing (para impressionar a mulher que se convidou para jantar).

Diz a avó Sue, e eu como romântica que sou tenho de subscrever, que a performance sexual é proporcional ao nível de intimidade que um homem tem com uma mulher. Assim sendo, para o dia 14 de Fevereiro, e para os restantes dias em cada mês, não façam sexo façam amor!

 



publicado por teoriasdacosta às 21:39
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Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011
A abstenção vai a votos

 

 

Ontem tropecei pela primeira vez no espaço dedicado à campanha eleitoral.

Qual não foi o meu espanto quando vejo uma figura que mais parecia saída do reportório do Herman José a abrir a campanha do José Manuel Coelho.

É uma vergonha que este senhor tenha tempo de antena.

É uma vergonha que este senhor seja candidato ao mais alto cargo da Nação.

Podia encarar o infeliz espetáculo que se seguiu com a leveza a que se assiste a um sketch medíocre de stand up comedy, mas o Sr. José Manuel Coelho não está ao nível de um Kramer no Seinfeld (uma personagem com ideias igualmente estranhas e alienadas). Este senhor, para grande embaraço nacional, é um palhaço!

Suspeito que lá pela Madeira deve haver alguma coisa no clima, na água ou em certos tipos de alimentos, que deixam os senhores de uma certa idade com aquele ar tresloucado, com propensão para comportamentos embaraçosos, piadas muito particulares, quase sempre de mau gosto, tudo isto com alguma tendência para se babarem e revirarem os olhos.

O José Manuel Coelho não pode de forma alguma ser levado a sério.

O seu slogan é “Coelho ao poleiro”. Faz campanha conduzindo um carro funerário. Já surgiu na Assembleia Regional da Madeira, onde é deputado, com um relógio de parede ao pescoço. Noutras circunstâncias hasteou no mesmo parlamento uma bandeira nazi, facto que deveria ser suficiente para o considerar inimputável para uma candidatura à presidência.

J.M.C. é o verdadeiro one man show. A comprová-lo o share de audiência que teve a sua entrevista com Judite de Sousa, coitada, que deve ter tido de tomar um Xanax e fazer uma sessão de ioga depois daquele arranque em que o candidato lhe exigiu explicações sobre as razões pelas quais tinha sido excluído do painel inicial de debates.

Ouvi hoje o Miguel Sousa Tavares dizer que só se vêm populares em redor dos candidatos nos sítios de onde as pessoas não podem escapar, isto é, das feiras e centros de saúde, e eu acrescento, de lares de terceira idade, que isto nunca se viu tanto candidato a falar para pessoas com algália.

Não me surpreende esta apatia e é quase certo que quem vai ganhar as eleições é a abstenção.

Cavaco Silva tem pouca paciência para política, respondendo com despeito e indiferença ao bate-boca dos adversários. Os outros devem andar a tentar decidir quem é o "primeiro dos últimos", Alegre com seu estilo melancólico inconfundível, Nobre com um estilo que não deixa marca, Lopes com uma dificuldade imensa em descolar-se do anonimato, Coelho como o bombo da festa, um exemplo inacreditável do estado caótico em que caiu o nosso país, onde um tolo sem tino pode qualificar-se como candidato.

 



publicado por teoriasdacosta às 21:49
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Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010
Orgasmos efemeros ou efemérides?

 

De regresso ao fantástico mundo das multinacionais, eis que na semana passada, dei por mim a chegar ao escritório todos os dias antes das oito e meia da manhã - e a não ser a primeira - e a sair nunca antes das oito e meia da noite - não sendo a última a fechar as luzes.

Não têm sido por isso raras as vezes em que penso como gere esta malta a sua vida matrimonial.

Vivo sózinha, vejo o namorado em datas marcadas, por vezes quase sincronizadas no Outlook e gravadas na agenda do telemóvel. Mas a maior parte das pessoas que por ali andam têm todas aliança no dedo, exibem orgulhosas no screen saver as fotos das suas criancinhas, supostamente deveriam estar em casa a horas de jantar em família e não de dar um beijo rápido de boa noite aos miúdos quando estes já estão a meio caminho do sono enroscados sob o endredon das suas camas.

Este fim-de-semana, o grupo de trabalho destacado para um projecto foi todo convocado para trabalhar on-line. Eu lá consegui passar o sábado almoçando tranquilamente na esplanada soalheira de um restaurante alentejano, dormir uma sesta, jantar num mexicano e abanar o esqueleto numa discoteca com música dos anos oitenta. É claro que também fiz limpezas e fui ao supermercado, que isto a vida de uma loira não é própriamente igual à vida de uma Barbie. No domingo dormi até à hora do almoço e depois lá me afundei até à uma da manhã no tal projecto.

Quanto aos meus colegas casados e com filhos, não consigo imaginar como passaram o seu tempo. Sei por experiência de treinador de bancada que com miúdos a única esplanada em que é possível almoçar é a do McDonalds. Pressuponho também que jantaradas com amigos e noites nos copos sejam programas impossíveis para quem passa tanto tempo fora de casa durante a semana.

A questão que me coloco também é que vida sexual tem esta gente?

Casados, a morarem a pelo menos  uma hora de distância do trabalho, a sairem de casa de madrugada e a chegarem quando a mulher já tem a cozinha arrumada (grande parte dos colegas que fazem os mesmos horários que eu são homens...), dificilmente chegarão ao final do dia com o mais ténue sentido romântico ou réstia de energia sexual. Aos fins-de-semana devem acordar com os miúdos a esgueirar-se para a sua cama e adormecer no sofá depois do jantar enquanto as crianças ainda estão suficientemente despertas para jogar Playstation.

Chego assim à questão das efemérides.

Diz a Wikipedia que “coisas efémeras são aquelas transitórias, passageiras ou que duram pouco tempo”. Por sua vez, “Uma efeméride é um fato relevante escrito para ser lembrado ou comemorado em um certo dia”.

Não tenho dúvidas de que um orgasmo é efemero. Contudo, pelo que vou sabendo ou me arrisco a especular, há muito boa gente para quem os orgasmos são efemérides, uma espécie de dia de festa.

Dias de festa para aqueles que andam sem parceiro certo e só de vez em quando têm a sorte de fazer aquilo que os americanos descrevem como “get laid”; uma espécie de feriado santo para os que são casados e estabelecem os domingos, a primeira sexta-feira de cada mês, o dia de aniversário do conjuge ou outra qualquer data simbólica ou com significado para “fazer aquilo”; uma espécie de pequeno milagre para os milhares de mulheres que engrossam as estatísticas onde se juntam em amena cavaqueira “as que não se conseguem vir”, seja porque não conseguem mesmo seja apenas porque um orgasmo dá muito trabalho e não lhes apetece fazer o esforço ou o sacrifício.

Segundo o Psichology Today apenas 25% das mulheres – um quarto da população feminina! – atinge de forma consistente um orgasmo durante a relação sexual. Isto significa que há mesmo mulheres que não chegam lá, por mais que dure o acto, por mais ergonómico ou potente que seja o pênis, por mais que a mulher ame o parceiro ou se sinta feliz com a relação.

Fico-me assim pela dissertação filosófica que me leva a olhar de soslaio para os meus colegas, que chegam antes de mim e que se vão embora quando já eu estou em casa a comer a minha sopa. Penso nas suas esposas, que deverão encaixar-se nos 75% que não têm pachorra, vontade ou saúde física, mental, espiritual, emocional ou o que quer que seja para ver as estrelinhas do fogo-de-artifício. Tenho pena que a sua vida seja tão plana porque enquanto por cá andamos devíamos ser todos capazes de ter em cada dia um momento de festa. Ainda que efémero...

 



publicado por teoriasdacosta às 20:53
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Sexta-feira, 13 de Agosto de 2010
Contra-teoria do capital erótico

 

A propósito do capital erótico, da controvérsia que suscitou o nome, porque há sempre quem associe erotismo a uma forma soft de pornografia, e das observações que me fizeram enunciando várias personalidades que se destacaram sem terem grandes vantagens nesta área, ocorreu-me o exemplo de Angela Merkel, a chanceler alemã.

Admiro imenso esta mulher possante e determinada, que não sei se sabem é licenciada e doutorada em Física (coisa que parece muito difícil a quem nem sequer percebe a relação entre água a ferver com o mecanismo da aceleração de partículas) e que foi Ministra da Mulher e da Juventude no governo de Helmut Kohl.

Outra curiosidade acerca de Angela Merkel é que o seu apelido foi herdado do primeiro marido. O que a acompanha agora, na sombra, é o segundo marido. Angela, que eventualmente já era conhecida como Merkel, foi prática e pragmática num tema que para muitos machos latinos daria por certo motivo para uma cena de pancadaria.

Angela Merkel foi ascendendo no seu partido porque se manteve sempre à margem dos escândalos de corrupção que afectaram a CDU na Alemanha. Subiu arduamente por mérito próprio, imaginando eu que entre aquelas mesquinhas jogadas de bastidores e lutas avaras pelo poder tenho sofrido grandes traições e sido inúmeras vezes preterida.

Angela foi a votos num contexto em que até os colegas do partido duvidavam da sua imagem de dona-de-casa roliça. Dizia-se que era enfadonha e provinciana. Temia-se que os pares a não respeitassem. Contudo, ao ser eleita Angela demonstrou que não é só com capital erótico que se tem sucesso na vida. Muitos dirão que lhe falta carisma, mas os seus eleitores viram nesta mulher de espírito prático e linguagem acessível a líder capaz de lhes resolver os problemas. Provavelmente não conseguiria granjear tanto respeito se tivesse um aspecto semelhante ao da Paris Hilton. O povo confia mais numa mulher sóbria do que numa sex symbol.

Angela tem uma série de factores que a penalizam, para além do género: é protestante da Alemanha do leste e a Alemanha sempre foi governada por homens católicos da Alemanha Ocidental; é divorciada, coisa que nem sempre fica bem como estado civil; e não tem filhos, apêndice que a sociedade tende a valorizar como sinal exterior que qualifica uma fêmea.

Uma vez no poder, num governo que é de coligação, Angela demonstrou como a sensibilidade e o bom senso, que só as mulheres sabem combinar nas doses certas, permitem assegurar estabilidade interna sem dramas nem tiranias, conduzindo eficazmente um gigante económico sem grandes sobressaltos nos mares agitados que dominam o mapa de recessão mundial. Foi firme quando teve de o ser, mas quase sempre sobressaiu pelas suas capacidades conciliadoras e pela habilidade negocial.

A Wikipedia define erotismo como um “conjunto de expressões culturais e artísticas humanas referentes ao sexo”. Duvido que existam muitos homens que pensem em Angela Merkel como uma “boa cama”. De qualquer forma, esta mulher não se serviu do seu aspecto físico para escalar no mundo da política. Provavelmente se o capital erótico de Angela fosse mais significativo ficava-se pelos corredores do parlamento porque ninguém reconhece a uma mulher muito bonita capacidade para mandar em alguém (a não ser em brincadeiras fetichistas…).

 



publicado por teoriasdacosta às 21:32
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